quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Hora de 80 Minutos


Brian Aldiss (1992). A Hora de 80 Minutos. Lisboa: Edições 70.

Peguei neste livro com a expectativa de ler uma história clássica de apocalipse atómico dos tempos da guerra fria e saiu-me algo completamente inesperado, um delírio experimentalista high weird que pega no influente ideário de destruição mutuamente assegurada da guerra fria e o mistura com viagens no tempo, linhas narrativas histriónicas e um forte experimentalismo linguístico que mesmo em tradução se faz sentir.

Não é facil definir este livro. Digamos que estamos num futuro pós-conflito atómico, com os dois antigos blocos unidos numa união capitalista-comunista e um conjunto de países não alinhados que se recusa a fazer parte da tecnocracia, controlada por uma rede de super-computadores que se vai tornando cada vez mais dominante sobre as decisões da humanidade. As animosidades em fronteira difusa vão se espalhando ao longo do sistema solar, e para complicar a situação as armas usadas na guerra nuclear causaram progressivas instabilidades no tecido do espaço-tempo, o que causa curiosas anomalias com regiões inteiras do planeta a serem transplantadas para outros tempos, com o presente a escorregar para o passado e o passado a materializar-se no presente futuro. Ainda temos o proverbial líder mundial de ética duvidosa que se oculta num universo paralelo contido num medalhão, espalo cobiçado pelas inteligências artificiais para se protegerem das instabilidades espácio-temporais, e uma guerra surda entre nações não alinhadas e bloco principal que ameaça resvalar para uma guerra. Esta tarda porque uma das naves de espionagem dos não-alinhados cai numa anomalia temporal para um passado tão profundo que acabará por colonizar um planeta que se situou há milénios atrás entre as órbitas da Terra e de Marte, desintegrando-se sem deixar rasto, excepto por ruínas milenares sob a superfície marciana e a modificação genética aos primeiros mamíferos antepassados dos antepassados dos antepassados do homem que introduz o hipocampo nas espécies, forma bio-engenhada de um dispositivo de controle de mentes que está a ser prototipado neste estranho futuro. Marte, claro, é uma espécie de campo de concentração para inadapatados e, simpático, Aldiss pulveriza as ilhas britânicas, transformando os ingleses numa nação sem território.

Um livro estranho, que salta as fronteiras de género da FC com um forte experimentalismo linguístico e conceptual, que se atreve a rir-se de si próprio com um profundo sentido de humor escatológico.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Dylan Dog: Il Baule delle Meraviglie; L'assassino della porta accanto.


Giancarlo Marzano, Ugolino Cossu (2012). Dylan Dog #306: Il Baule delle Meraviglie. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Mais uma aventura corriqueira de Dylan Dog, desta vez às voltas com um baú amaldiçoado que leva à loucura aqueles que têm a dúbia sorte de o possuir. Curiosamente a maldição não está na tradição do artefacto dos orientes, mas no desespero de uma viúva que se vê na falência após a morte de um marido que calcorreava o planeta a coleccionar bricabraques ligados ao oculto, geralmente tralhas inúteis vendidas por vendedores sabidos. Há uma tentativa de subtexto com um ciclope numa ilha para lá do nosso mundo, mas nunca passa de um remendo para uma história de pouco mérito e memória.


Fabrizio Accatino, Stefano Gerasi (2012). Dylan Dog #307: L'assassino della porta accanto. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

De vez em quando encontramos uma aventura de Dylan Dog que surpreende e mantém a qualidade literária do personagem. É o caso desta, que conduz deliberadamente o leitor pelos caminhos errados. Dylan vai à escócia atrás de uma mulher por quem se apaixonou, e hospeda-se numa pensão cheia de hóspedes curiosos. Há a jovem de beleza estonteante que flirta com todos, excepto com o jovial irlandês que está apaixonado por ela. Há uma imigrante filipina que esconde a sua filha. E um homem de meia idade, irritante mas pacato, que na verdade foi um perigoso serial killer, o estrangulador de Edimburgo, mas que hoje sacia os impulsos assassinos em ratos capturados na cave do prédio a quem dá o nome de mulheres antes de os matar com requintes de crueldade. Seguimos ao longo de toda a aventura este assassino, que ao descobrir que vai ter um vizinho detective se sente ameaçado e em risco de, finalmente ao fim de tantos anos, ser descoberto. Mas Dylan, para além de não ser detective criminal, está obcecado pelo seu amor por uma mulher casada que lhe exige discrição enquanto se decide nos seus amores. Trava amizade com o simpático irlandês, que se enfurece quando encontra Dylan aparentemente a namorar a bela vizinha que adora. Esta, nessa mesma noite, torna-se a vítima do assassino que, sem um rato para torturar, volta a calcorrear as ruas da cidade em busca de vítimas para libertar os seus impulsos. A polícia culpa o irlandês, morto por acidente durante uma bebedeira. Quanto a Dylan, acaba por se decidir a abandonar a esperança no amor, e nunca chegará a saber o que contém uma carta que a mulher que o trouxe à Escócia lhe escreve, interceptada pelo assassino. O que intriga nesta aventura é a forma como Dylan e os seus dilemas são um dos elementos do cenário. Tudo se centra no assassino em série, nas suas neuroses, impulsos e desejos, e não há a tranquilizante redenção do criminoso que é apanhado e pagará pelos seus crimes. O assassino ficará impune, regressando à normalidade da sua vida numa pensão agora mais calma, com o trágico desaparecimento da maioria dos hóspedes. Muito boa, a forma como o argumentista brinca com as expectativas do leitor.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Visões


