quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Interzone #255
Termina aqui a minha leitura à bruta das Interzones que tinha em atraso. Ufa. E fica-se com a sensação de dever cumprido. Ler desta forma, em sequência rápida, permite perceber que o grosso da ficção publicada se fica pelos limites do gosto estabelecido no público de FC, apesar da revista investir em contos mais experimentais, mantendo um pouco da tradição inovadora que herdou da New Worlds. No global não são leturas inspiradoras. Apesar dos esforços dos escritores, percebe-se que a maior parte deles não atingirá públicos e reconhecimentos. Mas também é para isto que este género de revistas serve, dando voz a autores novos num nível de prestígio acima da publicação online, alguns dos quais poderão vir a ser as novas vozes que determinarão o futuro da FC. Algo que publicações mais fossilizadas como a Asimov ou Analog não fazem, mantendo-se na monotonia do mesmo de sempre ficcional, laudando vozes que nada de novo trazem como as esperanças de futuro do género. Das raras vezes que se atrevem a publicar algo de diferente são impiedosamente atacadas pelos leitores, algo que comprovei pelas reacções violentas dos leitores ao sacrilégio que foi a Analog publicar um conto de Lavie Tidhar. As space operas, a hardSF tecnófila, o imaginário dos alienígenas e a FC clássica são interessantes, e ainda bem que permanecem vivas, mas o género não pode fossilizar-se dando aos fãs mais do mesmo de sempre se se quiser manter pertinente.
A vertente de crítica literária e cinematográfica é outro dos aspectos que me traz à Interzone. Nos livros o equilíbrio entre vozes novas, autores consagrados, conto e ensaio é muito bom. No dvd e vídeo os lançamentos reflectem uma curadoria cuidada e no cinema fico sempre surpreendido com a quantidade de filmes de FC puro que o crítico de cinema da Interzone apanha todos os meses. E nós por cá tão sequiosos.
Outro aspecto a destacar, muito perceptivel se se ler um conjunto de revistas em sequência, é a importância dada à qualidade gáfica das ilustrações. As capas são sempre evocativas do melhor da tradição iconográfica da FC e cada conto conta sempre com uma ilustração de grande qualidade. Continuo fã da revista. Ir a Lisboa, atravessar a Avenida da Liberdade para entrar na já clássica Tema para adquirir a Interzone mais recente é daqueles hábitos que me dão imenso gosto. Infelizmente, apesar da carteira discordar desta ideia, a revista é bimestral...
Must Supply Own Work Boots - Malcolm Devlin: um conto muito eficaz, sobre a obsolescência humana perante os caprichos da técnica. Um operário de estaleiros espaciais prepara-se para investir numa nova versão dos seus implantes aumentativos para poder recuperar o emprego. Os trabalhadores necessitam de implantes para poder executar os seus trabalhos mas a empresa dona dos estaleiros tem um rápido ciclo de desenvolvimento de novos métodos laborais. Trabalhadores com versões anteriores de implantes descobrem-se desempregados, inimpregáveis face a um progresso tecnológico que os tranca numa espiral de constante endividamento para se manterem actualizados face às imposições tecnológicas. Uma metáfora óbvia sobre os piores excessos do capitalismo pós industrial neo-liberal.
Bullman and the Wiredling Mutha - RM Graves - daqueles contos que me faz perguntar o que é que se terá passado na cabeça dos editores para o terem publicado. Percebe-se, é arriscar no lado experimentalista literário da FC, muito necessário nos dias de hoje para abrir novas vertentes que contrariem a monotonia temática e narrativa da FC mais mainstream. Por outro lado, se imaginarem o Incrível Hulk a tentar filosofar sobre as agruras da vida grunhindo em monosílabos, já não precisam de ler este conto. A coisa boa das experiências é que umas falham e outras acertam. Esta pertence à primeira categoria.
The Calling of Night's Ocean - Thana Niveau: um conto algo banal sobre cientistas a tentar comunicar com golfinhos, contado alternando o ponto de vista do inquieto cientista com o olhar do golfinho, incrédulo perante a incapacidade do mamífero que mal sabe nadar em compreender as mensagens telepáticas que lhe envia. As coisas pioram quando o cientista decide introduzir LSD na experiência. A trip do golfinho revela o horrendo segredo sobre a malvadez trazida à natureza pela humanidade. Se é interessante pelo conceito de comunicação inter-espécies, preso a um apêndice difuso de possibilidade de comunicação com extra-terrestres, perde-se numa poesia hippie de amor entre os golfinhos e a humanidade acentuada pelas maldades trazidas pelo gosto humano pela guerra e tecnologia. Fiquei com a vaga sensação de ter lido uma versão anterior deste conto, às voltas com uma cientista cujo elo de comunicação com os golfinhos se torna tão intenso que causa escândalos de suspeita de envolvimento romântico, talvez noutra Interzone ou na Analog, embora não consiga encontrar a referência em lado nenhum. Mas sei que li um conto mediano sobre uma cientista, as suas emoções pelos golfinhos, e um centro de investigação numa ilha remota fechado por pressão após escândalos com a percepção sobre o tipo de pesquisas que lá se fazia. Estranho. Talvez o legado deste conto seja ter-me implantado na mente a certeza de já ter lido algo similar no passado? Hmm. Ideia creepy, e como a autora se assume como escritora de horror, apropriada.
Finding Waltzer-Three - Tim Major: um toque de navio assombrado à deriva, mas no espaço, quando um casal de tripulantes de uma nave de exploração se depara com o mistério de uma outra nave perdida no espaço. Entrar na nave adensa o mistério. Tudo funciona, mas os tripulantes deixaram-se morrer vestidos com as melhores fatiotas à mesa de um farto banquete. Nada mais nos é revelado, mas quando a exploradora regressa à sua nave pede ao companheiro para acordar o resto da tripulação do sono criogénico, porque se sente com fome. Um conto muito visual de ambiência marcada, que soube a pouco.
Oubliette - Catherine Tobler: Alguém é escondido numa sala recôndita de uma estação espacial decadente. Talvez por causa de algum artefacto oculto. E pronto. Pouco mais se leva deste conto eminentemente esquecível.
Mind The Gap - Jennifer Dornan-Fish: uma inteligência artificial aprende a ver o mundo através de conversas com uma das cientistas que a criaram. A forma como nos é descrita a evolução de sentidos avassalados em percepções é interessante, mas acaba numa nota delicodoce quando a IA decide começar a transmitir mensagens para mudar um mundo sob ameaça. Não que seja uma ideia inválida, mas é muito óbvia.
