terça-feira, 18 de agosto de 2015

Portugal 2055

 

Bruno Pinto (2015). Portugal 2055: Uma BD Sobre Alterações Climáticas No Nosso País. Lisboa: Associação Tentáculo e Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Produzido num misto de crowdfunding com apoios insitucionais, editado pela Associação Tentáculo e Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Portugal 2055 é um livro essencialmente didáctico e virado para a divulgação científica junto dos públicos infanto-juvenis. O tema, as consequências do aquecimento global, é pertinente e muito quente (perdoem-me, não resisti à piada). Os textos são da autoria de Bruno Pinto, com revisão científica de Maria João Cruz.

São textos cuja simplicidade sublinha a aposta na divulgação científica pedagógica para crianças, indo para lá do formalismo dos manuais escolares através das técnicas narrativas que incentivam a curiosidade das crianças. À mente vem o trabalho de Kieran Egan, o principal proponente do conceito de criar e contar histórias como técnica de aprendizagem. Este didactismo ajuda a explicar a fortíssima dose de optimismo que caracteriza este livro, em que parece haver sempre formas de adaptação às consequências das alterações climatéricas, mantendo-se a estrutura social tal como a conhecemos. É uma escolha adequada. A ideia é despertar consciências, não aterrorizar com distopias de CliFi gone wild.

Cada curta história aborda um aspecto das consequências do aquecimento global no território português, com vagas de calor mortal, desertificação do sul, espécies invasoras num atlântico mais quente, contaminação salina dos solos, intensificaçao de incêndios, entre outros aspectos. Cada um destes aspectos conta com um ilustrador, a dar um cunho visual pessoal aos segmentos.

Destes, destaco o gráfismo de Carla Rodrigues em Bem Vindos a Portugal, a quasi-abstracção de Susa Monteiro em Tempo de Sair de Casa, e as arquitecturas sincréticas cruzadas com tecnologia futurista de Penim Loureiro em Jantar de Amigos. Três pontos altos de uma antologia cuja pedagogia não passa só pela ciência, levando ao público-alvo, e por consequência às escolas, uma boa amostra da banda desenhada portuguesa.

A edição em papel, que ainda não tenho, poderá ser adquirida directamente à Associação Tentáculo ou no Museu Nacional de História Natural (com sorte, aproveito uma visita de estudo com os meus alunos para o adquirir). Portugal 2055 também está disponível em formato digital (PDF) no website do Museu Nacional de História Natural.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Dylan Dog: Color Fest #07, Maxi #12.


Michelle Medda, et al (2009). Dylan Dog Color Fest #07: Passagio per l'Inferno, Il Banco Dei Pegni, Luci della Ribalta, Strage di Mezzanotte. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Passaggio per l'Inferno: Os amores trágicos são uma das características elementares de Dylan Dog. Nesta curta aventura essa premissa é invertida, com Dylan a apanhar boleia de uma predadora sentimental que causa acidentes na estrada para poder dar boleia aos homens cujos carros se estampam. Se vai para além disto e entra nos domínios do serial killing é caminho por onde a história não nos leva.

Il banco dei pegni: Dylan é contactado pela representante de um grupo de sem-abrigo para resolver um estranho mistério. Pedintes começam a morrer misteriosamente, com maços chorudos de notas nos seus cadáveres. A explicação encontra-se num obscuro negócio de penhores, onde dois demónios de ar simpático dispensam dinheiro a rodos em troca apenas do objecto com maior valor sentimental pertencente aos desesperados que capturam. Sendo Dylan Dog uma série muito apolítica, o ponto de interesse nesta aventura está na óbvia observação sobre as crises económicas e as suas trágicas consequências humanas.

Luci della ribalta: Uma aventura muito interessante. Uma estrela de televisão, típica cara bonita a começar a revelar o peso da idade, começa a descobrir que as suas memórias audiovisuais começam a desvanecer-se. Não a sua, mas a de todos os outros, de espectadores, actores, realizadores. Até das cassetes de vídeo com as suas aparições televisivas. Uma premissa muito similar à clássica A Pequena Biblioteca de Babel (dos melhores contos de Dylan Dog, IMHO), com o toque adicional de observação sobre a fugacidade mediatizada. Infelizmente se a premissa é muito boa a execução algo banal, com a história a ser arrumada sem nexo visível que nos mostre como Dylan se apercebeu das razões de uma maldição que irá mexer com a memória colectiva.