Kung Fury: O abuso completo era, nos tempos da minha adolescência passada entre os anos 80 e 90, a medida do êxtase cinematográfico absoluto. Descrevia o exagero over the top da filmografia e séries televisivas da épica, hoje revistas no seu espírito com alguma nostalgia. Época áurea dos filmes de violência absurda e iconografias de estilização ridícula. Este Kung Fury pega em toda essa iconografia, mistura, e dá-nos este cocktail fabuloso que mistura mestres do kung fu, arcades robóticas assassinas, laser raptors, buddy movie, policial procedimental hardboiled, má ficção científica, fantasia medieavalista e acenos aos desenhos animados e animé clássicos dessa época. Com Hitler à mistura, porque com a lei de Godwin tudo desliza melhor. Em suma, um adorável, fantástico, hilariante e com um deslumbrante VFX abuso completo. Poder-se-ia destacar muita coisa nesta absurda curta metragem, desde a ironia com Karate Kid, filmes de guerra directos para VHS ou policiais tipo Miami Vice ou Dirty Harry e até 2001 cruzado com Knight Rider (I'm afraid I cannot do thatnever hassle the hoff 9000), mas a cena que mais impressionou foi uma das lutas em que o epónimo Kung Fury aniquila um batalhão de soldados nazis, com a imagem a recriar na perfeição a estética, pontos de vista, movimentos de câmara e gestos marciais do clássico jogo de computador Street Fighter. Genial, pela divertida ironia de época, humor, cinematografia e uso de efeitos especiais. Tem de ser visto para ser credível. E vale bem a pena.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Comics


Frankenstein Underground #03: YAY! Mike Mignola recuperou neste comic uma das minhas ideias bizarras favoritas. Frankenstein, aliás, em bom rigor, a criatura saída do laboratório do Dr. Viktor Frankenstein, visita os mundos subterrâneos, onde terá de enfrentar aguerridas tribos de cavernícolas e um par de cientistas de sanidade do lado errado da fronteira entre o são e o duvidoso. É sempre divertido ser levado pelas mãos de autores e argumentistas às bizarrias e fantástico espaço imaginário da Terra Oca, uma daquelas teorias peripatéticas demolida pela ciência mas que influenciou mitografias tão díspares como teorias da conspiração nazi e romances de Edgar Rice Burroughs ou Júlio Verne. Já para não falar nos inúmeros místicos que recordam a perfeição das civilizações ocultas sob o manto terrestre, iluminadas pelo sol que brilha no centro da terra. É uma ideia muito weird, que fascina.


Providence #01: Promete, e muito, este olhar clínico do mestre Alan Moore sobre a obra de Lovecraft. Suspeito que não teremos leitura fácil nem Cthulhus de peluche. Moore parece querer ir ao cerne do horror cósmico lovecraftiano e começa logo com uma dupla homenagem a The King in Yellow de Robert W. Chambers (específicamente ao conto Repairer of Reputations) e a Cool Air de Lovecraft. Iremos seguir um discreto jornalista homosexual que procura nas histórias das vidas do mundo oculto dos misticismos a metáfora para escrever um romance sobre o seu próprio mundo oculto de sexualidade reprimida por convenções sociais. Depois da visceralidade de Neonomicon, Moore vira-se para o classicismo.


Material #01: O trabalho de Ales Kot intriga-me, apesar de raramente conseguir acabar de ler o que escreve. Costuma ter boas ideias, que se arrastam. E um bom gosto impecável na escolha das capas para os seus comics. Zero foi dos primeiros comics que vi a usar a estética glitch. Aliás, em bom rigor, o primeiro. Kot é claramente erudito e ambicioso no seu ideário e argumentos, e percebe-se a evolução. Em suma, vale a pena mantê-lo focado no radar. Este seu novo comic para a Image promete, com um toque de marxismo hipermoderno na sociedade do espectáculo e hipervigilância. Mistura um académico de ideário polémico que se cruza com uma aparente inteligência artificial rizomática, uma actriz desempregada que se torna a musa de um realizador de cinema experimental a navegar as águas tortuosas do megacinema de Hollywood, e um árabe-americano vítima de violência policial e tortura que apenas consegue encontrar no sado-masoquismo a intimidade que perdeu às mãos dos seus torcionários. Esta mistura contemporânea de violência institucional, capitalismo predatório, cultura digital e idealismos de torre de marfim é muito intrigante.


