domingo, 4 de outubro de 2015
Impressão 3D no 1.º CNPI
Registo da partilha de práticas, no dia 2 de outubro, no auditório da Microsoft. Optei por um estilo de apresentação mais informal e coloquial. Fui o último a falar num dia recheado de keynotes e apresentações que iniciaram às nove da manhã. Achei que pelas seis da tarde já ninguém teria paciência para um discurso cinzentão. Creio que é uma forma de apresentar que faz cada vez mais sentido. Sacrifica-se algum rigor científico mas ganha-se no transmitir da paixão que se sente pelo objecto de estudo. Note-se que falar e apresentar algo de forma informal não significa falta de seriedade. O lado mais técnico, descrito de forma sóbria, anotado com bibliografia referenciada de acordo com os normativos APA irá em breve ser aqui disponibilizado. Espero ter cativado a audiência, e pelo que me foram dizendo no dia seguinte gostaram do que viram. E da abordagem. Um colega perguntou-me se era assim que dava aulas. De facto, é. Descomplicar, desmistificar, sorrir. Ser sério não obriga a ser sisudo, ou obriga?
Confesso que tenho uma certa ambivalência nesta estratégia de divulgação. Como bom introvertido que sou, nada me deixa mais confortável do que ficar no meu cantinho/espaço/sala de aula/atelier a fazer "cenas" giras. Por outro lado, faz-se tantas coisas giras nas escolas que geralmente se mostram apenas naquelas exposições dentro da escola que ninguém vê. Se não divulgarmos, é como se não existisse. É um pouco como aqueles escritores que escreveram fantásticos livros que se encontram devidamente arrumados nas pastinhas correctas dos seus discos rígidos, e daí não saíram. Não arriscar a partilha especialmente fora dos contextos habituais, é um pouco como escrever para a gaveta. Se estiverem interessados em divagações sobre impressão 3D e educação, vão às TIC em 3D: 1.º Congresso Nacional de Professores de Informática - Impressão 3D: Experiência Introdutória. Se não estiverem, também não é por isso que nos chateamos.
sábado, 3 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
H-alt #01
Um projecto intrigante, que já andava a fazer blip no radar há uns tempos, está finalmente disponível para leitura online. A H-alt assume-se como revista digital focalizada na banda desenhada, ficção científica, historia alternativa e fantasia.
Fantasia? Meh, disso há por aí a pontapé (Fantasy & Co. e outros), resmungo com a minha paciência nula para elfos e passados feéricos recheados de magia, apesar de reconhecer o esforço e a qualidade de quem escreve nesta vertente do fantástico. Agora haver um foco assumido em ficção científica e história alternativa... wow, kudos, despertam o interesse e apostam em campos que rareiam no fandom português.
A iniciativa promete, e resta lê-la, algo dificultado por terem apostado no Issuu como plataforma de publicação. Slide e zoom são os ingredientes certos para leitura distractiva. Surpreende como em 2015, com a web completamente integrada no dia a dia, quem faça publicação digital raramente leve em conta elementos como resolução, orientação ou adaptação aos ecrãs. Estes rapazes até não são dos piores. O Issuu é chato mas dá para ter uma ideia razoável do conteúdo da e-zine. Na leitura aprofundada é que o caso talvez mude de figura. Mas há pior. Os editores académicos que publicam artigos em pdf (epub é algo que nem lhes passa pela cabeça) formatado como página A4 em duas ou três colunas como se de papel impresso se tratasse, são verdadeiras pragas, que tornam a leitura dos artigos num martírio seja qual for o dispositivo que não uma folha impressa.
Estamos em 2015. Pela sua inflexibilidade, PDF é óptimo para impressão, mas se o conceito é o de leitura digital é dos piores formatos possíveis, senão o pior, precisamente pela forma como não se ajusta ao formato de diferentes ecrãs. A nostalgia da página impressa com os seus formatos é bonita, mas dificulta e muito a leitura digital. Fica-se com a sensação que quem edita desta forma pretende mais ser editado do que lido.