Strage di mezzanotte: Uma vaga de assassínios violentos recorda a Dylan uma das suas antigas aventuras, onde travou manequins animados pelos incipientes poderes de uma jovem bruxa. Os acontecimentos angrentos passam-se no mesmo local, anos depois, e Dylan acredita que hajam resquícios do bruxedo. E há, mas não da forma que imagina. Trata-se de um segurança solitário que queima de vez o fusível mental e, imaginando-se um frio manequim, assassina indiscriminadamente quem se lhe atravessa à frente em busca de sentir alguma coisa.




Bruno Enna, et al (2009). Maxi Dylan Dog #12: Le Morti Bianche, I Sei Corvi, Oggetti Smarriti. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Le morti bianche: Uma fábrica dos infernos devora os seus operários. Com a aparência de uma unidade industrial banal, que produz objectos que não se sabe para que servem, notabiliza-se pelos sucessivos acidentes fatais que vitimam trabalhadores. Dylan infiltra-se, investigando a pedido de uma namorada que lá trabalha, e depressa descobre que a fábrica é um lugar maligno, que altera a mente daqueles que lá trabalham.

I sei corvi: Dylan é atraído à Torre de Londres para investigar as mortes violentas de um grupo de funcionários, que começam a aparecer cadáveres com os olhos e os cérebros comidos. Tal como se os corvos da torre os tivessem debicado até à morte. Por detrás do mistério está um crime cometido décadas atrás, com a violação e morte de uma jovem com poderes sobrenaturais que, com o passar dos anos, se catalisam numa espécie de monstro corvídeo vingador, com um toque de demónio nipónico e um novo amor para Dylan.

Oggetti smarriti: Todos temos algo que preferimos esquecer, com objectos e sentimentos que deitamos fora para seguir em frente com a vida. É algo que é sublinhado nesta aventura onde as recordações do passado, as humilhantes, nostálgicas ou sangrentas, regressam para assombrar um subúrbio afluente de Londres. Objectos esquecidos, descartados no passado, que regressam aos seus donos graças a um camião do lixo fantasma.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Maintenant qu'il fait tout le temps nuit sur toi


 
Mathias Malzieu (2005). Maintenant qu'il fait tout le temps nuit sur toi. Paris: Flammarion.

Um pequeno e tocante romance do autor de A Mecânica do Coração, essa deliciosa pérola do steampunk. Neste a sensibilidade já não é steam, mas continua firmemente ancorada no fantástico.

Um homem de luto profundo nas horas e dias que se seguem ao falecimento da mãe redescobre a vida graças a uma ajuda muito especial. Cruza-se com um gigante simpático no parque de estacionamento do hospital onde a sua mãe acaba de falecer. Este gigante é especializado em ombrologia e ensina-lhe como ultrapassar a dor. Mas mais que isso, irá permitir-lhe visitar os territórios do além onde as almas se congregam. Terras de névoa e sombra, que se tocam com o nosso mundo nos locais obscuros, acessíveis para quem sabe usar as sombras como caminhos e portais.

Livro curto, vai mantendo um longo crescendo enquanto acompanhamos a progressivamente insanável dor do personagem até culminar na surreal visita às terras do além. Um fantástico delicado, sem terrores nem horrores, sonho sombrio com toques de bom humor.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sharaz-De



Sergio Toppi (2015). Sharaz-De. Oeiras: Levoir.

Deixei o melhor para o fim. Aliás, este foi o elemento fundamental que me convenceu a negociar com uma papelaria cá da terra para fazer a colecção completa das Novelas Gráficas Público/Levoir. Tinha de assegurar que esta edição do esplendoroso Sharaz-De chegaria às minhas estantes. Sabendo o que me esperava, tendo-o já encontrado por portas e travessas nos recantos obscuros do mundo digital, guardei-o até ter tempo mental para o saborear.

A adaptação de contos das Mil e Uma Noites por Toppi toca-nos no fascínio do orientalismo. Não adapta toda a obra - seria trabalho gargantuesco, mas condensa episódios do vasto tecido ficcional dessa recolha clássica da tradição árabe. Mas não é pelo texto que o livro me encanta. Apesar de ter uma relação nostálgica com leituras de infância de esfarelados exemplares de uma edição de 1957 na colecção Orbe da Livraria Clássica Editora. Essas edições coligidas por Eduardo Dias ensinaram-me o que sei sobre Sheharazade, Aladino, Sinbad, génios, odaliscas, palácios luxuosos no meio dos desertos, princesas misteriosas, bruxas que se alimentam de cadáveres nos cemitérios do Cairo e as aventuras do jovial Harun Al-Rashid, o califa que elevou Bagdad aos píncaros civilizacionais. Sublinhe-se que a nostalgia infantil não me cegou para o lado polémico da obra, traduzida para a sensibilidade europeia no século XIX como uma visão fantasiosa e pitoresca da cultura árabe. Boa companhia para aquelas pinturas de jovens tunisinas de seios ao léu ou paisagens de carnes ardentes de odaliscas saídos dos pincéis da escola orientalista francesa, muito adepta da sensualidade das escravas no harém. O orientalismo tem muita coisa passível de aterrorizar psiquiatras ou psicólogos clínicos.