Where Monsters Dwell #01: Hey, Bristol Fighters versus pterodáctilos! Não é a famosa lenda pop-cultural de Zeppelins vs Pterodactyls, mas anda lá perto. A contribuição de Garth Ennis para o evento Secret Wars da Marvel está aí e mistura a visceralidade a que o argumentista nos habituou com sentido de pura aventura. Recupera Phantom Ace, personagem menor da era dourada dos comics, e revê-o como aventureiro e mercenário a tentar sobreviver no extremo oriente após a I Guerra. Fugindo a uma princesa tribal que engravidou e a uma horde de senhores da guerra enganados num carregamento de armas, transporta uma aparentemente dondoca até Hong Kong. Pelo caminho caem de chapa no meio de uma zona onde os dinossauros andam à solta. E, sendo Ennis um apaixonado por coisas militares, o pormenor do FB2 é importante.


domingo, 31 de maio de 2015

Insta




Traços. E não, nunca consegui passar do primeiro parágrafo do Finnegan's Wake.

Distinguível da Magia


Fatigado, depois de um sábado estimulante, e apanhado com aquele ar de necessidade urgente de um corte de cabelo e um toque de lâmina de barbear. Como não podia deixar de ser, ontem juntei-me à Festa das Escolas do Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, celebrando a ligação com a comunidade e mostrando o trabalho que se faz no cruzamento de pedagogia e tecnologia.

Divulgar e desmistificar a tecnologia é uma das vertentes das TIC em 3D. Sempre presente está a clássica frase de Arthur C. Clarke, uma das suas três leis, que nos recorda que any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic. Como educador, creio que não tem que ser assim, e que nos cabe o papel de abrir, mostrar, fazer ver como funciona. A tecnologia e o progresso apoiam-se no conhecimento. E quanto mais conhecemos e sabemos, mais combustível tem o cérebro para gerar novas ideias. Sem conhecimento não há criatividade. Quanto mais partilhamos mais aprendemos.

Mas estou mesmo a precisar de uma marcação no cabeleireiro. E de uma lâmina de barbear aplicada na cara.

sábado, 30 de maio de 2015

Incantations are Software


Tecnologias avançadas como indistinguíveis da magia, diria.Arthur C. Clarke, mas a ciência e o saber, apesar de complexos, não se ocultam atrás de ofuscações. The stone is a wafer of silicon, ans the incantations are software. Tem o seu quê de fantasista, este paralelo que Danny Long Now Hillis traça entre computação e encantamentos arcanos. Do livro The Pattern on the Stone.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dylan Dog: Terrore ad Alta Quota; Il Museo del Crimine.


Giovanni Di Gregorio, Daniele Bigliardo (2012). Dylan Dog #304: Terrore ad Alta Quota. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Esta história corre depressa para um beco sem saída de narrativa. Estimulado por uma namorada que é hospedeira de voo, Dylan Dog decide confrontar o seu medo de voar numa sessão terapêutica em que pessoas com fobia aos aviões embarcam num devidamente estacionado num hangar. O pânico começa quando, aparentemente e sem qualquer piloto, o avião descola e os pacientes começam a morrer, um por um, de morte violenta. Poderia haver aqui elementos ao estilo Twilight Zone (e não deixa de haver uma citação a um dos episódios mais clássicos da série), mas depois de todo o crescendo de suspense o horror revela-se um banal monstro que se alimenta de fobias. Um monstro que parece ter sido criado, no que toca ao aspecto visual, por um miúdo de cinco anos. Estão a ver o estilo. Focinho animalesco, grandes orelhas, dentes afiados e braços musculados. E dá-se ao trabalho de se justificar perante Dylan. Como série, Dylan Dog tem bons e maus momentos. Este, claramente, não é dos bons.


Giovanni Gualdoni, Nicola Mari (2012). Dylan Dog #305: Il Museo del Crimine. Milão: Sergio Bonnelli Editore S.p.A..

Um volteio ao clássico museu de cera. Dylan é levado por uma namorada criminóloga a conhecer um museu dedicado aos crimes horrendos, espaço grand-guignol onde Dylan se descobre no passado como vítima de alguns dos mais macabros crímes da história recente. Poderia ser uma boa aventura do Old Boy, com toques de delírio no museu dos horrores, mas o argumentista tinha de meter a namorada como uma serial killer que se quer vingar do próprio Dylan Dog. A ilustração, com um impressionante toque gótico expressionista, salva este volume.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Dylan Dog: L'imbalsamatore; Il Divoratore di Ossa.



Pascuale Ruju, Luigi Piccatto  (2011). Dylan Dog #301: L'imbalsamatore. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma história tétrica, sobre um cirurgião que desenvolve uma técnica perfeita de embalsamento. Tão perfeita que recupera o saber alquímico de antanho para manter vivo o cérebro dentro dos corpos preservados. Obcecado com a falecida mulher, que preservou imutável, vai acumulando cadáveres embalsamados dentro de uma fábrica abandonada, que converteu numa eterna soirée social onde mortos com uma faísca de vida estão condenados a uma aparente eternidade de fraque, vestido de noite e flute de champagne. Toda aquela energia negativa acumulada transmuta-se numa epidemia de assassinatos horríficos, que irá envolver Dylan neste mistério. A sequência inicial da atrocidade no metro londrino está brilhante. Distingue-se pelo traço do ilustrador, mais arrojado e expressivo do que o habitual no fumetti.


