segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Comics


Arcadia #06: Um detalhe fantástico neste comic distópico pós-apocalíptico em que a humanidade sobreviveu a uma pandemia global transferindo as consciências dos indivíduos para um mundo virtual que replica as injustiças e disfunções do mundo físico. Com variantes, como esta mina de bitcoin com trabalho escravo, matéria valiosa no espaço virtual.


Art Ops #01: Uma nova série com uma premissa estranha para os padrões da Vertigo: as obras de arte são reais, vivas, e precisam de ser defendidas por uma organização secreta que se dedica a proteger os ícones artísticos, substituindo-os por agentes e protegendo-os em vidas anónimas. É o que explica a Mona Lisa a frequentar super-mercados e a apaixonar-se pelo rapaz simpático do atendimento. Com Michael Allred a ilustrar, o deslumbre é garantido.


Where Monsters Dwell #05: E assim se concluem as aventuras de Phantom Eagle, desastrado às dos ares que sem saber muito bem como conseguiu sobreviver a dinossauros carnívoros, pigmeus vingativos, uma tribo de sensuais amazonas sáficas e especialmente às maquinações de uma viúva feminista militante em fuga. Bully for you, chum, que a má da fita terá de se render ao terrível destino de viver nos trópicos rodeada de louras esculturais. Garth Ennis não se poupou a estereótipos nesta divertida série.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Breviário para um Extermínio Silencioso



Corporate drone. Não sei traduzir esta expressão, que descreve muito bem aquelas pessoas com que nos cruzamos que parecem incorporar os ideais corporativos das empresas onde trabalham. São detectáveis à distância. Usam uma espécie de uniforme, com fato de corte e gravata de cor suavemente berrante, ou tailleur com adereços de moda, a projectar uma imagem de dinamismo conservador e próspero. Comportam-se como alfas obedientes aos ditames da alcateia, exageram num optimismo constante, e têm no olhar a indisfarçável expressão de nos considerarem descartáveis assim que os seus objectivos são atingidos. São capazes de defender o indefensável e torná-lo aceitável utilizando expressões difusas, sinónimos suaves de palavras atrozes, que disfarçam a dureza e frieza do que nos querem impor a bem da nação ou da organização, sempre com sorridentes como deve compreender ou mas repare que ou o cumprimento do disposto é o desejável ou temos de ser responsáveis. Talvez, fora das horas de expediente, regressem à normalidade e voltem a ser humanos com sentimentos e desejos. Talvez tenham no coração os chavões repetidos até à exaustão nos retiros corporativos para onde vão regularmente fazer bonding e outras palavras estrangeiradas que soam modernas. Suspeita-se que em muitos casos a infecção viral da cultura corporativista estaja demasiado entranhada no organismo e se tenha tornado incurável.

Breviário para um Extermínio Silencioso é uma peça de ironia discreta mas cortante que toca nesta despersonalização do ser face à instituição corporativa economicista, que exige a sobreposição dos seus objectivos e projecções milimetricamente traçadas nas simulações económicas às necessidades humanas. É uma pura distopia económica. Estamos no século XXI. As distopias políticas ou pós-apocalípticas já não descrevem a ansiedade que sentimos perante a sensação opressiva transmitida pelas forças que movem o mundo. Já não tememos regimes totalitários nem desertos atómicos. Agora é a submissão do indivíduo face à projecção económico-financeira, ao memorando de entendimento, ao contratualizado, o que nos aterroriza. Porque sentimos a desconexão entre a necessidade de justiça e humanismo e a bonomia que tenta disfarçar a tirania institucional. Como observa certeiro o encenador Rui Neto, "a desapropriação de todas as liberdades individuais em função de uma lógica empresarial e do lucro, é a estratégia adoptada, silenciosa, invisível, maquiavélica e não inocente (...) como uma contracção da liberdade (até de pensamento), para um futuro social de escravatura". Aspectos em evidência no texto de Mike Bartlett, levado à cena pela Escola de Mulheres - Oficina Teatro.