O que torna Sharaz-De obra maior é o traço de Toppi. Fortemente texturado, filigranado a roçar a abstração. Os arabescos que deslumbram o olhar são muito apropriados para estas histórias das arábias sonhadas. Têm mais força no contraste puro do desenho a preto e branco, embora as ilustrações a cor também nos façam perder o olhar. As figuras surgem por entre os arabescos filigranados ou texturas densas, pequenos oásis de silêncio por entre o murmúrio do traço.

Oásis. Pronto. Bolas. Fui apanhado pelo espírito orientalista. Resta-me ir ouvir a Scheherazade de Rimsky-Korsakov no palácio de Monserrate. Deixo ficar Toppi na estante, mas trago comigo um ou dois dos livros da colecção orbe. Permitem-me?

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Diário do Meu Pai



Jiro Taniguchi (2015). O Diário do Meu Pai. Oeiras: Levoir.

O passado é um lugar atraiçoado pelas memórias falíveis. Quando um prototípico sarariman regressa à terra natal para o funeral do seu pai, décadas depois de ter partido, confronta-se o conflito entre as suas memórias e aquilo que os seus familiares lhe contam sobre a vida e o carácter de um homem do qual se havia afastado. As pequenas tragédias familiares, tornadas grandes pela forma como tocam os indivíduos, colidem com o conflito entre as pulsões de respeito tradicional pela família e as exigências da vida no Japão contemporâneo.

Uma obra que não deixa os leitores indiferentes, quer pelo forte toque autobiográfico quer por nos obrigar também a confrontar as nossas próprias memórias e escolhas. É inevitável. À medida que seguimos a história de Taniguchi as nossas memórias pessoais vão surgindo.

Um livro tocante, ilustrado com um fortíssimo rigor formal. Belíssimo exemplo do mangá enquanto banda desenhada de recorte erudito e literário, e mais uma excelente escolha a juntar-se ao já de si excepcional alinhamento da colecção Novelas Gráficas da Levoir.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

The Steampunk Trilogy



Paul Di Filippo (1997). The Steampunk Trilogy. Philadelphia: Running Press.

Como é que um autor de Ficção Científica mais ligado aos fluídos e biologias encara a estética Steampunk? Misturando as suas obsessões com as rebuscadas linguagens do passado eduardiano, algum cuidado sentido de época, e muito bom humor. Se há palavra que defina esta antologia é histriónico. Di Filippo exagera, leva ao absurdo. Este não é o Steampunk do bronze que rebrilha e das aventuras com dirigíveis. Aqui são as sinuosas ciências bio que fluem, viscosas, por entre as desventuras dos personagens. A ironia é elevada nestes contos que não se levam muito a sério.

Victoria: um reencontro com um conto alucinante onde o sensual resultado de uma experiência de cruzamento genético entre genes humanos e de salamandras é colocado no trono inglês enquanto a futura rainha Vitória decide aprender os factos da vida num bordel antes da coroação. Mete explosões nucleares com tecnologia proto-engenho a vapor, conspirações governamentais, duelos ao amanhecer e um cientista retirado do mundo que terá de passar a vida a tomar conta do inocente resultado das suas arrojadas experiências, que tanta luxúria desperta naqueles que a rodeiam.

Hottentot: Um cientista europeu que está no novo mundo para promover a sua visão científica anti-evolucionista e centrada na supremacia do homem branco leva um abalo e tanto. Vê-se envolvido numa caça a um misterioso artefacto que, nas mãos de feiticeiros do Daomé, poderá acordar os grandes anciãos que dormem no além espaço. Para travar esta ameaça, é obrigado a aliar-se a um jovial boer e à sua companheira, uma portentosa vénus hotentote que ensina à sua amante as virtudes do feminismo, enquanto o sobrinho que traz da europa ensina aos empregados as alegrias do marxismo. Quanto ao artefacto em si, digamos que é parte do corpo da avó da hotentote que horroriza o nosso antipático cientista racista.

