domingo, 22 de março de 2015
sábado, 21 de março de 2015
sexta-feira, 20 de março de 2015
Leituras
This Cartoon Perfectly Sums Up the Optimism of 1950s Futurism: Sempre que leio artigos destes pergunto-me se no futuro iremos olhar para as nossas super-limpas e bem desenhadas design fictions futuristas com este sorriso de inocência patética com que olhamos para os futuros imaginados do passado.
Video Games Are Better Without Characters: Ian Bogost é quase um poeta do desenvolvimento de videojogos ao falar como fala da beleza inerente aos sistemas complexos, que permite gerar experiências mais imersivas e enriquecedoras do que os mais tradicionais que se centram no controle de um personagem. Termina de forma genial, certeira, a descrever na perfeição os limites das gaiolas douradas do mundo digital: We’ll sign away anything, it would seem, so long as we’re still able to “express ourselves” with the makeshift tools we are rationed by the billionaires savvy enough to play the game of systems rather than the game of identities. Não contente com esta afirmação incisiva, acerta também no enviesamento trazido pela metáfora digital de interpretar o mundo: only a fool would fail to realize that we are the Sims now meandering aimlessly in the streets of the power brokers’ real-world cities. Not people with feelings and identities at all, but just user interface elements that indicate the state of the system, recast in euphemisms like the Sharing Economy, such that its operators might adjust their strategy accordingly. No measure of positive identification can save us from the fate of precarity, of automation, of privatization, of consolidation, of attention capture, of surveillance, of any of the other “disruptions” that cultivate our culture like bulldozers click through sim cities.
Entretanto, Nelson Zagalo apontou no Virtual Illusion um problema com as premissas de base de Bogost. A crítica à primazia da personagem sobre o sistema esquece um porquê essencial: esquecer "aquilo de que são feitos homens e mulheres que criaram esses objectos, homens e mulheres que consomem esses objectos, e homens e mulheres que analisam e criticam esses objectos". Ou seja, que o que desperta a atenção e nos leva a preferir um tipo de imersão narrativa em relação a outros não pode ser reduzido a um único factor, intuído em Bogost como economicista. A verdade é que uns de nós se deslumbram com sistemas, outros gostam de histórias. Os porquês disto prendem-se com as ciências cognitivas, que Zagalo aponta o serem pouco conhecidas pelas humanidades.
Five Books that Changed Me in one Summer: Com esta mistura explosiva de Moorcock, Ballard, Kerouac e Burroughs não admira que Warren Ellis tenha desenvolvido a sua tão pecular e vibrante voz literária.
Did a Human or a Computer Write This?: Spoiler: só um dos textos no link foi escrito por um humano. O resto é produto de algoritmos automatizados. Vejam lá se descobrem qual.
Stop Saying CGI: Bem visto. Não dizemos que um romance é uma belíssima peça de processamento de texto, ou que uma pintura um excelente exemplo de aplicação de pigmento com pincel. Este grito bem humorado recorda-nos que o mais potente dos softwares é, na sua essência, uma ferramenta ao serviço da criatividade humana. O mais poderoso dos modeladores 3D, o mais espantoso criador de imagens digitais, o mais mágico dos programas que iludem a realidade nada são sem a mão treinada e a imaginação dos criadores.
Ladybridge High School is Doing It Right — 15-Year-Old Students Create Unbelievable 3D Printed Lamps: Muito interessante, este projecto de introdução ao 3D que começa por ensinar modelação 3D e CAD a alunos de onze anos e acaba com estes projectos impressos... numa beethefirst, curiosamente. É um caminho interessante que mostra bem como posso levar o meu das TIC em 3D. Integrar o 3D no currículo é interessante, mas condena-nos a um eterno recomeçar. A cada semestre começa-se do zero, e pergunto-me se não está na hora de criar um espaço próprio, pensado com um tempo diferente e mais alongado, que possibilite aos alunos mais interessados ou com aptidão para estes projectos desenvolver mais a fundo as suas aprendizagens. Fica a dica.
Brutal but Beautiful: Book of 88 WWII Coastal Military Ruins: Bunker Architecture, elegante na sua decadência de betão armado carcomido pela erosão. Restos das fortificações nazis da festung europa que orlam as costas francesas, que também inspiraram Paul Virilio.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Gli Eroi del Fumetto di Panorama Dylan Dog #04
Tiziano Sclavi, Angelo Stano, Nicola Mari, Luca Dell'Uomo, Claudio Villa, Bruno Brindisi (2005). Gli Eroi del Fumetto di Panorama Dylan Dog #04. Milão: Mondadori.
Um dos encantos de Dylan Dog é ler o entretecer de linhas narrativas aparentemente sem relação entre si que só se intersectam quando Tiziano Sclavi o entende. É o caso de Il sorriso dell'Oscura Signora, história que abre a antologia. Começamos com uma misteriosa e sombria personagem que devolve à vida um assassino profissional morto numa anterior aventura de Dylan (o sublime Attraverso Lo Specchio). Somos levados a um hospital onde uma jovem tem um diagnóstico terrível que nunca chega a saber qual é, porque os médicos se distraem com o falecimento de uma velhota na cama ao lado. Essa mesma rapariga contrata Dylan para investigar uma atraente medium com que o seu pai, um político mais interessado no poder do que na família, se envolveu. Dylan desmascara a medium como uma fraude, com ajuda de um professor universitário que lhe prega um susto usando os truques banais do ofício. Infelizmente, ao exorcizar os medos do político, desperta neste a necessidade de mandar assassinar aquele que considera o seu pior inimigo, alguém que o persegue desde a infância, sempre a deitar-lhe as culpas pelos seus maus actos. Má ideia, porque este inimigo é um catalizador imaginário das falhas do político, e a história completa o círculo quando o assassino mata o político após este assassinar a medium que apanhou na cama com um jovem amante. Como habitual, Dylan assiste a tudo naquele estranho elemento narrativo de herói fulcral que não controla os eventos em que se envolve. Omnipresente está a sombra, que apenas Dylan consegue ver e confunde com a morte, mas acaba por se revelar uma representação da vida. Com um sentido de humor macabro, revela que afinal a tal doença da jovem é uma gravidez. Confessa, no final, que gosta de pregar partidas, porque a vida sem humor não faz sentido.