Giovanni Di Gregorio, Giampiero Casertano (2011). Dylan Dog #303: Il Divoratore di Ossa. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma aventura muito directa do Old Boy. Até porque a capa de Angelo Stano não deixa grande margem para dúvidas. Desaparecimentos misteriosos nas obras de trasladação de um cemitério abandonado revelam um segredo medonho: é habitado por um ghoul, criatura pacífica que nada mais quer do que roer os ossos dos mortos esquecidos mas que reage à destruição do seu habitat natural. Este ghoul é também, de forma pungente, o único amigo do envelhecido ex-coveiro deste cemitério onde os falecidos foram há muito esquecidos. Torna-se interessante pela ilustração, que se vale e bem da atmosfera soturna dos cemitérios abandonados. Casertano divertiu-se com a iconografia gótica e dá-nos vinhetas atrás de vinhetas de campas em ruínas, cenotáfios desertos e espectros arrepiantes. É série B gótico clássico até ao fim.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Dreaming 2074


Xavier Mauméjean (ed.) (2014). Dreaming 2074: An Utopia Created By French Luxury. Comité Colbert.

Uma antologia curiosa, que recupera a ficção científica como apontador de tendências em especulação informada e direccionada. Tem o seu quê de design fiction. Encomendada pelo Comité Colbert, um think tank que reúne as maiores empresas francesas da área dos produtos de luxo, revê a ideia de luxo à luz da ficção científica. Reunindo contos, peças musicais e ilustrações de autores franceses, centra-se num mundo pós-escassez com o problema da sobrecarga sobre o planeta resolvido com uma pandemia global. Tem um mundo ficcional partilhado, embora não seja algo aparente à primeira vista. Apenas em detalhes tecnológicos nos apercebemos que o universo ficcional tem mais pontos em comum do que ter o luxo como tema. É pervasivo o ponto de vista individualista, com forte integração da tecnologia no espaço íntimo do indivíduo. Ênfase no elitismo meritocrático de aparência benévola.

Antologia curiosa, mas que incomoda. Começa logo pelo tema, largamente removido da realidade da maioria. Estamos a falar do elogio dos píncaros rarefeitos do alto luxo, da celebração das sensações obtidas por ser detentor do inatingível. Mais preocupante ainda, resolve o óbrio problema das desigualdades de uma forma particularmente tétrica. Sabemos que uma utopia de perfeição luxuosa traz consigo a inevitável pergunta de saber o que acontece aos mais pobres. Neste mundo ficcional a coisa resolve-se com uma pandemia global. Sim, leram bem. Uma utopia futura de elegância e prosperidade constrói-se depois de se eliminar a maior parte das massas infectas de humanidade sem mérito. Algo muito incómodo de ler nestes tempos de manigâncias financeiras alastrantes, austeritarismos e meritocracias que se assumem como legitimadoras de democracias autocráticas. Afinal, esta especulação foi encomendada por casas de produtos de luxo. Estas conhecem bem a mentalidade dos seus clientes.

Lida como design fiction, a antologia tem os seus méritos. É uma utopia suave, elegante, misturando tecnologia com sensações únicas. Mas o modo de pensamento que a enquadra é fortemente incómodo. A antologia está disponível para leitura gratuita em vários formatos em Dreaming 2074.

Porphyrian Tree: No conto de Xavier Mauméjean a pergunta central é qual o maior dos luxos para aqueles que já têm tudo. A resposta está nas experiências, e o personagem principal deste conto é um dos melhores do mundo a criar experiências transformativas que melhoram a vida dos seus clientes, mostrando-lhes que apesar da sua riqueza há emoções. O seu maior desafio é uma recompensa, proposta pelas autoridades de saúde mundial, a uma artista que nos tempos mais tenebrosos de uma humanidade assolada por pandemias globais conseguiu dar esperança. Um conto que vale mais pela ambiência limpa e elegante de um futurismo luxuoso (essencialmente, o foco deste livro), com cidades lustrosas, elegância tecnológica e rápidas redes de transportes aéreos e ferroviários a transportar a meritocracia com todo o conforto por todo o globo.

Amber Queen: Vinho é o tema luxuoso de Olivier Paquet, que cruza a longa tradição vinhateira francesa com as exigências do mercado financeiro e a coligação entre intuição humana e inteligência artificial. A enóloga responsável pelas castas de uma casa vinhateira centenária apoia-se numa inteligência artificial simbiótica para perceber as potencialidades do vinho que produz. Ao reformar-se, decide legar a intuição artificialmente aumentada a todos os que beberem o vinho produzido pela vinhateira. Um conto que aproveita o tema do luxo para apontar um caminho curioso de integração homem/inteligência artificial em que o objectivo é a simbiose, com as valências humanas e digitais a socorrerem-se uma da outra.

