domingo, 8 de março de 2015
sábado, 7 de março de 2015
sexta-feira, 6 de março de 2015
Um Contrato Com Deus
Will Eisner (2015). Um Contrato Com Deus. Oeiras: Levoir.
Um homem pio e virtuoso, de luto pela morte da filha adoptiva, rasga o contrato que firmara com o seu deus e dedica-se a prosperar. Mas a venalidade não o satisfaz e regressa aos caminhos do virtuosismo, para falecer fulminado por um ataque cardíaco quando decide renovar o seu contrato com a divindade. Uma diva perdida, afastada de fenecidas luzes da ribalta, encontra na voz de um cantor de rua uma possibilidade de regressar aos palcos. Oferece-lhe comida, promessas e o seu corpo, que o homem esfomeado aceita de bom grado. Este, ao regressar à casa e à família impossível de sustentar no meio dos tempos duros da depressão, começa a sonhar com um futuro melhor, mas a mente toldada pelo alcool recusa-se a deixá-lo recordar a morada da mulher que lhe prometera um melhor futuro. Um solitário e amargo zelador de um prédio tem no seu cão o único companheiro que lhe alivia uma vida feita de imensas queixas dos inquilinos irritados. Cruza-se com a perversa sobrinha de uma inquilina, que se aproveita da sua solidão para se insinuar, roubando-lhe o dinheiro, assassinando-lhe o companheiro e deixando-o sem outra escolha senão suicidar-se, suspeito de a tentar violar. Quando o verão chega à cidade chega também a época das fugas e dos sonhos, em que as famílias saem da cidade para apanhar os ares do campo. As jovens casadoiras procuram os melhores partidos, os chico-espertos buscam a melhor mulher para encantar e dar o golpe que lhes permite fugir ao destino de meros empregados de negócios sem futuro, os casais desavindos aprofundam as suas tragédias, ocultas pela necessidade de criar os filhos. E um jovem rapaz descobre nos braços de uma mulher mais velha as delícias e as incongruências da sexualidade. O livro termina com este jovem, agora a sentir-se mais homem, contemplando a chuva outonal que cai sobre a cidade. A mesma chuva imponente com que o livro abre, no início das desventuras do homem que ao perder a fé lança como palco o edifício que será sempre a peça centrar destas histórias.
Um prazer, graças à Levoir, de regressar à Nova Yorque de Will Eisner nesta que foi a primeira das graphic novels com que encerrou uma carreira dedicada aos comics que nos legou não só personagens clássicas como uma nova forma cinematográfica de entender o espaço visual da banda desenhada. Tal como Woody Allen no cinema e Isaac Bashevis Singer na literatura, Eisner inspira-se nas idiosincrasias multiculturais da comunidade judaica nova-iorquina para contar histórias onde o apontamento nostálgico toca na tragédia e no humor. Mas mais dos que as aventuras e desventuras de personagens com forte toque auto-biográfico o que ressalta é a mestria do seu traço, liberto dos ditames do comic de mercado, liberto também dos espartilhos da vinheta, oscilando entre o bloco de apontamentos e o registo mais formal.
quinta-feira, 5 de março de 2015
La Femme Limace
Junji Ito (1998). La Femme Limace. Paris: Éditions Tonkam.
Uma mulher transforma-se lentamente em lesma. Um monstro leviatânico das profundezas dá à praia, morto, e rodeado por pessoas que sentiram uma estranha compulsão em ir ver a criatura apodrecer. Nas suas entranhas putrefactas encontram-se ainda vivos os passageiros desaparecidos num naufrágio ocorrido anos antes, aglomerados no estômago e intestinos da criatura como peixes a estrebuchar numa rede. Um jovem regressa a Tokyo, à casa que alugou a um professor que detestava, para a descobrir coberta de fungos impossíveis de eliminar, que contaminaram e devoraram os seus inquilinos, acabando coberto de fungos no seu jardim transformado num paraíso fúngico. Um ídolo misterioso de jade mata quem nele tocar, transformando o seu corpo numa rede de buracos. Inspirado num sonho, um homem decide cavar um buraco no chão da casa para encontrar uma fonte de água quente que talvez seja uma porta para os infernos. Uma dona de casa obcecada pela limpeza vê, com horror, a presença de terceiros, matando o marido e levando a que um admirador das suas filhas se oculte dentro dos esgotos. Uma jovem secretária disposta a tudo para impressionar o seu patrão vê-se dentro de uma casa de horrores, rodeada por vampiras que tocam violino enquanto sorriem ao sentir jactos de sangue quente na pele e caçada pelo patrão num viveiro de insectos para alimentação exótica.
Junji Ito é um mestre do horror japonês. Nesta colectânea de histórias pega nos pequenos horrores que nos arrepiam a pele. As lesmas, os fungos, buracos estranhos na pele, a sujidade, os fluídos. Com eles cria pequenos contos de horror visceral que, dentro daquilo que tanto me atrai no horror japonês, não dependem da lógica ou procuram um desfecho que faça sentido. São horrores que arrepiam, existem, como mitos ou espíritos milenares. O traço preciso de Ito consegue ser perverso nos momentos mais marcantes, sublinhando o terror inexplicável das histórias.
quarta-feira, 4 de março de 2015
Alan Turing: Unlocking the Enigma
David Boyle (2014). Alan Turing: Unlocking the Enigma. Endeavour Press.
Sente-se que Alan Turing é daquelas personalidades que não é suficientemente recordada na memória comum. Conhecedores da história da computação sabem da importância deste homem para o nascer do nosso mundo digital, e peritos na história da II guerra recordam logo o seu papel nos esforços de criptografia britânica. E é talvez por isto que Turing seja mais recordado, para lá de ter dado o nome ao teste que visa distinguir uma inteligência artificial da inteligência humana. O recente filme biográfico ajuda a conhecer melhor esta figura incontornável do século XX, apesar de conter muitas simplificações e incorrecções.