Walt and Emily: A terminar a antologia, DiFilippo dá-nos um crossover improvável entre uma virginal Emily Dickinson e um másculo Walt Whitman. Com uma aventura de toque espiritista que, com William Crookes aos comandos da ciência e uma médium que se apelida de Hrose Selavy para assegurar a ligação com o além, os vai levar aos estranhos territórios que se encontram para além da vida. Nas vastas planícies relvadas do além, vão-se encontrar no meio de espíritos amnésicos de poetas do futuro. Ou então talvez tudo não passe de um delírio de éter numa aventura patética provocada por confiança excessiva numa burlã. Note-se que a referência ao pseudónimo de Marcel Duchamp funciona em dois sentidos, uma vez que vai resumir bem o despertar da poetisa para os prazeres da carne nos braços viris de Whitman.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Comics


 2000AD #1942: A 2000AD tem ciclos. Por vezes arrasta-se, e outras surpreende. Depois de meses sem memória voltou aos seus momentos altos com algumas histórias interessantes. Jaegir, derivação de Rogue Trooper, está com uma linha narrativa muito forte sobre abusos e crimes nas guerras futuras. A ironia amarga do policial sobrenatural Absalom terminou mais um intrigante ciclo. Mas a pérola tem sido o retrofuturismo dieselpunk de Helium, escrito por Ian Edginton. Uma história cativante, um singular futuro pós-apocalíptico, e o estilo gráfico de D'Israeli. Fabuloso!


This Damned Band #01: Paul Cornell brinca com os mitos das bandas icónicas do rock clássico nesta nova série para a Dark Horse. Acompanhamos uma super-banda dos anos 70, misto de Beatles com Led Zeppelin e Stones. Enchem estádios, seguem o rigoroso estilo de vida excessivo que os fãs deles esperam, e têm um fã muito, muito especial. E diabólico.


War Stories #11: Certo, esta foi inesperada. O que parecia ser uma história sobre o baptismo de fogo de voluntários irlandeses na II Guerra embrenhou-se nos mais tenebrosos caminhos da independência irlandesa. E não poupa o leitor, com uma sequência brutal entre dois soldados irlandeses: um, filho de oficial que ajudou a esmagar o IRA, e outro, filho de um combatente do IRA que procura vingar-se da morte por execução macabra do seu pai.

domingo, 9 de agosto de 2015

Insta




Poder-se-ão distinguir cores de verão das de inverno?

Fluam



Flow My Tears, the Policeman Said, é talvez dos romances de P. K. Dick que mais gosto. Quando o li na edição da Europa-América, com o menos poético título de Vazio Infinito, aprendi o gosto pelas ficções que questionam o real. Ou melhor, que colocam em dúvida a imutabilidade tangível da realidade e que, sem artifícios tecnológicos, com apenas minuciosas diferenças de percepção, nos levam a outras possibilidades do real. Sempre achei Dick como um dos mais psicológicos escritores de FC, que nos mostra como a realidade que construímos na nossa mente depende muito da forma como a percepcionamos, por muitas pedras que os bispos de Berkeley pontapeiem para provar a sua sólida tangibilidade física.



No romance, Jason Taverner é um famoso apresentador de televisão que ao regressar a casa no final de um espectáculo se descobre numa realidade paralela onde ninguém o conhece, onde nunca existiu. Esta queda nas frestas dos interstícios do real é algo recorrente na FC ou Fantasia mais metafísica, e não cessa de despertar o imaginário.




Flow, my tears, fall from your springs!
Exiled for ever, let me mourn;
Where night's black bird her sad infamy sings,
There let me live forlorn.



O título extraordinário deste romance foi inspirado no poema musicado em ária da pavana Flow My Tears de John Dowland. É uma combinação assombrosa de alaúde, voz e melancolia que a torna uma daquelas peças que nos faz parar e expandir as fronteiras do imaginário. Uma peça que em todos estes séculos não perdeu o seu poder mesmerizador. Diga-se que Dowland era imbatível nas canções melancólicas acompanhadas ao alaúde.

Esse é o tom que recordo da obra de Dick. A incredulidade que dá lugar a um desespero melancólico. O percurso do protagonista, dos altos da fortuna ao oblívio, espelha bem o poema da ária de Dowland:

Never may my woes be relieved,
Since pity is fled

caracteriza bem os sentimentos de um Jason Taverner que

From the highest spire of contentment
My fortune is thrown;
And fear and grief and pain for my deserts, for my deserts
Are my hopes, since hope is gone.


Taverner, disseram? Diria que este romance de P. K. Dick é, entre o muito que é, também uma forte homenagem à música antiga. No seu personagem reflecte o nome do compositor inglês do século XVI John Taverner. Se não me falha a memória, há uma rezinguice de Dick sobre a ascensão de Bach e o esquecimento de Taverner como entrave à evolução da abstracção na música. Não me consigo recordar é de qual romance memorizei esta passagem. Terá, talvez, sido em Do Androids Dream of Electric Sheep ou Os Jogadores de Titã?

