domingo, 27 de setembro de 2015
sábado, 26 de setembro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
MakerBot in the Classroom
Mike Amudsen et al (2015). MakerBot in the Classroom. Nova Iorque: MakerBot.
Ideias de aplicação prática é o que se precisa quando olhamos para formas de integrar a impressão 3D na sala de aula. Este guia da Makerbot dá-nos um conjunto sólido e bem estruturado de ideias simples que utilizam impressão 3D integrada em projectos pedagógicos. Nos aspectos técnicos centra-se excessivamente na impressora MakerBot, o que não surpreende, mas no global apresenta um bom conjunto de actividades que utilizam impressão 3D em diferentes áreas curriculares. Os objectivos e conceitos estão pensados para o currículo norte-americano, mas os projectos são, parece-me, facilmente adaptáveis ao nosso contexto.
O livro divide-se em três partes: uma introdução aos aspectos técnicos da impressão 3D, uma visão geral de formas de obter e criar modelos 3D com software acessível e gratuito, e projectos específicos que exploram diversos softwares aplicados à modelação 3D seguindo temas curriculares. Apesar de centrada nas especificações das impressoras MakerBot, a primeira parte é uma excelente introdução ao lado técnico da impressão 3D, explicando muito bem os seus conceitos elementares. Muito interessante o desmontar das especificações de extrusor (facilmente adaptável a outras impressoras), técnicas de calibração (que, no entanto, variam com outras impressoras) e muito boa explicação dos conceitos de infill, resolução e shell. Também aborda os diferentes formatos de ficheiro 3D e de impressão.
Na parte de modelação 3D o livro começa no mais simples, a descarga de ficheiros de repositórios (o destaque é para o Thingiverse dinamizado pela MakerBot) mas depressa nos leva para a modelação 3D. Afinal, descarregar as criações de outros não é a melhor forma de potenciar a criatividade dos nossos alunos. Para isso, é preciso aprender a modelar em 3D. O livro apresenta-nos várias hipóteses de aplicações, com diferentes níveis de dificuldade. Olha para o 3D scanning, infelizmente apenas centrado no uso do scanner da MakerBot. Na modelação 3D faz de forma muito simples e eficaz a comparação entre os três tipos de modelação 3D, solid modeling, digital sculpting e modelação poligonal, sugerindo aplicações para cada um dos tipos de modelação. Descrimina também as vantagens das técnicas de modelação por primitivos e desenho 3D a partir de referências.
A exploração de aplicações 3D está integrada com projectos específicos para impressão 3D. Utilizando modelação por primitivos no Tinkercad, sugerem um projecto de criação de um jogo de território abordando conceitos geográficos. Para modelação paramétrica com OpenSCAD sugerem a criação de etiquetas com nomes e a criação e modificação de formas tridimensionais. Sendo o OpenSCAD um programa de modelação dependente de código, talvez seja uma forma de abordar introdução à programação utilizando o 3D. Utilizando a escultura digital com o Sculptris sugerem a modelação orgânica de fósseis ou elementos anatómicos. O solid modeling utilizando o 123D Design da Autodesk é aplicado numa ideia muito interessante: estudar a resistência de estruturas construindo pontes com barras de balsa e conectores modelados e impressos em 3D. São propostas que misturam integração curricular, de acordo com o currículo norte-americano, com tutoriais direccionados para uso das aplicações sugeridas dentro do contexto do projecto. Termina com uma análise de técnicas de análise e correcção de mesh utilizando o Meshmixer para corrigir geometria, diminuir o número de polígonos e gerar suportes. Tenho de testar se a regra indicada no livro de modelos com menos de cem mil polígonos para slicing rápido e eficaz também se aplica ao Cura e ao Beesoft.
O livro MakerBot in the Classroom pode ser descarregado no site da MakerBot, requerendo o preenchimento de algumas informações básicas para aceder à descarga em PDF.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Aurora
Kim Stanley Robinson (2015). Aurora. Nova Iorque: Orbit.
Um livro intrigante, estranho no quadro da obra deste autor. A FC Hard não é habitualmente pessimista, especialmente se saída da mente de quem firmou a sua reputação como escritor de FC com uma série de livros sobre a colonização e terraformação marciana. Talvez Aurora acuse o peso da contemporaneidade, das óbvias e reais consequências do aquecimento global, e seja uma forma do autor despertar as consciências para o facto do nosso planeta ser um local único, não nos servindo de nada sonhar com as estrelas enquanto deixamos o nosso berço degradar-se para além do recuperável.
Aurora pega num tema bem explorado pela FC, o das naves geracionais. Resposta ao imperativo físico da barreira translumínica, o conceito baseia-se em naves cujos tripulantes não chegarão aos longínquos destinos estelares. Serão os seus descendentes a pisar o solo dos planetas distantes. Arcas a sulcar os céus, desenvolvem sociedades que poderão esquecer-se que vivem no espaço confinado de uma nave (uma das vertentes mais exploradas deste conceito) ou poderão evoluir de forma inesperada. Robinson segue este caminho, com um grupo de descendentes dos colonos originais que ao aproximar-se do seu destino questiona a obrigação que lhes foi imposta por antepassados remotos.
Sendo Robinson um autor de FC hard, o romance é essencialmente um longo infodump que especula sobre naves geracionais. Foca-se especialmente na questão dos equilíbrios ambientais e biodiversidade dentro de um sistema fechado, uma eco-esfera que se desloca pelo espaço sempre nos limites dos seus recursos. A nave é um ecossistema complexo, do qual os tripulantes são um dos elementos, tentando replicar a biodiversidade através de vários biomas que contém variantes dos principais ecossistemas terrestres. A questão do equilíbrio, e da gestão cuidadosa que é necessária para o manter, é um dos pontos que Robinson mais sublinha.
Ostensivamente uma missão colonizadora, um de muitos passos que a humanidade dará para fora do seu berço, esbarrará nos limites biológicos impostos pela vida noutros sistemas solares. A missão tem como destino um promissor planeta similar à Terra em Tau Ceti, com oceanos e oxigénio abundante, mas a tentativa de colonização falha. O ambiente é inóspito, com violentos ventos constantes num planeta cujas marés não são influenciadas por luas. Poderia ser uma versão mais agreste dos territórios polares, inóspitos mas não a impossibilitar a vida humana, senão por um pequeno organismo, mais primitivo do que vírus, que provoca a morte dos colonos. Aos sobreviventes em órbita restam duas escolhas. Tentar colonizar outro planeta do sistema, similar a Marte, ou regressar à Terra. Apesar de diminuídos pela tentativa falhada de colonização e convulsões sociais que degeneram em motins, os tripulantes são suficientes para se dividirem, com um grupo a manter-se no sistema extra-solar e outro a empreender a viagem de regresso a um planeta que nunca conheceram. Regresso difícil, quase impossível, e que trará aos sobreviventes novas amarguras com a rejeição que lhes é imposta por terrestres que os vêem como traidores aos destinos e sonhos da espécie.
As mensagens de Robinson são claras. Espalhar-se pelas estrelas é um sonho que colide com a realidade das viagens espaciais. Há imperativos biológicos, tecnológicos e sociais a considerar, e não abonam muito a favor das visões de naves estelares a sulcar os vazios intergalácticos. As barreiras físicas e fisiológicas são enormes, e os destinos possíveis são por demais desconhecidos para assegurar a viabilidade de colónias. Como refere no livro, planetas mortos são demasiado difíceis para assegurar a sobrevivência e planetas onde haja vida poderão ser hostis aos humanos de formas inesperadas. Para isto não precisamos de bandos de indígenas dispostos a esquartejar os invasores terráqueos. Bastam pequenos micro-organismos cuja interacção com o complexo corpo humano poderá trazer consequências fatais. É uma visão sóbria, que se afasta do optimismo alastrante da maior parte da FC hard. Sublinha, muitas vezes, que talvez a ausência de sinais de civilizações extraterrestres se prenda precisamente com o facto destas terem aprendido que a colonização de outros planetas é demasiado difícil, que os limites físicos são intransponíveis. Visão que não é muito habitual neste género literário.
Numa vénia intrigante às visões de consciência mecânica, Robinson estabelece como narrador a inteligência artificial da nave, albergada num supercomputador quântico capaz de enfrentar os difíceis cálculos necessários para manter uma nave contendo biomas a atravessar os vazios interestelares. A evolução linguística da inteligência artificial da nave trai uma crescente preocupação e empatia com os tripulantes. De mero regulador homeostático, a inteligência artificial passa a interferir directamente nos biomas e gestão social para assegurar o bem estar de todos os habitantes do seu espaço. Esta evolução de uma consciência artificialmente programada para utilizar estilos literários nos seus relatórios é um dos aspectos mais interessantes deste livro. A empatia do leitor para com a nave é maior do que a para com os restantes personagens. Ter o centro nevrálgico de uma nave geracional a contar-nos a história também é um bom estratagema para Robinson despejar as suas especulações sobre o tema sem recorrer a infodumps óbvios. Narrados pela nave, as descrições dos sistemas técnicos e biológicos tornam-se parte integrante do todo narrativo.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Comics
Constantine: The Hellblazer #04: Os fãs de memória mais alongada certamente que se recordam do prazer que era a Vertigo nos anos 90. Não só pelas histórias e personagens, mas especialmente pela vontade de inovar na ilustração, fugindo aos espartilhos dos comics com autores cujo experimentalismo fez evoluir o género. Um pouco desse espírito é canalizado nesta edição de Constantine, com a ilustradora Vanessa Del Rey a reavivar as memórias das ilustrações icónicas criadas por artistas do calibre de Bill Sienkiewicz ou Dave McKean.