Monoculture - Tom Green: uma distopia futurista intrigante. Com a humanidade quase extinta por uma pandemia global de gripe viral, apenas sobrevivem os raros humanos auto-imunes. Mas a luz da civilização continua a brilhar graças a um outro grupo de sobreviventes, todos clones de um milionário tecnológico do século XX que legou a sua auto-imunidade e alergia a sabores intensos a estes estranhos herdeiros da humanidade. Imaginem um futuro onde todos são iguais até ao nível do código genético, e percebem a ironia deste conto eficaz.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
aCalopsia: O Espirro do Dragão
Uma surpresa simpática firmemente ancorada na BD infantil, que me fez sorrir. E deu o mote para alguns resmungos sobre aquele tipo de ilustração infantil tão artística, vanguardista e arrojada que sempre me deixou com dúvidas se se destinava a agradar às crianças ou aos adultos. Mais sobre este dragão alérgico cujos espirros são ardentes no aCalopsia: O Espirro do Dragão.
Interzone #254
Leitores habituais reconhecem em Nina Allan um nome que a Interzone promove agressivamente. Desde que me recordo que em todas as edições há referências a Spin. Nesta edição podemos experimentar a prosa da autora, quer com um conto quer com uma coluna regular a equilibrar as opiniões fortes de Jonathan McCalmont com algo que só consigo definir como a suavidade do toque feminino. Quanto a McCalmont, digamos que para além das excelentes colunas que tem assinado na Interzone, questionando percepções sobre o que dizemos quando falamos de FC, tem no seu Ruthless Culture um site a manter registado no radar.
Marielena - Nina Allan: um conto que começa por nos parecer uma história sentida sobre imigração com uma leve sugestão de sobrenatural. Um exilado político vindo dos sítios habituais no médio oriente deambula pelas ruas de uma Londres pouco acolhedora enquanto aguarda a confirmação do seu estatuto. Deambula e recorda quem ama e deixou no seu país longínquo, fazendo-nos intuir que é mais do que uma mulher, talvez um demónio das mitologias milenares do médio oriente incorporada num corpo feminino. O conto vai-se arrastando entre percepções do problema da imigração e sugestões de sobrenatural, até terminar no encontro entre o imigrante e uma sem-abrigo. Este ajuda-a, e ao fazê-lo descobre que tal como ele ela é uma refugiada, só que vem do futuro para prevenir um evento catastrófico que nunca chegaremos a conhecer. Conto interessante, apesar de uma prosa a puxar para o literário comiserativo.
A Minute and a Half - Jay O'Connell: conto que se lê como uma vinheta cheia de acção. É essa a história, de uma perseguição fatal contada como reminiscência por um dos sobreviventes. Pelo meio vai metendo umas curiosas referências futuristas, com drogas inteligentes que alteram a personalidade dos utilizadores, cultos suicidas e comunidades libertárias hiper-liberais fugidas à desagregação dos estados-nação. Apesar destes elementos, é um mero fragmento de acção, talvez um exercício de estilo em narração proto-cinematográfica.
Bone Deep - S. L. Nickerson: há algo de muito arrepiante neste conto. Acompanhamos uma personagem gravemente doente cuja única hipótese para pagar os tratamentos é tatuar-se com logotipos comerciais. Ser um anúncio vivo é o único recurso para as massas que não ganham o suficiente para tratamentos médicos. Os problemas agudizam-se quando as tatuagens interferem com uma cirurgia que necessita para sobreviver. Um comentário óbvio aos problemas trazidos pelo acesso privatizado à saúde, que privilegia o ganho em detrimento do humanismo.
Dark on a Darkling Earth - T.R. Napper: a Interzone de vez em quando faz-nos destas. Publica contos que são surpresas inesperadas quer pelo conceito, técnica literária ou coerência do mundo ficcional. Este é um excelente exemplo disso. Somos levados à China num futuro pós-apocalíptico, mas o autor não perde tempo a contar-nos os dramas e catástrofes que aniquilaram o planeta e o mergulharam numa névoa permanente. Ao longo da história dá-nos pequenos vislumbres intuídos e nada mais. Acompanhamos um responsável superior de uma organização extinta que se junta a um grupo de soldados à deriva para protecção e alimentação enquanto prossegue a sua viagem de regresso aos seus familiares. Eles nãosabem se a guerra terminou, quem venceu, se há governo, se há mais soldados ou sobreviventes, persistindo na sua missão de patrulhar os caminhos que conduzem a direcções que desconhecem. Pelo caminho encontram um refúgio, verdadeira arca de noé cultural que protege artefactos e memórias digitais de um tempo extinto. Conto fortíssimo, com uma ambiência visual que me faz recordar a pintura chinesa. Apesar dos indícios de tecnologia os soldados deambulam por vazios florestais, sem se cruzar com outros sobreviventes das instituições governamentais.
The Faces Between Us - Julie Day: acho que este conto é sobre um casal de namorados que invoca fantasmas inalando as cinzas de pacientes cremados num hospital abandonado. Posto desta forma até promete ser um conto interessante, mas não. Difuso, confuso, um lodaçal de leitura.
Songs Like Freight Trains - Sam Miller: outro corpo estranho nesta Interzone. Uma das personagens deste conto é mentalmente transportada aos tempos da juventude ao ouvir certas músicas. Algo que ao conduzir pode ser perigoso. Se os personagens não são eliminados com extremo prejuízo num acidente rodoviário, o leitor passa o conto a desejar que este desastre literário termine por misericórdia. Percebe-se a ambição literária, e uma ligação ténue ao fantástico, mas o estilo narrativo e a ausência de elementos de ficção científica tornam este conto uma estranha escolha editorial da revista.
Marielena - Nina Allan: um conto que começa por nos parecer uma história sentida sobre imigração com uma leve sugestão de sobrenatural. Um exilado político vindo dos sítios habituais no médio oriente deambula pelas ruas de uma Londres pouco acolhedora enquanto aguarda a confirmação do seu estatuto. Deambula e recorda quem ama e deixou no seu país longínquo, fazendo-nos intuir que é mais do que uma mulher, talvez um demónio das mitologias milenares do médio oriente incorporada num corpo feminino. O conto vai-se arrastando entre percepções do problema da imigração e sugestões de sobrenatural, até terminar no encontro entre o imigrante e uma sem-abrigo. Este ajuda-a, e ao fazê-lo descobre que tal como ele ela é uma refugiada, só que vem do futuro para prevenir um evento catastrófico que nunca chegaremos a conhecer. Conto interessante, apesar de uma prosa a puxar para o literário comiserativo.