Carla Chambel é uma jovem funcionária a quem a sua gerente faz exigências cada vez mais desumanizadas, em nome do estrito cumprimento da regras estabelecidas. Exigências duras, colocadas sempre com um sorriso, sempre com palavras amigáveis que avisam que o que pensamos que nos faz mal afinal não faz ou que o que não queremos é realmente o que queremos. Retrato hiperbólico das relações laborais na sociedade neoliberal, onde cada vez mais as escolhas se restringem ao consumo e a necessidade de manter o emprego se sobrepõe a tudo o resto. Isabel Medina é a gerente, intencionalmente representada num misto de Alice e da lagarta azul de Alice no País das Maravilhas na versão dos Jefferson Airplane. Questionadora implacável, desumana nas suas imposições, esmagadora na forma como verga os subordinados à vontade corporativa, sempre de sorriso melífulo e voz compreensiva.  Roger Madureira é o lacaio perfeito, autómato discreto e obediente. São interpretações fortíssimas, sempre a caminhar na fronteira entre a ironia e a frieza, mantendo o dramatismo sem resvalar na caricatura.

O cenário é espartano, centrado na interacção fria entre as personagens. Tem um detalhe intrigante que remete para as problemáticas da sociedade panopticon possibilitada pela tecnologia digital. Duas televisões que nos mostram vídeos cada vez mais invasivos da privacidade da personagem, símbolos da videovigilância pervasiva e da intromissão por sistemas digitais da intimidade individual em nome da segurança e da eficiência. Um detalhe arrepiante, apropriado a esta era em que os nossos amados dispositivos encerram em si a promessa de imposição de hipervigilâncias perante as quais os piores excessos dos regimes mais totalitários empalidecem.

Para conhecedores de ficção científica, textos deste género e as reflexões que suscitam são terreno bem conhecido. Fora deste contexto de nicho surpreendem, e são levados a alguns exageros melodramáticos para impressionar leitores e espectadores. Senti isso neste texto, com algum levar da espiral de tortura psicológica sobre a personagem vitimizada a exageros melodramáticos quando a lógica das ideias e a reflexão que provocam já estava bem definida. Esta é uma refilice válida para quem conhece bem as distopias de FC mas compreende que o público mais mainstream não está habituado a reflectir em certas consequências do papel das tecnologias e organizações sobre o espírito humano na tradição iluminista. Note-se que esse melodrama está ausente das interpretações, mantidas numa continuidade de frieza e distanciamento que sublinham a falta de humanidade presente na cultura corporativa contemporânea que a peça nos quer mostrar.

Breviário para um Extermínio Silencioso está em cena no local surpreendente do Espaço Escola de Mulheres - Clube Estefânia, em Lisboa, até ao dia 14 de novembro. Podem saber mais na página facebook da peça. Zona tramada para quem vive fora da cidade e depende do automóvel para poder participar nestas actividades culturais, mas a peça faz valer bem a pena. O texto interessante, representações acutilantes, e uma ambiência imersiva fazem deste um espectáculo teatral a não perder.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Futuro 1980


 Enfim, alguns maus usos deliberados (secretos ou revelados) dos sistemas de informações, tanto por funcionários como por indivíduos privados e desenvolvimento de um sistema de protecção para os indivíduos.



Muitos trabalhadores a tempo parcial ou intermitente. Uma forma qualquer de garantia anual do rendimento (explícita, reconhecida, ambígua, intermediária). Perda das «alavancas» tradicionais (a religião, a tradição, as pressões económicas e militares). Por consequência, uma busca do fim e do significado. 


Desenvolvimento de culturas pluralistas em forma de mosaicos, exibindo uma grande diversidade de estilos de vida a maior parte esotéricos, exóticos, comunais, com enclaves utópicos e subculturas, mas com uma grande mobilidade entre os enclaves e as subculturas. A roupa e o estilo de vida podem reflectir a filosofia de base, o papel, a vocação, com pouca imitação — e mesmo a rejeição— do estilo da classe superior. 

