domingo, 13 de dezembro de 2015

As Leituras do Ano: Conversas Imaginárias 2015



Lista de livros, filmes e videojogos escolhidos pelos participantes do painel Leituras do Ano no Conversas Literárias 2015.

João Barreiros:
Bats of the Republic, Zachary Dodson
Crashing Heaven, Al Robertson
Luna, Ian McDonald
The Watchers, Neil Spring
The Traitor, Seth Dickinson
Arcadia, Iain Pears
The Man From Primrose Lane, James Renner
Slade House, David Mitchell
The Explorer's Guild, John Baird
Les Mers Perdues, Schuiten e Abeille
Dévoreur, Stefan Platteau
La Casa, Daniel Torres
Le Sentiment du Fer, Jean-Philippe Jaworski
Mausolée, Antoine Tracqui

Cristina Alves:
Stories of Your Life and Others, Ted Chiang
The Bees, Laline Paull
Deathbird Stories, Harlan Ellison
À Mesa com Kafka, Mark Crick
Trigger Warning, Neil Gaiman
Pump Six and Other Stories, Paolo Bacigalupi
Stranger in Olondria, Sofia Samatar
City of Blades, Robert Jackson Bennett
The Flicker Men, Ted Kosmatka
Big book of SF, Ann e Jeff Vandermeer

João Campos:
Ancillary Mercy, de Ann Leckie (Orbit)
Luna, de Ian McDonald (Gollancz)
John Brunner Omnibus (The Sheep Look Up, The Shockwave Rider, The Traveller in Black), de John Brunner (Gateway)
The Jagged Orbit, de John Brunner
The Player of Games, de Iain M. Banks (Orbit)
The Vor Game, de Lois McMaster Bujold (Baen)
Filmes:
Mad Max: Fury Road, George Miller
Ex-Machina, Alex Garland
The Martian, Ridley Scott
Jupiter Ascending, Andy e Lana Wachowski
Jurassic World, Colin Trevorrow
Chappie, Neil Blomkamp
Videojogos:
The Wolf Among Us (Telltale Games)

Artur Coelho:
Cinema:
Silvestre, João César Monteiro
Livros:
A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, Enéias Tavares
Leviathan Wakes, James SA Corey
Almanaque Steampunk, Corte do Norte
Aurora, Kim Stanley Robinson
Os Marcianos Somos Nós, Nuno Galopim
Os Últimos Contos de Cantuária, Jean Ray
Finches of Mars, Brian Aldiss
Cunning Plans, Warren Ellis
Seveneves, Neal Stephenson
Comics/BD
Deixa-me Entrar, Joana Afonso
Surviver's Club, Lauren Beukes
Injection, Warren Ellis
O Poema Morre, David Soares

É provável que nos próximos dias a Cristina Alves e o João Campos explorem mais detalhadamente as suas escolhas nos seus blogs. As minhas seguem num post a ser publicado em breve.

Insta


Estruturas lógicas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison


Enéias Tavares (2014). A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison. Rio de Janeiro: Casa da Palavra.

Uma deliciosa surpresa de Steampunk tropicalista. Enéias Tavares transmuta Porto Alegre para uma viragem de século com automótatos a vapor e dirigíveis. Fá-lo sabendo manter o foco narrativa não nos adereços estéticos steampunk mas num intrigante enredo onde serial killers, alienistas enlouquecidos, donas de bordéis de luxo, aristocratas decadentes, policias e jornalistas colidem de forma sangrenta.

O temível doutor que dá o nome ao livro aparenta ser um sádico assassino em série, responsável pela morte atroz e requintada dos elementos mais influentes da sociedade porto-alegrense. Médico respeitável, detalha a exploração das entranhas das suas vítimas em desenhos anatómicos que assombram os anatomistas. Mas Louison não é um assassino frio. Busca, na verdade, vingança, assassinando metodicamente os elementos impunes de uma sociedade secreta que se delicia nos excessos, da glutonia às piores sevícias sexuais infligidas sobre os mais fracos. São essas as suas vítimas, na dualidade entre a justiça da lei e a da vingança. Já o alienista que o aprisiona enquanto aguarda a execução é um doutor de pesadelo, psicopata xenófobo que usa o seu poder como director do asilo de lunáticos para experiências macabras. Louison irá escapar-se ao cadafalso, ajudado na sua fuga pelos elementos de uma outra sociedade secreta que usa para o bem os poderes da ciência e da mística.