Facets: O modo como vestimos diz muito sobre a nossa personalidade e emoções do momento. Neste conto de Samantha Bailly, a premissa recai sobre um tecido cujas cores e padrões se metamorfoseiam em tempo real de acordo com a biologia das emoções de quem os veste. A sua criadora junta moda e neurociência, depressa conquistando os escalões mais rarefeitos do mundo da moda de luxo. Mas sente que lhe falta algo, uma componente artística, e ao juntar forças com uma casa de alta costura tradicional atinge, finalmente, a simbiose entre tecnologia e perfeição artística com um vestido que mistura a luxúria dos materiais classicos com as possibilidades da biotecnologia.

Diamond Anniversary: Jean-Claude Dunyach, um dos veteranos da FC francesa, dá-nos uma jóia do conto. Ironia intencional. Nela, o herdeiro de uma casa de alta joalharia descobre que o segredo ancestral da família está ligado ao seu maior sonho, o ser astronauta. Um curioso conto sobre a luxúria das pedras preciosas e a possibilidade de minerar asteróides para extrair pedras raras.

A Corner of Her Mind: O conto de Anne Fakhouri mistura intriga empresarial com meios tecnológicos que permitem ler pensamentos, na busca de uma casa de peles de luxo pela manutenção da superioridade tecnológica nos seus produtos.

The Chimeras’ Gift: Há um toque demasiado óbvio de Cinderella neste conto de Joëlle Wintrebert que encerra a antologia. Centra-se numa bióloga ao serviço de uma casa de peles de luxo que vende um produto único, peles de quimeras, criaturas saídas do laboratório de uma bio-engenheira genial que misturando genes de focas e leões marinho cria seres capazes de mudar de pele, permitindo peças únicas sem matar animais. A relação entre esta e a gerência da casa degrada-se e a jovem bióloga é obrigada a invadir o laboratório da bio-engenheira. Tudo se resolve quando a filha autista da bióloga se mostra capaz de interagir com as quimeras e o filho da presidente da empresa intervém de forma romântica.

Para encerrar o livro Alan Rey cria um glossário de neologismos futuristas ligados ao luxo e às sensações que desperta.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Novas estéticas


Duas experiências estéticas que tocam, cada qual à sua forma, neste pulsar eléctrico-digital dos primórdios do século XX. A primeira surgiu-me no radar cortesia do Virtual Illusion. Vídeo publicitário para a marca de lingerie Coco de Mer, é deslumbrante e luxurioso no seu visual. Sensual e hipercinético, deslumbra com a justaposição acelerada de imagens de grande beleza em alta resolução, com as obrigatórias mas perfeitas desfocagens, desenquadramentos e efeitos glitch. Tem aquela perfeição de alta definição que associamos a um digital de pureza cirúrgica. Quase ballardiano na frieza da sua beleza.


No outro extremo da estética digital surge este vídeo para Double Bubble Trouble, da rapper britânica M.I.A.. Este explode com a estética internet, de video-memes, gifs gritantes, justaposições aleatórias a revelar uma fortíssima inspiração nos recantos mais radicais da net art. O seu visual caótico, de subúrbio deprimido de betão decadente, vive numa espécie de continuum thug life com Arduino, drones a pulsar com luzes de neon e impressoras 3D. É cultura urbana crua, de transgressão em busca de afirmação, onde o culto da arma se cruza com a impressão 3D e estilo burka chic da colisão entre a europa islamizada com a expressão do individualismo. 1984 is now e Yes we scan são os gritos deste pulsar dos realmente nativos digitais, utilizadores sabidos e desconfiados da pureza das stacks do mundo digital.

As similaridades entre estes dois vídeos são intrigantes. Se um é planificado até à perfeição, o outro é aparentemente desconexo e assumidamente grotesco. Ambos usam a mesma estética saturada que grita don't worry, m'am, we're from the internet. Mas se Coco de Mer nos dá a elegância de alta resolução da estratosfera do mundo digital, M.I.A. colide tecnologia com as ruas. Como observou William Gibson, the street finds its own uses for things.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Comics


The Fade Out #06: Depois de Fatale, este regresso de Brubaker e Phillips ao crime noir tem o seu quê de insosso. Falta-lhe o elemento weird que deu à série anterior a sua genialidade. Esta é aquilo que esperamos e conhecemos destes autores, num registo de policial com toques de Black Dahlia, vícios e depravações de Hollywood, sem esquecer as intrigas das depurações ideológicas da era McCarthy. Sean Phillips sabe o que está a fazer e apostou num visual iconográfico, que puxa pela nostalgia do cinema clássico, justapondo figuras larger than life aos comuns mortais.