Este Unlocking the Enigma é uma biografia curta e concisa, mas certeira. Traça as principais linhas da vida e personalidade de um matemático intrigado pela complexidade, cujas investigações nos legaram o conceito de automatização mecanizada do processamento de lógica matemática através de algoritmos utilizáveis para qualquer tipo de problema (acertei?), a partir de um artigo seminal que se debruça sobre o Entscheidungsproblem, essencialmente uma versão mais complexa do paradoxo do grego mentiroso. Recorda-nos que a fama matemática de Turing levou-o a ser convidado para o Institute of Advanced Studies em Princeton antes do dealbar da II guerra, mostra-nos a importância do seu trabalho no decifrar da criptografia germânica através da criação das bombes, computadores mecânicos criados com o fim expresso de decifrar códigos cifrados por máquinas Enigma, e não só. Continua com o envolvimento de Turing nos esforços britânicos no pós guerra para construir os seus primeiros computadores e uma fortíssima análise ao fascínio do cientista pela possibilidade de inteligência mecânica.
No que toca à vida pessoal de final dramático do cientista, o livro não foge à questão da sua homossexualidade, que é o elemento que o inicia e encerra, reflectindo na patética injustiça cometida sobre um homem a quem tanto devemos. Recorda-nos que, fugindo à imagem do cientista quase autista que persiste nas consciências, Turing sempre foi assumido em relação à sua sexualidade, estando longe de ser anti-social isolado, apesar do desleixo com a sua aparência. E recorda-nos que a sua paixão pela corrida era tão forte que quase se qualificou para a equipe olímpica britânica.
Curta, concisa e cuidada, esta biografia dá-nos a conhecer as várias dimensões de um homem discreto cuja importância para o mundo digital é basilar.
terça-feira, 3 de março de 2015
Leituras
Mind-controlled drones promise a future of hands-free flying: Já tinha lido algo sobre isto há uns tempos atrás, mas desta vez o Engadget traz-nos uma parceria entre a fabricante portuguesa de drones Tekever e o Instituto Champalimaud para investigar o uso de interfaces cérebro-computador para controlar o voo de drones. Parece magia, ou fantasia sobrenatural, mas é apenas ciência. A investigação neste tipo de interfaces já conta com muitos anos. E, quando estiver a falar deste tipo de tecnologia nas aulas de TIC onde abordo os interfaces com o computador depois de falar dos elementos de sistemas operativos gráficos, já lhes posso dizer que por cá se põe aparelhos voadores no ar com o pensamento.
The Myth of the Minecraft Curriculum: Um artigo muito lúcido sobre o potencial educativo desde jogo interessantíssimo. Começa por afirmar que o Minecraft não tem valor pedagógico inerente, ou seja, os ganhos de aprendizagem passam por elementos que lhe são extrínsecos. Todo o esforço colocado pelas crianças no dominar do jogo que passa pelo desenvolvimento de competências que vão da leitura até à manutenção de servidores online poderia ser motivado por outro tipo de jogo. Argumento interessante, mas confesso que vejo maior potencial no lado criativo do Minecraft do que no mergulho num mundo interactivo de jogos first person shooter. Não que estes não possam também ser inspiradores. Muitos destes jogadores procuram aprender a programar e modelar em 3D através, por exemplo, da criação de mods. Mas o Minecraft tem uma componente directa de criação, tipo lego digital, que nos tem legado resultados espantosos. Extrapolando para outros ambientes, afirma que as crianças desenvolvem estas competências não pelo jogo X ou Y mas "simply by having interests". Em parte este artigo também se revolta contra o excesso de pedagogia, contra a visão que tudo tem de ser educativo e pertinente, sublinhando que o brincar e ter actividades não estruturada é também muito importante para o desenvolvimento pessoal. Em suma, como refere o artigo, what's educational is having a passion. É raro ler pontos de vista que vejam a aprendizagem como algo que nos é inerente e vão mais além da compartimentalização trazida pela educação. As aprendizagens educacionais têm um objectivo bem definido, mas não resumem toda a vontade de aprender expressa pela vasta gama de interesses que temos.
The Good and the Bad of Escaping to Virtual Reality: Trará a realidade virtual um aprofundar do isolamento do indivíduo nas sociedades urbanas contemporâneas? Ou abrirá novas formas de comunicação e interacção em redes digitais? Se por um lado lamentamos a ausência de toque e contacto directo, por outro é inegável que temos ao nosso dispor formas de interacção impensáveis há poucos anos. Como em tudo, haverá aqueles que se recusam e aqueles que mergulharão em excesso nas virtualidades: "As with all things, virtual reality can be taken to unhealthy extremes, and the idea of such a drastic shift—one that may entirely redefine social needs—may cause unease. But amid all the warnings, for many bored and lonely souls, the promise of a virtual escape is not unsettling, but exciting. For any who have longed to spend any amount of time in their favorite fantastical world—from Middle Earth to Westeros, Hyrule to Kanto—VR offers the opportunity. “VR is a rapidly developing technology,” Evans concludes, “both functional and escapist, and potentially offers a wondrous parallel universe of unlimited possibilities.”"
segunda-feira, 2 de março de 2015
Comics
2000AD #1919: Borag Thung! A comemorar trinta e oito anos, a venerável revista semanal inglesa não está a passar por uma fase muito interessante. Há uma história de Judge Dredd no espaço, a lutar contra os juízes negros a bordo de uma nave geracional que alberga a elite financeira de MegaCity1. A ironia das elites abandonarem a Terra à sua sorte e fugir para o espaço para serem caçadas por monstros sai diluída numa estrutura narrativa de luta e sobrevivência, mas pelo menos a nave geracional inspira-se nas naves espaciais do filme Silent Running. Também há esta curiosa Survival Geeks, série a puxar mais para o cómico de inspiração sci-fi que está a misturar estilo steampunk com bebés Cthulhus. A premissa da série passa por uma casa habitada por g33ks puros e uma rapariga normal, que se desloca através de mundos paralelos. Nada de particularmente novo, apesar do toque g33k chic. Mas não pude deixar de reparar neste "conversational gallifreyan".