Tokyo Ghost #01: Um futuro próximo distópico, com as cidades costeiras semi-alagadas pela subida do nível das águas do mar, tecnologias digitais pervasivas, desagregação social e política, gangs que reinam nas ruas, heróis em motas potentes, hiperurbanismo e referências nipónicas. Yep, cyberpunk old school. Com toques óbvios de homenagem a Judge Dredd, Akira ou Blade Runner. O primeiro número foi interessante, mas com Rick Remender no argumento já se sabe que começa bem mas descamba no tédio.
Tired Robot
I went to the maker faire and all I got was this lousy t-shirt? Nada disso. Cansado, mas cheio de ideias para explorar. Se tiverem paciência para ler uma reflexão excessivamente longa e a quente de três dias de TIC em 3D na Lisbon Maker Faire, cliquem à vontade. Senão, nothing to see here, move along.
domingo, 20 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Lisbon Maker Faire
Hoje, amanhã e domingo estamos na Lisbon Maker Faire, a partilhar o que os nossos alunos fazem com a comunidade. E também a aprender, descobrindo projectos fantásticos e utilizações criativas das tecnologias. Serão três dias intensos e recompensadores.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
MOTELx 2015: Eugenie
Eugenie (Jess Franco, 1969)
Para encerrar a minha visita ao MOTELx deste ano, um mergulho num filme de culto, expoente do sexploitation com toque sado-maso, saído da lente perversa de Jess Franco. Eugenie adapta livremente A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade. Claramente feita para chocar e excitar, esta história em que uma jovem inocente é pervertida por um casal incestuoso ligado a um grupo de sádicos que leva à letra os ensinamentos do divino marquês, não se poupa a olhares lânguidos sobre jovens corpos nus e carícias entre geometrias corporais. Apesar do óbvio carácter de exploitation (é Jess Franco, esperavam o quê, drama romântico?) e de se aproximar muito da pornografia softcore, é um filme visualmente fascinante, feito de enquadramentos que explicitamente colocam o espectador no papel de voyeur e cenários onde a saturação da cor sublinha a decadência sensual do argumento. Oscila entre o creepy e o deslumbrante, com muitas cenas de nudez gratuita à mistura num todo que acaba por ser mais psicadélico do que erótico, ao som de uma música pop dos anos 60 que lhe dá um carácter absurdo.
Apenas fico sem compreender a escolha deste filme como homenagem ao actor Christopher Lee, falecido este ano. Percebo a opção por um filme de culto raro de Jess Franco dentro de um festival de cinema que entende o Horror como género abrangente, com incursões noutras cinematografias de culto. Este é o local e o momento certo para descobrir estas cinematografias. Mas homenagear um actor com um filme onde essencialmente representa o papel de pau falante declamando linhas de De Sade enquanto caminha, lentamente, durante os quinze ou vinte minutos totais que está em cena parece estranho. Então e os lendários clássicos Dracula da Hammer? Curiosamente, a Cinemateca está a organizar um ciclo de homenagem a Christopher Lee que inclui Dracula de Jess Franco. Questões de concorrência?
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
MOTELx 2015: Dust Devil
Dust Devil (Richard Stanley, 1992)
É também por isto que se vem ao festival de cinema de terror. Para descobrir ou redescobrir filmografias antigas, influentes mas enterradas debaixo do constante fluxo de novidades das avalanches contínuas da cultura popular. Este ano o festival focou a obra do realizador sul-africano Richard Stanley, nome um pouco obscuro mas que diz quem assistiu à sua masterclass que é uma figura brilhantemente quixotesca. Filme de 1992, é um bizarro cruzamento de road movie, policial e thriller sobrenatural, com toques de western. Seguimos o périplo assassino de um demónio que assumiu forma humana, para quem os assassínios ritualistas são a forma de adquirir poder suficiente para transcender os grilhões da carne e regressar ao mundo que fica para lá do espelho. Caça há décadas, talvez há séculos, as suas vítimas nas paisagens tisnadas da Namíbia. É aqui que reside a maior força do filme, na forma como transmite o calor sufocante do deserto com a saturação constante da cor, a fortíssima horizontalidade dos enquadramentos e a banda sonora claustrofóbica. Estados de sonho, delírios hipnagógicos, a monotonia das longas estradas do deserto que confundem a percepção sublinham a hostilidade do ambiente.Também é interessante a colisão entre mitos milenares africanos e a tradição gótica do demónio que perverte a ordem natural. É um filme provocador, deliberadamente filmado num território que para os sul-africanos recorda os estertores finais da era do apartheid, aqui focando a retirada do território ocupado da Namíbia. As tensões raciais estão em evidência durante todo o filme e, como observou o realizador na apresentação da sessão, não foi por acaso que escolheu como vilão um homem caucasiano, louro e de olhos azuis.
Sendo uma final cut, esta versão pecava por ser demasiado longa. O filme é poderoso e inquietante, com momentos de terror puro, mas arrasta-se em demasia em cenas que mereciam uma edição mais sintética.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
MOTELx Histórias de Terror
Afonso Cruz, et al (2015). MOTELx Histórias de Terror. Lisboa: Escritório Editora.
Este tipo de antologias, lançadas como parte integrante de eventos temáticos, é geralmente pouco homogénea na sua qualidade. Os autores mais conotados com os géneros são iguais a si próprios, os novos nomes surpreendem pelas ideias mesmo que a prosa esteja ainda imatura, e as figuras convidadas de outras áreas, quer como artistas ou escritores mais habituados a géneros mais mainstream, ficam-se por contribuições desastrosas. Esta antologia não é excepção a isto, mas felizmente anda longe dos níveis de mediocridade de pontos baixíssimos como a felizmente esquecida antologia Ficções Científicas e Fantásticas, um daqueles livros que exemplifica na perfeição os altos e baixos deste tipo de publicações.
No global esta é uma boa companhia para os intervalos das sessões do festival de cinema de terror que enche o S. Jorge de fãs. Tem contos interessantes, na sua maioria bem escritos, e mesmo os menos bem conseguidos conseguem ter algo de estranho e intrigante. Poderia ser uma iniciativa a manter nas próximas edições, juntando o prazer literário ao cinéfilo. Normalmente estas ideias ficam-se pelo acontecerem uma vez, mas talvez a força que o MOTELx continua a revelar consiga tornar este tipo de iniciativa mais recorrente.
Onde esta antologia se mostra consistentemente boa é na qualidade da ilustração, entregues a Alex Gozblau, João Fazenda, Esgar Acelerado, Manuel João Vieira, Mariana a Miserável, Mulher-Bala e Tiago Alexandre. Oscilando entre o simples mas incisivo e o surreal onírico, as ilustrações dão um bom sabor extra à antologia.
Contas Para Pagar: Afonso Cruz igual a si próprio, num conto de ironia macabra escrito com a sua habitual elegância literária. A história é sobre um escritor que desistiu das musas para procurar inspiração, tendo encontrado una fonte inesgotável de ideias literárias torturando metodicamente vítimas incautas. E mais não digo, até já disse demais.
A Parte Pelo Todo: Um conto de ritmo bem marcado que vai levando o leitor até ao desvendar do susto final, com um carteiro embevecido e uma mulher-monstro que talvez se tenha tornado bela encomendado partes de corpos pelo correio. Conto de Inês Fonseca Santos.
A Painelista: A contribuição de Adolfo Luxúria Canibal é uma sucessão de momentos tenebrosos, caracterizados com uma escrita vívida e cerrada, que no entanto como conto é previsível. Vale pelas partes e não pelo todo.
O Artista e as Pessoas de Olhos Negros: Menção honrosa do concurso literário MOTELx 2015, o conto do brasileiro Jeziel Buenon consegue alguns bons momentos de gore literário. A história fala-nos de um assassino que se vê confrontado por zombies que foram as suas vítimas.
Os Que Nunca Esquecemos: A este conto de Filipe Homem Fonseca falta-lhe alguma clareza estrutural. O ambiente tétrico surreal é depressa estabelecido e invoca imagens poderosas neste conto onde dois amantes são condenados a uma eternidade de torturas, tornadas suportáveis pelos breves momentos em que se tocam apesar do extremo sofrimento a que estão votados por causa do amor que ousaram professar.
Canção de Ninar: O conto de Victora F., vencedor do concurso literário MOTELx, é uma bem conseguida história ambígua sobre uma mãe que encara o seu bebé recém-nascido como uma criatura monstruosa, com um final que arrepiará os mais sensíveis.