A juntar a uma divertida aventura steampunk com um brilhante enredo entre o policial e o fantástico, está uma profunda vénia à literatura de época. O registo é epistolar, construindo a narrativa a partir de fragmentos de diários, registos sonoros e depoimentos, fazendo recordar a estrutura de Dracula de Bram Stoker. As vénias literárias não se ficam por aqui. Alguns dos personagens são originais, mas algumas das mais influentes são referências a obras clássicas da literatura brasileira que o escritor enumera ao concluir o livro.

Equilibrado entre uma boa história e um convincente ambiente Steampunk, este fantástico tropicalista é uma excelente surpresa de leitura imparável.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cair da Noite


Isaac Asimov (1992). Cair da Noite. Lisboa: Vega.

Fui à ComicCon e... consegui sair de lá sem livros. Mas tranquilizem-se. Fiz gosto ao vício dos livros ao passear nos jardins do Palácio de Cristal e descobrir, incauto, que havia por lá uma feira do livro no Pavilhão Rosa Mota. Feira digna de nota por encontrar por lá obras esquecidas, como as edições portuguesas de Peter F. Hamilton e outras da Argonauta Gigante, ou edições de FC da editorial Vega. O orçamento abalado pela estadia no Porto não permitiu grandes aventuras, mas veio de lá este Cair da Noite. Quando vi o nome dos tradutores, não resisti.

O Mestiço: Um cientista em busca do segredo da energia nuclear dá abrigo a um mestiço, criatura mista terrestre/marciana que é malvista nos dois planetas. Este ajuda-o a resolver a tecnologia e leva o cientista a criar uma cidade que dá abrigo a estes seres altamente inteligentes mas discriminados pelos humanos e marcianos. Conto juvenil, facilmente datável por uma das premissas se centrar na descoberta pacífica do poder do átomo, e uma clara e óbvia alegoria sobre o racismo. Traduzido por Eduardo Saló.

Cair da Noite: O conto clássico, um dos melhores de Asimov e da ficção científica, sobre a colisão entre ciência e misticismo. Num planeta iluminado por seis sóis há um ciclo de destruição e reconstrução civilizacional quando um eclipse total que ocorre a cada dois mil e quinhentos anos mergulha o mundo numa escuridão breve mas enlouquece os seus habitantes. Um conto poderoso, que com o passar do tempo não perde a sua força. Traduzido por Victor Palla.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

E Porque Não?


 E porque é que não imprimes isto em 3D, ouvi e pensei ao longo da minha passagem pela Comic Con Portugal. Seria fácil. Para quê adquirir modelos de mechas, stormtroopers, naves espaciais, robots e todos os outros fabulosos adereços que, como fã incondicional de ficção científica, me apaixonam? Seria fácil. Certamente que uma pesquisa rápida pelo Thingiverse ou outros repositórios me daria inúmeros modelos para imprimir. Talvez, até, um daqueles modelos que é um santo graal para a minha biblioteca, o de um X-Wing. Note-se que o Yoda é dos modelos mais impressos em 3D que se encontra por aí. Então, porque não o fazer?

Não é pelo aspecto propriedade intelectual, ou por preferir o aspecto limpo do design e manufactura industrial. Tem a ver com o gosto de criar. Imprimir objectos modelados por outros, por fantástico que isso pareça, não me cativa. O que me fascina é todo o processo: o imaginar, criar ou recriar meticulosamente no software de modelação 3D, e finalmente o segurar nas mãos o produto final impresso em 3D. É aí que reside o meu gosto nesta tecnologia, e é por aí que seguem os caminhos de aprendizagem com os meus alunos. Se alguma vez imprimir um X-Wing ou um Módulo Eagle, será um que eu tenha recriado de raiz com o que sei e continuo a aprender sobre modelação 3D, não um modelo pré-feito que descarreguei de um repositório. É também esse o olhar que leio nos meus alunos, quando seguram pela primeira vez na sua mão, impressos, os objectos que modelaram em 3D. Esta tecnologia é uma fantástica ferramenta de criação, e é aí que reside o maior prazer que retiramos do seu uso. Conceber, criar/recriar, modelar, imprimir. É, creio, uma sequência indissociável.

aCalopsia: Sobreviver à Comic Con


Fui à Comic Con Portugal e achei fabuloso! O ambiente, o evento, os cosplayers... ou fui à Comic Con e achei que era uma feira de brinquedos, t-shirts e promoção de filmes. Em que é que ficamos? Talvez nas duas. O dualismo da cultura enquanto meio de expressão e oportunidade de negócio é tramado. Também posso ter ficado algo ressabiado de ter de enfrentar o trânsito na cidade do Porto. Crónica da minha sobrevivência à segunda edição da Comic Con Portugal no aCalopsia: Sobreviver à Comic Con.