Já conhecia Diabolo Il Grande, uma estranha história de assassínos em série levados a cabo por um prestigitador assombrados por um boneco de ventríloquo que o obriga a assassinar todas as mulheres que se assemelham à sua mãe. O curioso nesta história é Sclavi ter decalcado o boneco articulado com o aspecto de Erich von Stroheim. Il Paradiso dei Turisti é uma história muito curta e divertida, em que Dylan é levado a uma casa onde o habitante lhe mostra que a porta de uma das divisões o transporta para paraísos terrestres, mas outra porta leva-o aos locais de maior pesadelo genocida e pobreza. Sente-se lesado. Afinal, prometeram-lhe que a Terra era um paraíso turístico, e pede que Dylan Dog o ajude a resolver o problema da segunda porta. Non, temo di no, responde Dylan a este turista que se revela um alienígena desencantado com este planeta onde o sublime e o funesto tantas vezes se cruza.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Registos
O prémio atribuido ao projecto As TIC em 3D em destaque na imprensa regional, com uma pequena nota no jornal mafrense O Carrilhão e direito a impressão a cores. Arquivado para memória futura.
Doctor Grordbort Presents: Onslaught
Gred Broadmore (2014). Doctor Grordbort Presents: Onslaught. Londres: Titan Books.
Que livrinho desapontador. Greg Broadmore é ilustrador e criador que trabalha para a Weta, os estúdios neo-zelandeses de efeitos especiais que ganharam projecção mundial graças a Peter Jackson e têm deslumbrado o público dos blockbusters com a sua genialidade. Já Broadmore ganhou fama pelas rayguns que construiu nos estúdios, que ampliou para um universo de futurismo steampunk visualmente fascinante. Mistura o estilismo steam com uma forte ironia retro, reflexiva do passado colonial britânico, do heroísmo dos penny dreadfuls e dos exploradores que iam civilizar a darkest africa, transplantada para as funestas selvas venusianas, também a ressoar com a FC pulp clássica.
Se a estética é deslumbrante e as premissas intrigantes, a prosa falha redondamente. Broadmore não se consegue afastar da piada histriónica fácil e do humor de puto com sete anos de idade. A banda desenhada vive de um bom argumento e nisto o autor mostrou ser incapaz de contar uma boa história. Talvez o fosse, se não estivesse tão interessado em ter piada. Recomenda-se que se fiquem pelas belíssimas esculturas steampunk e pelos desenhos deslumbrantes, e fujam a sete pés deste desastre narrativo.
terça-feira, 17 de março de 2015
Abreijos
Abreijos. Que coisa irritante. E arrepiante de infantilidade. Pertence à categoria expressões fixes que não são nada fixes. Como cantautor. Só me dá vontade de dar tau tau a quem usa esta expressão. Ou desejar bom fds, que talvez por ter uma mente perversa não consigo de forma alguma ler como bom fim de semana. Outra particularmente irritante é funcionalidades. Percebe-se, quem usa isto quer dizer que o objecto ou serviço serve para muita coisa, mas prefere usar esta palavra que se afocinha a arranhar dentro do canal auditivo. As línguas são flexíveis e evoluem com o tempo, eu sei, mas ele há cada expressão tão deselegante...
Rewind and Come Again.
Confesso que dos Batida prefiro o programa de rádio à sua música. A sua fascinante sonoridade tropicalista mistura ritmos kuduro, afro-beat, reggae, electrónica e mais umas quantas coisas que me escapam por completo mas soam muito bem dentro do ecletismo musical. Mas não é o tipo de som que me enche as veias de electricidade. Na rádio são espantosos, misturando sonoridades tradicionais, clássicas, retro e contemporâneas dessa grande cultura afro-brasileira que nos está também no ADN, por via do nosso pouco falado e tantas vezes branqueado passado colonial. Foi na rádio que os descobri, algures entre as estradas nacionais, com ritmos africanos dos anos 60 a travarem o meu saltitar impulsivo entre estações de rádio.
Sabendo-os em cartaz no Centro Cultural das Caldas da Raínha não resisti a ir vê-los ao vivo. Fui sem saber o que iria dali sair, armado apenas com o conhecimento de algumas canções dos álbuns Dois e Batida, algumas em rotação pelas rádios nacionais. Músicas ritmadas e agradáveis, que intrigam o meu ouvido mais habituado a rock, blues, clássica e contemporânea. Deve ser por isso que Batida me atrai. Quem sente o coração aquecido por Xenakis ou Varèse tem de estar aberto a sonoridades fora do comum. Do atrair ao sentir vai uma longa distância, e percebi neste concerto que esta música só faz sentido ao vivo.
Começa pela disposição do palco. Ao entrar percebi que iámos ver o concerto em cima do palco, rodeando os músicos. Pedro Coquenão, o génio musical por detrás dos Batida, explicou-nos logo que queria mesmo assim, como se estivessemos numa roda no largo da aldeia. Recordou-nos que a música é uma experiência partilhada, profundamente social, ao derrubar a barreira que a convencionalidade logistica ergueu entre músicos e audiência. O resto foi uma explosão imparável de ritmo e sonoridade. Impossível de ficar quieto e não seguir a batida. Não se deu pelo tempo passar enquanto Coquenão, os seus músicos, vj e dançarinos nos atiravam à papo-seco para os trópicos contemporâneos, entre rap/reggae/kuduro, video, e discos antigos com beats fascinantes. Nunca me imaginei a dançar ao som de Bonga. Yep, aconteceu. O concerto terminou em festa apoteótica, com os Batida a demonstrar que a música sente-se no momento com uma versão de Alegria que... enfim, ninguém ficou indiferente aos ritmos hipnóticos e visuais psicadélicos. A partilha e interacção com o público foram um dos eixos do espectáculo, onde as barreiras não existiam. Saí de lá rendido. Continua a não ser o meu som de eleição, mas de facto sentir isto ao vivo é uma experiência extraordinária e a repetir. Podem ter uma pequena ideia do que foi este concerto vendo o vídeo de um recente boiler room em Lisboa: Batida Boiler Room. Vejam, e imaginem este concerto com o público imparável a dançar à volta dos músicos, com Coquenão mais intimista a falar-nos do projecto nas suas mais variadas vertentes.