Kaptara #02: Ainda estou para perceber onde é que Chip Zdarsky quer chegar com esta coisa estranha. Começa com a mais clássica das premissas de Ficção Científica, a expedição planetária arrastada por uma anomalia cósmica para partes desconhecidas, e mergulha-nos num mundo que pode ser melhor descrito como uma colisão alimentada a drogas psicadélicas das piores e mais ridículas séries de desenhos animados infantis de fantasia dos anos 80. Se esta imagem ainda vos deixa na dúvida, digamos que o vilão da narrativa se chama Skullthor. É difícil ser mais explícito do que isto, mas Zdarsky é-o, com um príncipe descrito como as bright as a black hole pela própria mãe, uma rainha claramente apaixonada pelo seu capitão da guarda real, cuja armadura veio decalcada de Flash Gordon. Do adorável mau filme dos anos 80, não da série clássica. Já o herói é um terrestre que se está nas tintas para salvar a Terra da ameaça da frota espacial de Skullthor (yep, este nome.. faz lembrar qualquer coisa, não faz?) e é servido por um atento robot servidor capaz de qualquer serviço excepto recordar-se do nome do seu amo. Suspeito que o argumentista esteja a exorcizar traumas de demasiadas horas a ver He-Man and the Masters of the Universe quando era criança. E traumas infantis são dos mais difíceis de ultrapassar.


Trees #09: É Warren Ellis, e para mim Ellis é maior que deus. Incrível, a forma como sente o pulsar da modernidade transformativa resvalante e a consegue transmutar para as suas histórias. Notem bem esta sequência, a forma como consegue integrar as correntes discussões sobre as problemáticas e potencialidades dos veículos robotizados. Sem infodumps didácticos, inserido na normalidade do mundo ficcional, mas a cristalizar quer as especulações quer a investigação mais recente sobre o tema. Se Ellis não for o argumentista mais pertinente da contemporaneidade, um William Gibson dos comics, não sei quem será.

sábado, 23 de maio de 2015

Verde frio




Porque a estufa quente estava fechada. A Estufa Fria continua a ser um daqueles recantos mágicos de uma Lisboa mais discreta.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Matérias


Entre finalizar de projectos e secretariado de exames e provas finais o tempo tem sido escasso nestes últimos dias. Faz parte das atribuições. Este, o Matéria Digital, está concluído. Bem, quase concluído. Falta ainda imprimir alguns dos objetos. Quando se passam quatro dias de volta de listagens e centenas de provas não sobra tempo para imprimir. Entretanto o ano lectivo vai terminando e outros projectos vão finalizando, enquanto se preparam novas iniciativas para arrancar no próximo ano. E não está esquecido o desafio que o Que a Estante nos Caia em Cima fez. Malandro. Sabe bem que fantasia é estigma para estes lados...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Over The Top: Alternate Histories Of The First World War


Peter Tsouras (ed.) (2014). Over The Top: Alternate Histories Of The First World War. Barnsley: Frontline Books.

História alternativa é habitualmente terreno fértil para especulações informadas de autores de ficção científica e fantástico. O curioso neste livro é serem historiadores que sem se afasterem do rigor histórico e analítico se atrevem a especular sobre o que teria acontecido na I guerra se personalidades históricas tivessem agido de forma diferente ou decisões cruciais tivessem tomado outra forma. O que resulta não são aventuras em visões temporais alternativas, mas relatos estruturais que delineiam outros caminhos possíveis da história. Sabemos como se desenrolou na realidade de um passado sangrento, de violência incompreensível. Há nestas visões algo de pensamento desejoso por uma alternativa à carnificina da guerra das trincheiras, em direcção a uma visão mais clássica da guerra como de grandiosos movimentos, batalhas decisivas e não campos ensopados de sangue e cadáveres pelas máquinas mortíferas que se paralisam durante anos a fio.

Estas especulações ganham plausibilidade à luz dos factos históricos. Olhando para o passado pela lente do futuro, percebemos como alguns momentos decisivos poderiam ter forjado outros eventos. É nesse aspecto que as possibilidades traçadas neste livro se debruçam muito bem.

E se...

- No dealbar da I guerra o Plano Schlieffen, que obrigava a Alemanha a invadir a Bélgica para derrotar a França a tempo de virar os seus exércitos contra a invasão russa, não tivesse sido posto em prática, tendo o alto comando optado por reforçar a fronteira franco-germânica e enviado o grosso das forças forças para a fronteira russa? Teria sido a França a invadir a Bélgica, e parte do casus belli que mergulhou a europa na guerra, a violação da neutralidade belga, teria ocorrido de forma diferente. Com os ingleses neutros, os alemães na posição de atacados e russos e franceses rechaçados, a guerra termina depressa. Sem derrota, a Alemanha não irá ser terreno fértil para o nazismo, e a guerra curta não dá tempo aos bolcheviques de derrubarem o Czar. E tudo anda à volta de um pormenor táctico, que poderia ter acontecido. A decisão fatal de meter em marcha o plano Schlieffen poderia ser evitada senão pelo excessivo rigor do alto comando, inflexível a meter em marcha um dos planos possíveis de combate.

- Na batalha de Ypres, o recém-chegado corpo expedicionário britânico tivesse sido esmagado pelos exércitos alemães, dando-lhes uma vitória esmagadora que terminará a guerra em 1916?

- Para colocar de joelhos o império otomano o general inglês Kitchener apostasse numa incursão decisivia no porto turco de Alexandretta, apoiado por forças coloniais que colocam a ferro e fogo o levante?