Bodies #08: Não percebi. Esta era uma das mais interessantes séries da Vertigo, um mistério com mortes ritualísticas que saltava entre diversas Londres do passado, presente e futuro. Termina de forma abrupta, com a longa colheita que sempre assumimos como uma espécie de catástrofe a acontecer, revelando-se como um equívoco de ocultistas que pensam que sacrifícios sangrentos são a resposta para invocar divinidades plenas de bondade. O desvio ao expectável é interessante, mas depois de sete edições a elevar o suspense este final hippie cheio de declarações de amor é... anti-climático.
They're Not Like Us #03: Algo que sempre me incomodou no simplismo dos comics de super-heróis é a forma como assumem que seres supra-humanos se sentiriam iguais às pessoas normais e não as veriam como gado ou seres inferiores a dominar. Conformam-se e defendem as estruturas sociais de um mundo povoado e dominado pelos seus inferiores. É uma forma ingénua de conceptualizar equilíbrios de poder, que assume que seres diferentes de nós partilhariam dos mesmos valores e sentiriam a responsabilidade de proteger os mais fracos. São raros os comics do género que encaram super-humanos como uma espécie de demiurgos que se entretêm com atrocidades cometidas sobre as formigas humanas. Este comic da Image é uma dessas excepções, com a história de uma jovem telepata a aprender a real extensão dos seus poderes graças à ajuda de um grupo de jovens com poderes misteriosos, capazes de manipular a percepção dos que os rodeiam. Grupo que oscila entre a sociopatia, cleptomania pura e, sendo capaz de ler os pensamentos mais íntimos de cada um, propensão para violência extrema aplicada àqueles que consideram dignos de castigo. Claro, a humanidade normal, desprovida e desconhecedora de poderes telepáticos e telequinéticos é vista como composta por criaturas inferiores. É esse lado impiedoso e amoral da série que a torna interessante. Mas suspeito que a tentação de levar a personagem principal a revoltar-se contra o sentimento de superioridade impune e regressar ao moralismo humanista acabe por tomar conta da série.
The Wicked + The Divine #08: Confesso que não consigo gostar desta sucessora do excelente Phonogram, série de Kieron Gillen sobre magia e música que acabava mais por ser um hino ao que mais nos toca na música pop do que sobre encantamentos mágicos. Gillen continuou o espírito de Phonogram nesta nova série, e se a colisão entre cultura mediática das celebridades e divindades milenares que reencarnam ciclicamente e durante quatro anos caminham sobre a Terra desperta a curiosidade, a série tem seguido o caminho do périplo entre criaturas que usam os seus poderes para mexer com a humanidade. Gillen tem feito coisas mais interessantes com Three, a antítitese da exaltação do militarismo sacrificial dos espartanos popularizada por Frank Miller, e a mistura de II Guerra com super-heróis criados em laboratório que é Über. Mas não deixa de ter os seus momentos, como esta encarnação psicadélica do deus Dionísio, com propensão para raves underground e uma t-shirt que revê fabulosamente o popular You Only Live Once com um toque de infinito.
domingo, 1 de março de 2015
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Boas Surpresas
Confesso que estou muito impressionado com esta colecção da Levoir editada com o Público. O alinhamento de autores e livros é de luxo, e vai tornar muto acessíveis obras significativas do melhor que se tem feito em graphic novels europeias e americanas. Num país em que andamos sempre a quexar-mo-nos da escassez cultural é um pouco difícil de acreditar que nas banais bancas de jornal, todas as semanas, vão-nos cair livros de Tardi (e logo o espantoso C'etait La Guerre dans les Tranchée, obra seminal sobre a I Guerra), Moebius/Jodorowsky, Miguel Rocha, Sergio Toppi (com o visualmente deslumbrante Sharaz-De), Jîro Taniguchi (cujo Quartier Lointain deslumbrou os franceses e chega agora cá), Enrique Breccia, Robert Crumb... enfim, um alinhamento fantástico que nos dá um pouco do melhor e mais criticamente aplaudido na banda desenhada. Começa com o traço espantosos de Will Eisner na sua primeira graphic novel, que segue a tradição de Isaac Bashevis Singer e Woody Allen no retratar das idiosincrasias da diáspora judaica entre o velho e o novo mundo.
Há um nome que gostaria de desatacar. A curadoria editorial é de José Freitas, que aposto ser o mesmo que esteve envolvido nos comics da Marvel editados em Portugal pela Panini (história que acabou mal por decisão inqualificável da editora) e através da G.floy nos está a trazer Fatale, Chew e Saga. Suspeito que noutras indústrias, ou em vertentes mais nobres da edição literária, alguém que consistentemente traz para Portugal o que de melhor se fez e vai fazendo, com alguns toques mais comerciais para agradar aos fãs, seria certamente mais destacado e celebrado com um importante divulgador cultural. Mas como são histórias aos quadradinhos, o que é que isso interessa? A verdade é que voltámos a ter nas bancas BD de qualidade, e esta colecção extraordinária sublinha isso. O Leituras do Pedro tem a lista completa desta colecção notável.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Quem é?