Thunderbolt Jaxon


Dave Gibbons, John Higgins (2007). Thunderbolt Jaxon. La Jolla: Wildstorm.

Há alguns anos atrás Alan Moore arregimentou a sua filha Leah e John Reppion num curioso livro revivalista que recuperou num álbum alguns dos mais icónicos ou obscuros personagens dos comics clássicos britânicos. Personagens de  uma era em que os comics se destinavam apenas a crianças, sendo por isso simplistas ao extremo e desenhados a metro. O desaparecimento das publicações para rapazes que os albergavam, a influência massificadora do comic de super-heróis americano e a evolução da sensibilidade dos leitores, acompanhada pela exigência pela complexidade literária e gráfica, foram ditando o fim de personages demasiado de época, cujas histórias são hoje suportáveis apenas pelos que procuram conhecer o passado do género. Porque eram de facto más, de simplicidade patética e mal desenhadas. A cultura pop de género, como sabemos, envelhece mal. Albion juntava ícones e funcionava como um daqueles livros nostalgistas que dá novas roupagens a personagens esquecidos, despertando alguma curiosidade que se desvanece mal se pega nos originais. É um livro que se recomenda, por insuflar vida em criações esquecidas, em trazer de volta o pérfido The Spider, o obediente Robot Archie, o louco Battler Britton, o invisível The Claw ou o inexplicável Mytek the Mighty, entre outros personagens saídos dos conhecimentos enciclopédicos do clã Moore. Livro interessante, que revê o clássico com alguma contemporaneidade sem recorrer à tentação do grimdark, foge do facilitismo de republicar as velhas pranchas para um público idoso e àvido de recordar a era dourada da sua juventude, e que nos mostra que há mais nos comics britânicos para além da dominância de Judge Dredd e da 2000 AD.

Desconhecia que a Wildstorm tinha tentado pegar em Albion para explorar alguns destes personagens. Sei que Battler Britton foi revisto de forma muito interessante por Garth Ennis em série própria e de vez em quando a 2000 AD lembra-se de The Spider ou The Claw. Este, que descobri no Porto por acaso numa daquelas feiras do livro usado onde esperamos encontrar de tudo menos comics, recupera um outro personagem obscuro. Em Albion estava relegado para terceiro ou quarto plano, mas Brian Bolland parece ter-se enamorado dele e deu-lhe um livro próprio. Thunderbolt Jaxon é o prototípico herói de BD para encher rodapés de página, baseado numa criança que descobre um artefacto poderoso, no caso um cinto, que ao recitar palavras mágicas se transforma. Neste caso, transforma-se numa versão juvenil de um musculado deus nórdico vestido com um anacrónico saiote. É um personagem típico, que apela aos sentimentos de identidade das crianças mas pouca memória deixa. Boa parte dos heróis clássicos da BD segue este padrão narrativo, que não existe por acaso, é pensado para cativar o público infanto-juvenil com figuras que pretendem que a criança sonhe que ela própria se tornaria na personagem das páginas do livro ou da prancha de BD.

Bolland mete um pé no grimdark e outro na inocência clássica neste seu revivalismo. Revê o personagem no contexto de uma luta eterna entre os esquecidos deuses nórdicos, hoje ocultos sob o disfarçe de criminosos para poder continuar as suas guerras sem sentido, e mete-lhe três bruxas, ou versão nórdica das parcas, que urdem uma conspiração destinada libertar os antigos deuses do seu destino através de relíquias que vão parar às mãos de três crianças, uma das quais se tornará Jaxon, a encarnação de um aspecto do deus Thor. Todo o enredo de deuses antigos e velhas lutas segue o lado grimdark, enquanto que a ideia de crianças a pegar em artefactos mágicos que as transformam em seres poderosos recupera quase textualmente a estrutura original do personagem. O notável do livro é a forma como se diverte com o simplismo deste tipo de criações.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Conversas Imaginárias 2015


O encontro Conversas Imaginárias 2015 irá decorrer na livraria Fyodor Books no próximo dia 12 de dezembro. Este realiza-se como encontro dos fãs do Fantástico nas suas diferentes vertentes, num ano em que a realização da décima edição do Fórum Fantástico ficou em suspenso pelo atraso em obras que decorrem nas instalações da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. A organização é de Rogério Ribeiro e João Campos, com cartaz da autoria de Rui Ramos.