- E se Venizelos, o agressivo primeiro ministro grego, tivesse conseguido convencer o rei a alinhar com os aliados desde a primeira hora? As experientes forças gregas, endurecidas pelas guerras dos balcãs, aconselham os generais franco-britânicos sobre as realidades de um desembarque em Gallipoli e, liderando brilhantemente as várias ofensivas sobre o império otomano, reconquistam Constantinopla.

- Com um aguerrido Teddy Roosevelt na presidência americana, a política externa não segue o isolacionismo de Woodrow Wilson. Esticando os limites da sua indústria para armar um pequeno exército em expansão, os Estados Unidos desembarcam em França e tomam conta do sistema de fortalezas de Verdun, onde apesar da sua inexperiência revelam combatividade capaz de inflingir pesadas derrotas aos exércitos alemães.

- A batalha da Jutlândia tivesse terminado com uma derrota decisiva da frota de alto mar alemã? Na história real a vitória inglesa foi pouco decisiva, com o grosso dos navios de guerra germânicos a escapar incólumes, refugiando-se nos portos sem se atreverem a mais acções decisivas. Nesta visão, as tácticas almirante Jellicoe metem a pique os mais portentosos navios capitais da frota de alto mar alemã.

- A incompetência dos generais russos na I guerra tornou-se quase lendária pela forma como desperdiçaram as massas humanas que tinham ao seu dispor e foram rechaçados pelos alemães e austríacos. Nesta hipótese, um primeiro ministro russo determinado promove os oficiais mais capazes aos comandos da Stavka, permitindo ao general Brusilov lançar uma ofensiva inesperada na frente austro-húngara que em poucas semanas obriga Viena a suplicar pela paz.

- A batalha do Somme ficou para a história como uma das mais sangrentas da I Guerra. Neste cenário, uma mudança nas tácticas utilizadas pelo BEF permite aos soldados britânicos alcançar os seus objectivos militares sem a carnificina da batalha real, mas as condicionantes logísticas e falta de experiência dos comandantes em campo não asseguram vitórias decisivas.

- Os tanques foram uma das inovações da tecnologia bélica trazidas pela I guerra, mas as suas experiências nos campos de batalha não foram especialmente decisivas. Mas e se, em vez de utilização pontual em ofensivas clássicas, as forças francesas e inglesas mantivessem em segredo total o desenvolvimento dos carros de combate e os largassem numa ofensiva massiva apenas quando já dispunham de um número muito elevado destas máquinas de guerra?

- Para terminar, um e se...? mais tenebroso. Imagina os bombardeamentos alemães com Zeppelins e Gothas mais intensos do que realmente foram, com um precursor do Blitz sobre Londres que revolta as populações. Após a morte do primeiro-ministro britânico às mãos de uma turba revoltosa depois de um bombardeamento alemão, as rédeas do poder são entregues a um barão dos jornais, que suspende as liberdades e garantias, faz desaparece as vozes políticas críticas e mergulha o Reino Unido num proto-fascismo de punho fechado.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Mandarim


Eça de Queirós, O Mandarim.

Devo começar por confessar que até agora não tinha lido este texto clássico da literatura portuguesa. Vergonhoso, bem sei, e culpo o desleixo na obrigatoriedade que tive de ler os grandes autores no liceu que me deixou traumatizado. Mesmo quando anos mais tarde os redescubro, sinto sempre aquele peso do ler por imposição e não por curiosidade e descoberta. Ridículo, eu sei, mas prefiro gastar dinheiro em livros do que em sessões de psicoterapia para resolver este trauma. Desafiado pela sessão sobre Ficção Científica no Livros a Oeste, decidi pegar neste clássico encantador e acutilante.

Sendo livro de um autor canónico, é daqueles que nem me atrevo a dissecar. Outros, mais conhecedores e melhores analista que eu, já o fizeram em inúmeros artigos e teses. Fico-me pelo salientar de aspectos que me surpreenderam e intrigaram.

O primeiro aspecto que me surpreendeu, e não deveria, é a força das palavras de Queirós. Sentimo-nos levados para o interior de uma narrativa que não perdeu a sua força. As descrições vívidas fazem sentir que estamos com os pés bem assentes a calcorrear a Lisboa do final do século XIX. O outro aspecto está na impiedade queirosiana. De todas as personagens talvez aquele que seja mais honesto seja o diabo de fraque. Pelo menos desse sabemos à partida o que esperar. Os restantes, apregoando de alto as suas boas intenções e morais incorruptíveis, são volúveis e facilmente corrompíveis. Teodoro, o escriturário que com o tilim tilim da campaínha irá matar o distante mandarim e herdar a sua vasta riqueza, com o seu quê de ingénuo, tem nos remorsos e tentativas de redenção do crime que cometeu para saciar as suas ambições de fama e riqueza um lampejo moral. Nada disso é aparente nos que o rodeiam, sequiosos pelo dinheiro e influência, prestáveis aduladores do estatuto conferido pela riqueza. Nisso, tal como muito do que Queirós escreveu, esta pequena fábula de fantástico mantém-se actual no retrato que faz de lados imutáveis que perpassam o espírito dos tempos.