Apesar dos meus resmungos sobre usabilidade, não deixem de visitar a revista. São os meus traumas da leitura de papers académicos em três colunas que obrigam a ziguezaguear no ecrã e são impossíveis de ler no meu fiel e-reader. Ou então talvez seja uma cena geracional e eu esteja a ficar demasiado decrépito para os interfaces preferidos pelos jovens.
Projectos destes nunca são demais. Rumem a H-alt no Issuu para ler as novas vozes do fantástico por cá. Se cuscarem no site deles encontram ainda outras promissoras leituras de banda desenhada na secção álbuns H-alt. Este é claramente um projecto a seguir. Prometo que a tentarei ler.
Dylan Dog #290: Anime Prigionieri
Paola Barbato, Angelo Stano (2011), Dylan Dog #290: Anime Prigionieri. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Uma aventura curiosamente ternurenta do Old Boy. Dylan é arrastado por um grupo de jovens para ajudar uma rapariga, fantasma presa à terra pelo mistério da sua morte violenta. Dylan investiga, impressionado com o drama da jovem fantasma. As pistas óbvias apontam para o condutor que a atropelou, homem dilacerado pelo arrependimento que não quer sair da prisão. Mas as sensações transmitidas por um outro fantasma inquieto, de um pequeno terrier, acabam por desvendar a história. Afinal a assassina foi uma traumatizada velhota, que abateu o cão que amava ao saber que este sofria de cancro, e ao deparar-se com o corpo da jovem atropelada decide também dar-lhe o que acredita ser o golpe de misericórdia. História em que Dylan entra em terrenos mais conhecidos de séries como Ghost Whisperer, sobre os dramas de fantasmas inquietos que precisam de resolver assuntos do mundo real antes de avançarem em direcção à luz. Como pormenor de humor, a argumentista esforça-se por convencer os leitores que Dylan é um ídolo que deixa os corações das jovens adolescentes a palpitar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Dylan Dog #290: L'Erede Oscuro
Giuseppe DeNardo, Daniele Bigliardo (2010). Dylan Dog #290: L'Erede Oscuro. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Dylan Dog é daqueles personagens que funciona melhor em aventuras individuais, com algumas ligações ténues entre si, do que em continuidades de aventuras conspiratórias ou de combate activo contra tenebrosas ameaças que requerem auxílio de personagens secundários. Este episódio é um caso típico desta falha. Dylan e um companheiro combatem um demónio aprisionado, que depende dos seus acólitos para escapar aos grilhões. Dylan tem de resgatar um artefacto que permite ferir a criatura, mas para isso tem de resolver uma série de puzzles arquitectónicos. O resultado é uma espécie de clone banal de O Código Da Vinci com demónios à mistura. Numa série com um historial tão longo como Dylan Dog, é de esperar momentos e épocas menos boas. Este é um exemplo disso.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Dylan Dog #129: Il Ritorno di Killex
Tiziano Sclavi, Corrado Roi (1997). Dylan Dog #129: Il Ritorno di Killex. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
A descoberta acidental de uma fossa cheia de cadáveres torturados e mutilados mergulha Dylan num regresso a horrores passados. Cruzando-se com o filho de uma antiga sobrevivente de uma vaga de assassínios cometidos por um cientista enlouquecido que busca através da tortura fatal indícios da fisicalidade do espírito, revive traumas de um episódio violento. Mas a resposta ao mistério dos cadáveres mutilados não se encontra no passado, mas no horror do presente. Em zonas esquecidas dos labirintos de túneis no subsolo de Londres oculta-se um grupo de cineastas rebeldes. Dedicam-se a realizar filmes gore (splatter no original, mas fora do espaço italiano o conceito perde a força) onde os efeitos especiais são bem reais, e as mortes sangrentas são asseguradas por sem-abrigo e emigrantes ilegais dispostos a tudo para poderem ajudar as suas famílias. O argumento de Tiziano Sclavi gere muito bem as suas habituais referências da cultura pop. Neste episódio o destaque vai para os mito urbanos dos snuff movies e os fascínios da Londres subterrânea. É triste observar que nos dias de hoje, quase vinte anos após a publicação desta aventura de Dylan Dog, continua mais acesa que nunca a questão daqueles que são vistos como detritos humanos, vivendo ocultos nas margens dos espaços urbanos, carne para canhão de todos os interesses predatórios. Corrado Roi, bem conhecido dos leitores portugueses pelo seu trabalho em Tex, ilustra com o seu estilo de grande precisão.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Comics
Hellboy In Hell #08: Correndo o risco de me repetir, o melhor deste regresso de Hellboy é voltarmos a contar o traço de Mignola. Isso, e o afastamento da repetitiva e entediante continuidade de B.P.R.D., série que ia esgotando o personagem. Hellboy in Hell regressa às origens, afasta-o da obrigatoriedade de respeitar o cânone que define os restantes personagens secundários. Mignola brinca com os infernos, e o resultado é um paraíso para o leitor.