Ou o algoritmo se enganou, ou está-me a piscar o olho porque sabe que gosto de chá e 3D, tendo decidido pregar-me uma surpresa ao estilo Utah Teapot. Ou isso. Mas se calhar é a primeira.
Visões
Nathan Barley ep01: Desde que vi o primeiro episódio da série Black Mirror que percebi que Charlie Booker tem o dedo firmemente assente no pulso do tempo contemporâneo. Aquele primeiro episódio, com a conspiração e rapto seguida em tempo real através de redes sociais cuja pressão obriga o primeiro ministro britânico a sodomizar um porco ao vivo na televisão para salvar a vida da vítima, cumprindo com as exigências de um pretenso terrorista que afinal se revela ser um artista conceptual com uma doença terminal. Quando correu a notícia que a série iria ter uma versão americana pensei logo a sério? Quem será o argumentista que se atreve a meter o presidente dos Estados Unidos a sodomizar suínos, cedendo às exigências de terroristas? Uma questão que fica em aberto. O que me surpreendeu nesse episódio foi a forma certeira e dinâmica como Booker geriu a questão do imediatismo e pressões mediáticas dos media em tempo real. Essencialmente, Booker é um tipo que percebe as coisas. E, como se nota por este delirante episódio de uma série antiga, já percebe as coisas há muito tempo. Quer pela estética fragmentada e dinâmica, quer pelas personagens, patéticas caricaturas dos piores excessos da cultura hip mediática que, francamente, me parecem bem representativas de alguma parte do jornalismo digital e do tipo de programação cheio de inanidades bizarras e freakshows intencionais que enche a paisagem mediática fragmentada dos canais de tv por cabo.
The Quatermass Xperiment: Seria todo um tratado sobre a evolução estrutural da ficção científica a forma como estas histórias de um passado recente nos parecem hoje pueris e simplistas. Ainda divertidas, para os que conhecem mais profundamente o género e compreendem o enquadramento narrativo dentro da evolução da FC. Se bem que os elementos transversais às épocas estão lá. Viagem ao espaço, cientista confiante e determinado no progresso a todo o custo, evento misterioso no espaço que traz à terra uma força invasora com tendência para transformr o seu portador num monstro. Não é assim tão diferente de muitos enredos contemporâneos. Difere é na forma directa e pouco subtil com que se desenvolve desde o choque da descoberta inicial até à vitória final que aniquila o monstro invasor, com um longo e inevitável intermédio em que os mistérios se adensam. O Quatermass que dá nome à série é um irascível tecnocrata prototípico, incapaz de ver limites à busca da verdade científica. Imaginem um Doctor Who não alienígena, sério à quinta casa e sem qualquer pingo de irreverencia, e percebem este Quatermass. Uma obra obviamente datada, mas a ver por quem se interessa pelo lado clássico da FC.
Belarmino: Muito poderia ser dito deste filme de Fernando Lopes, pedrada no charco da cinematografia portuguesa da época e um dos grandes marcos do Cinema Novo. Poderíamos entrar pelo retrato dessa Lisboa de outras eras que este documentário ficcional regista, na visão crítica sobre um país oprimido, mantido pobre e fechado, na magistral banda sonora. Pessoalmente destacaria o absoluto rigor geométrico dos enquandramentos. A disposição das formas e das massas de cor no espaço visual é espantosa no seu rigor. Não é difícil imaginar as linhas visuais de força que equilibram as imagens deste filme muito próximo de um rigor fotográfico quase abstracto.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Aces High
George Evans (2014). Aces High. Seattle: Fantagraphics.
George Evans pertence aos melhores daquela geração de ilustradores clássicos da Golden Age que ajudou a definir o estilo gráfico da época pré-comics code. Grafista para toda a obra, especializou-se nas histórias de horror, crime, suspense, desporto mas distinguiu-se ao ilustrar histórias de combate aéreo na I guerra. Aces High colige um pouco de tudo. Confesso, descaradamente, que nem me dei ao trabalho de ler as histórias que Evans ilustrou de true crime, terror ou suspense. Sabia ao que ia e ao que me interessava: o seu excelso trabalho a retratar as fabulosas máquinas voadoras da I guerra, algo que fazia com um traço preciso, meticuloso mas ao mesmo tempo capaz de captar o dinamismo do voo. As histórias em si são hinos algo patrióticos à coragem de pilotos, exaltações simplistas de valores militaristas datadas e bastante desinteressantes. Sâo as ilustrações que fazem valer a pena revisitar estas histórias, originalmente publicada na revista Aces High. Ex-mecânico aeronaútico nos tempos em que ingressou no exército americano, Evans era um apaixonado da aeronáutica clássica e isso nota-se na forma como recria no estrito espaço da vinheta a poesia visual modernista dos engenhos de metal, madeira e tecido que afrontavam os ares.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
This is Sparta
Apanho uns seguidores muito estranhos no Twitter. Devo lá ter uma boa quantidade de bots e os habituais auto-promotores literários. Mas este parece-me especial, talvez do ponto de vista das necessidades especiais. Aquela foto de perfil é um mimo. Gosto particularmente dos raios que saem da mão convidativa. Certo. Pimbalhice é pimbalhice, quer venha com sotaque espartano ou beirão. E se este é um bot, diria que bom humor talvez seja um bom esquema para ser aprovado no teste de Turing. Algo me diz que este espartano não partilha do This Is SPARTA saído das ranzinzices heróico-machistas do Frank Miller.