É o momento e o contexto. Goste-se ou não destas sonoridades, desta forma é impossível resistir-lhes. Tão bom, que quando se aproximava o final Coquenão defeniu com precisão o que sentíamos: quando a música é boa e está a terminar, rewind and come again.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Comics
Constantine #23: Um pouco do clássico John Constantine transpareceu no final de mais um arco eminentemente esquecível. Simplificar o personagem para o público mais mainstream não trouxe lá grandes resultados e no aquecimento para mais um mega (bocejo) evento da DC fica no ar mais uma renovação do personagem. Enfim. Constantine é demasiado icónico para ir para a prateleira, com aparições fugazes nos comics escritos por argumentistas mais conhecedores, e demasiado iconoclasta para o público juvenil. O fumador desencantado não se coaduna bem com esta renovação como mago que lança raios mágicos dos punhos sempre a salvar o mundo de poderosos arqui-inimigos, e depressa perdeu o gás. A ver vamos o que a editora lhe reserva para a próxima encarnação.
Coffin Hill #16: Já o disse, já o repeti: há um excelente título de terror clássico na Vertigo. Bruxarias, cidadezinhas americanas antigas e creepy com segredos tenebrosos, sobrenaturais assassinos em série, multidões de esqueletos nas florestas e até splatterpunk puro. Coffin Hill tem sido consistente e arrepiante na forma como lida com a iconografia clássica do terror.
Hexed #08: Confesso, fiquei espantado. Até agora Hexed tem sido um banal comic de sobrenatural com artefactos mágicos e lutadores do bem a oporem-se aos arquetípicos maus. Lia-se, é divertido, mas valia mais pela elegância do traço do ilustrador. Até esta edição, em que a heroína decide vingar a morte da sua mentora fazendo precisamente aquilo que o bem nunca faz quando luta contra o mal: assassina os inimigos com extremo prejuízo, num banho de sangue que invocará os piores pesadelos. Curiouser and curiouser, diria Carroll.
domingo, 15 de março de 2015
sábado, 14 de março de 2015
Sustos às Sextas (III)
Este mês repetiu-se a coincidência simpática desta tertúlia sobre terror decorrer numa sexta-feira 13. Rumar à arquitectura neo-medievalista dos anos cinquenta do século XX no Palácio dos Aciprestes, passar um simpático serão a falar de livros e de terror, e sair de lá sempre com leve depressão cronal. É um ritual, diria.
A opinião era consensual. Este homem invisível que tanto enche o olho, do ilustrador Nuno Duarte, é um dos pontos mais altos da exposição Figuras Clássicas do Terror. A organização do Sustos teve, e muito bem, a ideia de desafiar criadores de BD e ilustradores a recriar ícones do horror clássico. Como já é habitual nestas coisas de desafios aos artistas ligados à BD, o resultado final é de elevado nível, com todos os desenhos a mostrar uma enorme qualidade gráfica. Cá o meu olho foi mais atraído pelo Cthulhu de Jerónimo Rocha que se agigante sobre as naus, mas sou lovecraftiano, por isso muito suspeito.
Menos elogiado pelos visitantes, mas a ilustração de Ana Oliveira foi a que mais me fez sorrir. Esta pobre Medusa incompreendida, desabafando os seus dilemas interiores a um Freud petrificado. Coincidências: nem faz uma semana que revi a cena animada pelo Ray Harryhausen em que Teseu enfrenta a Medusa em Clash of the Titans. E hei de a revisitar para um projecto. Pedagógico, entenda-se.
Finalmente a provar os já icónicos morcegos comestíveis.
Eis João Barreiros, orador convidado desta sessão. Fiel a si próprio, deu-nos uma aula sobre a neurociência do terror recheada de referências à ficção científica. Sai-se sempre de uma conversa com Barreiros com longas listas de livros a descobrir, e esta não foi excepção. Eterno enfant terrible das letras fantásticas portuguesas, foi igual a si próprio. Do meu ponto de vista conseguia-se ver o rosto dos mais incautos e pouco habituados ao estilo de Barreiros a oscilar entre fascínio e um ar de espanto chocado com aquilo que nos contava.
Pelo poder da imaginação, que este novelo de lã se transforme na funesta pata de macaco! Para terminar, leitura dramatizada do conto clássico de horror, tantas vezes referenciado na cultura pop. Momento que teve o seu quê de serão erudito de família. Num evento que conta com António Monteiro, só podia ser algo de profundamente clássico. Nota-se a continuidade da aposta num evento que mistura discussão, troca de experiências, outros olhares e literatura pura. Ou seja, uma tertúlia.
Infelizmente já percebi que saio sempre de lá com uma leve depressão. E porquê, perguntam? Porque depois destas sessões só apetece enrolar-me no sofá com contos de M.R. James e William Hope Hogdson, desempoeirar Lovecraft, ler visceralidades splatterpunk, ir descobrir os autores que se afloram nestas conversas. Infelizmente o tempo anda demasiado sobrecarregado com projectos a que não se pode ou quer dizer que não. Infelizmente sei que não terei tempo de ir visitar estas literaturas sem ser naquele tempo das sextas-feiras assustadoras. Enfim. Estas interrupções provocam depressões cronais. A relatividade e a física quântica ensinam-nos que o tempo é fluído e flexível, mas há tempos em que não se consegue dar por isso. Estas últimas semanas têm sido daquelas em que não chego para as encomendas e o tempo anda escasso para mergulhos no terror clássico. Mas o gostinho está cá...
quinta-feira, 12 de março de 2015
The Whispering Swarm
Michael Moorcock (2015). The Whispering Swarm. Nova Iorque: TOR.