A falibilidade da memória é um dos sintomas que leva à melancolia.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Carnacki The Ghost Finder


William Hope Hodgson (1947). Carnacki The Ghost Finder. Sauk City: Mycroft & Moran.

O aspecto mais intrigante de Thomas Carnacki, personagem criada no princípio do século XX por William Hope Hodgson, é a forma como tenta misturar a ciência com o sobrenatural. Protótipo das personagens de investigador do sobrenatural, aproxima-se dos mistérios que é contactado para desvendar com um arsenal que inclui um sólido conhecimento da sabedoria oculta dos manuscritos secretos, máquinas fotográficas e alguns utensílios que misturam a simbologia ocultista com a tecnologia de topo da épica. Destes, o mais notável é o seu pentáculo eléctrico, dispositivo que o protege das forças maldosas do além nalguns dos mais tenebrosos mistérios que investiga.

Vale a pena, para os conhecedores da literatura fantástica, ficar a conhecer as aventuras deste algo esquecido personagem. É uma referência histórica e literária, na linha directa de personagens como os modernos Harry Dresden, Sandman Slim ou tantos outros investigadores e combatentes do sobrenatural, cujas aventuras episódicas os levam a enfrentar as mais variadas ameaças.

Carnacki tem um fortíssimo cunho de época, claramente derivado de Sherlock Holmes de Conan Doyle ou John Silence de Algernon Blackwood. Lemos as suas aventuras a posteriori, calmamente narradas a um selecto grupo de amigos solteirões no final de tranquilos jantares. Nalgumas, o sobrenatural impera. Noutras, há explicações plausíveis para os factos misteriosos. É a combinação de poder dedutivo com ferramentas tecnológicas que lhe permite desvendar os mistérios.

Já a prosa de Hogdson é aqui terrivelmente datada. A estrutura rígida das aventuras, a forma desapaixonada como as descreve, o excesso de descrições e raciocínios dedutivos tornam esta uma leitura penosa. As aventuras deste personagem não são muito interessantes. Não surpreende que vá caindo em esquecimento, desempoeirado apenas pelos leitores que querem ficar a conhecer melhor a história da literatura de terror. Fica como personagem icónica, influente e citada em obras revivalistas (descobri-o nas inúmeras referências literárias de Alan Moore em League of Extraordinary Gentleman), daquelas que conhecemos a iconografia mas não o conteúdo literário original.

As aventuras completas de Carnacki estão disponíveis gratuitamente no Projecto Gutenberg e no eBooks@Adelaide. Neste segundo repositório encontra-se a edição mais completa, contendo as seis histórias originais publicadas na revista The Idler, uma revisão e três contos dispersos noutras publicações. Esta publicação online da edição de 1947, organizada por August Derleth, é possível graças a diferenças de legislação sobre propriedade intelectual.

The Gateway of the Monster: Um quarto assombrado é investigado por Carnacki, que revela aqui a sua mistura de magia com ciência protegendo-se com pentáculos electrificados ao passar uma noite aterrorizante. Nela descobre o motivo da assombração, encerrado num artefacto amaldiçoado perdido que abre uma porta para outros mundos.

The House Among the Laurels: Terríveis acontecimentos assombram um castelo irlandês abandonado. Quando o herdeiro regressa e decide tomar conta do edifício elas aumentam de intensidade, aterrorizando os homens mais duros da região. Depois de uma noite assustadora em que Carnacki e os seus ajudantes, duros polícias irlandeses, crêem mal sobreviver às assombrações, o detective do sobrenatural percebe que afinal não há fantasmas nem maldições. Tratam-se de criminosos locais, que alimentam a lenda do castelo assombrado para terem um local propício e isolado para se dedicarem aos seus negócios obscuros.

The Whistling Room: No passado distante o bobo da corte de um pequeno rei irlandês é punido exemplarmente pelo rei rival, ofendido de morte por uma cançoneta que dele faz pouco. Séculos depois, um arrepiante assobio faz-se ouvir num salão de um solar senhorial que cresceu à volta do antigo castelo. Um horror arrepiante, que quase derrota o fleumático Carnacki.

The Horse of the Invisible: Uma jovem adolescente é atormentada pelo que parece ser uma maldição com cavalos fantasmagóricos. Depois de algumas noites arrepiantes Carnacki apercebe-se que não há forças sobrenaturais envolvidas, apenas os actos psicóticos de um empregado da família apaixonado pela jovem rapariga que, na impossibilidade de a ter, recorre a lendas sobre uma maldição antiga para levar a família à loucura.