Herman Khan, o senhor termonuclear, a antever de forma muito presciente aquilo que se tornou o nosso mundo contemporâneo. A primeira citação, então, ressoa de forma incrível nesta era pós-Snowden, em que sabemos o quanto obscuras agências governamentais vigiam e observam a nossa pegada digital. As restantes não lhe ficam atrás, com o regressar da precariedade nas relações laborais ou a pulverização da ideia monolítica de uma cultura homogénea comum a todos numa míriade de fragmentos de interesse e nichos culturais. Ideias surpreendentes, que tão bem se aplicam à nossa contemporaneidade, vindas de um passado já algo distante. Estes textos são dos anos 60 e 70, e procuravam especular de forma informada sobre o que seria a vida nos anos 80.

O retro-futurismo é intrigante. Podemos aprender muito sobre o tempo em que vivemos e a forma como o projectamos nos futuros hipotéticos olhando para trás, para a forma como os que nos antecederam especularam sobre o que ia ser o seu futuro. Encontrei estes textos muito por acaso, ao vasculhar as estantes da Livraria do Mercado durante o festival Folio em Óbidos. A edição é de 1970, parte da colecção Cadernos do Século da Editorial O Século, e traduz para português uma edição especial do Le Figaro que suspeito datar dos anos 60. Naqueles tempos, 1980 parecia um futuro distante.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Dylan Dog #291: Senza trucco né inganno


Giovanni Di Gregorio, Fabio Celoni (2010). Dylan Dog #291: Senza trucco né inganno. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura surpreendente e cativante. Qual será o segredo de um mago dos palcos,  cujos truques de prestidigitação parecem insondáveis aos seus rivais? Este tem de facto algum poder, não de magia, mas de materializar o impossível por fugazes momentos. Consegue até fazê-lo com a sua bela assistente, uma alma inquieta morta num terrível acidente ao ensaiar um novo número de um mago rival, que não a sabendo falecida, crê que foi trocado pelo novo e bem sucedido mago. Dylan acaba envolvido neste triângulo, e apaixona-se pela mulher cuja existência física se mede em poucas horas a cada materialização. O grafismo expressivo da ilustração também se destaca.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

The Land of the Green Man


Carolyne Larrington (2015).  The Land of the Green Man - A Journey through the Supernatural Landscapes of the British Isles. Londres: I. B. Tauris.

A leitura deste livro mostra-nos o quanto a literatura fantástica está contaminada pela visão vitoriana do folclore tradicional das ilhas britânicas.  O que não é em si surpreendente. Os autores que deram forma à visão contemporânea de fantasia, Machen, Lewis, Tolkien,  Gaiman, entre outros,  foram beber inspiração às suas raízes.  É destas raizes que a autora nos fala nesta obra que percorre um caminho periclitante entre estudo académico e divulgação literária.

Pela mão conhecedora da autora, claramente mais erudita do que faz transparecer,  somos levados num périplo pelas lendas e tradições das ilhas britânicas,  histórias passadas de geração em geração que antecedem a história da anglicidade. Terras submersas, criaturas de terror que exercem predação sobre humanos descuidados, a dualidade amoral das fadas, seres telúricos cujas interacções com os homens se saldam em tragédia,  bruxas, lendas arturianas, dragões e essa colisão entre nostalgia por um passado mitificado e as pressões ecológicas que é o homem verde, constructo relativamente recente. São alguns dos elementos que redescobrimos neste livro.