Numa entrevista recente Moorcock referiu que este livro será, provavelmente, a última vez que conseguirá tentar fazer algo de novo em literatura. É notável que um veterano de longa idade resista ao conforto dos seus louros e insista em inovar na sua prosa. O resultado é um pouco desconcertante. The Whispering Swarm lê-se demasiado como o Hemingway de A Moveable Feast, embora contada por um exímio fabulista que entretece o fantástico com o real. Boa parte do livro incide num Moorcock auto-biográfico que nos fala e reflecte sobre a sua vida, a sua dedicação à literatura e as aventuras na Londres dos swinging sixties. No meio das muitas histórias da sua vida vai colocando pitadas de sobrenatural, que incrementa gradualmente até ao momento em que o fantástico que tanto desejamos toma conta do livro e coloca de lado a biografia do fabulista.
O romance não tem sido bem recebido pelo público, talvez por ser tão desconcertante e contrariar expectativas. Esperamos algo dentro do fantástico tradicional e sai-nos uma autobiografia fabulista em que a vida real vai perdendo terreno para um imaginário táctil ao longo das páginas. Algo que certamente desagradará aos fãs mais hardcore que estariam à espera de mais umas espadeiradas moralmente ambíguas à Elric ou deslumbres proto-steampunk com Cornelius.
No seu cerne está um mistério sondável, e um conceito fascinante para aqueles que como eu adoram os jogos geométricos do espaço urbano. Moorcock faz situar no centro histórico de Londres um local onde as regras do tempo se alteraram. Atravessar os portões e entrar no quarteirão junto ao rio que designa como Alsacia é entrar num mundo onde passados, presentes e futuros se misturam. Uma espécie de zona franca dos tempos possíveis, onde personagens históricos e ficcionais se mantém vivos para lá do seu tempo. Um local que parece fixo num eterno século XV, completo com casas soturnas à beira-rio, verdadeiras estalagens de taberneiros e um templo nominalmente cristão no seu epicentro. Um espaço isolado do fluir do tempo, mas que não lhe é imune. A arquitectura fixou-se num pós-medievalismo, os habitantes vivem num perpétuo século XV, os personagens das ficções pulp das várias eras partilham canecas de boa cerveja na estalagem, mas os artefactos das eras mais recentes encontram-se nas lojas e o jornal da abadia no centro do quarteirão é impresso nas gráficas da vizinha Fleet Street. Afinal, um jornal é um jornal, porque não ser impresso onde o eram os maiores jornais londrinos?
Em parte, este romance é um hino à cidade, a uma Londres vivida, nostálgica e idealizada, talvez longe do recreio europeu dos super-ricos em que parece estar a tornar-se. Hino à Londres do passado real de Moorcock, entre os swinging sixties, os clubes de música, as redacções dos jornais e revistas por onde passou. E hino à Londres histórica e fabulista, a capturar a imaginação de leitores e escritores.
O lado nostálgico também é perceptível neste livro. A vénia ao pulp clássico, aos heróis dos penny dreadfuls vitorianos ou dos romances juvenis do princípio do século, é muito profunda. Moorcock recupera personagens esquecidos e envolve-se romanticamente com uma aventureira do século XVI, porque, enfim, neste romance a barreira entre a realidade e ficção não existe. Alsacia é um espaço onde a ficção é real. Um dos homenageados é um certo Príncipe Rupert, que Moorcock nunca completa com o óbvio de Hentzau, que viaja pelo mundo em busca de elementos para um artefacto de mecânica cósmica e envolve Moorcock numa atribulada aventura para tentar salvar o pescoço do rei inglês deposto do machado dos algozes do parlamento de Cromwell, aventura cheia de peripécias dignas de Os Três Mosqueteiros. Que, já que os menciono, são personagens que também participam no livro. Refira-se que a homanegem às narrativas aventureiras do passado também é expressa pela própria estrutura do livro, feita de pequenos capítulos que se seguem a bom ritmo e deixam sempre algo em suspenso para ser continuado no seguinte.
Moorcock não faz grande segredo do artefacto guardado pela estranha ordem de monges que, nas suas próprias palavras, não se chateiam que sejam confundidos com cristãos porque isso lhes facilita a vida. Curiosa ordem sincrética, que conta entre os seus membros dispersos muçulmanos, judeus, budistas e hindus. Veneram a essência do divino sem se preocupar com a forma exterior e guardam um velhote quase eterno, um rabi de sabedoria intemporal.
The Whispering Swarm é um livro desconcertante. Não é o que se esperava do autor, com uma mistura entre ficção e auto-biografia que apesar da excelente prosa se torna por vezes cansativa. A veia geográfica, a homenagem à ficção popular de outros tempos e a um espírito mais inocente intrigam os leitores mais conhecedores das referências de que o autor se apropria. É daqueles livros que nos agarra sem que saibamos precisamente porquê.
quarta-feira, 11 de março de 2015
aCalopsia: Eu Mato Gigantes
Joe Kelly, Jm Ken Niimura (2014). Eu Mato Gigantes. Lisboa: Kingpin Books.
Uma história de fantástico juvenil mais profunda do que aparenta ser. Reflecte sobre desafios, dilemas do crescimento e a força que temos de encontrar para os superar. Visualmente inquietante e atraente, recorda-nos também o valor da estética expressiva sobre formalismos estéreis. Mais sobre este livro que recorda bem o que é ser criança no aCalopsia: I Kill Giants.
Fucking Czerny
Numa cerimónia de entrega de disitnções a audiência teve direito àquilo que hoje se tornou a irritante moda de apelidar de "momento musical". Daquelas expressões que me faz arrepelar o cérebro. Quando uma das alunas da escola de música convidada sobe ao palco ouve-se o apresentador a anunciar que iria tocar um prelúdio de Carl Czerny. Esse, o compositor-professor, cujos trechos se tornaram cânone de ensino. The fucking Czerny, pensei. Lembrei-me de Henry Miller. De ler no... Plexus? ou no Nexus? o quanto este lendário escritor detestava os trechos de piano que foi obrigado a aprender quando o que realmente queria era saber de outras coisas. Que coisas? Se conhecem Miller sabem que não é assunto muito apropriado para abordar num momento musical numa escola. Se não conhecem, o que esperam? Suspeito que ficarão surpreendidos com uma escrita que assenta num erotismo visceral mas atinge os píncaros do alto modernismo de cariz surreal. Para mim o melhor de Miller é quando a sua prosa entra em livre associação, em parágrafos de imagética imparável. Curiosas coincidências, pensei, enquanto a rapariga se safava com mestria desta obra para piano e se atirava a Beethoven. Faz sentido. Estava numa escola, em contexto de pedagogia, só poderia ter de ouvir the fucking Czerny.
terça-feira, 10 de março de 2015
A Louca do Sacré-Coueur
Moebius, Alejandro Jodorowsky (2015). A Louca do Sacré-Coueur. Oeiras: Levoir.