The Searcher of the End House: Que estranhos horrores sacodem a casa onde Carnacki vive com a sua mãe? Conta-se que será uma mulher-fantasma, mas após investigar o intrépido investigador descobre que afinal a assombração é o anterior inquilino, homem dedicado aos contrabandos que usa a casa pela sua acessibilidade aos túneis que lhe permitem fugir aos olhos atentos da autoridade. Mesmo assim, algo de misterioso resta, com Carnacki a não saber o que pensar de uma criança azul que percorre os salões à noite.

The Thing Invisible: A capela de um presbitério inglês é palco de estranhas mortes. Á noite, visitantes correm o risco de ser atingidos por um punhal disparado de forma sobrenatural. Ou talvez não. Carnacki investiga e descobre um mecanismo arcaico que dispara o malfadado punhal, armado diariamente pelo presbítero que, com sanidade mental duvidosa após a morte da esposa, tem tendência a esquecer-se de desarmar a armadilha, provocando a morte de alguns servos incautos.

The Hog: Desta vez o perigo sobrenatural é bem real, com Carnacki a tratar do estranho caso do paciente de um médico seu amigo. Sensível às influências ocultas, canaliza o espírito de terríveis suínos que se ocultam para lá da nossa percepção.

The Haunted "Jarvee": Um navio assombrado é o palco das experiências entre o científico e o arcano de Carnacki. Percebendo que não há redenção possível, uma vez que o artefacto náutico é um ponto focal de forças para além da nossa compreensão, mais vale que o navio pertencente a um amigo fique no fundo do Atlântico. Fica-se na dúvida de qual é a vantagem de se ser amigo do investigador.

The Find: Para terminar a antologia, Carnacki mostra-se tão perspicaz como Sherlock Holmes ao resolver um caso misterioso. Quando aparece do nada uma cópia exacta de um livro único, do qual só foi impresso um exemplar, os estudiosos parecem inclinados a aceitar que houve, de facto, uma segunda impressão da obra. Mas o investigador, com algumas deduções certeiras, mostra que afinal tudo não passa de uma elaborada tentativa de fraude.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Dylan Dog: Gli Ultimi Immortali; Epidemia Aliena; Il Crollo


Giovanni di Gregorio, Nicola Mari (2011). Dylan Dog #293: Gli Ultimi Immortali. Milão: Sergio Bonelli S.p.a..

Um remoto lar de terceira idade abriga um grupo de velhotes com um singular segredo. Cada um tem a sua versão. Uma acredita que a culpa é do seu vampirismo. Outro, que são os assassínios de jovens inspirados por uma sessão espírita. Um crê que o tempo parou. Outra, que os prazeres esticam o tempo. Um casal vê no amor infindo a resposta. E o mais telúrico destes, amante da vitalidade do jardim, mostra uma foto com o seu quê de retrato de Dorian Gray. O mistério que Dylan é chamado a desvendar é o da aparente incapacidade destes tranquilos pensionistas irem desta para melhor. Uma aventura curiosa, com nuances que nos levam a um final cheio de múltiplas interpretações.


Giovanni Gualdoni, Luca Dell'Uomo (2012). Dylan Dog #312: Epidemia Aliena. Milão: Sergio Bonelli S.p.a..

O que redime um pouco esta aventura do Old Boy é o toque final de universos paralelos. Dylan descobre-se no meio de uma tremenda epidemia de honestidade, com o previsível colapso social trazido por um mundo onde todos confessam exactamente o que pensam. O mistério adensa-se quando Dylan, hóspede de duas velhinhas simpáticas decalcadas do filme Arsenic and Old Lace de Capra, se descobre no covil de perigosas assassinas em série. E um dos cadáveres é o seu. Uma aventura com toques intrigantes, mas no global muito medíocre.


Paola Barbato, Giovanni Freghieri (2012). Dylan Dog #313: Il Crollo. Milão: Sergio Bonelli S.p.a..

O que intriga nesta aventura de Dylan Dog é a forma fragmentada como a história se constrói, a partir das diferentes versões contadas pelos intervenientes que perderam a memória após a derrocada de um edifício. Presos na cave cheia de escombros, tentam redescobrir a verdade enquanto enfrentam a surreal ameaça de uma gosma negra sentiente que concentra em si os sentimentos negativos da humanidade.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Leituras


Dispatches from the Future: A Popular Science repete esta rubrica a anual, dentro da tradição da FC enquanto especulação potencialmente preditora. O mini-conto de Andy Weir, curta vinheta de hard SFpuro sobre paradoxos temporais induzidos por experiências com tecnologias translumínicas é de longe o mais interessante, mas os restantes também merecem leitura.