The Manhattan Projects: The Sun Beyond The Stars #03: Como o Bruno Campos refere no aCalopsia, a Devir vai trazer ao público português East of West de Jonathan Hickman. Alegra saber que por cá os leitores vão poder ler os delírios weird wild west com história alternativa futurista. Já o meu lado de fã incondicional de ficção científica sente-se triste por a Devir não ter optado por Manhattan Projects, weird Sci-Fi no seu melhor e que agora anda a desvirtuar brilhantemente a space opera com um nível demasiado elevado de surrealismo para nós, comuns mortais. We are, indeed, having a little fun com esta série imparável.
Nameless #05: Uma série que se está a revelar do melhor que Morrison é capaz de criar. As constantes mudanças de percepção de um personagem que ou poderá estar perdido no espaço ou poderá ser um monte de carne torturada ou poderá sofrer de delírios ou poderá estar possuído por una entidade alienígena tornam-na uma narrativa tortuosa, mas eficaz a veicular uma fortíssima estranheza apocalíptica. Ainda deparamos com variantes inesperadas do conceito de demiurgo. Deus como um louco prisioneiro de guerra vindo de um universo paralelo, enjaulado num asteróide que é um vestígio de um planeta perdido do sistema solar? Se já estava convencido com a qualidade da série, o entusiasmo agora disparou.
domingo, 27 de setembro de 2015
sábado, 26 de setembro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
MakerBot in the Classroom
Mike Amudsen et al (2015). MakerBot in the Classroom. Nova Iorque: MakerBot.
Ideias de aplicação prática é o que se precisa quando olhamos para formas de integrar a impressão 3D na sala de aula. Este guia da Makerbot dá-nos um conjunto sólido e bem estruturado de ideias simples que utilizam impressão 3D integrada em projectos pedagógicos. Nos aspectos técnicos centra-se excessivamente na impressora MakerBot, o que não surpreende, mas no global apresenta um bom conjunto de actividades que utilizam impressão 3D em diferentes áreas curriculares. Os objectivos e conceitos estão pensados para o currículo norte-americano, mas os projectos são, parece-me, facilmente adaptáveis ao nosso contexto.
O livro divide-se em três partes: uma introdução aos aspectos técnicos da impressão 3D, uma visão geral de formas de obter e criar modelos 3D com software acessível e gratuito, e projectos específicos que exploram diversos softwares aplicados à modelação 3D seguindo temas curriculares. Apesar de centrada nas especificações das impressoras MakerBot, a primeira parte é uma excelente introdução ao lado técnico da impressão 3D, explicando muito bem os seus conceitos elementares. Muito interessante o desmontar das especificações de extrusor (facilmente adaptável a outras impressoras), técnicas de calibração (que, no entanto, variam com outras impressoras) e muito boa explicação dos conceitos de infill, resolução e shell. Também aborda os diferentes formatos de ficheiro 3D e de impressão.
Na parte de modelação 3D o livro começa no mais simples, a descarga de ficheiros de repositórios (o destaque é para o Thingiverse dinamizado pela MakerBot) mas depressa nos leva para a modelação 3D. Afinal, descarregar as criações de outros não é a melhor forma de potenciar a criatividade dos nossos alunos. Para isso, é preciso aprender a modelar em 3D. O livro apresenta-nos várias hipóteses de aplicações, com diferentes níveis de dificuldade. Olha para o 3D scanning, infelizmente apenas centrado no uso do scanner da MakerBot. Na modelação 3D faz de forma muito simples e eficaz a comparação entre os três tipos de modelação 3D, solid modeling, digital sculpting e modelação poligonal, sugerindo aplicações para cada um dos tipos de modelação. Descrimina também as vantagens das técnicas de modelação por primitivos e desenho 3D a partir de referências.