Um filósofo de meia idade, óbvia caricatura dos super-académicos e pensadores da França moderna, debate-se com um problema ético: deverá ceder às tentações da carne e envolver-se com uma aluna que lhe confessa a sua paixão? No meio de um divórcio humilhante, cede... e aí começam os problemas. A aluna leva os seus ensinamentos místico-filosóficos demasiado a sério, e vê no filho que gera do filósofo um profeta de um novo misticismo quase cristão. Envolve-o com um ex-muçulmano que venera a filha louca de um traficante colombiano que se julga uma maria e acaba por se transmutar numa jesus andrógina. O nosso pobre professor conhece a ruína, descobre que o medo lhe provoca ataques de diarreia, mergulha na insanidade mística dos alucinados que, unidos a um poderoso cartel de traficantes, assumem proporções revolucionárias, e acaba por se renovar num êxtase místico propiciado por cogumelos alucinogénicos. As tropelias hilariantes sucedem-se, imparáveis.
Os fãs dos misticismos cósmicos e das comédias descontroladas adorarão esta obra que é corpo estranho no corpus destes autores. Fica-se com a sensação de que as desventuras deste elevado filósofo, alimentadas por sexo e misticismo, são Moebius e Jodorowsky a rirem-se de si próprios. O ilustrador assina como Moebius mas desenha como Giraud, numa série de livros cuja estética anda muito longe dos devaneios do fantástico que lhe associamos, mas muito próxima do realismo sintético de Tenente Blueberry. Sente-se esta ironia com especial acutilância no argumento. Jodorowsky é adepto místico e de filosofias sincréticas, e através do registo de humor ironiza consigo próprio. Elementos que são encarados como sérios nas suas outras obras aqui são levados ao absurdo. Dois mestres, a rirem-se de si próprios, sorrindo e afastando os véus da imponência do seu estatuto.
Uma nota: esta edição da Levoir, para além de ser a primeira tradução portuguesa deste trabalho talvez menor destas lendas da bande dessinée, publica a integral dos três álbuns.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Comics
Descender #01: Que Jeff Lemire dá cartas na ficção científica já se tinha percebido com o excepcional e experimental Trillium para a DC/Vertigo. Agora na Image lança esta ambiciosa space opera misturando o clássico império estelar ameaçado por forças incompreensíveis com uns laivos de temor robótico com o seu quê de Supertoys Last All Summer Long de Aldiss e Dune (cujo mundo ficcional, recordem-se, envolveu uma revolta contra a tecnologia de inteligência artificial). A tela é grande e o argumentista ambicioso. Depois desta, tenho de dar o braço a torçer: o melhor da FC contemporênea encontra-se não no cinema ou na literatura, mas na banda desenhada, que consegue aliar o vanguardismo dos conceitos literários à espectacularidade visual.
The Names #07: Torna-se notório que Pete Milligan anda a despachar o policial procedimental que forma uma das vertentes da série. Porque, compreende-se, mais uma história de homicídio e vingança é algo de muito corriqueiro. E as outras linhas narrativas são mais interessantes. A élite de financeiros habitualmente ocupada a maximizar lucros a qualquer custo que se vê forçada a combater inteligências artificiais predadoras que lançam ataques aleatórios sobre a economia é indubitavelmente mais intrigante. E verdadeiramente interessante é a premissa das inteligências artificiais em si, talvez traduzivel por uma quase autista personagem da série. É este o elemento-charneira que Milligan está, finalmente, a aprofundar, depois das habituais tropelias de violência homicida.
Nameless #02:Bolas, pensei quando me apercebi que não dei pelo tempo que demorei a ler este segundo Nameless. Grant Morrison está num auge da sua capacidade narrativa nesta série. O ritmo é fortíssimo, e o menu conceptual de uma diversidade alucinante. Ultra-bilionários que se aliam para estimular a exploração espacial para salvar o planeta de um cometa, que se revela ser um fragmento de um antigo planeta do sistema solar aniquilado no passado remoto, cuja superfície encerra hieroglifos enoquianos, com a queda dos anjos nos infernos revista como um conflito galáctico? Drones de telepresença, bases lunares, artefactos alienígenas, possessões e no meio deste turbilhão um ocultista mal humorado. Fora dos espartilhos das editoras mais mainstream Morrison vai constantemente além dos limites.
Swamp Thing #40: A culpa disto é do Alan Moore, que reviu o Monstro do Pântano como avatar da força elementar do verde. Charles Soule tem abusado muito bem do conceito, criando um avatar para a consciência digital que tem nesta edição um final irónico do arco narrativo do seu surgimento. Digamos que depois de perder o confronto com o Monstro do Pântano acaba aprisionada num aibo para aprender e ganhar maturidade. Soule não se ficou por aqui e decidiu dar protagonismo ao mundo das ideias, a encarnação da força natural da criatividade representada pela palavra. Belíssimo conceito, com o seu quê de Borgesiano, a recordar a inflexão literária que Moore também introduziu nas aventuras do personagem.
domingo, 8 de março de 2015
Works in Progress
Estas últimas semanas têm sido algo sufocantes, mas pelas melhores das razões. O tempo para leituras tem sido escasso, que isto entre andar a preparar textos para apresentações, exposições para recepção de prémios, dominar a impressora 3D fazendo com que as crianças imprimam os seus projetos, terminar uma acção de formação onde o meu ego de formador torturou vinte professores, mergulhar na teoria cinematográfica à séria com uma formação interessantíssima do Plano Nacional de Cinema, graças à qual a minha tendência para analisar os filmes que vejo ainda vai ficar pior, e as mil e uma coisas do meu dia a dia que tem dias que parece mesmo um cartoon do XKCD.