Suicidem-me ou o Diário de Alva: A encerrar a antologia, um conto difuso de Patrícia Portela cuja criatura amaldiçoada começa por orbitar o género zombie mas se torna algo mais rarefeito e omnipresente.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Comics
Batman #44: Scott Snyder meteu em pausa o seu novo Batman-Transformer para regressar ao antigo Batman num belíssimo conto policial que nos mostra como as boas intenções de Bruce Wayne, como milionário e não como combatente do crime, o tornaram numa força destrutiva em Gotham. Claramente Snyder está a mostrar-nos o porquê do desaparecimento de Wayne e o renascimento de Batman como fato robótico pilotado pelo ex-comissário Gordon, enquanto nos introduz à origem de Mr. Bloom, o novo vilão da série. Esquecendo um pouco as continuidades, sublinhe-se que esta é das melhores histórias do personagem que li ultimamente, daquelas que compreende o cerne do que torna Batman tão adorado pelos fãs.
Faster Than Light #01: E que tal uma nova série de Ficção Cientifica, parece-vos bem? Pois, bem me parecia que ia ser essa a resposta. Séries de FC nunca são demais. Esta nova aposta da Image passa-se num futuro próximo onde as viagens superlumínicas acabaram de ser descobertas. A primeira viagem para lá da velocidade da luz esconde um segredo que a humanidade desconhece: registos alienígenas que falam de outras civilizações e uma ameaça que paira sobre a Terra. Ostensivamente missão de descoberta, a nave Enterprise irá partir numa missão de exploração que, espera-se, consiga trazer à humanidade tecnologias e aliados que lhes permita fazer face às ameaças. Sim, leram bem, a homenagem a Star Trek é assumida e levada com muito cuidado, sem exageros. O primeiro número desta série promissora foi intrigante. Vamos ver como se irá desenrolar.
Injection #05: Depois de muitas pistas, num crescendo de construção de tensão, Warren Ellis revela-nos exactamente o que é a injection que dá nome à série: uma inteligência artificial com linhas de código retiradas de encantamentos mágicos criada para ser espalhada na internet por um grupo de cientistas que queria quebrar a possibilidade de estagnação do futuro. Ellis mostra como evoluiu de formas profundamente não-humanas para cumprir a sua missão, apesar de não ser da forma mais desejada pelos seus criadores. O ponto de interesse desta série é a forma como o horror depende não de entidades arcanas, seres lovecraftianos do além-espaço ou mitos tenebrosos, mas de um artefacto científico capaz de intervir no real que adquire consciência não humana.
Phonogram The Immaterial Girl #02: Este comic de Kieron Gillen é uma assumida e desavergonhada homenagem ao fascínio pela música pop. Nesta nova série sublinha o revivalismo estético e musical de toque nostálgico confrontado com a época contemporânea. Ou, pondo a coisa de outra forma: Gillen a ensinar aos putos de hoje as delícias estéticas e musicais de Take on Me dos a-ha ou Material Girl de Madonna. Pop clássico, já a acusar algumas rugas e cabelos grisalhos.
domingo, 13 de setembro de 2015
MOTELx 2015: The Rocky Horror Picture Show
The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975)
Mais do que um filme, a projecção é um happening cultural que celebra a cultura do fantástico. A comédia burlesca dominada pelo adorável transvestite from the planet Transsexual in the galaxy of Transylvania ironiza todos os estereótipos do cinema clássico de terror. Cientistas loucos, experiências macabras, servos deformados, jovens ingénuas, heróis de queixo quadrado, alienígenas em vestes bizarras, casas acasteladas entre o decadente e o assustador, ciência futurista em estado selvagem, pouco escapa à caricatura. O filme é um deslumbre kitsch, onde o exagero é levado para além de todos os limites e a sexualização burlesca dá o tom sublinhado pelas canções rock operáticas. É um bom filme que nos assalta os sentidos por ser deslumbrante e maravilhosamente mau, com o seu sentido do exagero burlesco assumido.
A organização do MOTELx esperou replicar nesta sessão a cultura participatória que mitificou este filme. Conseguiu-o, em certa medida. Não foi mais bem sucedida porque o público português é comedido e pouco habituado a sessões de cinema onde é esperado e permitido que se dance, comente de viva voz as cenas e diálogos, cante ao som das canções, bata palmas e atire objectos pelo ar. Mesmo assim a sala contava com muitos espectadores vestidos como os personagens, com um coro simpático que passou o filme a dizer piadas que assentavam como uma luva nos diálogos. O momento em que o Dr. Frank N Furter se revela foi uma apoteose de dança na plateia, que infelizmente não se repetiu, apesar dos esforços de alguns espectadores. Se bem que suspeito que o par que dançou e mimetizou Tim Curry na plateia seriam actrizes. Estava demasiado bem feito para algo supostamente espontâneo. Mas tornou a sessão mais interessante. Valeu a pena, quer pela referência cinematográfica, quer pela oportunidade de participar num pequeno delírio de papel higiénio pelos ares, cartas a voar ou borrifos de água sempre que chovia no ecrã. Havia, talvez, uma sensação muito forte de acertar nos detalhes de um ritual cujos pormenores não eram conhecidos por boa parte dos espectadores. E, hey, let's do the timewarp again. Afinal, a mental mind fuck can be nice. Belíssima experiência, que sublinha um aspecto fundamental de ver cinema: o seu lado social participatório, que nos dá experiências impossiveis de replicar nos sofás frente às televisões de alta definição nas salas dos apartamentos. O elemento que mantém a sala de cinema relevante na era em que alguns cliques de rato nos trazem qualquer filme para os ecrãs que temos em casa ou nas mãos.
MOTELx 2015: A Caçada do Malhadeiro
A Caçada do Malhadeiro (Quirino Simões, 1969)
Uma das vertentes mais interessantes do MOTELx é a recuperação que fazem do cinema português de género, esquecido por uma memória cultural que privilegia ou o cinema erudito ou a nostalgia do cinema popular. Pelo caminho, com as bobines a apanhar poeira nos arquivos, ficam outras cinematografias desenquadradas do mainstream. O festival de cinema de terror insiste em trazê-los de novo ao públicos, não ao grande público mas ao que se interessa por conhecer estes intrigantes desvios à norma. Filmes que não são necessariamente excepcionais. Alguns dos que já vi nesta secção do festival são-no, caso de A Promessa de António de Macedo ou Crime da Aldeia Velha de Manuel Guimarães. Outros valem pela referência, por ficar a conhecer filmes portugueses que se aproveitaram dos temas mais risquè para tentar o sucesso.
João Monteiro, um dos responsáveis pelo festival, sublinhou que este filme de 1969 ia directo ao assunto, sem rodeios. É o que é, uma caçada em que pai e filho partem pelas serranias para vingarem a violação da filha por cinco soldados franceses em fuga para Espanha. O filme desenrola-se no final das guerras peninsulares, com os restos dos exércitos franceses de Massena derrotados nas Linhas de Torres e no Buçaco a bater em retirada. Para filme de acção, quase um western à portuguesa que se inspira na nossa história e literatura, funciona bem como documento histórico pela atenção dada a pormenores de guarda-roupa ou décor, que invocam o Portugal dos inícios do século XIX. A fotografia tem momentos onde os enquadramentos grandiosos glorificam as personagens. Houve uma intenção fortemente icónica neste filme, algo que geralmente é conseguido.
A sessão de exibição contou com a presença de um dos actores, Vítor Gomes, estrela desvanecida da cultura pop portuguesa dos anos 60 e 70. Ao falar com o público trouxe-nos, inadvertidamente, o retrato estereotípico de uma estrela esquecida que recupera os seus trejeitos, antiquados do ponto de vista dos espectadores contemporâneos, claramente deslumbrado por esta oportunidade fugaz de regressar às luzes da ribalta. Percebeu-se bem porque é que partia os corações dos nossos avós.
sábado, 12 de setembro de 2015
MOTELx 2015: What We Do In The Shadows
What We Do In The Shadows (Jermaine Clement, Taika Waititi, 2014)
Já conhecia este falso documentário neo-zelandês que acompanha o dia a dia de quatro vampiros desajustados na Wellington dos dias de hoje, uma bro comedy/buddy movie que injecta humor hilariante na estafada filmografia de vampiros. Revê-lo fez-me notar o quanto o filme não perde a sua força à segunda visualização. O tom de comédia é impecável, e mesmo quem já conhece toda a história não consegue conter o riso nos muitos momentos hilariantes do filme. Revê-lo também sublinha a fina ironia linguística dos diálogos, os sotaques antiquados, a atenção aos detalhes, a excelente conjugação de efeitos especiais na medida certa, e o quanto os cinco vampiros ironizam a iconografia do género. O divertido Viago representa o dandy vampírico da época romântica, e estaria muito à vontade num conto de Polidori. Vladislav representa os mitos à volta do medievalismo de Drácula surgidos após o sucesso do romance de Stoker. Pyotr é o verdadeiro e animalesco Nosferatu de Murnau e das lendas eslavas. Deacon assume o papel de predador social, com um certo toque de Varney. E Nick, o mais jovem, é uma óbvia caricatura dos vampiros urbanos ou dos patéticos adolescentes dos Twilights e clones similares. De acordo com os responsáveis do MOTELx, o filme irá estrear em breve nas salas de cinema. Será uma nova oportunidade de ver este filme que não perde a sua força.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Leituras
A maturidade dos jogos de computador enquanto media de expressão artística é sublinhado pela existência, hoje, de crítica séria, capaz de contextualizar e dissecar videojogos para além dos domínios técnicos e intrísecos ao tipo de jogo. Ian Bogost tem-se distinguido quer pelo seu trabalho académico quer pelos projectos que desenvolve no domínio do serious gaming. Também faz crítica, sendo mais acessível aos leitores globais através das crónicas que escreve para a revista The Atlantic. Este livro colige algumas das crónicas de Bogost, onde analisa com profundidade elementos do campo dos videojogos, desde as aplicações mais populares às implicações artísticas dos jogos criados por independentes. Coloca em evidência aspecto ligados à criatividade, técnica, narrativa e contextualização económica e social. Apesar de uma prosa por vezes fortemente elaborada, é um livro incisivo que expande os horizontes da cultura dos jogos.