As TIC em 3D estavam escaladas para dinamizar um workshop de introdução à impressão 3D durante o Fórum. Não acontecerá neste Conversas Imaginárias, mas não queríamos deixar de colaborar com esta tecnologia que parece vinda do futuro. Por isso, aproveitámos tempos livres entre organização de workshops e aulas, demos uso a alguns restos de filamento, e imprimimos umas pequenas lembranças para os participantes. Algo de útil para fãs de literatura, esperamos.

Interzone #260


Uma edição excelente da Interzone, a contrabalançar as anteriores que não se distinguiram acima da mediania. Dois veteranos, Shirley e Noon, colocam a fasquia elevada mas os contos dos autores menos experientes, não atingindo a excelência dos veteranos, também não lhes ficam muito atrás em termos de qualidade literária, conceito e ideias que intrigam o leitor.

Weedkiller, John Shirley: Um conto impecável do veterano escritor cyberpunk. Num futurismo próximo distópico, elementos considerados improdutivos ou inúteis para a ordem financeira são caçados e eliminados, usando as crises ambientais e económicas para justificar o extermínio dos socialmente indesejáveis. A ironia dos sacrifícios individuais em nome do bem geral é uma clara alusão ao discurso de crise neoliberal.

Blonde, Priya Sharma: Uma bem montada e aterrorizante variante do conto de fadas. Aqui, Rapunzel é uma rapariga mantida numa mansão por uma madrasta fiel, que usa os seus cabelos loiros para enriquecer, vendendo-os a cabeleireiros. Sharma reconta a lenda com toques de contemporaneidade deprimida, revendo a lenda sob perspectivas de vitimização e libertação.

No Rez, Jeff Noon: Por debaixo do fortíssimo experimentalismo linguístico do autor, há uma história de FC pura sobre um futuro improvável em que trocamos a visão do real pelo virtual, onde a afluência se mede em pixels e se murmura que há um mundo para além da resolução, um real mais vívido do que as mais requintadas virtualidades em alta resolução. Uma fabulosa experiência de leitura, para os que sejam capazes de desenvolver empatia com técnicas narrativas experimentais, e com um final memorável, com um personagem a perder os implantes oculares que lhe davam acesso ao mundo virtual e acordar para uma realidade onde tudo, as ruas, os edifícios, as roupas, a sinalética, está coberto pelo azul que permite a sobreposição do virtual sobre o real.

Murder on the Laplacian Express, C.A. Hawksmoor: Por detrás do título a fazer vénias a Agatha Christie está um conto feérico, homenagem aos tempos mais simples do passado da FC. Aqueles tempos onde a ciência ainda não tinha destruído a ilusão que os planetas do sistema solar poderiam ser habitáveis e estariam repletos de vida exótica, quando as histórias de aventuras no espaço traziam o espírito de fantasia das aventuras na selva para os conflitos interplanetários. O conto vale precisamente pela forma descontraída como aborda esta nostalgia pela ficção científica do passado.

The Spin of Stars, Christine Gholson: Um pouco de southern gothic para encerrar a Interzone, num conto que nos transporta aos mistérios que vivem nos pântanos dos Everglades floridianos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Comics


The Sheriff of Babylon #01:  A premissa é algo bizarra. Um policial noir num dos sítios mais infernais da memória recente, na Badgad pós-queda de Saddam, infestada de guerrilheiros, mercenários, zelotas e soldados norte-americanos, onde a vida era barata e a taxa de homicídios inqualificável? Pois, não é o cenário mais provável para uma história policial. O que surpreende neste primeiro número é a qualidade da linguagem narrativa do argumetista Tom King. De ritmo marcado, com a acção a decorrer num imparável stacatto de diferentes pontos de vista. O interesse está desperto.


East of West #22: E agora, algo deveras inesperado na série. Ao invés das habituais convolutas linhas narrativas em colisão, Hickman pára tudo e dá-nos vinte páginas imparáveis de acção pura. E no meio, ainda há tempo para o desenhador Nick Dragotta brincar com a infame capa de Milo Manara para Spider Woman.