Este. Salvaguardado as devidas distâncias, claro. Mas aquela sensação de se chegar à escola vindo de receber um prémio sobre uso inovador de tecnologias e levar com colegas que me descrevem extensivamente os seus dilemas com o PowerPoint, ou resolver um dos inúmeros fogachos que os sistemas de backoffice têm, yep, já a vivi.
Das coisas giras que me têm acontecido nos últimos dias é ter participado nas cerimónias de entrega de prémios que projectos que dinamizo receberam. Eis-me de stand de animação 3D, VRML e 3D Printing no teatro Thalia para receber o prémio Inclusão e Literacia Digital. Prémio que confesso que não lhe dei grande importância quando soube que tinha sido um dos distinguidos, mas depois de perceber que o meu projecto foi um dos dois vindos de escolas, distinguidos em conjunto com centros de competência, universidades e politécnicos, empresas e câmaras municipais, naquela que foi a primeira edição destes prémios... bolas, penso, isto afinal tem importância.
O outro prémio recebido nesta semana foi o de desenvolvimento do concurso de ideias Ciência na Escola. Que, vítima dos algoritmos das redes sociais, despertou uma onda de likes e parabenizações que me deixou relutante em desiludir os gostadores com a informação que apesar da pompa, este prémio tem pouca importância. É atribuído a todos os projectos que passam à fase de desenvolvimento. O que dinamizo é um de trezentos. Traz a vantagem de ter um apoio financeiro directo para a escola, que nos dias que correm aproxima-se do simbólico quando se quer implementar um projecto complexo, mas não é de desprezar. Custeará muito rolo de filamento para a beethefirst.
Na cerimónia de entrega dos prémios de desenvolvimento do Ciência na Escola - Fundação Ilídio Pinho, no auditório da escola secundária Vergílio Ferreira. Aquele sorriso de tive de explicar um pouco de impressão 3D a um engenheiro que digamos que é uma personalidade controversa do mundo da educação. "Controversa" é um epíteto simpático. O projecto em si será a modelação em 3D de brinquedos tradicionais por alunos de sexto ano, e talheres adaptados a crianças com NEE por alunos de sétimo, com prototipagem por impressão 3D.
Nenhuma destas distinções existe só porque sim. É o resultado da confluência do esforço dos meus alunos, do bom ambiente de trabalho que tenho na escola, coisa rara nos dias que correm, e dos esforços de divulgação que faço em contextos académicos e redes sociais. Sabe bem recebê-las, mas recuso-me a esquecer que são passos em frente e não fins em si. Não resisto, com alguma vaidade, a mostrar uma pontinha de orgulho, mas não é isso que irá passar a definir-me. Até porque nunca tive paciência para os one hit wonders ou para aqueles que destacam no seu currículo aquela única vez em que foram distinguidos por algo que fizeram. Cada dia é uma nova aventura e matutar constantemente no dia que passou não é saudável. Fica este post babado para a posteridade, mas não se preocupem que não me vou tornar aquele tipo chato que vos está constantemente a recordar que recebi uns prémios importantes.
Olho para estas placas e diplomas, e não penso que orgulho. Penso e agora, qual será o próximo desafio?
sábado, 7 de março de 2015
sexta-feira, 6 de março de 2015
Um Contrato Com Deus
Will Eisner (2015). Um Contrato Com Deus. Oeiras: Levoir.
Um homem pio e virtuoso, de luto pela morte da filha adoptiva, rasga o contrato que firmara com o seu deus e dedica-se a prosperar. Mas a venalidade não o satisfaz e regressa aos caminhos do virtuosismo, para falecer fulminado por um ataque cardíaco quando decide renovar o seu contrato com a divindade. Uma diva perdida, afastada de fenecidas luzes da ribalta, encontra na voz de um cantor de rua uma possibilidade de regressar aos palcos. Oferece-lhe comida, promessas e o seu corpo, que o homem esfomeado aceita de bom grado. Este, ao regressar à casa e à família impossível de sustentar no meio dos tempos duros da depressão, começa a sonhar com um futuro melhor, mas a mente toldada pelo alcool recusa-se a deixá-lo recordar a morada da mulher que lhe prometera um melhor futuro. Um solitário e amargo zelador de um prédio tem no seu cão o único companheiro que lhe alivia uma vida feita de imensas queixas dos inquilinos irritados. Cruza-se com a perversa sobrinha de uma inquilina, que se aproveita da sua solidão para se insinuar, roubando-lhe o dinheiro, assassinando-lhe o companheiro e deixando-o sem outra escolha senão suicidar-se, suspeito de a tentar violar. Quando o verão chega à cidade chega também a época das fugas e dos sonhos, em que as famílias saem da cidade para apanhar os ares do campo. As jovens casadoiras procuram os melhores partidos, os chico-espertos buscam a melhor mulher para encantar e dar o golpe que lhes permite fugir ao destino de meros empregados de negócios sem futuro, os casais desavindos aprofundam as suas tragédias, ocultas pela necessidade de criar os filhos. E um jovem rapaz descobre nos braços de uma mulher mais velha as delícias e as incongruências da sexualidade. O livro termina com este jovem, agora a sentir-se mais homem, contemplando a chuva outonal que cai sobre a cidade. A mesma chuva imponente com que o livro abre, no início das desventuras do homem que ao perder a fé lança como palco o edifício que será sempre a peça centrar destas histórias.
Um prazer, graças à Levoir, de regressar à Nova Yorque de Will Eisner nesta que foi a primeira das graphic novels com que encerrou uma carreira dedicada aos comics que nos legou não só personagens clássicas como uma nova forma cinematográfica de entender o espaço visual da banda desenhada. Tal como Woody Allen no cinema e Isaac Bashevis Singer na literatura, Eisner inspira-se nas idiosincrasias multiculturais da comunidade judaica nova-iorquina para contar histórias onde o apontamento nostálgico toca na tragédia e no humor. Mas mais dos que as aventuras e desventuras de personagens com forte toque auto-biográfico o que ressalta é a mestria do seu traço, liberto dos ditames do comic de mercado, liberto também dos espartilhos da vinheta, oscilando entre o bloco de apontamentos e o registo mais formal.
quinta-feira, 5 de março de 2015
La Femme Limace
Junji Ito (1998). La Femme Limace. Paris: Éditions Tonkam.