A Minute and a Half - Jay O'Connell: conto que se lê como uma vinheta cheia de acção. É essa a história, de uma perseguição fatal contada como reminiscência por um dos sobreviventes. Pelo meio vai metendo umas curiosas referências futuristas, com drogas inteligentes que alteram a personalidade dos utilizadores, cultos suicidas e comunidades libertárias hiper-liberais fugidas à desagregação dos estados-nação. Apesar destes elementos, é um mero fragmento de acção, talvez um exercício de estilo em narração proto-cinematográfica.
Bone Deep - S. L. Nickerson: há algo de muito arrepiante neste conto. Acompanhamos uma personagem gravemente doente cuja única hipótese para pagar os tratamentos é tatuar-se com logotipos comerciais. Ser um anúncio vivo é o único recurso para as massas que não ganham o suficiente para tratamentos médicos. Os problemas agudizam-se quando as tatuagens interferem com uma cirurgia que necessita para sobreviver. Um comentário óbvio aos problemas trazidos pelo acesso privatizado à saúde, que privilegia o ganho em detrimento do humanismo.
Dark on a Darkling Earth - T.R. Napper: a Interzone de vez em quando faz-nos destas. Publica contos que são surpresas inesperadas quer pelo conceito, técnica literária ou coerência do mundo ficcional. Este é um excelente exemplo disso. Somos levados à China num futuro pós-apocalíptico, mas o autor não perde tempo a contar-nos os dramas e catástrofes que aniquilaram o planeta e o mergulharam numa névoa permanente. Ao longo da história dá-nos pequenos vislumbres intuídos e nada mais. Acompanhamos um responsável superior de uma organização extinta que se junta a um grupo de soldados à deriva para protecção e alimentação enquanto prossegue a sua viagem de regresso aos seus familiares. Eles nãosabem se a guerra terminou, quem venceu, se há governo, se há mais soldados ou sobreviventes, persistindo na sua missão de patrulhar os caminhos que conduzem a direcções que desconhecem. Pelo caminho encontram um refúgio, verdadeira arca de noé cultural que protege artefactos e memórias digitais de um tempo extinto. Conto fortíssimo, com uma ambiência visual que me faz recordar a pintura chinesa. Apesar dos indícios de tecnologia os soldados deambulam por vazios florestais, sem se cruzar com outros sobreviventes das instituições governamentais.
The Faces Between Us - Julie Day: acho que este conto é sobre um casal de namorados que invoca fantasmas inalando as cinzas de pacientes cremados num hospital abandonado. Posto desta forma até promete ser um conto interessante, mas não. Difuso, confuso, um lodaçal de leitura.
Songs Like Freight Trains - Sam Miller: outro corpo estranho nesta Interzone. Uma das personagens deste conto é mentalmente transportada aos tempos da juventude ao ouvir certas músicas. Algo que ao conduzir pode ser perigoso. Se os personagens não são eliminados com extremo prejuízo num acidente rodoviário, o leitor passa o conto a desejar que este desastre literário termine por misericórdia. Percebe-se a ambição literária, e uma ligação ténue ao fantástico, mas o estilo narrativo e a ausência de elementos de ficção científica tornam este conto uma estranha escolha editorial da revista.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Comics
The Dying and The Dead #01: Hickman anda em grande. Após Manhattan Projects e East of West, séries que não terminaram, volta a aventurar-se na Image com uma prometedora série high weird. Conspirações, cabalas de homens poderosos, artefactos misteriosos e civilizações subterrâneas colidem neste novo título. Que, refira-se, está visualmente esplendoroso. Mais um a manter sob o radar.
The Multiversity Guidebook #01: Ufa, que já fazia falta. Mergulhar nos delírios de Grant Morrison sem um mapa a guiar estava a tornar-se demasiado penoso. O que sobressai deste guia é que põe a nu a avassaladora pesquisa que Morrison teve de fazer para povoar as suas cinquenta e duas Terras paralelas. Vai buscar de tudo, desde os clássicos Earth-2 aos mundos Elseworlds, as coisas muito estranhas dos anos 60 e 70 com os Bizarroworld e séries alternativas, cartoons televisivos ou os Tiny Titans. Recupera também nos seus mundos originais os personagens da Charlton Comics que Alan Moore metamorfoseou em Watchmen. Nem se esquece do Batman 1889 do Mike Mignola para criar uma Terra paralela steampunk. Mas a minha Terra favorita é esta Terra-33, onde não há seres com super-poderes mas que exerce uma estranha influência sobre todo o multiverso. Diz-se, até, que os sonhos dos habitantes desta Terra se materializam como realidade nas terras paralelas... yep. Só Morrioson para nos entreter com psicadelismo filosófico a questionar o tecido do real.
The Unwritten Apocalypse #12: Terminou. Ainda bem, porque o brilhantismo meta-ficcional da série foi esticada até aos limites. Por pouco não ia colapsando, vítima da sua popularidade. Mike Carey soube levar o barco e encerrou as pontas soltas neste arco com uns muito simbólicos doze números. E termina, de vez, com as aventuras de Tommy Taylor, o homem que tem um pé no real e outro na ficção. Depois de onze números que reúnem todos os personagens icónicos da série na luta contra a ameaça de dissolução total, Carey ata as pontas soltas da forma mais implacável possível, dando-nos um final feliz que não inclui o principal personagem, que desaparece da memória e dos livros, num esquecimento sacrifical auto-induzido que garante a continuidade da realidade. Como nota final Carey termina a história onde a começou, há anos atrás, mas com o perverso pormenor de a recontar sem a personagem-chave que unificava os episódios. Se por um lado esta série andou demasiado próxima de descarrilar por saturação, por outro o fino humor metaficcional vai deixar saudades.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
sábado, 31 de janeiro de 2015
Descrença
Para ateu empedernido que sou, dou por mim a passar muito tempo dentro de igrejas. E sou amante de cães.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Just bleedin' works.