Da bonomia na censura
Eis algo para aquecer o coração dos que respeitam as liberdades, que estranhamente parece estar a passar despercebido por todos os je suis charlie, à excepção dos suspeitos do costume. Talvez porque seja uma coisa mais new media do que edição tradicional, ou por ter um carácter de recorte moralista. A moral e bons costumes são sempre terrenos pantanosos, ao contrário das mais cristalinas liberdades políticas. Não é por acaso que esta medida tem sido descrita como um cleaning up, um limpar de casa, de um serviço web.
Os bloggers que utilizam a plataforma que deu o nome à prática têm vindo a ser notificados que as regras do serviço mudaram e que a Google decidiu deixar de permitir conteúdos explícitos. Pilinhas e mamocas passaram a ser fruto proibido no Blogger. Mas tranquilizem-se, defensores da liberdade de expressão. A Google não irá eliminar nenhuma página que passe a violar este ditame, simplesmente torna-a privada e inacessível às pesquisas. Quanto a futuros desvios, recomendam com bonomia orwelliana que "evite criar novos conteúdos que possam constituir uma violação desta política", algo que não sei porquê soa na minha mente com a voz de um diácono moralista provinciano dos primórdios do século XX.
Não tendo queda particular para erotismos, esta é uma medida que me passa muito ao lado no seu corpo. Mas não no seu princípio. Independentemente de se achar bem ou mal usar um blog para conteúdos mais ou menos explícitos, independentemente de o fazer ou não, note-se que de um dia para o outro a detentora de uma das maiores plataformas de publicação na web muda unilateralmente as regras de publicação. Quando isto acontece fico sempre a pensar e amanhã, como vai ser? Hoje são conteúdos explícitos, algo complicado de defender por mexer com questões que vão da moral às relações de género ou objectificação sexual. Mas, e amanhã? O que é que irá criar pruridos aos responsáveis pela plataforma? Não vou cair no simplismo de começar a definir possíveis alvos. A verdade é que não sabemos, nem saberemos até ao dia em que os bloggers mais atrevidos começarem a receber emails informando-os que aquilo que sempre fizeram passou a ser considerado uma violação dos termos de serviço. E é isso, este efeito amordaçante, o que me inquieta nestas iniciativas.
Note-se também que a definição de conteúdos que possam constituir uma violação desta política é em si vaga, apesar da garantia que naquilo que a Google considerar contextos artístico ou educacionais a coisa passa. Há aqui imenso potencial para o tipo de polémicas em que se metem as redes sociais que censuram fotos mães que alimentam bebés mas demoram a reagir perante imagens de violência extrema. Ou, num hilariante caso recente, confundem uma imagem do interior de um fruto com orgãos genitais. Note-se também que ao reservar-se o direito de decidir o que constitui arte ou pornografia, a Google está de facto a assumir o papel de censor. Não há nada como decidir o que tem valor artístico ou não, baseado em critérios invisíveis, conhecidos apenas pelos decisores. E fá-lo sobrepondo-se às definições legais do que constitui conteúdo de cariz violador de direitos. É um papel nitidamente em conflito com a razão de ser de uma plataforma que possibilita a publicação digital de milhões de vozes em todo o mundo.
A Google também é normalmente opaca nas decisões que toma. Não há qualquer explicação para isso, e os poucos rumores que se lêem prendem-se com uma vontade de limpar a casa. O que se sabe é que fica ao arbítrio deles se qualquer blog continua disponível para todos ou fica restrito a partir de dia 23 de março. Medidas como esta recordam-nos que os nossos espaços comunitários digitais não são, ao contrário do que afirmamos e acreditamos, realmente nossos. Estão sujeitos aos arbítrios de quem é dono da infraestrutura que os sustenta. Donos esses que se mostram generosos ao fornecer as ferramentas para tantos de nós tirarem partido para partilhar tudo o que nos vem à mente, dos fait divers aos conteúdos mais elaborados. Mas que não o são.
Uma boa regra no mundo digital é perceber que se o serviço é gratuito o utilizador é o produto. Algo fácil de perceber nas redes sociais, que vêem cada novo utilizador como mais um agregado de fonte de dados para engordar as suas vastas bases de dados monetarizadas através da gestão fina de anúncios. Um mercado de milhares de milhões, note-se, que sustenta os gigantes do mundo digital. No caso do Blogger imaginem um paralelo com os media tradicionais: um jornal ou um canal televisivo gratuito em que alguém fornece o acesso mas são os consumidores que criam os textos a ser lidos ou os programas a ser vistos. Acaba por ser um pouco como um restaurante onde cabe aos clientes confeccionar a comida. E que neste caso tem um dono que um dia decide que não gosta de ovos e proíbe em absoluto que os convivas cozinhem omoletes.
Há alternativas, claro, que vão da migração para serviços que se mantém mais tolerantes, como o Tumblr ou o Wordpress, ou a solução mais óbvia mas não ao alcance de todos, o manter e albergar em domínio próprio. Com isto há o risco de perder anos de trabalho e construção de uma página. Mas a mancha fica. O resvalar para a censura é óbvio. E a pergunta fica no ar. Se hoje decidiram que o corpo nu não é aceitável, amanhã o que é que lhes causará pruridos e será proibido com bonomia?
Se daqui a um mês desaparecer do ar, já sabem. Algo nos dez anos que já leva este blog (bolas, já passou tanto tempo...) causou alergia moral aos algoritmos da Google.
Edit: entretanto parece que a Google desistiu de implementar esta nova política. Há que dar crédito aos tecnocratas da Google (que sim, baseada em algoritmos e privilegiando uma eficiência mecanicista que se assume como de veracidade auto-contida, funciona como uma tecnocracia pura) por ao serem confrontados com as consequências reais da sua visão destilada do que deve ou não deve ser por, de quando em vez, recuarem. Nem sempre o fazem.