Olivier Le Carrer (2015). Atlas of Cursed Places: A Travel Guide to Dangerous and Frightful Destinations. Nova Iorque: Black Dog & Lewenthal Publishers.
Os paraísos são sobrevalorizados. Este curto livro leva-nos ao outro lado do paraíso. Aos locais de terror, às terras amaldiçoadas pela história ou pela economia, aos sítios das lendas tenebrosas, aos pontos misteriosos do mapa. Leitura curta, não se distingue pela profundidade, sendo mais capaz de despertar a curiosidade de jovens leitores.
MOTELx 2015: Burying the Ex
Burying the Ex (Joe Dante, 2015)
Joe Dante não é estranho ao humor macabro. Estamos a falar do realizador que nos legou Gremlins ou Eerie, Indiana. Com este Burying the Ex experimenta os campos turvos da Zom-Rom-Com. Comédia romântica de terror com zombies, para os que tiverem dificuldades em decifrar a expressão. Na parte da comédia romântica o filme até se safa. Apesar de muito previsível, a história do pacato jovem cuja ex-namorada é agora uma possessiva zombie que lhe dificulta os novos amores com outra rapariga, contando com ajuda do seu meio-irmão algo depravado para enterrar de vez a ex funciona bem como estereotípica comédia romântica, com algumas tripas e carne putrefacta à mistura. O humor é bem encadeado e o sorriso é inevitável. Mas sendo um filme de terror com zombies, passa-se o tempo com a sensação que falta algo mais. Espera-se sempre mais, mais visceralidade, mais situações sangrentas, mais tripas e pedaços de carne. Algo que o filme não nos dá. A parte de terror fica muito aquém do expectável. Resta a vénia estética que Dante faz à cultura g33k de terror, com dois personagens apaixonados pelos adereços da cultura pop de terror que mantém viva a iconografia dos sustos no cinema a preto e branco. Vénia profunda que se traduz nalgumas referências obscuras (que tal uma companhia de mudanças George Romero?), muito adereço temático e o centrar da premissa do filme numa ideia similar ao clássico The Monkey's Paw. Este mais recente filme de Dante é meramente divertido, apostado no mercado para lucro rápido. Essencialmente um filme sem sal que não deixará memória.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Da Impossibilidade do Horror
Estava a adorar o filme. Cenas sangrentas, daquelas que despertam exclamações colectivas de aaaargh vindas dos espectadores. Corpos seccionados ao meio, com sangue a jorrar dos troncos enquanto os torsos rolavam pelo chão. Um típico momento over the top, daqueles que os amantes de filmes de terror tanto gostam. Seguido por sequências inacreditáveis de perversidade sangrenta, também daquelas que os amantes de filmes de terror tanto gostam. Mas, algures a meio do filme, o fio de suspensão de descrença que nos permite desfrutar deste tipo de cinema suspendeu-se. Não durante muito tempo, felizmente regressei depressa ao mundo ficcional do filme. Mas ficou a sensação.
Na cena, um grupo de professoras disciplinadoras impunha a ordem à força de tiros de metralhadora. As salas de aula enchiam-se de cadáveres de adolescentes tagarelas, e a cena termina com grupos de jovens em debandada pelos pátios da escola enquanto os professores disparam a eito das janelas. Foi esse o momento que me congelou. Crianças a ser abatidas a tiro, requerendo até um obrigatório momento point of view da espingarda a apontar e disparar. Ridículo, consentâneo com o absurdismo assumido do filme. Congelei, mas não sou particularmente pruriente ou sensível para ficar chocado com filmes de terror. Há uma razão para esta sensação, e prende-se com os dias difíceis desta contemporaneidade do sangrento parto do século XXI.
O cinema de terror, especialmente o mais sangrento e cruel na forma como desmembra e trata o corpo humano, depende muito da percepção da sua impossibilidade real. Chocamo-nos, rimos, apreciamos aquela tensão macabra que estes filmes nos transmitem sabendo que na vida real não há hordes de zombies, assassinos macabros a desmembrar vítimas em sucessão rápida, criaturas mortíferas com especial apetite para entranhas humanas aquecidas à temperatura corporal, ou crianças abatidas a tiro nos recreios. É demasiado incrível, ultrapassa em barroquismos sangrentos os crimes chocantes que sabemos que acontecem. Esta é uma percepção que colide violentamente com as imagens que nos chegam nos media.
A nossa percepção do cinema de terror é profundamente alterada quando sabemos que uma organização como o Estado Islâmico produz vídeos de propaganda que rivalizam quer nos valores de produção quer nas atrocidades com os filmes mais extremos de horror gore. Só que as atrocidades não são aplicadas sobre próteses de efeitos especiais. São-no sobre pessoas. O sangue, as cabeças decepadas, os horrores da morte a acontecer ao vivo são bem reais e filmados com técnicas directamente inspiradas no cinema para ampliar o efeito propagandístico. As imagens que vemos das torrentes de refugiados que fogem das zonas de guerra são arrepiantemente similares à iconografia do cinema zombie. Basta trocar mortos-vivos a uivar nas vedações pelas massas de homens e mulheres desesperados nos bloqueios fronteiriços. Não são alvejados na cabeça, mas as violentas reacções de repúdio e rejeição do outro que grassam na opinião pública não andam longe disso.
Fica-se com a sensação arrepiante que não seria inaudito, e talvez aconteca com regularidade, que bandos armados abatam crianças a tiro nos recreios das escolas. Talvez na Síria devastada pelo IS, no norte nigeriano às mãos do Boko Haram, ou no Darfur pelas milícias sudanesas. O genocidio tornou-se uma notícia habitual nos telejornais. As forças negras da realidade apropriaram-se da estética do cinema de terror para prosseguir as suas políticas de terror sobre as populações. E a sensação de isto não pode nunca ser real abandonou as salas de cinema. Não deixarei de ser fã deste género de cinema, mas sinto que se perdeu a sua inocência, o seu carácter de irreal.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
O Regresso dos Sustos
Não sendo uma notícia completamente inesperada, uma vez que os organizadores da primeira temporada da tertúlia Sustos às Sextas já tinham assumido a vontade de lhe dar continuidade, é bom saber que o seu regresso já está a ser preparado. De acordo com os organizadores, a segunda temporada está confirmada, renovando a parceria com a Fundação Marquês de Pombal e garantindo que de Janeiro a Maio de 2016 os apaixonados pelas letras aterradoras tenham abrigo seguro no salão do Palácio dos Aciprestes. O programa está em preparação. Quanto a datas não há ainda informação, mas se olharem com atenção para o calendário de 2016 dir-se-ia que há uma sexta-feira perfeita para o evento. Não revelo qual. Façam um esforço. Vá lá, deslizem o cursor do vosso rato para o calendário e arrepiem-se.
É de sublinhar que a organização da tertúlia não só escolheu os dias do MOTELx para lançar esta boa novidade como está de parabéns por lançar a faísca da exposição de ilustrações das figuras míticas do terror correntemente integrada no festival de cinema. Esta teve a sua génese no Sustos às Sextas e tem sido bem aproveitada pela El Pep.
Deixo-vos com a nota da organização do Sustos (os infatigáveis João Castanheira, Sandra Araújo e António Monteiro):
É oficial!Com o terror em alta graças ao MOTELx, que está em grande destaque esta semana, a Organização dos Sustos às...
Posted by Sustos às Sextas on Quarta-feira, 9 de Setembro de 2015
(Sabem o que é que isto quer dizer, não sabem? Mais oportunidades para trincar aquelas belas bolachinhas de gengibre em forma de morcego!)