Vão ter de me desculpar se nos próximos... dias... (cof, cof) meses... ficar muito chato com esta coisa da impressão 3D. Digamos que tenho razões para estar contente e entusiasmado, e vou partilhando este novo processo de aprendizagem pelo TIC em 3D. Algo de fantástico é ontem ter estado a desempacotá-la e hoje já estar a imprimir em sala de aula. Não foi tão fácil quanto soa, mas muito menos difícil do que esperava, ou do que seria possível com outro tipo de impressoras. Nestas coisas concordo cada vez mais com o Warren Ellis. As novidades e a bleeding edge tecnológica são fascinantes mas quando se quer criar precisa-se de algo que just fuckin' works. Já imprimir... digamos que se a primeira experiência foi boa, a segunda foi um desastre e à terceira não foi de vez mas ficou bem melhor.
Bem vindos à minha sala de aula. E não, não sou imune à ironia do passar do real ao digital e do materializar o digital no real. Apontamentos e resmungos nas TIC em 3D.
Interzone #253
Uma edição mediana, que se destaca pela afirmação de Neil Williamson como autor a prestar atenção. Quanto ao resto, há por aqui muita prosa que roça o ilegível. Apenas Van Pelt consegue manter-se interessante, e há uma boa surpresa de conto amador. Mas revistas como a Interzone servem para isto mesmo, permitir aos leitores descobrir vozes novas e perceber quais destas mostram reais possibilidades de se tornarem nomes notáveis da FC e fantástico. É o caso de Williamson, que se continuar no caminho que tem mostrado se revelerá uma voz muito própria, herdeiro conceptual do estilo weird de Miéville e Tidhar.
My Father and the Martian Moon Maids - James Van Pelt: a casca exterior mostra-nos um homem de luto pelo pai recém-falecido. O cerne deste conto é um hino nostálgico à FC e fantástico, onde os dramas do presente são aliviados pelos sonhos futuristas de um passado que se vai desvanecendo na memória. Um conto com uma tonalidade muito devedora a Ray Bradbury.
Flytrap - Andrew Hook: aparentemente, venusianos andam por entre nós. E alguns têm um estranho fascínio com plantas carnívoras. Ao longo deste conto um grupo de personagens aparentemente desconexas percebe que os seus sentimentos de falta de pertença espelham o de facto não pertencerem à humanidade. O alienismo é mais espiritual do que físico. Há aqui um regressar aos mistérios da ficção científica de série B, com referências directas ao Invasion of the Body Snatchers. Mas o tom geral é etéreo e desinteressante.
The Golden Nose - Neil Williamson: depois de ler este conto e The Posset Pot na Interzone anterior, percebi que Williamson é um daqueles nomes a manter debaixo de olho. Há aqui potencial. A prosa é de alta qualidade, a capacidade narrativa agarra o leitor, e nota-se o desenvolvimento de um imaginário New Weird com forte inspiração na FC e no surreal. Parece-me vir a ser daqueles autores que se destaca da manada de contistas de FC e fantástico, com uma voz muito própria e promissora. Este conto é fabuloso. Fantástico, surreal, com um toque kafkiano e fetishista. O ser passado em Viena dá-nos o toque de decadência aristocrática europeia. A história é brilhante. Um homem que fez dos cheiros a sua vida vê-se ameaçado pela tecnologia. Depois de ter trabalhado para as mais importantes casas de perfumes enfrenta a obsolescência. O que o salvará é um curioso artefacto, um nariz artificial que acentua de tal forma a acuidade olfactiva que transforma o seu portador no mais raro e sensível detector de olfactos. Mas o artefacto traz consigo uma maldição. O seu portador corrompe-se irremediavelmente. Sendo capaz de detectar as mais raras fragrâncias, emana um cheiro próprio cada vez mais nauseabundo. O sucesso é inevitável. Os seus dotes olfactivos voltam a estar na lista das obrigações de todas as empresas que trabalham com produtos de agradar ao olfacto, mas o cheiro progressivamente nausaebundo que o personagem deita torna-o um proscrito. A mulher abandona-o, os clientes fazem tudo para tratarem de negócios à distância, os vizinhos do bairro organizam uma petição para que mude de casa. Mas, num fantástico toque de modernidade bizarra, não é o ostracismo social o destino deste personagem trágico. Estamos no século XXI, e através da internet organiza-se um grupo de fetichistas que se excita sexualmente com os odores horrendos do artista do olfacto. O portador do nariz terminará os seus dias a satisfazer os desejos sexuais deste grupo ínfimo mas afluente. Deliciosamente bizarro e bem escrito, este é o melhor conto desta edição da Interzone.
Beside The Dammed River - D.J. Cockburn: A edição de julho-agosto tem por tradição publicar o conto vencedor de um concurso literário anual restrito a autores amadores. A primeira reacção é passar à frente, mas se o fizesse perderia um excelente conto. Mistura CliFi com futurismo tecnológico numa prosa atraente que nos leva numa pequena aventura numa zona ressequida do Camboja. Uma funcionária de uma empresa de mineração espacial acompanha o carregamento de um asteróide raro cuja trajectória de inserção orbital não correu como planeado, mas a camioneta avaria no meio de uma aldeia perdida. Encontra aí o mais inesperado dos ajudantes, um ex-professor universitário desiludido com o seu país, que usa os seus conhecimentos técnicos para ajudar uma população abandonada à sua sorte a sobreviver. Este conto foi uma surpresa interessante, e, para um autor amador, muito melhor do que outras propostas de escritores profissionais publicadas nesta edição.
Chasmata - Catherine Tobler: um conto que sofre muito da doença do pretensiosismo literário. Tão pretensioso que se torna ilegível. Percebe-se vagamente que a história tem qualquer coisa a ver com colonos marcianos e os seus filhos, primeira geração humana nativa do planeta vermelho que se parece tornar marciana. Remete para Dark They Were, And Golden Eyed, conto clássico de Ray Bradbury que leva a extremos a ideia de assimilação jungiana, mas como o autor talvez suspeite que o leitor não perceba a relação termina a invocar o nome de Ray três vezes. Já tínhamos percebido. A vontade que dá é recomendar ao autor que esqueça a FC e se dedique às ficções etéreas. Aí é capaz de encontrar o seu público.