Visões
A Touch of Evil: Vi o fantástico opening shot deste filme de Orson Welles numa sessão de formação do Plano Nacional de Cinema e comecei a espancar-me com facepalms mentais. Como é que ainda não tinha visto este filme? Afinal, Orson Welles é uma das personalidades que admiro. Citizen Kane é um filme que nunca me canso de rever, e para o lado de amante de ficção científica há que recordar que a sua adaptação para teatro radiofónico da Guerra dos Mundos de Wells ainda hoje mexe com quem a ouve. Para a história, quer do género quer dos media, fica o histerismo provocado pelo impacto das técnicas inovadoras de Welles nos ouvidos de um público incauto.
Sem querer cair em lugares comuns, é óbvio dizer que Welles foi um visionário do cinema, Citizen Kane impressiona mais pela estética do que pela história. É um filme onde todo o visual está ao serviço da narrativa, criando um todo coerente que mergulha o espectador na história. A Touch of Evil vai ainda mais longe. Assenta num dinamismo extraordinário de cenas onde nada é estático, sucedem-se os enquadramentos em ângulos cortantes, incómodos para o espectador, o trabalho com reflexos e profundidade de campo é excelso, os raccords são perfeitos a interligar diferentes momentos narrativos. Assinalaria ainda a omnipresença do movimento automóvel, quer como presença constante quer como ponto de vista da câmara. A estética em preto e branco de forte geometria, quase abstracta no equilibrio de massas na imagem. Este filme é uma experiência estética espantosa. Parte de uma convoluta história de policial noir cheia de reviravoltas e surpresas, onde nada é o que parece. Uma história policial que nas mãos de outro realizador seria banal, igual a tantas outras, mas nas mãos de Welles se torna magistral. Apanhei a versão editada de acordo com as instruções do realizador. São bem conhecidas as tropelias dele perante o comercialismo impiedoso do studio system. E tem uma cena que não fica nada atrás dos melhores filmes de terror. Quando o rosto de olhos esbugalhados raiados de sangue do gangster estrangulado pelo polícia corrupto se abate sobre o olhar da mulher raptada que acorda drogada na cama de um hotel seboso, é o mais clássico dos enquadramentos de horror. E o mais eficaz.
Coisa Ruim: Se, como eu, ficaram curiosos por ver pequenos excertos deste filme de terror português ficarão com a sensação que o filme é melhor do que o que realmente é. Assistir à conversa com realizador e argumentista, completa com intrigantes excertos, no último encontro Sustos às Sextas despertou-me a curiosidade para algo que já de si é raro, um filme assumidamente de terror português. O que fica do visionamento é, de facto, uma boa história de fantasmas e maldições com imensa atenção à tradição portuguesa. Nisto o filme é eficaz, levando-nos ao Portugal rural e profundo, com tradições obscuras e mistérios centenários que colidem com o racionalismo contemporâneo. E poderia ser um bom filme se os realizadores não estivessem tão enamorados do slow travelling dentro de espaços claustrofóbicos para tentar criar suspense. Aquilo é tanta câmara em movimento de aproximação lenta que o efeito acaba por ser mais de provocar bocejos do que intrigar o espectador. Junta-se a isso uma estranha falta de coerência narrativa no encadear de uma linha narrativa feita de cenas sucessivas, algo previsíveis, mas estranhamente desconexas. A intensidade emocional de um filme que se quer assumir como provocador de emoções fortes também não é algo que se note. Há poucos momentos em que realmente se sente que os actores encarnaram os personagens que representam. Coisa Ruim não deixa de ser um esforço interessante, quer pela temática quer pela forma como a aborda. A filmografia de género por cá é rara e mal vista, porque, enfim, todos os filmes (e livros) têm de ser sobre coisas muito sérias e importantes porque o que é preciso é que sejamos todos sérios e importantes e pensemos em coisas sérias e importantes, deixando as infantilidades de outros imaginários ou para as crianças ou para o domínio daqueles maluquinhos que se vestem demasiado de preto ou passam demasiado tempo a sonhar com naves espaciais. Coisa Ruim é um filme normal de terror leve, perfeitamente banal no panorama cinematográfico global, mas por cá interessante por inerência da raridade do artefacto.
The Babadook: Don't get scared, it's just a book. Ou será? Uma belíssima e arrepiante surpresa, num filme muito ambíguo que tanto pode ser a descida à locura de uma mãe viúva, incapaz de ultrapassar a depressão pela morte do marido e com um filho complicado nos braços, ou ser mesmo um monstro que se aproveita das fraquezas humanas. A ambiguidade é deliciosa, assente num espantoso trabalho de interpretação da actriz Essie Davies. O seu olhar e prostura corporal transmitem na perfeição aquela sensação de se estar a revalar para um abismo apesar de todos os esforços para nos mantermos à tona. Filme com momentos genuinamente arrepiantes, apesar de se situar naqueles padrões clássicos do horror psicológico dentro de casas tenebrosoas com criaturas ameaçadoras do além. Tem uma estética curiosa, feita de enquadramentos estáticos e um cinzentismo intencional que sublinha o horror da banalidade e normalidade em conflito com o resvalar da loucura. E o livro é um extraordinário pop up from hell.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Interzone #256
Para arranque de novo ano a Interzone não nos traz nomes sonantes, mantendo algumas apostas de continuidade. Algumas, caso de Bonnie Stufflebeam, já se percebem que não terão muito futuro no género. Já Neil Williamson, com a sua prosa clara e ideias bem assentes em mundos ficcionais coerentes, é claramente um nome a manter debaixo de olho. Promete ir longe. Destacaria ainda o editorial, nesta edição a cargo do crítico de vídeo/DVD, que nos leva a reflectir que tiramos muito mais de uma obra cinematográfica do que o elementar gozo de descobrir as intricacias dos enredos. Já a sempre interessante coluna de McCalmont traça o aprofundar de sentidos e crescer da ambiguidade nas estruturas narrativas da ficção científica.