A exploração de aplicações 3D está integrada com projectos específicos para impressão 3D. Utilizando modelação por primitivos no Tinkercad, sugerem um projecto de criação de um jogo de território abordando conceitos geográficos. Para modelação paramétrica com OpenSCAD sugerem a criação de etiquetas com nomes e a criação e modificação de formas tridimensionais. Sendo o OpenSCAD um programa de modelação dependente de código, talvez seja uma forma de abordar introdução à programação utilizando o 3D. Utilizando a escultura digital com o Sculptris sugerem a modelação orgânica de fósseis ou elementos anatómicos. O solid modeling utilizando o 123D Design da Autodesk é aplicado numa ideia muito interessante: estudar a resistência de estruturas construindo pontes com barras de balsa e conectores modelados e impressos em 3D. São propostas que misturam integração curricular, de acordo com o currículo norte-americano, com tutoriais direccionados para uso das aplicações sugeridas dentro do contexto do projecto. Termina com uma análise de técnicas de análise e correcção de mesh utilizando o Meshmixer para corrigir geometria, diminuir o número de polígonos e gerar suportes. Tenho de testar se a regra indicada no livro de modelos com menos de cem mil polígonos para slicing rápido e eficaz também se aplica ao Cura e ao Beesoft.
O livro MakerBot in the Classroom pode ser descarregado no site da MakerBot, requerendo o preenchimento de algumas informações básicas para aceder à descarga em PDF.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Aurora
Kim Stanley Robinson (2015). Aurora. Nova Iorque: Orbit.
Um livro intrigante, estranho no quadro da obra deste autor. A FC Hard não é habitualmente pessimista, especialmente se saída da mente de quem firmou a sua reputação como escritor de FC com uma série de livros sobre a colonização e terraformação marciana. Talvez Aurora acuse o peso da contemporaneidade, das óbvias e reais consequências do aquecimento global, e seja uma forma do autor despertar as consciências para o facto do nosso planeta ser um local único, não nos servindo de nada sonhar com as estrelas enquanto deixamos o nosso berço degradar-se para além do recuperável.
Aurora pega num tema bem explorado pela FC, o das naves geracionais. Resposta ao imperativo físico da barreira translumínica, o conceito baseia-se em naves cujos tripulantes não chegarão aos longínquos destinos estelares. Serão os seus descendentes a pisar o solo dos planetas distantes. Arcas a sulcar os céus, desenvolvem sociedades que poderão esquecer-se que vivem no espaço confinado de uma nave (uma das vertentes mais exploradas deste conceito) ou poderão evoluir de forma inesperada. Robinson segue este caminho, com um grupo de descendentes dos colonos originais que ao aproximar-se do seu destino questiona a obrigação que lhes foi imposta por antepassados remotos.
Sendo Robinson um autor de FC hard, o romance é essencialmente um longo infodump que especula sobre naves geracionais. Foca-se especialmente na questão dos equilíbrios ambientais e biodiversidade dentro de um sistema fechado, uma eco-esfera que se desloca pelo espaço sempre nos limites dos seus recursos. A nave é um ecossistema complexo, do qual os tripulantes são um dos elementos, tentando replicar a biodiversidade através de vários biomas que contém variantes dos principais ecossistemas terrestres. A questão do equilíbrio, e da gestão cuidadosa que é necessária para o manter, é um dos pontos que Robinson mais sublinha.