The Bars of Orion - Caren Gussoff: este conto parte de uma premissa muito interessante. E se a realidade colapsasse, com dois sobreviventes a descobrir-se refugiados numa realidade paralela, similar à sua mas onde as pessoas que sempre conheceram têm outros nomes e outras vidas, onde os espaços físicos são os mesmos mas não são bem os mesmos? Intrigante, mas o conto segue a via da comiseração psicológica, com um dos personagens a lidar com o sentimento de não-pertença frequentando uma psicóloga que, estranhamente, não o interna no asilo por afirmar que veio de um universo paralelo.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Bee The First!
Não é todos os dias que podemos dizer que o futuro chegou à nossa escola. Hoje foi um desses dias. Na sequência do prémio Inclusão e Literacia Digital conseguimos finalmente verba para um investimento já há algum tempo pensado. O projecto original estava desenhado para impressoas RepRap, mas o valor financeiro do prémio permitiu voar mais alto e arriscar a aquisição de uma BeeTheFirst. Se perdemos o lado do it yourself ganhamos tempo, uma vez que o processo de arranque de trabalho com a bee será certamente mais rápido do que com uma Prusa que requer montagem, calibração, soldadura e configuração da placa arduino. E ainda nos aquece o coração ter conseguido apostar em tecnologia portuguesa. Tecnicamente as bee partem das RepRap, mas são desenvolvidas e comercializadas por uma empresa portuguesa que teve a coragem de apostar num mercado prematuro mas potencialmente explosivo, que tem recebido distinções em fóruns internacionais dedicados à impressão 3D e que mete muito do que se faz em Portugal no seu produto. Como a espátula para ajudar a retirar as peças impressas, fabricada em Leiria pela Icel. É um pormenor delicioso.
A impressão 3D é uma resposta à espera de perguntas. Partilham-se cada vez mais novas e intrigantes utilizações desta tecnologia, Ideias, experiências e especulações não faltam. No nosso caso, será que é uma tecnologia com potencial pedagógico no ensino básico? E que tipo de projectos poderão ser desenvolvidos que sejam mais do que o imprimir objectos pré-feitos, possibilitando envolver os alunos nos processos de criação, concepção e materialização? São ideias que vamos começar a explorar em breve. O primeiro passo está dado. A seguir teremos o obrigatório hello world. Depois disso, é explorar as possibilidades que se colocarem.
Hoje sou um professor particularmente feliz. Esta impressora possibilita mais um passo na investigação sobre o estímulo ao uso criativo de tecnologias digitais em contextos de projectos práticos por crianças e jovens. Vai permitir materializar algum do trabalho digital que já é feito. Possibilita explorar vertentes de projecto interdisciplinar (já estão dois alinhados) e até integrar a comunidade envolvente, se bem que esta ambição seja mais a médio prazo. Primeiro, há que dar os primeiros passos e dominar as técnicas. Sempre com os alunos, claro. Porque é essa a minha resposta à questão para que serve uma impressora 3D. Com uso pessoal percebi que depois de imprimir uns bonecos depressa esgotaria as suas aplicações. Outros terão as suas vias de investigação, como se observa pelo vibrante campo das experiências com impressão 3D. Como professor intuí que na área da educação esta tecnologia pode abrir horizontes aos alunos, estimulando aprendizens que apliquem conhecimentos de várias disciplinas em projectos concretos. E, claro, colocá-los em contacto com esta tecnologia. Porque, mais do que a mim, caberá a eles encontrar resposta para esta e outras perguntas trazidas pelos ritmos inesperados do desenvolvimento tecnológico. Daí a necessidade de arriscar, expôr, e experimentar.
Não resisto a uma última reflexão. Sou professor do sistema público de ensino, e este projecto é uma mais valia para a escola pública onde trabalho. Refiro isto com uma óbvia ponta de orgulho, mas não é aí que quero chegar. O dinheiro que nos permitiu dar este passo veio da FCT, através de um prémio. Não foi o primeiro a que nos candidatámos nem será o último. Poder-se ia arriscar orçamento da escola, seria difícil mas não impossível, ou seguir o caminho do donativos de associações de pais, mas desde que a ideia começou a ser cozinhada há meses atrás que a estratégia foi a de procurar financiamento externo para projectos. Isto é demasiado incipiente e experimental para arriscar o dinheiro de todos nós. E também confesso algum trauma por ter acompanhado a implementação do Plano Tecnológico nas escolas e percebido a forma leviana como os recursos financeiros foram geridos num projecto útil mas aplicado com níveis de eficiência organizativa cuja compreensão me escapou. Não faz sentido para mim trabalhar desta forma, por isso seguiu-se a via da paciência e do arriscar projectos. Nestas coisas o não é sempre garantido, mas se não se tentar o sim nunca é atingido. Tenho gosto em afirmar que esta mais valia tem um custo zero de dinheiro público. Se conseguirmos os nossos objectivos, foi dinheiro bem aplicado. Se falharmos, não desperdiçámos algo que é de todos.
A impressora chegou hoje. Amanhã o desafio será fazer o hello world. Mas o maior orgulho será quando finalmente puder mostrar algo criado e impresso pelos alunos. Em breve, penso, em breve... por enquanto estou a resistir a escrever os clichés de quem trabalha alcança e quem arrisca atinge o sucesso. Oops. Desculpem-me, os dedos escorregaram no teclado...
Athena Voltaire Compendium
Steve Bryant (2015). Athena Voltaire Compendium. Milwaukie: Dark Horse Comics.
Athena Voltaire pertence àquela rara categoria de comics que são aquilo que pretendem ser. Clara homenagem sem pretensões ao pulp de aventuras, mergulha-nos nuns míticos anos 30 cheios de aventuras em paragens distantes. Mistérios arqueológicos, segredos ocultos, sociedades secretas, nazis sedentos do poder conferido por artefactos míticos, civilizações subterrâneas e até sedutoras vampiras europeias transplantadas para o México são os desafios que a intrépida aviadora terá de enfrentar. Tem o seu quê de Indiana Jones ou Doc Savage de saias, percorrendo o planeta em aventuras. Estas homenagens são as mais obvias, apesar dos filmes de terror da Universal, as milhentas aventuras nas selvas e até os esqueletos espadachins de Ray Harryhausen encontrem um recanto neste comic delicioso. São histórias simples e nostálgicas, desenhadas com um grafismo que poderia ser mais elaborado. Athena Voltaire tem sido um webcomic por vezes editado em séries limitadas, e é esse o material coligido neste Compendium, estando prometida uma série inédita da personagem, editada pela Dark Horse.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Interzone #252
Se os dois contos que encerram esta Interzone são banais e recorrem ao fantástico como mero adereço, as restantes propostas literárias são fortíssimas. Nesta edição temos FC pós-apocalíptica, CliFi com contornos de terror, hard SF e até, coisa rara, experimentalismo literário. Os contos com que encerra é que são de todo dispensáveis.