Nostalgia - Bonnie Jo Stufflebeam: arranque pouco auspicioso desta edição da Interzone. A autora tem publicado regularmente na revista, com resultados mistos mas claramente a afastar-se da FC como cerne narrativo e a usar os elementos do género como decoração cada vez mais ténue. É o caso deste conto, em que o possível elemento FC estará na personagem talvez transexual, de género indefinido. Essa ambiguidade nunca explicada mantém-se em ponto de fundo numa história onde a amante desta personagem regressa à cidadezinha americana que a viu crescer. O motivo desse regresso, participar numa cerimónia pela morte de um amigo de infância, merecia ser melhor esclarecido. O amigo afinal não está morto mas o facto de a comunidade o considerar morto poderá indicar que ele, tal como a transexual, não cai dentro de padrões de comportamento normativos e aceitáveis numa comunidade fechada e é por isso proscrito. Mas o conto não segue este caminho. Aliás, o conto não segue nenhum caminho discernível. Insinua algumas ideias que poderiam, sendo exploradas, ser interessantes, mas nada mais.
An Advanced Guide to Successful Price-Fixing in Extraterrestrial Betting Markets - T.R. Napper: este escritor rebentou na #254 com um conto fabuloso de futurismo pós-apocalíptico passado na China. Este não lhe fica atrás, a começar neste título cerebral e complexo que oculta uma história divertida sobre jogos mentais, autismo funcional, fascínio com padrões matemáticos e espécies alienígenas intrigadas com a imprevisibilidade do cérebro humano e viciadas nos jogos de azar. Napper parece claramente ser uma daquelas vozes a prestar atenção.
The Ferryman - Pandora Hope: há algo de tenebroso e sobrenatural nesta história longa onde um viúvo encontra algum consolo nos braços de uma mulher que oferece abraços mediante pagamento. Haveria por aqui muito que explorar, desde a solidão da viúvez às tensões familiares, passando pelo lado fantástico de uma mulher cuja casa se assemelha a uma floresta e um homem cujo passado poderá estar ligado à mitologia nórdica. Haveria, mas o conto não é suficientemente claro para se perceber por onde vai, ou quer ir. Retirem-se os elementos de fantástico e ficamos com uma banal história de solidão na terceira idade.
Tribute - Cristine Gholson: Há algo de inacabado nesta história difusa. Saltamos entre dois pontos de vista. Por um lado o de uma criatura jovem, habitante de estepes desoladas, a tentar tirar sentido do falecimento dos seus progenitores e muito intrigada pelas minúsculas criaturas esbracejantes que algo lhe deixa em aparente oferenda. O outro ponto de vista é a do arquivista de uma cidade milenar, que assiste à tomada do poder por um grupo que invoca ameaças de antanho e envia vítimas sacrificiais através de um portal para apaziguar as divindades ameaçadoras cuja defesa da cidade é a base do seu poder sobre os seus concidadãos. Intrigante, mas o conto é mais eficaz a invocar imagens mentais do que a tornar-se claro no seu mundo ficcional.
Fish on Friday - Neil Williamson: Este escritor também tem surpreendido os leitores da Interzone com contos consistentemente interessantes. Este curto foi, ao que parece, inspirado na recente tentativa de independência escocesa, mas Williamson vai muito mais além, imaginando os dilemas de uma sociedade sob a égide da bonomia de controles sociais potenciados por tecnologia pervasiva. Ou, colocando a questão noutros termos: onde está a liberdade e a privacidade quando a bem da nossa saúde e bem estar as dietas são restritas, somos obrigados a manter comportamentos socialmente aceitáveis e saudáveis, e os dispositivos do dia a dia estão repletos de sensores cujos dados coligidos criam perfis precisos dos hábitos das pessoas? Williamson coloca a questão em tom de bom humor, com uma velhota ex-hactivista a levar um puxão de orelhas da agência para a saúde e bem estar por não ver uma televisão cheia de programas desportivos e ter dado a volta aos sistemas do frigorífico para mandar vir bifes em vez dos filetes de peixe transgénico considerados benéficos para a saúde, clima e sociedade. Sorrimos, mas há aqui implicações reais da convergência entre moralismos sociais, proliferação de sensores internet of things e o interesse específico de organizações. Mesmo nos mais suaves sonhos dos proponentes do Big Data/Internet of Things, a mão do Grande Irmão está presente. Pesada, mas com um sorriso, enquanto nos diz que as restrições aos comportamentos considerados desvios à norma são necessárias para nosso bem.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Comics
Ei8ght #01: Ok, isto é weird, mesmo para mim. Começa como uma história de FC high tech sobre viagem no tempo. Amnésia profunda é o efeito secundário que afecta os crononautas, que acordam num passado profundo... onde bandos de refugiados do futuro domesticaram dinossauros. Os cruzamentos entre fantasia e FC já não novidade, como se nota pelo sucesso da série Saga, mas há algo de profundamente infantil no cavalgar de tiranossauros. É daquelas coisas que aquece o coração do puto de oito anos que reside dentro de nós.