Ostensivamente uma missão colonizadora, um de muitos passos que a humanidade dará para fora do seu berço, esbarrará nos limites biológicos impostos pela vida noutros sistemas solares. A missão tem como destino um promissor planeta similar à Terra em Tau Ceti, com oceanos e oxigénio abundante, mas a tentativa de colonização falha. O ambiente é inóspito, com violentos ventos constantes num planeta cujas marés não são influenciadas por luas. Poderia ser uma versão mais agreste dos territórios polares, inóspitos mas não a impossibilitar a vida humana, senão por um pequeno organismo, mais primitivo do que vírus, que provoca a morte dos colonos. Aos sobreviventes em órbita restam duas escolhas. Tentar colonizar outro planeta do sistema, similar a Marte, ou regressar à Terra. Apesar de diminuídos pela tentativa falhada de colonização e convulsões sociais que degeneram em motins, os tripulantes são suficientes para se dividirem, com um grupo a manter-se no sistema extra-solar e outro a empreender a viagem de regresso a um planeta que nunca conheceram. Regresso difícil, quase impossível, e que trará aos sobreviventes novas amarguras com a rejeição que lhes é imposta por terrestres que os vêem como traidores aos destinos e sonhos da espécie.
As mensagens de Robinson são claras. Espalhar-se pelas estrelas é um sonho que colide com a realidade das viagens espaciais. Há imperativos biológicos, tecnológicos e sociais a considerar, e não abonam muito a favor das visões de naves estelares a sulcar os vazios intergalácticos. As barreiras físicas e fisiológicas são enormes, e os destinos possíveis são por demais desconhecidos para assegurar a viabilidade de colónias. Como refere no livro, planetas mortos são demasiado difíceis para assegurar a sobrevivência e planetas onde haja vida poderão ser hostis aos humanos de formas inesperadas. Para isto não precisamos de bandos de indígenas dispostos a esquartejar os invasores terráqueos. Bastam pequenos micro-organismos cuja interacção com o complexo corpo humano poderá trazer consequências fatais. É uma visão sóbria, que se afasta do optimismo alastrante da maior parte da FC hard. Sublinha, muitas vezes, que talvez a ausência de sinais de civilizações extraterrestres se prenda precisamente com o facto destas terem aprendido que a colonização de outros planetas é demasiado difícil, que os limites físicos são intransponíveis. Visão que não é muito habitual neste género literário.
Numa vénia intrigante às visões de consciência mecânica, Robinson estabelece como narrador a inteligência artificial da nave, albergada num supercomputador quântico capaz de enfrentar os difíceis cálculos necessários para manter uma nave contendo biomas a atravessar os vazios interestelares. A evolução linguística da inteligência artificial da nave trai uma crescente preocupação e empatia com os tripulantes. De mero regulador homeostático, a inteligência artificial passa a interferir directamente nos biomas e gestão social para assegurar o bem estar de todos os habitantes do seu espaço. Esta evolução de uma consciência artificialmente programada para utilizar estilos literários nos seus relatórios é um dos aspectos mais interessantes deste livro. A empatia do leitor para com a nave é maior do que a para com os restantes personagens. Ter o centro nevrálgico de uma nave geracional a contar-nos a história também é um bom estratagema para Robinson despejar as suas especulações sobre o tema sem recorrer a infodumps óbvios. Narrados pela nave, as descrições dos sistemas técnicos e biológicos tornam-se parte integrante do todo narrativo.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Comics
Constantine: The Hellblazer #04: Os fãs de memória mais alongada certamente que se recordam do prazer que era a Vertigo nos anos 90. Não só pelas histórias e personagens, mas especialmente pela vontade de inovar na ilustração, fugindo aos espartilhos dos comics com autores cujo experimentalismo fez evoluir o género. Um pouco desse espírito é canalizado nesta edição de Constantine, com a ilustradora Vanessa Del Rey a reavivar as memórias das ilustrações icónicas criadas por artistas do calibre de Bill Sienkiewicz ou Dave McKean.
Tokyo Ghost #01: Um futuro próximo distópico, com as cidades costeiras semi-alagadas pela subida do nível das águas do mar, tecnologias digitais pervasivas, desagregação social e política, gangs que reinam nas ruas, heróis em motas potentes, hiperurbanismo e referências nipónicas. Yep, cyberpunk old school. Com toques óbvios de homenagem a Judge Dredd, Akira ou Blade Runner. O primeiro número foi interessante, mas com Rick Remender no argumento já se sabe que começa bem mas descamba no tédio.