Survivor's Club #03: No dia em que perceber o que é que Lauren Beukes anda a fazer com este comic... deverá ser o dia em que chegar ao fim. Com casas assombradas, espíritos malévolos, um jogo capaz de despertar psicoses e duas gémeas que recuperam de ser despedaçadas com agulha e linha, este é certamente o comic mais creepy e weird deste novo fôlego da Vertigo para o final do ano de 2015.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

3D printing: A New Frontier for Education

3D printing in educational contexts, combined with 3D modelling and structured activities both within the curriculum and in other aspects, challenges students to be consciously creative. Teachers need research, design ideas and solutions that ground creativity in curricular and technical knowledge to take full advantage of this promising technology. 3D printing is the next frontier of education. Classroom integration will not be easy to achieve, but the path promises to be very interesting, and the potential is enormous. At the school where I work, Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, in rural surroundings on the outskirts of Lisbon, Portugal, we risked acquiring a beethefirst 3D printer, produced by the Portuguese company BeeveryCreative. The surprise and fascination are constant, and every day we discover a new idea, a new project, a new way to put this tool in the hands of students. Constantly we share our experience in academic events, technology fairs and on our website, ICT in 3D. Some of us have already taken the first steps, and will not give up until we are a crowd. Care to join us in bringing 3D printing to schools?
A Sketchup Magazine desafiou-me para um artigo sobre utilizações do Sketchup. Como não podia deixar de ser, foi sobre o que estamos a fazer com o Sketchup e outras aplicações nos domínios da impressão 3D focalizada na educação: 3D printing: A New Frontier for Education.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nemesis Games

 

James S. A. Corey (2015). Nemesis Games. Nova Iorque: Orbit.

A série Expanse começa a revelar-se frustrante. A tendência dos autores para contarem sempre a mesma história em todos os livros desperdiça aquilo que poderia ser uma excepcional space opera, reduzindo-a a intrigas bizantinas repetitivas. Cada novo livro lê-se como um episódio de série televisiva, daquelas cíclicas onde as peripécias repetitivas de cada episódio são balizadas por um conflito de pano de fundo que fornece motivação aos personagens mas raramente tem espaço de desenvolvimento, excepto em momentos de charneira nas continuidades.

Torna-se ainda mais frustrante pela sua qualidade. A técnica narrativa é excelente, aprimorada na forma como usa o ritmo sequencial de capítulos que terminam em suspense, e ficamos agarrados às paginas mesmo quando se percebe a léguas por onde irá caminhar a história. O mundo ficcional continua sólido, mostrando que é possível ter-se FC e space opera clássicas sem regredir à misoginia xenófoba e reducionista tão amada pelos sad/rabid puppies. A visão de uma expansão humana pelo sistema solar, fragmentada entre Terra, um Marte independente e míriades de estações espaciais ou colónias nas principais luas do sistema assenta em plausibilidade técnica e científica, e é feita com um enorme respeito aos contextos de multiculturalidade. As culturas espaciais são o resultado de uma amálgama de etnias e a sua interconexão gera o que de facto se tornam novas culturas. Com personagens femininas fortes e interventivas. Tudo isto sem esquecer a aventura pura e as divertidas e bem montadas batalhas entre naves espaciais. Elementos que traduzem uma complexidade conceptual que está a anos-luz da tradição clássica desta vertente da FC, que na sua maioria poderia ser caracterizada como a expansão do homem branco anglo-saxónico pelas fronteiras do oeste galáctico.

Neste quinto episódio da série Expanse (lamento, mas se algo neste livro é assumido é que os livros funcionam como guiões sequenciais e não obras auto-contidas), o delicado equilíbrio entre as Nações Unidas da Terra, o governo marciano e a organização quasi-governamental que se assume como uma nação dos belters, habitantes da cintura de asteróides é estraçalhado com extremo prejuízo. Uma facção radical dos belters conseguiu apropriar-se de boa parte das naves da poderosa marinha espacial marciana e lançam um conjunto de ataques coordenados em simultâneo ao governo marciano, ao centro dos estaleiros espaciais que funcionam como capital dos independentistas, culminando no lançamento de três asteróides que embatem com a Terra, colocando em perigo a sobrevivência do único planeta do sistema solar capaz de albergar vida. A justificação para a acção terrorista está no sentimento prevalente entre os belters, homens e mulheres de corpos habituados à vida em micro-gravidade e por isso incapazes de viver em ambientes planetários, são tornados redundantes e condenados à extinção pela expansão humana para os novos mundos acessíveis através do portal espacial criado pelos artefactos automatizados das misteriosas forças alienígenas. Ou seja, mais uma iteração das tensões entre as várias facções humanas que têm dado o mote a todos os livros da série.