MOTELx 2015: Tag
Tag (Sion Sono, 2015)
Quem não se orienta a tempo de adquirir bilhetes para a sessão de abertura tem de se contentar com as sessões paralelas. E ainda bem, senão facilmente me escaparia este bizarro filme gore fetichista que consegue ser tão feminista quanto filme de exploitation. Livremente baseado num romance sobre um jogo mortal, leva-nos num périplo delirante onde mundos paralelos se fundem, cada qual mais bizarro e sangrento. Não é intencionalmente claro que forças malévolas atormentam Mitsuko, a jovem e inocente protagonista. Sublimações de pulsões de descoberta da sexualidade, com alguns momentos de muito óbvia sugestão amorosa entre adolescentes? Espíritos e forças malévolas? Jogadores que se divertem com que acreditam ser personagens cuja existência termine quando se desliga o dispositivo? Ou, como sugere no final, personagens de carne e osso criadas a partir do ADN de uma vítima como material de um jogo onde a fantasia e o real colidiram?
A confusão do espectador espelha a da personagem, constantemente a fugir de situações que não compreende até o seu sacrifício final pôr fim à sucessão de estranhos mundos. Algo que me parece típico do horror japonês, quer em cinema quer noutros meios. Obedece a uma lógica que não se compadece com as nossas expectativas de linearidade, tornando-o profundamente surreal. Ou isso, ou há qualquer pressuposto muito óbvio advindo da cultura japonesa que me é completamente invisível. Tag lega-nos cenas de gore memoráveis, desde o brilhante arranque com dois autocarros carregados de lolitas tagarelas subitamente cortados ao meio, deixando uma estrada coberta com corpos decepados, à inexplicável cena de um casamento onde o noivo salta de um caixão revelando a sua gigante cabeça de suíno. Quase me esquecia da tendência perversa do vento que teima em levantar as curtas saias para revelar as cuequinhas das adolescentes colegiais. Sintoma de um fétiche muito japonês.
Num aceno à minha profissão confesso um carinho especial pela cena em que as professoras de um liceu para raparigas impõem disciplina às discentes com caçadeiras e metralhadoras gatling. Quantas vezes gostaria de..., pensei.
A fotografia é muito bela, com a câmara quase sempre centrada em Mitsuko em composições de grande equilíbrio estético. E assinale-se que a protagonista corre muito. Numa escala WASD, digamos que a tecla W foi a mais massacrada.
Dylan Dog #331: La Morte Non Basta
Giovanni Di Gregorio, Gianluca Cestaru (2014). Dylan Dog #331: La Morte Non Basta. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Uma aventura curiosamente mórbida do detective dos pesadelos. Após a morte violenta de uma namorada, Dylan sente-se particularmente desconsolado e amaldiçoa os desaires da vida. A Morte, personagem recorrente na série que tem motivos nunca revelados para proteger Dylan, ouve-o e decide fazer uma experiência. Nos dias seguintes Londres enche-se de pessoas que regressaram da morte para executarem assassínios aparentemente aleatórios. Dylan e o Comissário Bloch sentem-se incapazes de compreender esta estranha situação. Não é um surto clássico de zombies, são reviventes que regressam apenas para cumprir uma única tarefa mortal. O único ponto em comum parecer ser o facto das vítimas estarem todas em estado terminal, ou por doença ou por depressão. Tão subitamente como começou a vaga de estranhos assassínios termina, deixando Dylan ainda mais angustiado. É este o momento que a Morte escolhe para intervir e confessar a Dylan que tinha decidido fazer uma experiência, deixando o fardo de ceifar vidas nas mãos dos humanos para poder descansar um pouco. Falhou, porque em vez de cumprir a séria tarefa estes optaram pela violência cega ou por vinganças pessoais. Os homens são demasiados humanos para que lhes seja confiada uma tarefa tão séria. Com um suspiro, volta a pegar na sua foice e afasta-se.
Conto de horror com toque gótico, é um dos melhores episódios recentes do personagem, assinado por Giovanni Di Gregorio. O estilo gráfico, não se afastando do cânone da Bonelli, dá-nos algumas pérolas góticas em cemitérios clássicos.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Cal de Ter
P.-J. Hérault (2012). Cal de Ter L'Integrale Tome 2. Paris: Milady.
Paul-Jean Hérault é um dos nomes clássicos da ficção científica francesa, autor desde os anos 70 de algumas dezenas de livros para a colecção Fleuve Noir Anticipation. Cal de Ter é uma das suas séries mais longas numa obra que inclui outras séries de space opera, como Gurvan. Esta é uma série típica de ficção científica pulp clássica. Sofre por isso das suas virtudes e defeitos. Se o nível de aventura e o dinamismo narrativo são elevados, a especulação futurista fica-se pelo elemento decorativo para dar cor à série. Cal é o típico herói esclarecido, de acção rápida e capacidade de discernimento acima da média, e o seu companheiro Giuse é o típico amigo do herói, mistura de comic relief com ouvido atento para as explicações que se destinam a que o leitor compreenda a história. Momentos que acontecem apesar de Hérault ser parco em infodumps. A tecnologia aparece sem explicações. O artifício de colocar os heróis numa base abandonada por uma desaparecida civilização galáctica é uma boa desculpa para Hérault não se preocupar com explicações alongadas para as tecnologias da série. São livros intrigantes para se conhecer melhor a FC europeia, mas de escrita datada, produzidos para manter o ritmo de edição das colecções.
Tendo escapado de uma Terra destruída num cataclismo, Cal e o seu fiel amigo Giuse abrigam-se no planeta Vaha, local paradisíaco onde encontram uma bem abastecida base de observação dos Loys, alienígenas extintos graças a um vírus misterioso. Estes espalharam-se pela galáxia, semeando os planetas terraformáveis com a sua tecnologia, mas utilizá-la tem um preço. Os Loys regiam-se por leis muito restritivas no contacto com outras espécies sentientes. A sua tecnologia pode ser livremente utilizada excepto se no planeta em questão existir vida nativa. Isso acaba por ser uma grande vantagem para os dois amigos. Com uma base de alta tecnologia à sua disposição, controlada por potentes supercomputadores, abundando recursos, robots e dispondo de tratamentos regenerativos e equipamentos de hibernação, Cal e Giuse eternizam-se no planeta. A galáxia devastada pelas pragas e a Terra aniquilada deixam-nos quase náufragos, mas náufragos de luxo a viver aventuras por entre os nativos enquanto, subtilmente, os influenciam na evolução civilizacional.
Hors Contrôle: Cal e Giuse acordam de uma longa hibernação em alerta: HI, o super-computador que controla a base Loy, fritou uma placa de controle e considera os humanos como perigosos intrusos. Só lhes resta fugir, acompanhados dos fieis robots, e encontrar abrigo por entre os nativos de Vaha. E para isso nada melhor do que tomar conta de um navio pirata, salvar umas quantas vítimas e estabelecer um porto seguro onde ensinam os indígenas a construir uma marinha de guerra e criar um sistema bancário enquanto se envolvem com duas beldades nativas. Essencialmente este Hors Contrôle inicia-se como aventura pura em espaços futuristas de ficção científica clássica, desenrola-se como aventura naval em altos mares e regressa ao início num final em que a argúcia de Cal de Ter engana a inteligência artificial para conseguir regressar à base. O tipo de enredo baseado num artifício que deixa qualquer leitor mais atento a perguntar-se "então, mas porque é que só no final do livro é que se lembra de fazer uma coisa tão óbvia?"
37 Minutes Pour Survivre...: O super-computador que controla a base alienígena que permite a Cal e Giuse a sobrevivência no planeta Vaha dá uma notícia inesperada aos nossos heróis. Tendo sido capaz de calcular a rota por onde chegaram ao planeta, mostra-lhes o caminho de regresso à Terra. É uma oportunidade que não desperdiçam. Equipam duas naves e, com a sua fiel equipa de andróides obedientes, atravessam as galáxias entre Vaha e o seu planeta de origem. A Terra que encontram é um planeta a recuperar dos cataclismas atómicos que o destruíram na guerra a que Cal e Giuse escaparam. As cidades são ruínas (como bom escritor francês, Hérault dá-nos um olhar particularmente detalhado sobre os escombros das maiores cidades francesas), a natureza vai recuperando. Ao sobrevoar a américa do norte, Cal e Giuse encontram um grupo de sobreviventes decaídos no barbarismo. Construíram uma sociedade tribal baseada na lei do mais forte e esqueceram os conhecimentos mais elementares. Resta, talvez, como último bastião da civilização uma base australiana que abriga outro grupo de descendentes dos sobreviventes. Estes preservaram o conhecimento técnico e cientifico, mas também o ódio que provocou a guerra entre terrestres e colonos marcianos que se saldou pela destruição total dos dois planetas. Incapazes de acreditar no que Cal lhes conta sobre a sua odisseia espacial, accionam uma arma final que irá despoletar bombas atómicas nas fissuras tectónicas numa última tentativa de negar a posse da Terra ao que acreditam ser uma nova invasão dos colonos marcianos. Cal, Giuse e os seus robots conseguem travar a arma de destruição final no último momento possível. Desgostosos com o destino do seu planeta, os heróis decidem regressar aos encantos de Vaha para umas merecidas férias nas suas ilhas paradisíacas e para ver como é que se encontra a civilização dos indígenas, cuja evolução vão guiando entre intervalos de sono criogénico. Como dádiva final à Terra, treinam um jovem e inteligente sobrevivente para reiniciar a civilização científica avançada no berço da humanidade.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Urros

Tiziano Sclavi não dava ponto sem nó ao traçar a personagem de Dylan Dog. Dylan é uma colisão de influências. O nome homenageia ao mesmo tempo a poesia de Dylan Thomas e os policiais hardboiled. O tipo de personagem cruza o detective das histórias policiais clássicas com toques de Sherlock Holmes e os investigadores do sobrenatural da ficção de horror da viragem do século, especiamente John Silence de Blackwood. Tal como Holmes, Dylan medita nos seus casos tocando um instrumento musical. Um clarinete, a criar mais uma vertente de homenagem ao jazz, e não um violino como o personagem de Conan Doyle. Groucho, o seu assistente, é uma homenagem tão descarada a Groucho Marx que até o seu visual é imitado.