O terceiro aspecto tem a ver com o lado fantasista, de literatura fantástica, desta obra. Temos polidos e elegantes demónios, uma acção impossível que se traduzirá em consequências inesperadas, e uma viagem orientalista que trai o fascínio dos finais do século XIX pela chinoiserie. Fábula moral, revê os pressupostos sociais sob a lente colorida do fantástico.

Sendo obra em domínio público podem encontrar versões digitais gratuitas e legais deste livro. Li a do Luso Livros, apesar de ter de a reconverter no Calibre porque a codificação original fixa o corpo da letra no tamanho mínimo e não permite ampliação. Nada que uma reconversão não resolva, mas fica o aviso para que for descarregar e ao tentar ler deparar com letra de corpo 1.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Dylan Dog #182: Safarà


Pascuale Ruju, Giovani Freghieri (2001). Dylan Dog #182: Safarà. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma série de mortes sangrentas parece estar ligada a um fotógrafo medíocre que, estranhamente, alcança o sucesso com fotos de belas modelos. Nós, leitores, conduzidos pela mão de Sclavi que traçou as linhas gerais do argumento de Ruju sabemos que há algo mais do que um fotógrafo com tendências de assassino em série. Até porque não é ele que causa as mortes. Há uma força milenar à solta, que toma conta de uma agente de modelos enfraquecida pela sua beleza desvancente, força essa que está interligada com a máquina fotográfica que deu ao fotógrafo todo esse sucesso. Uma máquina que adquiriu quando, desesperado por dinheiro, vendeu a sua máquina moderna e comprou esta mais antiga numa misteriosa loja habitualmente oculta nas ruas de Londres. É uma história clássica, que nos leva por diferentes caminhos enquanto tentamos adivinhar quais as causas da assombração. Há mistérios, monstros, mortes sangrentas e um puzzle final, resolvido com o nome da loja que Dylan conhece bem e onde o incauto fotógrafo compra a funesta máquina: Safarà.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Comics


Coffin Hill #18: Depois desta imagem, ainda restam dúvidas que este é o comic mais creepy actualmente editado? Os argumentos são convolutos e Kittredge espreme bem um conceito clássico, de uma família de bruxas numa cidade pequena da Nova Inglaterra, com um toque visceral inesperado. Tem-nos dado momentos arrepiantes, sem cair na visceralidade bacoca de comics que abusam do sangue e das tripas para pretender ser chocantes. Coffin Hill mantém um delicado equilíbrio entre o horror clássico, o terror psicológico e a alucinação sangrenta.


Harrow Country #01: Confesso que tenho alguma dificuldade em dissociar este comic de Coffin Hill, apesar da Dark Horse o designar como a southern gothic fairy tale. A geografia desloca-se das névoas da Nova Inglaterra para os calores do mítico sul norte-americano de Faulkner, mas o esqueleto da premissa está lá. Cidade pequena e isolada, bruxas vingativas que amaldiçoam os seus habitantes, jovem rapariga que herda um pesado fardo sobrenatural, eventos misteriosos e arrepiantes. Diria que todos os itens da lista foram devidamente verificados. Sabe a clone, mas a clone bem feito, e este primeiro capítulo intrigou. Vamos ver como prossegue.


Injection #01: Para terminar esta triologia de imagens sangrentas saídas dos comics da semana (garanto que não foi intencional), eis a forma como Warren Ellis encerra o primeiro Injection, com um toque hilariante de humor g33k no seu mais macabro. Para perceberem bem a piada digamos que a personagem é uma hacker de élite chamada a fazer apoio técnico informático. O comic revela-nos Ellis em modo de avalanche apocalíptica, com memes arcanos de hipermodernidade a colidir com o real e o habitual grupo de aspergers funcionais altamente qualificados com ligações cognitivas íntimas ao que causa as colisões. Um tema recorrente na obra deste autor, que o aproveita muito bem para nos transmitir as batidas que sente do pulso da modernidade contemporânea. Ficamos a saber muito pouco neste primeiro número, implicando que estamos a ser preparados para jogadas narrativas a longo prazo. Sabemos que o século XXI está corrompido e o resto promete ir ainda mais longe do que Trees no niilismo catastrófico. Nos argumentos de Ellis a força das ideias estranhas que navegam nas fímbrias do futurismo esmurra a modernidade, e de Injection esperam-se muitas mazelas.

aCalopsia: Solomon


Carlos Pedro (2014). Solomon.

Novo texto no aCalopsia, sobre este livro e um gato que nos parece frágil e zarolho, ele vê mais além do que o que nós conseguimos ver. Solomon, felino preto de ar frágil e sem um olho vigia a cidade contra ameaças vindas de outros mundos, dá fôlego a um livro que se lê mais como exercício de estilo do que obra narrativa, com forte influência da estética manga. Crítica completa no aCalopsia: Solomon de Carlos Pedro.