Seria Tolkien um cripto-fascista? David Soares faz notar e muito bem que se por um lado é de ética duvidosa disparar este tipo de acusações a quem já não se pode defender, por outro o conservadorismo clássico patente de forma muito óbvia na obra de Tolkien não se coaduna com os ideais revolucionários fascistas. Recorda-nos que os movimentos fascistas pretendiam construir novos futuros, através do que apelida de restruturação moral e social. Deu no que deu, mas andou muito longe dos classicismos conservadores. Entretanto João Campos aponta o óbvio clickbait do título que destaca um pormenor de uma interessante entrevista a Michael Morcook, sublinhando a transformação na literatura de Ficção Científica operada pela revista New Worlds e pela new wave em geral, observando que we wanted to give the public substantial work that operated on multiple levels, with several narratives that they could tease out. Isto, e o mecanicismo da Hard SF clássica ter sido ultrapassado pelas paranóias tecnológicas de PK Dick no que toca à concepção de mundo tecnológico em que vivemos hoje. A entrevista de Moorcock pode ser lida na New Statesmen.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Re: Colonised Planet 5, Shikasta


Doris Lessing (1979). Re: Colonised Planet 5, Shikasta. Nova Iorque: Knopf.

Torna-se óbvio, logo nas primeiras páginas, que este Shikasta é mais do que uma metáfora do nosso planeta. É um recontar dos nossos mitos e história com um pesado sentido crítico. Falar de um planeta que perdeu a sua era dourada e evoluiu num profundo negativismo violento, apesar da ciência, cujas populações iludidas por ideiais repressivos vivem sem esperança curtas vidas de dor e ilusão.

Poderia ser um mundo perfeito, mais um da constelação de mundos de perfeição de Canopus, senão pela interferência negativa dos agentes de um tenebroso planeta, sede de um império desestabilizador. A fonte de essência cósmica que permitiria aos habitantes desta colónia aceder às perfeições paradisíacas dos seres superiores que dominam a galáxia é pervertida e desviada pelos agentes do mal, para desespero dos agentes da perfeição. E esta, talvez, tenha sido a mais bizarra metáfora para a dualidade metafísica bem-mal com que me cruzei na ficção científica. Lessing remete os mitos que nos torneiam para uma cosmologia onde os interesses e esforços de seres alienígenas. É uma intrigante variante das propostas sobre astronautas antediluvianos com um toque de proto-mitologia.

Shikasta é um romance fragmentário, contado a partir dos relatórios progressivamente desesperados dos agentes do bem que assistem impotentes ao regredir das raças inteligentes do planeta para a triste humanidade. Nestes, relatando a queda da era dourada e a incipiência de uma espécie cujo desenvolvimento negativo tentam, através da religião, manipular. Progressivamente, quando as mitografias de eras douradas do passado com os seus seres de perfeição moral vão dando lugar a uma história enviesada de degradação, percebemos que o véu da metáfora se vai levantando, com Lessing a transmitir uma visão muito negativa da contemporaneidade. Aqui o ponto de vista altera-se do dos agentes espaciais para as experiências dos humanos, que vão relatando a cataclísmica transformação final da humanidade, arrasador guerras num planeta esgotado que, finalmente, poderá aceder à perfeição.

É neste ponto que se situa o momento mais inquietante do livro, aquele que o escritor Fábio Fernandes referiu ao falar dele nos colóquios Próximo Futuro: o julgamento da humanidade, que começa por ser um julgamento de aproveitamento político que coloca a raça branca no banco dos réus, mas que à medida que os crimes dos brancos vão sendo enumerados leva todos os presentes a perceber que não lhes são exclusivos, que as relações violentas entre opressores e oprimidos, a ganância, a exploração, são transversais às etnias. É, de facto, o julgar de uma espécie que há muito perdeu a inocência.

Recuando de mansinho


Adoro o título desse livro. Há muitos dias em que me sinto assim, diz, simpática e sorridente, a funcionária da livraria. Somos todos um pouco marcianos, não acha? Sublinho simpática. Os resquícios de machismo latino tentam condicionar-nos para interpretar qualquer sorriso feminino como uma confissão lasciva de desejo, mas felizmente estamos no século XXI. E sou um autómato social, que ao longo dos anos mecanizou um conjunto de técnicas automáticas que me permitem sobreviver à larga maioria das interacções sociais.