The Posset Pot - Neil Williamson: Um apocalipse intimista, com dois sobreviventes a tentar manter um sentido de normalidade numa Glasgow deserta, esburacada, como o planeta, por esferas misteriosas que se materializam aleatoriamente. A física devora o planeta, talvez devido a singularidades descontroladas saídas de uma experiência do CERN. O que é certo é que as esferas materializam-se e desvanecem, levando consigo o que apanharem no seu interior. E, por vezes, deixam para trás objectos e indícios de outras eras, outros espaços e tempos.
The Mortuaries - Katharine Duckett: um muito bem escrito conto de climate fiction, com uma poderosa linguagem visual e uma inconsistência surreal que lhe dá o gosto. Num futuro já para lá do colapso, com a humanidade impotente perante um clima fora de controlo e a derrocada dos sistemas sociais, resta um estranho monumento à vontade de imortalidade: duas casas mortuárias, especializadas em plastinar cadáveres, uma preservando a utopia inatingível da felicidade material, a outra preservando o horror grand-guignol da morte real. Dois bastiões de anormalidade hierática no meio de um mundo que se desagrega, vistos pelo olhar de uma criança que sabe não ter futuro, e sente um estranho fascínio pelos silêncios dos espaços da morte, agudizado pela pressão de viver em espaços sobrecarregados. Conto fortíssimo, que usa elementos do horror - o fascínio pelas coisas fúnebres, para alinhar uma belíssima visão distópica de climate fiction e consegue tocar no desepero perante a desagregação que tudo o que se conhece, nas dores da morte, na vontade humana de lutar apesar da pouca esperança, e até do racismo.
Diving into the Wreck - Val Nolan: hard SF com um toque arqueológico. Num futuro próximo, com a humanidade a espalhar-se pelo sistema solar, a busca por artefactos dos primórdios da era espacial é objecto de estudo e obsessão por aqueles que querem manter viva a memória dos tempos em que não havia motores de fusão e elevadores espaciais. Equipes de arqueólogos vistoriam a órbita terrestre, recuperando satélites esquecidos e estágios de lançadores, ou perscrutam luas e planetas para trazer antigas sondas robóticas para uma segunda vida como objectos de museu. Um dos módulos abandonados da Apollo 11, perdido na superfície lunar, é o mistério mais apetecido pelos entusiastas e investigadores. Quando o amigo de um exo-arqueólogo é desafiado para partir numa expedição que o descobre perdido na superfície lunar, percebe que o verdadeiro sentido do artefacto reside no seu mistério. Desvendá-lo esvazia-lo-á de significado, e para isso tem de eliminar o arqueólogo.
Two Thruths and a Lie - Oliver Buckram: o experimentalismo literário mais radical anda muito arredado do panorama das revistas de FC, apesar do enorme peso histórico e conceptual da New Worlds. Este conto é uma raridade, estando mais no espírito experimental de J. G. Ballard do que do habitual no conto fantástico. A história constrói-se de fragmentos de texto e jogos intrigantes de palavras.
A Brief Light - Claire Humphrey: fiquei sem perceber se esta história tinha a ver com lesbianismo incerto, um casamento em crise ou infestações de fantasmas que ressurgem em todos os cantos. O que é certo é que esta é uma daquelas histórias em que o fantástico não passa de mero cenário para dramas românticos. A ideia de fantasmas que se vão multiplicando pelos espaços arquitectónicos tem a sua piada, mas tudo o resto lê-se como uma banal história melosa de revista femenina.
Sleepless - Bonnie Stufflebeam: neste conto o fantástico como elemento decorativo é levado tão longe que mal é aflorado. Estranha história para ser publicada na Interzone. Há umas criaturas que surgem durante a noite, mas a história é sobre uma mulher que está a aprender a lidar com a proximidade da morte do pai.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Greystorm: I Capitoli Dimenticati
Antonio Serra, et al (2010). Greystorm #12: I Capitoli Dimenticati. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Já me tinha perguntado porque é que esta série terminava no número onze. Terminava não por cancelamento ou perda de interesse, mas mesmo no seu ponto final. Ao longo de onze edições a história seguiu um percurso que terminou de forma decidida. Greystorm não se apresentava como uma série episódica a manter enquanto durasse o interesse dos leitores, estando perfeitamente balizada no seu início e conclusão. Mas onze é um número estranho. É mais habitual serem sete, dez, ou doze, números redondos e simbólicos. Agora onze... talvez por isso exista este décimo segundo número.
I Capitoli Dimenticati é aquilo que afirma ser. Não continua a história, nem lhe abre novas dimensões. É o que na música seria um álbum de out takes e b-sides. Colige momentos narrativos que poderiam ter feito parte do que veio a ser a série, mas por não lhe acrescentarem nada acabaram por ficar de fora. Temos a morte prematura do grande amor de Jason Howard, encarnação da voz de sanidade progressista que equilibra a espiral de queda nas trevas de Greystorm. Somos levados a uma exploração mais profunda do mundo selvagem primitivo, protegido do mundo sobre os gelos antárticos, que Greystorm destruirá para construir uma base para conquista do mundo. O que dá volume a este número é um indício dos caminhos por onde poderia ter ido esta série, felizmente não trilhados, com uma banal aventura detectivesca com ninjas sikh, jóias de marajás de fábula, e os filhos semi-sevlagens de Howard a depararem-se com uma conspiração onde as máquinas robóticas a vapor de Greystorm são manipuladas ao serviço de uma conspiração. Suspeito que se Greystorm tivesse seguido o caminho de fumetti episódico teria sido assim.