Escrevo redescobrimos porque são temas e personagens que nos são familiares da iconografia da literatura,  banda desenhada e cinema. A autora mostra muito bem os paralelismos entre as lendas tradicionais e algumas das obras mais conhecidas e marcantes da literatura fantástica. Mostra também como essas visões foram recolhidas no século XIX por uma legião de clérigos e personalidades locais que, ao preservar as narrativas tradicionais,  não resistiram a alterá-las com toques típicos da sensibilidade vitoriana, enfatizando o romantismo e eliminando a sexualização patente em muitas lendas. É difícil não reconhecer aqui um dos elementos característicos da fantasia literária contemporânea.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Comics


Clean Room #01: Um belíssimo exemplo do melhor do terror numa única vinheta. Depois de criar suspense e dar vislumbres de monstruosidades, vira-se a página e deparamos com uma prancha negra. Que seja a imaginação do leitor a construir o terror. É uma técnica que ultimamente, mercê do gosto dos ilustradores e modeladores 3D em criar intricadas criaturas de horror, anda arredada do terror na banda desenhada e cinema. Visões fantásticas, que deixam para segundo plano impacto do suspense.


Karnak #01: Warren Ellis tem andado a queixar-se no Orbital Operations de como este personagem amoral e desumano lhe anda a entrar na cabeça. Nota-se. Ellis tirou o pó às filosofias solipsistas com uma náusea humanista que deixaria Sartre deprimido. Já na construção formal da narrativa, o argumentista usa a mesma técnica cinematográfica que aprimorou em Moon Knight. Cada vinheta vê-se como um enquadramento de câmara, funcionando como cenas em sequência fílmica de ritmo marcante.


The Steam Man #01: Os conhecedores dos primórdios da ficção científica não são alheios a The Steam-Man of the Prairies, uma edisonade de Edward Ellis, escritor popular do século XIX. O desafio de recriar o personagem foi entregue a Joe R. Lansdale, que o revê em linhas de terror grimdark. O argumentista caminha numa linha sinuosa entre terror visceral e fantástico juvenil enquanto coloca em jogo as peças da narrativa. Ainda não percebi se foi bem sucedido ou não.

domingo, 25 de outubro de 2015

Insta


Durante o espectáculo a criança vira-se, corre e diz com voz alegre mamã, já sei como é que se chama o elefante. É o Solimão, disse o senhor... 



(A Viagem do Elefante em Óbidos e Lego Fan Event nas Caldas da Rainha.)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Make: Design for 3D Printing


Samuel Bernier, Bertier Luyt, Tatiana Reinhard (2015). Design for 3D Printing: Scanning, Creating, Editing, Remixing, and Making in Three Dimensions. Sebastopol: Maker Media.

Já se sabe que este tipo de livros da Make: não se destacam pela profundidade, sendo guias abrangentes mas algo superficiais. Não deixam de ser bons pontos de iniciação a tecnologias e técnicas de trabalho. Este destaca-se mesmo pela sua abrangência, na forma como aborda técnicas de trabalho que permitem modelar para impressão 3D. Está cheio de boas dicas sobre modelação com apps Autodesk (com especial incidência para o 123D Design), digitalização 3D e preparação de mesh para impressão. Bom guia introdutório, que desperta a imaginação para a aprendizagem de técnicas de trabalho para impressão 3D. Inclui, habitual nos livros sobre o tema, a obrigatória introdução hiperbólica sobre o potencial desta tecnologia e uma análise às melhores impressoras FFF no mercado, onde a beethefirst ombreia com as makerbots, claramente a impressora de eleição no Fablab de origem dos autores deste guia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Interzone #257



Mesmo com Alastair Reynolds a ancorar esta edição com um conto de hard SF pura, esta Interzone desaponta muito. Os restantes contos ou assentam em premissas interessantes mas de execução desastrosa, ou usam a FC como mero e distante adereço. Note-se que esta crítica não é uma revolta contra tendências mais literárias dentro da FC. As narrativas experimentalistas são sempre interessantes, e se nesta edição se notou um investimento em autores claramente com vontade de experimentar, não pareceu que estivessem suficientemente afinados para corresponder ao que prometiam.

A Murmuration, Alastair Reynolds: Um dos autores mais conhecidos da space opera britânica dá-nos um conto curioso, onde um cientista isolado no terreno descobre que o tipo de estudo que está a fazer, relacionado com os padrões de comportamento que regem os bandos de pássaros, tem estranhas consequências. Especialmente quando percebe que ao controlar a trajectória de alguns dos animais gera uma entidade de computação em swarm que mostra sinais de inteligência.