Uma mulher transforma-se lentamente em lesma. Um monstro leviatânico das profundezas dá à praia, morto, e rodeado por pessoas que sentiram uma estranha compulsão em ir ver a criatura apodrecer. Nas suas entranhas putrefactas encontram-se ainda vivos os passageiros desaparecidos num naufrágio ocorrido anos antes, aglomerados no estômago e intestinos da criatura como peixes a estrebuchar numa rede. Um jovem regressa a Tokyo, à casa que alugou a um professor que detestava, para a descobrir coberta de fungos impossíveis de eliminar, que contaminaram e devoraram os seus inquilinos, acabando coberto de fungos no seu jardim transformado num paraíso fúngico. Um ídolo misterioso de jade mata quem nele tocar, transformando o seu corpo numa rede de buracos. Inspirado num sonho, um homem decide cavar um buraco no chão da casa para encontrar uma fonte de água quente que talvez seja uma porta para os infernos. Uma dona de casa obcecada pela limpeza vê, com horror, a presença de terceiros, matando o marido e levando a que um admirador das suas filhas se oculte dentro dos esgotos. Uma jovem secretária disposta a tudo para impressionar o seu patrão vê-se dentro de uma casa de horrores, rodeada por vampiras que tocam violino enquanto sorriem ao sentir jactos de sangue quente na pele e caçada pelo patrão num viveiro de insectos para alimentação exótica.
Junji Ito é um mestre do horror japonês. Nesta colectânea de histórias pega nos pequenos horrores que nos arrepiam a pele. As lesmas, os fungos, buracos estranhos na pele, a sujidade, os fluídos. Com eles cria pequenos contos de horror visceral que, dentro daquilo que tanto me atrai no horror japonês, não dependem da lógica ou procuram um desfecho que faça sentido. São horrores que arrepiam, existem, como mitos ou espíritos milenares. O traço preciso de Ito consegue ser perverso nos momentos mais marcantes, sublinhando o terror inexplicável das histórias.
quarta-feira, 4 de março de 2015
Alan Turing: Unlocking the Enigma
David Boyle (2014). Alan Turing: Unlocking the Enigma. Endeavour Press.
Sente-se que Alan Turing é daquelas personalidades que não é suficientemente recordada na memória comum. Conhecedores da história da computação sabem da importância deste homem para o nascer do nosso mundo digital, e peritos na história da II guerra recordam logo o seu papel nos esforços de criptografia britânica. E é talvez por isto que Turing seja mais recordado, para lá de ter dado o nome ao teste que visa distinguir uma inteligência artificial da inteligência humana. O recente filme biográfico ajuda a conhecer melhor esta figura incontornável do século XX, apesar de conter muitas simplificações e incorrecções.
Este Unlocking the Enigma é uma biografia curta e concisa, mas certeira. Traça as principais linhas da vida e personalidade de um matemático intrigado pela complexidade, cujas investigações nos legaram o conceito de automatização mecanizada do processamento de lógica matemática através de algoritmos utilizáveis para qualquer tipo de problema (acertei?), a partir de um artigo seminal que se debruça sobre o Entscheidungsproblem, essencialmente uma versão mais complexa do paradoxo do grego mentiroso. Recorda-nos que a fama matemática de Turing levou-o a ser convidado para o Institute of Advanced Studies em Princeton antes do dealbar da II guerra, mostra-nos a importância do seu trabalho no decifrar da criptografia germânica através da criação das bombes, computadores mecânicos criados com o fim expresso de decifrar códigos cifrados por máquinas Enigma, e não só. Continua com o envolvimento de Turing nos esforços britânicos no pós guerra para construir os seus primeiros computadores e uma fortíssima análise ao fascínio do cientista pela possibilidade de inteligência mecânica.
No que toca à vida pessoal de final dramático do cientista, o livro não foge à questão da sua homossexualidade, que é o elemento que o inicia e encerra, reflectindo na patética injustiça cometida sobre um homem a quem tanto devemos. Recorda-nos que, fugindo à imagem do cientista quase autista que persiste nas consciências, Turing sempre foi assumido em relação à sua sexualidade, estando longe de ser anti-social isolado, apesar do desleixo com a sua aparência. E recorda-nos que a sua paixão pela corrida era tão forte que quase se qualificou para a equipe olímpica britânica.
Curta, concisa e cuidada, esta biografia dá-nos a conhecer as várias dimensões de um homem discreto cuja importância para o mundo digital é basilar.
terça-feira, 3 de março de 2015
Leituras
Mind-controlled drones promise a future of hands-free flying: Já tinha lido algo sobre isto há uns tempos atrás, mas desta vez o Engadget traz-nos uma parceria entre a fabricante portuguesa de drones Tekever e o Instituto Champalimaud para investigar o uso de interfaces cérebro-computador para controlar o voo de drones. Parece magia, ou fantasia sobrenatural, mas é apenas ciência. A investigação neste tipo de interfaces já conta com muitos anos. E, quando estiver a falar deste tipo de tecnologia nas aulas de TIC onde abordo os interfaces com o computador depois de falar dos elementos de sistemas operativos gráficos, já lhes posso dizer que por cá se põe aparelhos voadores no ar com o pensamento.