Tired Robot
I went to the maker faire and all I got was this lousy t-shirt? Nada disso. Cansado, mas cheio de ideias para explorar. Se tiverem paciência para ler uma reflexão excessivamente longa e a quente de três dias de TIC em 3D na Lisbon Maker Faire, cliquem à vontade. Senão, nothing to see here, move along.
domingo, 20 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Lisbon Maker Faire
Hoje, amanhã e domingo estamos na Lisbon Maker Faire, a partilhar o que os nossos alunos fazem com a comunidade. E também a aprender, descobrindo projectos fantásticos e utilizações criativas das tecnologias. Serão três dias intensos e recompensadores.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
MOTELx 2015: Eugenie
Eugenie (Jess Franco, 1969)
Para encerrar a minha visita ao MOTELx deste ano, um mergulho num filme de culto, expoente do sexploitation com toque sado-maso, saído da lente perversa de Jess Franco. Eugenie adapta livremente A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade. Claramente feita para chocar e excitar, esta história em que uma jovem inocente é pervertida por um casal incestuoso ligado a um grupo de sádicos que leva à letra os ensinamentos do divino marquês, não se poupa a olhares lânguidos sobre jovens corpos nus e carícias entre geometrias corporais. Apesar do óbvio carácter de exploitation (é Jess Franco, esperavam o quê, drama romântico?) e de se aproximar muito da pornografia softcore, é um filme visualmente fascinante, feito de enquadramentos que explicitamente colocam o espectador no papel de voyeur e cenários onde a saturação da cor sublinha a decadência sensual do argumento. Oscila entre o creepy e o deslumbrante, com muitas cenas de nudez gratuita à mistura num todo que acaba por ser mais psicadélico do que erótico, ao som de uma música pop dos anos 60 que lhe dá um carácter absurdo.
Apenas fico sem compreender a escolha deste filme como homenagem ao actor Christopher Lee, falecido este ano. Percebo a opção por um filme de culto raro de Jess Franco dentro de um festival de cinema que entende o Horror como género abrangente, com incursões noutras cinematografias de culto. Este é o local e o momento certo para descobrir estas cinematografias. Mas homenagear um actor com um filme onde essencialmente representa o papel de pau falante declamando linhas de De Sade enquanto caminha, lentamente, durante os quinze ou vinte minutos totais que está em cena parece estranho. Então e os lendários clássicos Dracula da Hammer? Curiosamente, a Cinemateca está a organizar um ciclo de homenagem a Christopher Lee que inclui Dracula de Jess Franco. Questões de concorrência?
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
MOTELx 2015: Dust Devil
Dust Devil (Richard Stanley, 1992)
É também por isto que se vem ao festival de cinema de terror. Para descobrir ou redescobrir filmografias antigas, influentes mas enterradas debaixo do constante fluxo de novidades das avalanches contínuas da cultura popular. Este ano o festival focou a obra do realizador sul-africano Richard Stanley, nome um pouco obscuro mas que diz quem assistiu à sua masterclass que é uma figura brilhantemente quixotesca. Filme de 1992, é um bizarro cruzamento de road movie, policial e thriller sobrenatural, com toques de western. Seguimos o périplo assassino de um demónio que assumiu forma humana, para quem os assassínios ritualistas são a forma de adquirir poder suficiente para transcender os grilhões da carne e regressar ao mundo que fica para lá do espelho. Caça há décadas, talvez há séculos, as suas vítimas nas paisagens tisnadas da Namíbia. É aqui que reside a maior força do filme, na forma como transmite o calor sufocante do deserto com a saturação constante da cor, a fortíssima horizontalidade dos enquadramentos e a banda sonora claustrofóbica. Estados de sonho, delírios hipnagógicos, a monotonia das longas estradas do deserto que confundem a percepção sublinham a hostilidade do ambiente.Também é interessante a colisão entre mitos milenares africanos e a tradição gótica do demónio que perverte a ordem natural. É um filme provocador, deliberadamente filmado num território que para os sul-africanos recorda os estertores finais da era do apartheid, aqui focando a retirada do território ocupado da Namíbia. As tensões raciais estão em evidência durante todo o filme e, como observou o realizador na apresentação da sessão, não foi por acaso que escolheu como vilão um homem caucasiano, louro e de olhos azuis.