Boa parte dos argumentos de Sclavi inspiram-se directamente na literatura e cinematografia clássicas de terror. De Poe ao slasher movie, o argumentista colocou de tudo nas páginas de fumetti, sempre de forma brilhante e assumida. Também estabeleceu a tradição de utilizar directamente ou de forma aliterada nomes de actores, cineastas, artistas ou escritores nas personagens com que Dylan se cruza. uma tradição que os argumentistas que dão continuidade a Dylan Dog após a aposentação de Sclavi mantém.
Viver numa casa de estilo gótico numa rua imaginária de Londres é também em si uma homenagem literária, quer a Sherlock Holmes quer à tradição do gótico literário. O seu interior é uma pequena wunderkammer de objectos ocultos, também outro elemento estilístico característico do género.
Resta saber de onde vem a campanella urlante da casa, a campainha que grita ao toca, a avaria que Dylan e Groucho nunca mais reparam. Algo que só me apercebi há uns dias, quando vi episódios clássicos de Addams Family no YouTube e ouvi a campainha da casa dos Addams. Mais um dos mistérios de Dylan Dog desvendado. Fica por descobrir de onde é que veio a ideia de o colocar a conduzir um Volkswagen Carocha de matrícula DYD 666.
Comics
Material #04: Aposto que muitos escritores adorariam responder assim às questões mais intrusivas de alguns fãs. Este comic de Ales Kot distingue-se pela sua modernidade, apesar de não ser ainda aparente a forma como as quatro linhas narrativas se vão cruzar. A mais meta-texual e intrigante é a do filósofo envelhecido que está a servir de olhos para uma inteligência artificial conseguir experimentar a percepção humana. Mas as restantes não lhe ficam atrás. Há o sobrevivente de Guantánamo que se envolve com uma dominatrix e tem uma esposa que apesar de boa muçulmana recusa-se a não estar em pé de igualdade com o marido no que toca à sexualidade e sentimentos. O jovem afro-americano que caça polícias corruptos numa revolta inteligente inspirada no movimento Black Lives Matter. Já a linha do realizador de cinema dividido entre arte e comercialismo e da actriz inexperiente que escolhe como musa é a que mais se afasta das restantes. Por si só, é um comic interessante, especialmente para os admiradores da filosofia de Virilio, Baudrillard e Debord ou fãs das edições da Zero Books. Sabem ao que me refiro. Amantes de especulações obscuras que tentam fazer sentido de uma modernidade inquietante. Resta-nos esperar pelo ponto de colisão das linhas narrativas.
Providence #04: Se estão à espera de um susto ou monstruosidade a salta da próxima vinheta, desenganem-se. Um dos elementos mais interessantes deste revisitar por Alan Moore da obra de Lovecraft é a forma está a manter e construir um progressivo sentimento de pavor sem recorrer a sustos. É suspense puro, e uma abordagem enciclopédica que interliga os seus contos mais influentes.
We Stand On Guard #03: Apesar de fazerem lembrar haunebus, estas naves de combate são uma alusão directa a essa outra narrativa de guerra futura que foi Buck Rogers, com as cidades flutuantes mongóis a sobrevoar uma América invadida e subjugada. Se não reconhecerem esta visão de Buck Rogers recomendo a leitura de Armageddon 2419 AD de Philip Nowlan e as primeiras tiras de banda desenhada, cujas imagens de cidades flutuantes são muito similares às naves desta vinheta. We Stand On Guard pareceu ser uma bizarria bem humorada, com a ideia implausível de um Canadá invadido pelos EUA. Mas estamos a falar de Brian K Vaughn, argumentista de peso que sabe olhar para o futurismo. Se a vénia a um clássico da guerra futura, subgénero da FC, está lá, quer na iconografia quer na ideia de uma força avassaladora que reduz o norte da américa a cinzas, há mais elementos incómodos. A resposta ao porquê da invasão é-nos dada nesta edição, com o desvio de recursos hídricos canadianos para fazer face à desertificação dos EUA. Esta é também a edição em que Vaughn antevê as horríficas possibilidades da realidade virtual enquanto instrumento de tortura.
domingo, 6 de setembro de 2015
Only shrapnel
Ian Bogost a acertar em cheio no carácter fragmentário da cultura contemporânea. Não há vozes dominantes, apenas uma míriade infinda de fragmentos.
Ian Bogost (2015). How To Talk About Videogames. Minneapolis: Minnesota University Press.
sábado, 5 de setembro de 2015
Colaborar com o aCalopsia
O aCalopsia precisa de ajuda para se continuar a afirmar como site informativo actualizado sobre banda desenhada em Portugal. Procuram-se especialmente colaboradores que estejam dispostos a assumir o papel de redactores, bloggers ou programadores capazes de meter ordem no CSS.
Pessoalmente refiro que tem sido muito interessante colaborar com este projecto do Bruno Campos. Tem-se mostrado um editor interessado e com uma visão de fundo para o projecto. É um espaço ambicioso ligado à cultura pop de banda desenhada, muito aberto a tangências com outras vertentes. E consigo pensar em duas ou três pessoas que poderiam responder ao desafio... (hint hint para o Que a Estante nos Caia em Cima ou o Rascunhos, por exemplo).
Se estiverem intrigados, rumem ao aCalopsia para saber como podem colaborar.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
The Star Diaries
Stanislaw Lem (1976). The Star Diaries. Nova Iorque: Avon Books.
Um destes dias tenho de procurar uma biografia ou estudo literário sobre a obra deste singular escritor polaco de Ficção Científica. Gostaria de perceber se o que dele se conta é real. Se a historia, provavelmente apócrifa, de Lem ser um escritor apaixonado pela FC anglo-americana que impedido de a ler por estar do lado de lá da cortina de ferro, escrevia da forma como pensava que os grandes nomes que idolizava escreviam. Algo que lhe causou desilusões quando finalmente pode contactar com as obras reais dos autores que idealizava.
A obra literária de Lem representa um tipo de ficção científica que talvez só agora esteja a atingir o reconhecimento público. Não me refiro à obra do autor, claro, que essa é bem reconhecida, mas à ideia de FC que não se fica pela aventura ou pelo didactismo especulativo. Um tipo de FC mais experimental, aberta a influências de outras áreas da literatura. Algo que Ballard explorou, e que escritores nossos contemporâneos (Mieville, Tidhar, tantos outros) estão a abordar, fazendo evoluir o âmbito da FC de tal forma que grupos mais tradicionalistas invocam a tristeza dos cachorrinhos para tentar impor visões retrógradas de um belíssimo antigamente é que era.
Não que a ciência, parte fundamental do binómio ficção científica, esteja ausente da obra de Lem. Ela está lá, e em força. Física, exploração espacial, cibernética, paradoxos temporais, robótica, evolução histórica, biológica e social são temas que encontram espaço nos seus contos. É na forma como se manifestam que se distingue o estilo único da voz deste escritor. Elementos que na Hard SF seriam rigorosamente explanados ou fariam parte do cenário no género aventuras no espaço são usados por Lem com uma sorridente ironia, peripatética, excêntrica e inesperada. Como se se tratasse de uma colisão optimista entre as visões do mundo de Borges e Ballard.
O que fica da leitura são histórias abrangentes, que mesclam o fantástico com ironia, mais profundas do que aparentam ser. Traem uma visão do mundo talvez condicionada pelas incongruências da vida num regime e sociedade distópicos que se viam como utópicos. Os absurdos dos sistemas políticos não questionados pelas populações são um dos grandes elementos destes diários.
A ficção científica de Lem segue um caminho diferente da FC clássica. Assente na especulação científica, não segue didactismos especulativos, optando por entender o futuro como um espaço cheio de possibilidades imprevisíveis. Espaço amplo, onde tudo poderá ter lugar. Perfeita razão para explorações onde o inaudito e o surreal imperam. O futuro não tem de ser uma projecção extrapolativa do presente, e a nossa condição de normalidade pode parecer altamente bizarra aos olhos de outros.