De fora fica, como habitual, o elefante da sala: os artefactos biológicos alienígenas, todo o universo tornado acessível por uma tecnologia milenar que antecede a humanidade, o mistério das civilizações avançadas e desaparecidas capazes de esterilizar sistemas solares inteiros, as incógnitas dos planetas que começam agora a ser colonizados. O livro anterior, Cibola Burn, tocava nestes aspectos apesar de inevitavelmente se focar nos conflitos entre facções humanas. Neste, há alusões soltas e algo misterioso a finalizar um livro intencionalmente inconclusivo, mas de resto o maior ponto de interesse da série Expanse é colocado completamente de lado em mais um amontoado de desventuras às voltas com intrigas políticas explosivas. Suspeito que um dos escritores que se oculta debaixo do pseudónimo de Corey, ao trabalhar com George R.R. Martin, de quem é colaborador, ficou infectado pela prosa verborreica de intermináveis conspirações bizantinas que se desenrolam em sólidos mundos ficcionais.

Outro elemento que falha redondamente neste livro da série é a tentativa de dar profundidade às personagens principiais. Se se encher de ar um desenho pintado num balão, este não deixa de ser um balão. A dispersão de Holden e companheiros por vários cenários ajudam a aprofundar as diferentes linhas narrativas do romance, mas falham na tentativa de adensar com o regresso aos seus passados. Neste ponto, é este o livro que assume o quanto Expanse tem o seu quê de cópia descarada de Firefly. Era algo que se notava deste o início, com a história centrada nas aventuras de um capitão independente que com a sua fiel tripulação e a sua nave navega pelas ondas tortuosas do sistema solar, lutando sempre pela sua visão do que é justo. Quatro tripulantes, que neste episódio se tornarão seis, com o recuperar de personagens importantes de livros anteriores. Num toque romântico, todos os tripulantes serão casais. E se as linhas que intersectam os personagens principais são variáveis, a sua iconografia replica quase textualmente Firefly de Joss Whedon. Temos o comandante Holden, carismático, libertário, lutador, justo. A experiente oficial executiva, mulher de armas e competência técnica. O algo esquisito mas hiper-competente piloto. O brutamontes com coração e código de ética pervertido, mas que segue fielmente o seu comandante. Ao qual se junta uma mulher de acção e uma rapariga fugitiva à justiça, que num outro romance foi uma personagem que modificou o seu corpo para o tornar numa arma e vingar-se de Holden. É uma variante mais romântica da tripulação da nave Serenity. E não resisto a apontar este pormenor. Firefly assumia com alguma ironia o seu carácter de western in space, algo que se notava em pormenores como a nave Serenity se assemelhar muito a um cavalo. Na série Expanse as naves são plausíveis e utilitaristas, sem concessões a estéticas aerodinâmicas, mas a nave de Holden chama-se Rocinante. Que, caso o vosso D. Quixote esteja algo enferrujado, é o nome de um cavalo.

Do ponto de vista de um leitor conhecedor do género, fica a sensação de desperdício, de uma série bem montada e bem escrita que poderia ser muito mais do que um divertido desligar de cérebro. Expanse nunca se assumiu como o género de FC que se preocupa com as grandes questões, sempre se mostrou como uma forma inteligente de aventura no espaço. É entretenimento bem montado, mas poderia ser algo mais. Irá, aposto, funcionar muito bem na sua encarnação como série televisiva. O primeiro episódio pareceu prometedor e desmontou a série não como um esforço literário mas como uma base transmedia para narrativas audiovisuais, onde é muito mais fácil e barato espremer o produto com infindas intrigas bizantinas envolvendo personagens carismáticas em cenários bem concebidos do que arriscar voos mais ambiciosos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

aCalopsia: O Esquadrão da Luz



Um comic divertido, com uma premissa curiosa, que mistura a visão mítica da II Guerra com a tradição cristã mais esotérica. Assenta numa técnica narrativa fantástica. Com um ritmo marcado, o argumento de Peter Tomasi oscila entre acção pura e imparável, momentos de infodump e os encadeadores necessários para cimentar o mundo ficcional da série. Tanto toca na mitologia judaico-cristã como nos dramas reais e históricos da guerra, e brindando-nos com mimos como soldados zombies de guerras de antanho a carregar sobre monges armados com bestas. A história desenrola-se no ritmo linear de aventura clássica, com um sentido de propósito e objectivo muito vincado. Crítica completa no aCalopsia: O Esquadrão da Luz.