Songbird, Fadzlishah Johanabas: Uma belíssima capacidade narrativa, com um estilo muito imagético, não chegam para salvar um conto maculado por uma premissa patética. Numa Kuala Lumpur de futuro próximo distópico, uma rebelde envolve-se com um mercenário, extraindo-lhe informação graças à sua capacidade de... cantar. Porque, no mundo deste conto, algumas mulheres genéticamente predispostas foram manipuladas para segregar substâncias fortemente aditivas enquanto cantam. Eu avisei que a premissa era patética.

Brainwhales are Stores Too, Rick Larson: Um casal de adolescentes com mais psicotrópicos do que tino invade um laboratório de computação avançada para revelar ao mundo as condições degradantes em que vivem os computadores. Computadores biológicos, entenda-se, cachalotes que confinados em tanques conseguem fazer cálculos matemáticos complexos. Conto intrigante pelo conceito, apesar da narrativa girar mais à volta das emoções adolescentes do que aquilo que lhe dá interesse.

The Worshipful Company of Milliners, Tendai Huchu: outro conto com premissa interessante, muito poética, que falha na execução. A inspiração dos escritores vem de fantásticos chapéus invisíveis, tecidos por chapeleiras numa fábrica onde resiste a última musa literária. Premissa intrigante, de um fantástico poético, mas assente numa narrativa desconexa e difícil de seguir.

Blossoms Falling Down, Aliya Whiteley: Suspeito que a autora deste conto tenha diversas versões, prontas  enviar para revistas temáticas. Basta alterar duas ou três frases e o conto tanto fica pronto para revistas de ficção científica, romance ou de literatura de iniciais capitalizadas. Há uma ténue premissa de género, com referências muito veladas ao que me pareceu ser uma nave geracional, mas o conto mantém-se na perspectiva sentida de uma aprendiz de gueixa especializada em Haiku e a sua relação com o primeiro cliente. Lá está, alterando algumas frases, esta história muda completamente de tema e enquadramento.

aCalopsia: The Walking Dead #12


Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn (2015). The Walking Dead #15: Viver entre Eles. Palmela: Devir.

As histórias de infestações de mortos vivos tocam nos nossos tribalismos inatos. Especialmente na maneira como concebemos o outro e visualizamos aqueles que são diferentes de nós – quer por cultura ou etnia, como hordes infectas de invasores que vão aniquilar o nosso modo de vida.  Os mortos-vivos são apenas outra expressão da visceralidade transmitida pelo Perigo Amarelo, o fardo do homem branco ou os bárbaros aos portões do império. Crítica (if I may be so bold as to call it so) completa no aCalopsia: The Walkind Dead #12.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Stand on Zanzibar


John Brunner (1999). Stand on Zanzibar. Londres: Gollancz.

Devo confessar uma heresia: sempre imaginei este livro como uma sucessão de aventuras passadas numa Zanzibar dos mitos neo-coloniais africanistas. Terminada a leitura, descobrindo que o que dá título ao livro é uma frase isolada na narrativa, será que me sinto defraudado? Não, claro. Stand on Zanzibar é tido como um dos maiores expoentes da FC New Wave e é preciso lê-lo para compreender isso. O tema do livro é familiar, uma distopia futurista num mundo que enfrenta os impactos do crescimento populacional desenfreado, a par com tensões políticas e sociais fragmentárias onde não falta a fé cega nas capacidades computacionais dos super-computadores para resolverem os problemas à humanidade.

No tema não se distingue da maior parte das obras nesta vertente da FC. O que nos atinge é a forma como Brunner deixou entrar de enxurrada o cânone literário do alto modernismo pela FC dentro. É na sua estrutura narrativa deliberadamente fragmentada que o livro se revela. Leitores que conheçam a obra de John dos Passos, especialmente a trilogia U.S.A., reconhecem a técnica literária. Uma história que se constrói através recortes noticiosos, elementos narrativos puros, fragmentos de percepção cuja conjugação constrói na mente do leitor quer as peripécias da história quer o seu vasto mundo ficcional. Um experimentalismo ao mesmo tempo típico e radical para a época em que foi publicado originalmente.