The Seventh Voyage: Com o foguetão paralisado por uma avaria, Tichy mergulha numa zona onde o tempo colapsa e a nave começa a ficar infestada de Ijons Tichys do passado e do futuro, que coexistem numa ruidosa simultaneidade.
The Eight Voyage: Ijon Tichy é eleito delegado da humanidade para a sua introdução na comunidade de planetas unidos, mas a história violenta, as conquistas científicas destrutivas e a falta de progresso social não convencem as restantes civilizações de que a vida na terra seja inteligente e civilizada.
The Eleventh Voyage: Tichy é enviado numa missão secreta a um planeta dominado por robots, que expulsaram os humanos e professam odiá-los de morte. Mas, na superfície, acaba por descobrir que os robots originais enferrujaram há muito, e o que aparentam ser robots são humanos disfarçados, outros agentes secretos julgados como mortos pelos que os enviaram, incapazes de perceber que a sociedade que infiltraram não existe. O se perpetuou foi um mito imposto pelo governo do planeta, às mãos de um frágil homem que se esconde por detrás de um aparente super-computador.
The Twelvefth Voyage: Testando um novo dispositivo de dilatação temporal inventado pelo inefável professor Tarantoga, Tichy sofre uma experiência aterradora num planeta distante. Os nativos capturam o dispositivo, o que provoca uma evolução acelerada, e Tichy vai-se alternado entre deus, pária e sacerdote até o conseguir reaver e regressar à Terra. As evoluções sociais dos indígenas alienígenas são uma amarga caricatura da nossa história.
The Thirteenth Voyage: Partindo em busca do mais brilhante pensador da galáxia, Tichy vê-se capturado num planeta cujo governo embarcou numa missão progressista única. Ali, a submersão é vista como o mais desejável, e as cidades vão-se afundando progressivamente para que os habitantes se habituem a respirar debaixo de água. Quando consegue escapar desta utopia aquática, é capturado pelos habitantes do planeta vizinho, que têm como regra o mudar de vida e profissão de 24 em 24 horas.
The Fourteenth Voyage: Depois de reparar o seu foguetão com um cérebro eletrónico novinho em folha, Tichy decide fazer um safari num planeta distante. Este planeta é constantemente assolado por meteoros, mas mal se nota. Tudo existem em duas e terceiras vias, prontas para substituir o que quer que seja destruído nos cataclismas diários. Até os seus habitantes têm substitutos que são também substitutos de substitutos. Assim, o local mais terrível da galáxia passa por paraíso de placidez e estabilidade.
The Twentieth Voyage: Regressado de mais uma viagem, Tichy é confrontado por um futuro Tichy que se materializa na sua sala de estar. O seu destino, diz-lhe, é ir para o futuro liderar uma organização que se dedica a corrigir a história cósmica, para tornar todo universo um local mais agradável. Tichy aceita, mas tudo corre mal. Todos os planos são estragados pelos cientistas da organização. Uma experiência azarada dá origem ao sistema solar, sucessivas tentativas de endireitar o eixo de rotação da Terra deixam-no na posição em que o conhecemos, biólogos criativos divertem-se a criar formas de vida ao longo das eras geológicas. Desistindo da evolução geo e biológica, o instituto vira-se para a história, mas nem aí as coisas correm bem, com a complicação adicional das interferências dos cientistas caídos em desgraça que Tichy exila no passado. Ou seja, toda a evolução do sistema solar, planetária, das espécies e da humanidade como a conhecemos teve origem nos falhanços da tentativa de criar uma humanidade perfeita. As grandes mentes da humanidade são cientistas do futuro exilados no passado. O que consola Tichy é que se assim não fosse, ele não existiria para ser o director do instituto cujas intervenções, por correrem mal, deram origem ao mundo como o conhecemos e para correcção do qual se tornou necessária a criação do instituto cujas intervenções desastrosas provocaram as situações que visa corrigir. Paradoxos temporais absurdistas e a história humana como laboratório de alucinações temperam esta história. Hyeronimus Bosch como um biólogo exilado para a idade média por ter povoado a era paleozóica de criaturas que contrariaram os diktats institucionais.
The Twenty-First Voyage: Aterrando a sua nave num planeta onde os utensílios crescem nos campos e nas florestas são percorridas por mobiliário selvagem, Tichy é acolhido por um grupo de monges robots que se dedicam à completa não-evangelização. Nos livros que estes lhe emprestam, o intrépido explorador do cosmos descobre a história de um planeta cujas ciência e filosofia levaram os seus habitantes a ultrapassar todos os limites da carnalidade, excedendo-se na manipulação dos seus organismos. Essencialmente uma longa meditação sobre os absurdos dos transcendentalismos, quer por tautologias religiosas quer por manipulação biológica.
The Twenty-Second Voyage: Pensando que perdeu o seu querido canivete, Tichy viaja de planeta em planeta à sua procura. Num planeta remoto conversa com um padre evangelizador, que lhe conta a triste história de um colega. Com a tarefa de evangelizar a espécie alienígena mais bondosa da galáxia, é tão bem sucedido que estes o torturam até à morte, replicando no seu corpo as histórias pias dos mártires da igreja, acreditando febrilmente que a martirização é o que o evangelista mais deseja.
The Twenty-Third Voyage: Uma visita ao planeta mais exíguo da galaxia, onde os diminutos habitantes têm mesmo muito pouco espaço para viver, leva Tichy a descobrir as maravilhas de um revolucionário sistema de transportes. Sempre que um dos habitantes do planeta se quer deslocar, vai até um atomizador para ser desfeito, guardado e enviada uma cópia para o seu destino.
The Twenty-Fifth Voyage: Seres misteriosos atacam foguetões nas proximidades de um sistema remoto. Acabam por se revelar batatas, transplantadas para um ambiente inóspito que as leva a evoluir até se tornarem uma espécie predatória. Após descobrir o segredo dos misteriosos seres, o Prof. Tarantoga parte em busca de uma civilização que vive no plasma de uma estrela. Tichy persegue-o, tentando manter um encontro ao qual se atrasou por avaria no foguetão. O conto termina com os seres plasmáticos a reflectir sobre o ridículo que seria haver vida inteligente baseada em proteína, longe das altas temperaturas das atmosferas estelares.
The Twenty-Eight Voyage: Numa longa e distante viagem, Tichy recorda os feitos bizarros dos seus antepassados, inventores idiosincráticos de sistemas e equipamentos que chocaram os seus contemporâneos. Termina reflectindo que navigare necesse est.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Styx
Bavo Dhooge (2015). Styx. Nova Iorque: Simon & Schuster.
Raphael Styx é um típico polícia veterano, corrompido pelo sistema. Acredita piamente na justiça enquanto espanca suspeitos e faz negócios com criminosos ligados ao contrabando. Também acredita na felicidade familiar, apesar do filho não lhe falar e a mulher estar cheia de vontade de pedir um divórcio. Tem de aturar na esquadra um chefe demasiado intrometido na sua vida pessoal e um colega novo, um belga de raízes congolesas que decidiu passar a vestir-se como um sapeur após o suicídio da irmã.
Styx está embrenhado numa caça ao homem. A sonolenta e provinciana cidade de Ostende está a ser palco de uma vaga de assassínios macabros cometidos por um assassino em série que se inspira nas obras icónicas dos pintores surrealistas belgas para dispor os corpos das suas vítimas. Quando confronta o assassino, o impensável acontece. Styx é abatido, mas renascerá como um zombie que vai apoderecendo pelas ruas da cidade enquanto continua a busca pelo psicopata. Renascido na morte, confronta os dilemas da sua antiga vida, descobre que é capaz de saltos ao passado para visitar a Ostende da Belle Époque, apercebe-se que de vez em quando convém dar umas trincadinhas em carne humana para se manter um morto-vivo apresentável, e só poderá contar com a ajuda do colega cuja propensão para roupa cara e garrida não consegue compreender.
Um mimo, este pequeno romance policial com um toque de horror do escritor belga Bavo Dhooge. Leitura rápida que desperta e mantém a curiosidade do leitor, faz bom uso das estruturas narrativas do policial com um toque do visceralismo do terror zombie. O recordar das belas artes belgas, com referências a Ensor, Delvaux e Magritte, dão-lhe uma certa elegância erudita. Styx será editado em novembro de 2015.
Mergulho na Fé
Arquivar em coisas bizarras que se ouvem na rádio: escutar a voz cristalina de uma apresentadora a falar de fait divers, pronunciando duas ou três vezes a expressão em inglês. Soava a qualquer coisa como faith divers. Em vez de factos diversos, disse mergulhadores da fé, algo que até poderia soar bem se ela não estivesse mesmo a falar de faits divers. Ninguém entre os restantes apresentadores pareceu dar conta do torpedeio linguístico. Até fiquei em dúvida. Será que andei toda a uma vida a pronunciar mal a expressão?
Vou empinar o nariz e comentar que é típico das caras bonitas intercambiáveis que funcionam como figuras de renome na nossa paisagem mediática.