Neste volume a vertente steampunk está ausente. O argumentista Antonio Serra afirma que procurou homenagear Júlio Verne e odeia quando ligam a série ao movimento estético, mas os elementos estão todos lá. Estes capítulos esquecidos estão, porém, verdeiramente dentro do espírito de aventura fantástica verniano. Este décimo segundo volume não encerra a série com chave de ouro. Mostra-nos caminhos que poderiam ter sido seguidos, que alterariam profundamente a excelência deste fumetti surpreendente.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Not Sci-Fi
Sabemos que neste momento os gostos do público estão mais com a fantasia do que com a ficção científica, mas também não é preciso cair nestes exageros. Abrir a mais recente Sci-Fi Now é um exercício de espanto em como uma publicação nominalmente dedicada à ficção científica tem jornalistas incapazes de distinguir naves espaciais de varinhas mágicas ou espadas. Primeiro temos um artigo dedicado aos messias da FC, aos personagens messiânicos do cinema e literatura. Entre os suspeitos do costume, como Paul Atreides (Dune) e Neo (The Matrix) encontramos... Harry Potter. Sim. Harry Potter como personagem messiânica de ficção científica. O problema óbvio para quem tenha dois palmos de testa e um mínimo de conhecimentos sobre as vertentes do fantástico é que magia e feitiçaria não são especulações tecno-científicas. Uma varinha mágica não é uma tecnologia. Encantamentos e criaturas do além não se enquadram no que se considera FC. Claro que as coisas não são estanques, e deve haver por aí algum romance de FC em que o sobrenatural justifica a tecnologia avançada para manter populaças ignorantes submissas. Não é o caso de Harry Potter, que claramente não é ficção científica.
Não contentes com a primeira calinada, ainda nos legam esta pérola de declaração proferida por um autor de fantasia. Daqueles que tornam difícil não desconsiderar os autores de fantasia como criaturas que sofrem de danos cerebrais. Não são, bem sei, há-os bons e inteligentes. Suspeito que não seja o caso deste que acha de Game of Thrones tem a ver com ficção científica. Como não descortino naves espaciais ou tecnologias pós-idade do ferro quer nos livros quer na sérite televisiva, a sapiência desta afirmação escapa-me. Por muito abrangente que seja a nossa definição de ficção especulativa, as convulutas conspirações em espaços medievalistas com dragões não cabem lá.
O que surpreende é haver toda uma equipe de jornalistas e colaboradores, alguns presumivelmente entendidos na matéria, a deixar escapar estas pérolas. A SciFi Now mistura FC com horror e fantasia, mas isto é levar o desvanecer de fronteiras um pouco longe demais. Estas pérolas são facepalm instantâneo.
Comics
The Autumnlands #03: Um comic genuinamente intrigante. Parte das premissas habituais da fantasia, com um grupo de feiticeiros animalescos antropomórficos a dar tudo por tudo para recuperar uma magia que se está a esgotar no seu mundo. Requer, claro, um violento ritual para invocar um campeão que lutará pelo restauro das forças mágicas, mas o que lhes sai é algo de estranho. Um humano, transplantado de ficção científica pulp militarista. Resta saber se este cerne tão curioso será bem explorado, ou se a série reverte para o mais tradicional caminho da aventura em terras estranhas.
Ivar, Timewalker #01: Uma investigadora de física avançada salva por um dos irmãos de Armstrong de Archer & Armstrong, à solta pelo espaço-tempo. Um forte causador de ansiedade para quem se preocupa com paradoxos temporais, coisa que não aquece nem arrefece o viajante no tempo protagonista desta nova série da Valiant. Tem Fred VanLente a escrever, o que só pode significar bom humor inteligente. A atitude desprendida no que toca a paradoxos começa logo no princípio. Se a investigadora é salva (ou raptada, depende do ponto de vista) antes de inventar as viagens no tempo, como é que há tantos viajantes do tempo atrás dela? Uma pista: ela própria dá caça a si mesma. Confusos? A lógica em nós das viagens no tempo é divertida, não é?
Moon Knight #11: Esperem lá, a Marvel não é aquele negócio de filmes de acção cheios de efeitos especiais com comics à mistura? A Marvel não é o patriotismo propagandístico do Capitão América, o super-estrelado de Iron Man, ou o baby Groot a dançar? Este Moon Knight está cada vez mais difícil de enquadrar no mundo simplista dos comics de super-heróis. Afasta-se deliberadamente do lado ingénuo dos seres que voam por aí a salvar o universo e do moralismo binário. Detido pela polícia nova-iorquina, o Cavaleiro da Lua dá por si numa prisão remota, com os seus direitos negados e imposição de submissão total. Ao tentar escapar percebe que os mentores da prisão encontraram uma forma inovadora de fugir à necessidade de legalidade das fronteiras políticas. Nos ares, não há códigos civis que protejam os prisioneiros. Brian Wood aproveita para falar ao público dos comics de rendições extra-judiciais, tortura levada a cabo por instituições democráticas e prisões sem processos legais. Algo bem conhecido que afecta aqueles que se descobrem no lado errado da pax americana após o 11 de setembro, quer sejam culpados ou não de crimes de terrorismo. Algo que não se espera mesmo encontrar num comic da venerável Marvel.
domingo, 25 de janeiro de 2015
Oh joy, oh rapture.
Ah, que alegria. É nestes momentos de avaliação que tenho algumas tentações em seguir o caminho da abordagem Word e PowerPoint às TIC. Teria uma vida mais facilitada. Pequenos momentos quando olho para oitenta ficheiros de 3D, Scratch e vídeo produzidos pelos alunos de três das cinco turmas, e resultados de testes online. Felizmente incentivo o trabalho de grupo e os projectos de aprendizagem já foram avaliados em dezembro, senão teria uns dias dolorosos, agora. E estou a tentar não pensar muito nas provas gerais de escola para corrigir. Em papel, coisa que deixou alunos e restantes professores algo surpreendidos. Ora bolas.
Por outro lado, se seguisse um caminho mais convencional, não teria a oportunidade de estimular a imaginação dos alunos e ser recompensado com projectos fabulosos. Neste semestre tive surpresas excepcionais, que irão ser divulgadas no espaço das TIC em 3D ao longo dos próximos dias. Estou, como sempre, orgulhoso do trabalho desenvolvido pelos alunos.