Esta é uma obra que nos mostra o poder da junção do arsenal especulativo da FC com a vanguarda literária que marcou o século XX. Consequência lógica dos anseios estéticos da New Wave, levando-a quase tão longe quanto Ballard a levou (embora este tenha seguido outros caminhos), abriu a porta a uma FC que não renega outras influências, que se atreve a assumir-se como literatura, fugindo dos espartilhos impostos por visões redutoras de género. Um livro fundamental para a história da Ficção Científica. Se não conhecem, atrevam-se. Irá ser uma viagem atribulada mas recompensadora.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Almanaque Steampunk 2015



Diana Sousa et al (ed.) (2015). Almanaque Steampunk 2015. Porto: Corte do Norte.

Destacar os três contos que formam o cerne desta antologia é um acto muito injusto. Todo o Almanque é uma muito bem conseguida obra de ficção, e se o conto segue os pressupostos mais tradicionais das narrativas ficcionais tudo o resto não lhe fica atrás. Este é um dos aspectos que tem intrigado nestas antologias steampunk, a forma descontraída como se atrevem a explorar aspectos meta-ficcionais. Nesta antologia, tudo faz parte da narrativa global. É um discreto mundo partilhado, que se conta através dos contos mas que ganha vida nos detalhes entretecidos em notas, fait divers, relatos ficcionais, anúncios a replicar o estilo publicitário do século XIX, ilustrações e banda desenhada. Quase uma arte completa, no sentido wagneriano do termo.

Devo dizer que das edições deste almanaque, que tenho acompanhado, esta é a mais sólida e cativante. A evolução tem sido constante e nesta terceira edição conseguiram criar um eficaz ambiente imaginário. Cativante, intrigante, e para mal dos meus afazeres uma leitura imparável. Surpreendeu.

É uma máfia interessante, esta Corte do Norte. Pronto, máfia talvez não seja o melhor termo, mas não consigo pensar em nenhum que inclua conspiradores imaginativos, engrenagens e vapor. Mas tenho uma reclamação a fazer. As aranhas mecânicas que me prometeram incluídas neste livro escapuliram-se do pacote. Enfim. Vou ter de as imprimir em 3D, está-se mesmo a ver.

A Tomada do Palácio de Cristal, Ana Luz: Um grupo de conjurados reúne-se de madrugada numa taberna da ribeira, com o fim expresso de fazer uma espécie de tomada da bastilha aquando da inauguração do portuense Palácio de Cristal pelo rei D. Luís. No final de uma noite bem regada percebem que não são os suficientes para assegurar a revolta. Pela madrugada, a revolução é novamente adiada.

Da Arte e das Razões da Guerra, João Ventura: Neste conto corrosivo os interesses que controlam o carvão, essencial para a propulsão a vapor dos tanques e navios de guerra, mantém aceso o impasse numa guerra que opõe os impérios britânico e germânico. Quando um cientista propõe um método revolucionário de propulsão à base de urânio, que promete terminar o impasse dotando as tropas inglesas de armas mais potentes e rápidas, só há uma coisa a fazer. Assassinar os cientistas e destruir a pesquisa. Afinal, com tudo a correr tão bem nos lucros, para quê inovar?

Excertos do Diário de Miss Evelyn Lasseter, Diana Sousa: O conto de mais puro steampunk da antologia. Uma jovem descobre, entre os diários e laboratório do seu pai, uma fantástica criação. Um autómato dotado de inteligência e sentimentos, que acaba destruído às mãos de uma turba furiosa, pretensa defensora dos direitos da vida biológica.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Comics


Constantine The Hellblazer #05: Este novo Constantine acertou. Não renega a longa continuidade histórica do personagem, mas refresca-o e moderniza-o para o século XXI. E, hey, referências aos The Smiths ficam sempre bem.