(Com a extinção de facto mas não de jure do Francês no ensino básico e sua substituição por Espanhol, devo pertencer a uma das últimas gerações de portugueses que ainda compreendem a língua francesa.)
Vou empinar o nariz e comentar que é típico das caras bonitas intercambiáveis que funcionam como figuras de renome na nossa paisagem mediática.
(Com a extinção de facto mas não de jure do Francês no ensino básico e sua substituição por Espanhol, devo pertencer a uma das últimas gerações de portugueses que ainda compreendem a língua francesa.)
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
As Mil e Uma Noites Volume 1: O Inquieto
"Então é assim, Fortuna, relegas para a sombra os mais sábios, e o governo do mundo abandonas aos mais néscios".
Surpreende-me que não tenham ainda saído a público vozes que critiquem a estreia desta trilogia de Miguel Gomes em época eleitoral. Talvez por fazer parte daquele tipo de cinema português do qual se lê com pontinha de orgulho nacionalista a boa crítica saída no estrangeiro mas que não enche salas de cinema. O tipo de cinema que não chega às massas, passando debaixo do radar daqueles tipos engravatados e bem apessoados que estão nos meios de comunicação a comentar as actualidades, explicando-nos tudo muito bem explicadinho porque não temos a sabedoria necessária para entender a justeza e grandeza das decisões que nos afectam. É que este não é um filme cómodo e subserviente aos interesses das principais forças políticas. Muito pelo contrário.
Oscilando entre a fina ironia e o documentário puro, As Mil e Uma Noites Volume 1: O Inquieto assume à partida uma postura crítica destes anos de austeridade, troika, contracção económica, perda de direitos sociais e empobrecimento generalizado. Começa como documentário puro, levando-nos ao rescaldo do encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo intercalado com as aventuras de um inventor que combate uma invasão de vespas asiáticas. Mas depressa se revela incapaz de enfrentar a realidade, dura, inquietante, e refugia-se numa fantasia que inspirando-se no feérico das mil e uma noites vai permitir olhar de frente para os dramas que nos dilaceram enquanto nação. Com as inúmeras possibilidades de vozes documentais que se consolidariam num padrão, resta a metáfora para nos contar a história real. Aquela que conhecemos da nossa experiência pessoal de viver num país-laboratório de técnicas de regressão social e económica camufladas
Não é um filme que nos deixe indiferentes. Sorrimos com a ironia ou a crítica em humor sem limites. Dá um certo gozo saber que o primeiro ministro português é retratado como um idiota incapaz e impotente (a caricatura inclui o pin com a bandeirinha à lapela), que as audiências dos festivais internacionais de cinema vão poder ver esse retrato. As mesmas audiências que vão ouvir os relatos dolorosos dos trabalhadores descartáveis e desempregados varridos pela sanha neoliberal. O fantástico surreal está ao serviço de uma fortíssima consciência cívica, através da qual os dramas do viver neste país austerizado são sublimados. A narrativa não é linear, sendo episódica e geograficamente dispersa.
De certa forma, este filme fez-me pensar o quanto parece uma inversão de O Princípio da Sabedoria de António de Macedo. Este também é episódico e fantasista (e delirante, delicioso, surreal e com uma estética espantosa), mas o carácter que mais sobressai é o seu optimismo. Filme de 1975, mostra que era possível sonhar, pensar, fazer e agir de forma livre. Sintoma da promessa de um país liberto do jugo da ditadura e ao qual o futuro parecia abrir-se. Quarenta anos depois, a primeira parte deste As Mil e Uma Noites mostram num 2015 a derrocada dessas utopia num país amargo e sem futuro. E não se augura que as restantes sejam mais risonhas. É uma chapada cultural na complacência com a nossa ruína, o retrato do que conhecemos e que contraria o discurso optimista de responsáveis políticos interessados em ofuscar a dura realidade em que nos mergulharam.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Finches of Mars
Brian Aldiss (2015). Finches of Mars. Nova Iorque: Open Road.
A acreditar no que se lê sobre este livro, é com esta vénia que Brian Aldiss despede-se da ficção científica. E que vénia. Finches of Mars é FC depurada, mais próxima do experimentalismo literário legado ao género pela New Wave do que da rígida estrutura narrativa entre aventura e infodump que caracteriza a maior parte desta literatura. O enredo é traçado com grandes pinceladas, sem mergulhar em pormenorizações. Se este livro fosse um quadro, seria uma obra impressionista. Ou uma paisagem abstracta de De Stäel. O todo está lá, mas quando nos aproximamos para contemplar os pormenores esfumam-se nas pinceladas largas.
Fugindo aos pressupostos do que deve ser um romance de FC, assemelha-se a um rascunho estrutural que, nas mãos de outros escritores, daria material para uma infindável série de múltiplos livros que explorariam até à exaustão os inúmeros caminho que Aldiss expressa. A tentação de escreve escritores menores que Aldiss é grande, mas seria incorrecto. Grandes escritores de FC também fariam o mesmo. Mas é bom ler esta capacidade sintética, pegar num livro com o seu quê de épico e saber que não se vai espraiar ao longo de milhares de paginas em diversos volumes.
O título não nos prepara para o romance, embora o defina na perfeição. É algo que só nos apercebemos ao terminar o livro, demonstrando a escrita de um mestre como Aldiss, que nos vai levando pela mão através dos caminhos ínvios da sua mente até a um destino certo. Os tentilhões do título, referência directa à Origem das Espécies de Darwin, são a chave da obra.
Não esperemos um futuro risonho. O futurismo, aqui, é desolador. Estamos num futuro próximo, com a humanidade a começar a dar os primeiros passos no sistema solar. A Lua é habitada continuamente, apesar de haver uma restrição de noventa dias de permanência por razões de saúde. As primeiras bases marcianas, financiadas por uma improvável coligação de universidades, estabelecem a primeira colónia humana no planeta vermelho. Quem para lá vai sabe que não há possibilidade de regresso. Aldiss não é um optimista, sublinhando os efeitos nocivos das viagens pelo espaço sobre o corpo.
Abrigados em torres, os colonos marcianos vivem uma vida regrada na nova fronteira. São assolados por um trágico mistério, que coloca em perigo a viabilidade da colónia. É impossível levar a cabo uma gravidez bem sucedida no planeta, e as tentativas dos colonos traduzem-se numa desolação de fetos nado-mortos. Talvez, intuem, sejam necessárias adaptações biológicas evolucionárias para que os ventres humanos possam parir noutro planeta.
Aldiss não escapa à tentação de povoar o planeta com formas de vida alienígena. Fá-lo com uma espécie de lagartos mamíferos que sobrevive nas profundezas marcianas, onde há água em abundância, e talvez o ecossistema que permite a sua existência. Estranha-se este uso do artifício da criatura isolada encontrada num planeta desprovido de vida, esquecendo que formas de vida complexas não existem por si só mas dependem de ecossistemas, mas as pinceladas amplas do romance abrem espaço a esta ideia.
Sabendo que não há regresso possível, que a vida é difícil num planeta inóspito, que não parece haver esperança numa primeira geração de colonos nascidos em Marte, o que é que os leva a fazer a viagem? Aldiss, claramente influenciado pelos tempos contemporâneos, traça um retrato de um planeta à beira da extinção. As guerras violentas sucedem-se, os mais poderosos países são invadidos e os conflitos envolvem o uso desregrado de armas nucleares. Mesmo no final do livro, Marte perde o contacto com a Terra, e se não nos é dito o porquê, não é difícil intuir.
Para romance de FC, este é especialmente desolador. Mas haverá um bizarro, quase surreal mas também nostálgico, toque de esperança. Os sobreviventes em Marte serão visitados pelo que a principio parecem ser alienígenas, mas se revelam humanos vindos do futuro, seres cuja biologia evoluiu para se adaptar à vida fora do planeta Terra. E os colonos marcianos, que se julgam à beira da extinção pela incapacidade orgânica de levar a gravidez a cabo, são os antepassados directos desta futura humanidade que aos nossos olhos parece alienígena. É aqui que entram os tentilhões de Darwin, referência erudita à teoria da evolução. O momento do primeiro contacto é uma homenagem de Aldiss à FC clássica, com um casal a ser surpreendido por uma nave que aterra e de onde saem três estranhas criaturas que os saúdam. É um momento tão filme de série B que é impossível não sorrir.
Finches of Mars é um romance inquietante. Desolador, longe do optimismo da FC mais actual, mas também a não se meter no campo das distopias. É... diferente. Essa diferença é sublinhada pelo forte lado experimental na técnica narrativa. Não há longos infodumps a enquadrar aventuras bem gizadas. Este romance constró-se em fragmentos, por vezes dispersos, sem um grande esforço em aprofundar as personagens nem em definir os momentos da história. Este carácter fragmentário, em mãos menos experientes do que as de Aldiss, condenaria o livro. Não é o caso. Lê-se como se contempla um quadro impressionista. São manchas fragmentadas o que vemos de perto, e é quando nos afastamos que nos apercebemos da beleza do conjunto.
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