Ou de Plutão, respondi. Ah, às vezes de Vénus, Urano, Saturno... depende de casa está a Lua, continua a sorridente funcionária enquanto processa o pagamento. Ainda pensei em dizer que este não é esse tipo de livro, é sobre ciência e ficção científica, mas preferi o silêncio. Astrologistas. Têm tendência a tornar-se perigosos sempre que alguém lhes aponta o óbvio. Que os astros são corpos celestes, e não influências decisivas na sorte ou personalidade de cada um. Terminei o pagamento, e fui recuando de mansinho, sempre a sorrir, recuando de mansinho, a sorrir.

Para já, o melhor do livro são as últimas páginas. Tranquilizem-se, não é critica. Ainda não iniciei a leitura. Mas nas últimas páginas está a listagem de todos os títulos da colecção Ciência Aberta da Gradiva. É bom ver que a linha editorial que me permitiu aceder a tantos livros fundamentais para a minha formação pessoal se mantém viva e dinâmica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

aCalopsia: All You Need Is Kill


Aproveitando a onda mediática do filme Edge of Tomorrow, veículo de Ficção Científica-espectáculo para actores com toque canastrão e pálida versão da obra original de Hiroshi Sakurazaka, a Devir editou a adaptação para manga de All You Need Is Kill. São dois volumes, algo indissociáveis um do outro.


Daqui parte-se para a literatura de FC nipónica trazida até nós pela Haikasoru, e nem Robert Heinlein fica esquecido. Crítica completa no aCalopsia: All You Need Is Kill.

Comics


The Manhathan Projects - The Sun Beyond The Stars #02: Space is depressing, confessam-nos sensivelmente a meio das aventuras intergalácticas de Yuri Gagarin e da cadelinha agora humanóide Laika. Traduzindo: Hickman eleva a fasquia do high weirdness à space opera nesta série que tocou nos limites do surreal.


Material #03: Será realmente real aquilo que percepcionamos como real através de ecrãs ou outros dispositivos de reprodução digital ou mecânica? Ales Kot carrega a fundo na hipermodernidade nas quatro linhas narrativas deste comic que é um pouco subtil infodump sobre as questões despertadas pela lâmina afiada da contemporaneidade. Ou seja, um comic à minha maneira, que ainda mais me encanta pela propensão que Kot tem em usar capas com uma estética glitch. Visual mais contemporâneo que isso não há.


Chilling Adventures of Sabrina #04: O Horror continua a tomar conta do simplismo quadricrómico dos comics da Archie. Felizmente sem cair na tentação de dar continuidade às séries, que as arrastaria até à banalização. Mas começa a perceber-se que Aguirre-Sacasa está a tentar estabelecer uma continuidade entre esta série e Afterlife With Archie. Spoilers: vai envolver necromancia da pura e dura.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Engines of War


Christian Wolmar (2010). Engines of War: How Wars Were Lost & Won On The Railways. Public Affairs.

Um livro intrigante para estes dias em que o cérebro exige estímulo em alta rotação mas o corpo implora por desacelaração. Mergulhamos na história milita dos caminhos de ferro, numa análise que nos leva da guerra civil americana até aos dias hoje, demonstrando como o transporte ferroviário foi um factor decisivo nos principais conflitos que forjaram a contemporaneidade.

Previsivelmente, o livro centra-se nos desafios logísticos trazidos pelo transporte de homens e materiais, sublinhando como a gestão eficiente das linhas ferroviárias contribuiu para o desenrolar dos acontecimentos nos campos de batalha. Mas não resiste a alguns pormenores mais empolgantes, como as histórias rocambolescas de comboios blindados de combate que percorreram as estepes asiáticas (mais sobre isto no post do Medium que me alertou para este livro).

É interessante rever a história contemporânea sob a perspectiva dos caminhos de ferro. Aprender como estes meios foram fundamentais para a vitória nortista na guerra civil, que estabeleceu as bases da gestão eficaz de caminhos de ferro em tempos de guerra. Como não respeitar essas bases geralmente deu em desastres, como se observou na guerra franco-prussiana. A importância crescente do transporte ferroviário na I guerra e nos tempos conturbados que se lhe seguiram no leste europeu e na Rússia, onde o exército vermelho não teria triunfado sem o controle das ferrovias. Mostra também como pequenos pormenores - como o tamanho das bitolas utilizadas em diferentes países, são decisivos nas operações militares. Não esquece esselado tenebroso da eficiência ferroviária que foi o transporte das vítimas dos campos de concentração nazi. Termina com uma análise dos métodos altamente móveis da guerra contemporânea, que deixaram de necessitar da ferrovia como elemento infraestrutural.

Mas nada bate as histórias de frotas de comboios de combate deambulando pelos caminhos de ferro nas estepes da ásia central.