Ivar, Timewalker #02: Belíssima escolha, a de Fred Van Lente como argumentista desta série derivada de Archer & Armstrong. Van Lente é blá blá blá (não vos maçarei com mais dos meus elogios ao trabalho dele quer nesta série quer em Magnus Robotfighter). Para não perder muito tempo com discussões sobre a viabilidade dos paradoxos temporais Van Lente coloca-se logo no campo doas que assume que o espaço-tempo é fortemente resiliente à interferência de viajantes no tempo. Brinca à descarada com as inúmeras variantes da trope "vamos assassinar Hitler", que passa a designar Godwin's law of timetravel. Preciso de vos explicar a referência à lei de Godwin? Não? Excelente. A história continua delirante. Adorei o pormenor dos homens do ano trinta mil que amalgarão em redes sociais inteligentes de corpo robótico especialistas em vandalizar o espaço-tempo for the lulz. Pessoalmente, como adoro um argumentista culto, saliento esta referência brilhante a um dos filmes menos conhecidos de Woody Allen. De facto, um dispositivo Zelig permite a camuflagem camaleónica perfeita. Para quem não conhece, o filme é sobre um homem medricas e amorfo que desenvolve a capacidade de mimetizar os grupos sociais com que se cruza.
The Multiversity: The Mastermen #01: O delírio do mês de Grant Morrison em Multiversity é levar-nos à Terra paralela em que um certo foguetão vindo do planeta Krypton aterrou na recém conquistada região dos sudetas. Terra onde o Superhomem é realmente um übermensch ao serviço da raça ariana e do ditador que com ajuda deste alienígena plantará a bandeira da cruz gamada em todo o mundo. A série, inventiva e delirante como é habitual apanágio deste argumentista, parece cada vez mais um reboot da DC Comics a personagens esquecidos, testando mercados para novos títulos. Ou isso ou está a fazer jeito à editora para relançar propriedade intelectual esquecida. Homens superiores em planetas nazis é algo com que Morrison até joga de forma muito sisuda, mas repare no fundo desta vinheta. Nos edifícios, a influência de Fritz Lang, cujos tentáculos nunca parecem terminar... afinal, no império germânico, não deveria Metropolis ser como a cidade futura do filme com o mesmo nome?
From the Internet
Onde é que já vi isto, pensei ao ouvir esta música do mais recente álbum dos Atari Teenage Riot. Não vi ou ouvi, li.
É apropriado que uma canção de hactivismo interventivo se venha inspirar em Doktor Sleepless, um dos comics de Warren Ellis mais pulsante de modernidade contemporânea. De tal forma que as ideias que Ellis soltou nas vinhetas vieram a inspirar comunidades online futuristas.
Sim, os Atari Teenage Riot têm novo álbum. Reset está muito na sequência de Is This Hyperreal, com letras interventivas mas uma sonoridade mais melódica, sem perder a electricidade pura desta excepcional banda electropunk.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Sincronismo
O que é interessante é atar as pontas soltas. Visionei durante a tarde, na sessão de formação do Plano Nacional de Cinema na Culturgest, o ponto marcante do Cinema Novo que foi Belarmino de Fernando Lopes. Durante a discussão que se seguiu a formadora refere o quão incómodo este filme foi, malquisto pelo regime mas também por uma oposição socialista e comunista que preferia a exaltação do neo-realismo às nuances desta obra. Os círculos de esquerda acusaram Fernando Lopes de não passar de um sensualista. Palavra que me ficou na mente. Recordou-me o dogmatismo do realismo soviético, a exaltação propagandística da arte ao serviço da ideologia.
Adiante. Horas depois, na sessão Recordar os Esquecidos organizada por João Morales na Livraria Almedina, o escritor Miguel Real falava apaixonadamente da obra de José Régio, também ele mal visto pela intelectualidade mais à esquerda. A sua prosa não se enquadrava na literatura que punha a nu a pobreza extrema do país sob a bota fascista. O próprio Álvaro Cunhal apelidou a sua obra de presencista por representar uma visão de arte mais virada para si própria, ao invés de interventiva no combate político e ideológico. Curiosa polémica para denegrir a obra de um homem que, como Miguel Real nos contou, se definia como cristão, republicano e socialista, ou que foi o único a defender um colega comunista do liceu de Portalegre num processo movido pelo ministério da educação.
Vivemos hoje, espero, em tempos mais tolerantes em que os caminhos artísticos não têm necessariamente de ser colocados ao serviço de ideias, apesar de também o poderem ser. O que fica é que polémicas e lutas à parte, estas são obras que ficaram para o futuro e hoje surpreendem quem com elas se cruza. E, como gosta muito de dizer João Morales, nisto o que é interessante é atar as pontas. Cruzar diferentes meios e perceber que as interligações entre campos isoladamente vistos como díspares. Não o são, nunca o são, mas precisamos de sair das nossas caixinhas para sentir isso.
A sessão da manhã foi dedicada ao software livre, numa sessão sobre Libre Office organizada pela Anpri no Museu das Comunicações. E o que é que isso tem a ver com clássicos do cinema novo ou escritores a cair no esquecimento, perguntam-se? Nada, à partida, mas quando começamos a pensar em questões como o vendor lock-in, utilização de plataformas fechadas e os riscos de por capricho do vendedor o nosso trabalho poder passar a ficar ilegível, ou os excessos da propriedade intelectual percebe-se que também aqui há ramificações. Boa parte das obras com significação cultural estão tão protegidas por direitos de autor que ninguém lhes pega. Poderiam ser gratuitas, mas não o podem ser, e não há justificação para grandes investimentos para públicos restritos. Belarmino está disponível no Youtube, suspeito que a violar descaradamente a legislação portuguesa sobre direitos de autor. Depois desde longo dia passei pela Fnac à busca de bilhetes para os Kraftwerk (com sucesso) e livros de José Régio. Obras deste autor, não dei com nenhuma nas estantes de literatura portuguesa, mas encontrei um exemplar esquecido dos Contos do Gin-Tonic de Mário Henriques-Leiria. Daqueles livros que volta e meia me recordo que havia de o conhecer. Livro que começa logo com este caveat lector, avisando-nos que as coincidências têm causas matemáticas bastante curiosas.
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