Fell: Cidade Selvagem


Warren Ellis, Ben Templesmith (2011). Fell: Cidade Selvagem. G.Floy.

Recordem-se que Ellis criou para a super-equipe The Authority um personagem, Jack Hawksmoor, cujo poder era estar sintonizado com o urbanismo e canalizar cidades. O fascínio de Warren Ellis pelos espaços urbanos pervade a sua obra. Se repararmos com atenção, títulos seminais seus como Transmetropolitan centram-se na relação humana com um espaço urbano perverso, deformado e visceral. Junto com o futurismo alastrante, a visão urbanista é uma das características da obra de Ellis. Recordo um título como Gun Machine, romance policial em que os tempos passados e presentes superimpostos sobre as ruas da cidade eram o cerne da história.

É nesta perspectiva que Fell se torna compreensível. É muito mais do que uma sequência de policiais Hard Boiled que, na típica forma do argumentista, esticam os limites e colidem as iconografias mais bizarras. Fell, o detective caído em desgraça, é o protagonista. Mas na verdade é o urbanismo decadente, inversamente gentrificado, com os seus habitantes degenerados, banalmente criminosos ou tragicómicos da cidade decaída de Snowton que protagoniza o comic. Algo que também é típico de Ellis. Os seus cenários são muito mais do que panos de fundo, são ambientes dinâmicos que modelam e definem as psicopatologias dos seus personagens.

Fell é também uma das raras instâncias em que o estilo gráfico de Ben Templesmith é tragável. A sua mistura de edição de imagem altamente saturada com desenho funciona bem para complementar a violência estética do texto. Os trabalhos mais recentes de Templesmith exploram em demasia uma saturação gráfica monótona.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Interzone #259


 Uma edição de contos medianos, embora alguns se destaquem por partir de premissas interessantes. O pormenor digno de nota desta Interzone é a coluna de opinião de Nina Allan, onde esta arrasa a fantasia medievalista de Lord of the Rings a A Song of Ice and Fire, caracterizando-a como simplista e retrógrada: "to default to a set of clichés that have long outworn their usefulness, an iconography that has its basis in an already corrupted and falsified version of the Middle Ages, in which men were men, knights rode forth from castles and women stood around waiting to be raped or have men kill dragos for them". E continua. Suspeito que se fosse mais lido, este artigo granjearia à escritora imenso ódio da parte dos fãs irredutíveis das espadas empunhadas por barbudos possantes. O verdadeiro tema é a representação da mulher neste género de ficções, que Allan considera patético. Kudos, Nina Allan, por apontar as óbvias incongruências de um género comodista que pessoalmente defino como meter a cabeça na areia e imaginar que o futuro nunca irá acontecer... porque a ciência e tecnologia é um bicho estranho e assustador, obrigam a pensar, e é muito mais prazeiroso regredir a um passado de homens másculos e belas princesas frágeis à espera de ser salvas. Um passado que nunca existiu.

Silencer - Head Like A Hole Remix, E. Catherine Tobler: Depressa se percebe que a história de dois adolescentes armados presos num ciclo de tiroteios em escolas ao longo de diferentes épocas é uma reacção à tradição americana de tiroteios em sala de aula. Uma reacção que pretende ser lancinante, mas não passa do incoerente.

The Deep of Winter, Chris Butler: E, de vez em quando, a Interzone surpreende. Por detrás desta aventura numa cidade gelada, construída sobre as ruínas de um cataclisma passado, está um conceito de excelência na FC. Uma cientista desenvolve uma forma eficaz de comunicação verbal, transmissível como vírus, mas decide testá-la interferindo com um mundo paralelo que se toca com o seu em intervalos de séculos. É o momento da passagem que irá despoletar a catástrofe que arrasa as cidades, facilitando a infecção dos habitantes com um vírus que provoca a emanação de esporos empáticos que aprofundam a comunicação interpessoal. A história é contada a duas vozes, a de um soldado que desce às ruínas para investigar casos de pessoas desaparecidas e da cientista, mantida viva ao longo dos séculos num ciclo de hibernação que lhe permite monitorizar a sua experiência.