The Myth of the Minecraft Curriculum: Um artigo muito lúcido sobre o potencial educativo desde jogo interessantíssimo. Começa por afirmar que o Minecraft não tem valor pedagógico inerente, ou seja, os ganhos de aprendizagem passam por elementos que lhe são extrínsecos. Todo o esforço colocado pelas crianças no dominar do jogo que passa pelo desenvolvimento de competências que vão da leitura até à manutenção de servidores online poderia ser motivado por outro tipo de jogo. Argumento interessante, mas confesso que vejo maior potencial no lado criativo do Minecraft do que no mergulho num mundo interactivo de jogos first person shooter. Não que estes não possam também ser inspiradores. Muitos destes jogadores procuram aprender a programar e modelar em 3D através, por exemplo, da criação de mods. Mas o Minecraft tem uma componente directa de criação, tipo lego digital, que nos tem legado resultados espantosos. Extrapolando para outros ambientes, afirma que as crianças desenvolvem estas competências não pelo jogo X ou Y mas "simply by having interests". Em parte este artigo também se revolta contra o excesso de pedagogia, contra a visão que tudo tem de ser educativo e pertinente, sublinhando que o brincar e ter actividades não estruturada é também muito importante para o desenvolvimento pessoal. Em suma, como refere o artigo, what's educational is having a passion. É raro ler pontos de vista que vejam a aprendizagem como algo que nos é inerente e vão mais além da compartimentalização trazida pela educação. As aprendizagens educacionais têm um objectivo bem definido, mas não resumem toda a vontade de aprender expressa pela vasta gama de interesses que temos.
The Good and the Bad of Escaping to Virtual Reality: Trará a realidade virtual um aprofundar do isolamento do indivíduo nas sociedades urbanas contemporâneas? Ou abrirá novas formas de comunicação e interacção em redes digitais? Se por um lado lamentamos a ausência de toque e contacto directo, por outro é inegável que temos ao nosso dispor formas de interacção impensáveis há poucos anos. Como em tudo, haverá aqueles que se recusam e aqueles que mergulharão em excesso nas virtualidades: "As with all things, virtual reality can be taken to unhealthy extremes, and the idea of such a drastic shift—one that may entirely redefine social needs—may cause unease. But amid all the warnings, for many bored and lonely souls, the promise of a virtual escape is not unsettling, but exciting. For any who have longed to spend any amount of time in their favorite fantastical world—from Middle Earth to Westeros, Hyrule to Kanto—VR offers the opportunity. “VR is a rapidly developing technology,” Evans concludes, “both functional and escapist, and potentially offers a wondrous parallel universe of unlimited possibilities.”"
segunda-feira, 2 de março de 2015
Comics
2000AD #1919: Borag Thung! A comemorar trinta e oito anos, a venerável revista semanal inglesa não está a passar por uma fase muito interessante. Há uma história de Judge Dredd no espaço, a lutar contra os juízes negros a bordo de uma nave geracional que alberga a elite financeira de MegaCity1. A ironia das elites abandonarem a Terra à sua sorte e fugir para o espaço para serem caçadas por monstros sai diluída numa estrutura narrativa de luta e sobrevivência, mas pelo menos a nave geracional inspira-se nas naves espaciais do filme Silent Running. Também há esta curiosa Survival Geeks, série a puxar mais para o cómico de inspiração sci-fi que está a misturar estilo steampunk com bebés Cthulhus. A premissa da série passa por uma casa habitada por g33ks puros e uma rapariga normal, que se desloca através de mundos paralelos. Nada de particularmente novo, apesar do toque g33k chic. Mas não pude deixar de reparar neste "conversational gallifreyan".
Bodies #08: Não percebi. Esta era uma das mais interessantes séries da Vertigo, um mistério com mortes ritualísticas que saltava entre diversas Londres do passado, presente e futuro. Termina de forma abrupta, com a longa colheita que sempre assumimos como uma espécie de catástrofe a acontecer, revelando-se como um equívoco de ocultistas que pensam que sacrifícios sangrentos são a resposta para invocar divinidades plenas de bondade. O desvio ao expectável é interessante, mas depois de sete edições a elevar o suspense este final hippie cheio de declarações de amor é... anti-climático.
They're Not Like Us #03: Algo que sempre me incomodou no simplismo dos comics de super-heróis é a forma como assumem que seres supra-humanos se sentiriam iguais às pessoas normais e não as veriam como gado ou seres inferiores a dominar. Conformam-se e defendem as estruturas sociais de um mundo povoado e dominado pelos seus inferiores. É uma forma ingénua de conceptualizar equilíbrios de poder, que assume que seres diferentes de nós partilhariam dos mesmos valores e sentiriam a responsabilidade de proteger os mais fracos. São raros os comics do género que encaram super-humanos como uma espécie de demiurgos que se entretêm com atrocidades cometidas sobre as formigas humanas. Este comic da Image é uma dessas excepções, com a história de uma jovem telepata a aprender a real extensão dos seus poderes graças à ajuda de um grupo de jovens com poderes misteriosos, capazes de manipular a percepção dos que os rodeiam. Grupo que oscila entre a sociopatia, cleptomania pura e, sendo capaz de ler os pensamentos mais íntimos de cada um, propensão para violência extrema aplicada àqueles que consideram dignos de castigo. Claro, a humanidade normal, desprovida e desconhecedora de poderes telepáticos e telequinéticos é vista como composta por criaturas inferiores. É esse lado impiedoso e amoral da série que a torna interessante. Mas suspeito que a tentação de levar a personagem principal a revoltar-se contra o sentimento de superioridade impune e regressar ao moralismo humanista acabe por tomar conta da série.
The Wicked + The Divine #08: Confesso que não consigo gostar desta sucessora do excelente Phonogram, série de Kieron Gillen sobre magia e música que acabava mais por ser um hino ao que mais nos toca na música pop do que sobre encantamentos mágicos. Gillen continuou o espírito de Phonogram nesta nova série, e se a colisão entre cultura mediática das celebridades e divindades milenares que reencarnam ciclicamente e durante quatro anos caminham sobre a Terra desperta a curiosidade, a série tem seguido o caminho do périplo entre criaturas que usam os seus poderes para mexer com a humanidade. Gillen tem feito coisas mais interessantes com Three, a antítitese da exaltação do militarismo sacrificial dos espartanos popularizada por Frank Miller, e a mistura de II Guerra com super-heróis criados em laboratório que é Über. Mas não deixa de ter os seus momentos, como esta encarnação psicadélica do deus Dionísio, com propensão para raves underground e uma t-shirt que revê fabulosamente o popular You Only Live Once com um toque de infinito.
domingo, 1 de março de 2015
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