 Faster Than Light #02: Esta nova série de ficção científica da Image é intrigante. Mistura pura hard SF com toques de space opera e acenos à FC clássica com monstros alienígenas. A tripulação de uma nave da incipiente exploração espacial terrestre recebe uma missão especial: partir pela galáxia em busca de civilizações alienígenas que não sejam hostis a uma Terra que se descobre na iminência de uma invasão extra-terrestre. Apesar da narrativa ser algo desconexa, tem qualquer coisa que desperta o interesse.


The Wicked and the Divine #15: A curiosa mistura de fascínio pela cultura pop com super-heroísmos de origem divina de Kieron Gillen depressa se começou a arrastar na inanidade de uma espécie de novela focada nos dilemas pessoais dos semi-deuses deste panteão efémero que revê os mitos religiosos sob as luzes da ribalta. Mas ainda consegue surpreender. Se as ilustrações de McKelvie costumam ser o ponto alto da série, neste número o grafismo é cedido a Stephanie Hans e o resultado é esplendoroso.


War Stories #13: Garth Ennis leva-nos agora aos céus japoneses do final da II Guerra nesta nova história das suas narrativas de combate. Merecia um melhor ilustrador. A série iniciou com uma história semelhante nos céus do teatro de operações europeu, cujas ilustrações a cargo de Keith Burns atingiram níveis impressionantes de espectacularidade e precisão. Imagens tão influentes que foram repetidas em todos os números seguintes da série. Thomas Aira não se tem safado tão bem. Regressando aos céus, esforça-se nos enquadramentos mas é traído pela pouca precisão do tratamento de cor. São pormenores que interessam aos g33ks da aviação. Mesmo assim, há aqui algumas vinhetas dignas de George Evans em Aces High, o grande clássico que marca este género.

sábado, 17 de outubro de 2015

Arts & Crafts


A recuperar do Dia dos Clubes de Robótica e Programação, comemoração oficial portuguesa da Europe Codeweek 2015. Um dia que reuniu no Agrupamento de Escolas D. Dinis núcleos que vieram mostrar o que andam a fazer com robótica e programação, bem como professores interessados nestas temáticas. Estive presente representando o Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, com o projecto As TIC em 3D convidado a desenvolver actividades de live 3D printing aproveitando a mascote da iniciativa de introdução à programação no 1.º ciclo (que carinhosamente se tornou um #robotarmy). Dia produtivo, de partilha e aprendizagem.O que esteve em evidência neste evento foi mais do que pedagogia e resultados de aprendizagem. Foi o arts and crafts de Morris, o tinkering de Paper, o fazer da cultura maker, a criatividade baseada e alimentada pelo conhecimento técnico,  o experimentalismo alicerçado na tecnologia. E não vos maço mais. Se estiverem interessados nestes devaneios do Robot Intergaláctico com impressão 3D e educação, visitem o registo nas TIC em 3D.

Office


Dias de gabinete.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Dylan Dog #296: La Seconda Occasione

 
Paola Barbato, Giampiero Casertano (2011). Dylan Dog #296: La Seconda Occasione. Milão: Sergio Bonnelli Editore Spa.

Esta aventura surpreende-nos por girar à volta de um paradoxo temporal. Dylan, farto das agruras de uma amante bipolar, decide deixá-la apesar das ameaças repetidas de suicídio. Regressa, temendo pela vida da amante, e encontra-a já cadáver, com uma faca espetada no coração, e um vulto que foge ao longe. Crendo-a assassinada, persegue o assassino e dispara contra ele. Acreditando tê-lo morto, desesperado porque agiu contra a sua natureza, Dylan pede ajuda à viúva de um antigo inimigo para que, com poderes ocultos, vá ao passado para compreender a morte da amante. Regressa à casa da amante, assiste, impotente, ao suicídio e é surpreendido por si próprio, compreendendo finalmente que está preso num laço temporal. Descrito desta forma a história parece mais interessante do que é, mas a premissa está bem explorada e consegue surpreender o leitor.