Rush Down, Roar Gently, Sara Saab: Ostensivamente, um conto sobre uma antiga amizade desvanecida pelo tempo e pela história violenta do Líbano. Mas a verdadeira história é a de uma homenagem nostálgica à cidade de Beirute, revista aqui sob um dilúvio torrencial que ameaça afundar a cidade.

After His Kind, Richard Strachan: Outro conto que parte de uma premissa interessante. O único sobrevivente de uma nave despenhada num novo planeta descobre uma curiosa propriedade nos vermes que encontra no solo alienígena. Podem gerar uma espécie de clones a partir da informação genética contida nas células. Com isto, o astronauta perdido pode dar um novo sentido à expressão crescei e multiplicai-vos, originando uma espécie humanóide que nasce a partir de vermes do solo.

Edited, Rich Larson: por detrás de um conto aparentemente descomplexado sobre testosterona adolescente, reside uma forte reflexão sobre as consequências éticas da bio-modificação. Quando três amigos se juntam para celebrar o regresso de um das operações de melhoria e eficiência corporal, descobrem que alguns traços de personalidade foram eliminados de acordo com a vontade dos pais. Um deles é a tendência homossexual do jovem que foi melhorado por terapias de modificação que, infelizmente, o autor não especifica mas caem dentro daquilo que os trans-humanistas tanto gostam de apregoar.

Midnight Funk
, Mack Leonard: A encerrar esta edição, uma tradição anual. A Interzone assegura a publicação do vencedor do primeiro prémio de um concurso literário destinado a autores não-profissionais. Este conto, às voltas com a percepção que temos do bom gosto musical e com uma premissa que envolve radio-frequências inaudíveis que prejudicam a audição de música, parte de algumas ideias interessantes.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Comics


Hellboy and the B.P.R.D. 1953: Continua a estratégia inteligente de manter vivo o icónico Hellboy sem espremer a personagem. Longe das novelas convolutas de B.P.R.D., regressando aos elementos de fantástico e terror que o tornaram querido do público. É uma lufada de terror clássico nos comics contemporâneos.


Providence #06: Não é fácil dizer isto, mas acabei de ler um dos comics mais perturbadores de que tenho memória. Alan Moore está a ser enciclopédico no que toca à obra de Lovecraft, levando-a de forma metódica à extensão lógica da sua perversidade. Fá-lo de forma discreta, sem horrores óbvios ou monstros fétidos a saltar das vinhetas. Fá-lo com um sentido de ritmo impecável, subvertendo as expectativas com um subtil horror psicológico que se revela de formas inesperadas. Como nesta cena, em que uma rapariguinha de treze anos é violada pelo personagem principal, um escritor homossexual. Só que... a rapariga é-o apenas de corpo, habitada por um espírito masculino centenário que vai saltando de corpo em corpo e troca de corpo com o escritor só para se violar a si própria com a verdadeira vitima a ser o habitante original do corpo do vitimizador. Tortuoso? Deveras, e sintomático do lodaçal de moralidade turva que caracteriza Providence. Lovecraft poderia ter chegado a estes níveis, mas o seu puritanismo impedia-o, ficando-se pelas assombrações mais clássicas. Moore não tem essas restrições. O sentimento de inquietação adensa-se a cada novo número.


Silver Surfer #15: Tendo perdido a paciência para as cíclicas reinvenções dos universos ficcionais da Marvel e da DC, não estou em condições de avaliar esta série no contexto de Secret Wars, o corrente mega evento/transformação radical/alteração profunda/whatever, dudes do universo Marvel. Até porque, nas imortais palavras de Peter Griffin, who the hell cares. É mais um mega-evento entrecruzado com títulos para obrigar os leitores a comprar mais revistas, estreitando os laços entre o universo dos comics e o do cinema, que transforma radicalmente tal como o mega-evento que o precedeu o fez e o que se seguirá fará. Para quem tenha memória mais longa do que um peixinho de aquário, esta tendência de marketing disfarçada de revolução cultural torna-se embaraçosamente entediante. A Marvel termina aqui esta série do Surfista Prateado, o que significa um ponto final nos delírios visuais retro-psicadélicos de Michael e Laura Allred. E isso sim, é uma tragédia.

domingo, 29 de novembro de 2015

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Sonhos do capitalismo terminal; nunca aprendi a usar um microscópio; cristais de gelo sobre carroçaria preta.