Sendo uma final cut, esta versão pecava por ser demasiado longa. O filme é poderoso e inquietante, com momentos de terror puro, mas arrasta-se em demasia em cenas que mereciam uma edição mais sintética.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
MOTELx Histórias de Terror
Afonso Cruz, et al (2015). MOTELx Histórias de Terror. Lisboa: Escritório Editora.
Este tipo de antologias, lançadas como parte integrante de eventos temáticos, é geralmente pouco homogénea na sua qualidade. Os autores mais conotados com os géneros são iguais a si próprios, os novos nomes surpreendem pelas ideias mesmo que a prosa esteja ainda imatura, e as figuras convidadas de outras áreas, quer como artistas ou escritores mais habituados a géneros mais mainstream, ficam-se por contribuições desastrosas. Esta antologia não é excepção a isto, mas felizmente anda longe dos níveis de mediocridade de pontos baixíssimos como a felizmente esquecida antologia Ficções Científicas e Fantásticas, um daqueles livros que exemplifica na perfeição os altos e baixos deste tipo de publicações.
No global esta é uma boa companhia para os intervalos das sessões do festival de cinema de terror que enche o S. Jorge de fãs. Tem contos interessantes, na sua maioria bem escritos, e mesmo os menos bem conseguidos conseguem ter algo de estranho e intrigante. Poderia ser uma iniciativa a manter nas próximas edições, juntando o prazer literário ao cinéfilo. Normalmente estas ideias ficam-se pelo acontecerem uma vez, mas talvez a força que o MOTELx continua a revelar consiga tornar este tipo de iniciativa mais recorrente.
Onde esta antologia se mostra consistentemente boa é na qualidade da ilustração, entregues a Alex Gozblau, João Fazenda, Esgar Acelerado, Manuel João Vieira, Mariana a Miserável, Mulher-Bala e Tiago Alexandre. Oscilando entre o simples mas incisivo e o surreal onírico, as ilustrações dão um bom sabor extra à antologia.
Contas Para Pagar: Afonso Cruz igual a si próprio, num conto de ironia macabra escrito com a sua habitual elegância literária. A história é sobre um escritor que desistiu das musas para procurar inspiração, tendo encontrado una fonte inesgotável de ideias literárias torturando metodicamente vítimas incautas. E mais não digo, até já disse demais.
A Parte Pelo Todo: Um conto de ritmo bem marcado que vai levando o leitor até ao desvendar do susto final, com um carteiro embevecido e uma mulher-monstro que talvez se tenha tornado bela encomendado partes de corpos pelo correio. Conto de Inês Fonseca Santos.
A Painelista: A contribuição de Adolfo Luxúria Canibal é uma sucessão de momentos tenebrosos, caracterizados com uma escrita vívida e cerrada, que no entanto como conto é previsível. Vale pelas partes e não pelo todo.
O Artista e as Pessoas de Olhos Negros: Menção honrosa do concurso literário MOTELx 2015, o conto do brasileiro Jeziel Buenon consegue alguns bons momentos de gore literário. A história fala-nos de um assassino que se vê confrontado por zombies que foram as suas vítimas.
Os Que Nunca Esquecemos: A este conto de Filipe Homem Fonseca falta-lhe alguma clareza estrutural. O ambiente tétrico surreal é depressa estabelecido e invoca imagens poderosas neste conto onde dois amantes são condenados a uma eternidade de torturas, tornadas suportáveis pelos breves momentos em que se tocam apesar do extremo sofrimento a que estão votados por causa do amor que ousaram professar.
Canção de Ninar: O conto de Victora F., vencedor do concurso literário MOTELx, é uma bem conseguida história ambígua sobre uma mãe que encara o seu bebé recém-nascido como uma criatura monstruosa, com um final que arrepiará os mais sensíveis.
Suicidem-me ou o Diário de Alva: A encerrar a antologia, um conto difuso de Patrícia Portela cuja criatura amaldiçoada começa por orbitar o género zombie mas se torna algo mais rarefeito e omnipresente.
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