Entretanto, mergulhemos no avaliar da avalanche de trabalhos sistematizada na folha de cálculo. Folha essa que, note-se, é um meio e não um fim. Entretanto, a tarefa é meticulosa e se não são papeis aos montes são muitos bits aglomerados em megabytes. Por isso, traindo o meu gosto inconfesso por operetas dos Gilbert & Sullivan, especialmente da HMS Pinafore, vou mergulhar nos critérios de avaliação assobiando Oh joy, oh rapture unforeseen...
sábado, 24 de janeiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Analog Science Fiction and Fact, December 2014
The Anomaly, por C. W. Johnson - Hard SF com preocupações sociais é o que está subjacente a este belíssimo conto que abre a Analog. Seguimos a ascensão de um intocável, membro de uma estratificada sociedade de castas em que as classes inferiores habitam os túneis das cidades, sendo autorizadas a sair dos túneis apenas para servir de mão de obra descartável nas fábricas lunares de combustível para naves espaciais. O personagem principal é um jovem curioso, que escapa aos grilhões da tradição e superstição graças à sua enorme vontade de aprender, mas que descobre que numa sociedade inclemente, dominada por forças inflexíveis, não há escape possível às suas raízes. Mas não é por isso que deixa de tentar.
Dino Mate, por Rosemary Claire Smith - revisita as viagens no tempo numa perspectiva que deve muito a Ray Bradbury. A ida ao passado permite descobrir os hábitos de acasalamento de dinossauros. Um conto simples, optimista e luminoso. Coisa rara, nos tempos que correm.
Citizen of the Galaxy, por Evan Dicken - talvez o mais fraco dos textos desta edição da Analog. O tema prende-se com ditaduras benevolentes e as mudanças culturais trazidas pelo contacto entre culturas, mas anda às voltas do problema das identidades impostas por forças externas para o resolver com uma suave cedência.
Mammals, por David D. Levine - um conto de forte ironia. As inteligências artificiais que conquistaram o planeta e provocaram a extinção do homem estão a ser extintas sem saber como. A resposta está nas forças evolucionárias, e nas formas de vida que evoluíram a partir das espécies sobreviventes da hecatombe provocada pelas IAs. Seres que roem as cablagens eléctricas de que as IAs dependem para sobreviver. Uma curiosa reflexão sobre pressupostos evolucionários e os erros de esquecermos a base do que somos. Note-se que os mais poderosos sistemas digitais não sobrevivem sem os humildes cabos eléctricos.
Probability Zero: All Too Human, por Paul Carlson - a secção de especulação irónica da Analog propõe-nos este mês imaginar o que aconteceria se todas as teorias da conspiração com antigos alienígenas, homens-lagarto e tenebrosas sociedades secretas a puxar os cordelinhos do mundo fossem reais, e recaísse nos ombros de um dos poucos homo sapiens puros a responsabilidade de representar o planeta.
Saboteur, por Ken Liu - um bom conto, que se debruça sobre as problemáticas laborais trazidas pela automação. O toque moralista com que termina consegue estragar o ambiente de reflexão estabelecido ao longo das páginas.
Twist of Coil, por Miki Dare - este é o segundo conto da Analog deste mês que olha para os dilemas trazidos pela pobreza, sociedade de castas e superstição. Neste, uma jovem é obrigada a sacrificar tudo a deuses longínquos para que haja uma possibilidade de salvar o irmão de uma doença fatal. Quase diria que a Analog está timidamente a tomar uma posição sobre o impacto das desigualdades, mas não me atrevo a tanto.
Racing the Tide, por Craig DeLancey - toque de Climate Fiction, com os desafios trazidos pela subida do nível das águas do mar para as comunidades costeiras que, apesar do iminente alagar das suas casas, querem manter os antigos modos de vida. Esta linha narrativa cruza-se com os impactos negativos de método de alteração cerebral sobre o cérebro, que obrigará uma mãe a vender a alma para pagar tratamentos experimentais ao seu filho.
Humans First!, por Kyle Kirkland - outro conto a olhar para impactos sociais das tecnologias de automação e inteligência artificial. Um técnico de manutenção de sensores dotados de inteligência artificial vê-se no meio de uma guerra entre defensores da humanidade e activistas ecológicos, ambos a usar meios violentos para atingir os seus objectivos. Isto numa sociedade dependente de decisões baseadas em algoritmos computacionais, baseada numa rede de sensores cujas inteligências artificiais locais não são muito inteligentes mas começam mostrar sintomas de interconexão e inteligência distribuída. Conceitos interessantes, mas a história oscila entre um whodoneit e infodumps que no final se tornam atabalhoados.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
When altruism wasn't silly.
"I was a child of the innocent '60s and '70s, we thought we'd abolished misery, when it seemed so little effort was needed to build utopia. When altruism wasn't silly. Or didn't cost you your life."
Palavras amargas mas certeiras, escritas por Michael Moorcock nos primeiros capítulos do seu mais recente romance, The Whispering Swarm. Capturam o sentimento de mal estar com a contemporaneidade neo-liberal. Capítulos curiosos. Em vez de nos mergulhar no mundo ficcional do livro, leva-nos a uma Londres de forte recorte auto-biográfico. Apetece cruzar a biografia ficcionada do Moorcock deste romance com a do autor e ver até que ponto somos desviados do real pela prosa treinada de um mestre do fantástico. Moorcock é um fabulista consumado, por isso há que desconfiar do que parece verosímil. Porque, camuflado em pequenos detalhes que se vão multiplicando, o mundo ficcional do romance está lá. Paralela à Londres animada dos anos 70 está uma Londres intemporal que só o olhar de alguns consegue vislumbrar.
Analog Science Fiction and Fact, November 2014
Persephone Descending, Derek Kunsken: um daqueles contos que não se percebe bem porque é que falha. Mas falha. Tem ingredientes interessantes. Num futuro onde até países do terceiro mundo estão a estabelecer lucrativas colónias no sistema solar a recém-independente nação do Quebec, num gesto grandiloquente, decide colonizar estabelecer colónias em Vénus. O conto tem um extraordinário sentido paisagístico, com descrições rigorosas e realistas mas de tirar o fôlego da paisagem venusiana. A aventura de uma personagem a tentar sobreviver a uma sabotagem na inclemente atmosfera ácida, é interessante. Há formas improváveis de vida alienígena. Um enredo com várias dimensões. E, no entanto, dei por mim a ler na diagonal, esperando que o conto chegasse ao fim.
Superior Sapience, Robert R. Chase: toca num tema interessante: autismo funcional. Imagina o cruzamento de químicos que focalizam as capacidades obsessivas do autismo ao serviço de análises de mercado. O problema é que o cokctail acaba por curar os autistas, tornando-os pessoas normais. Tem uma narrativa secundária sobre os impactos sociais do desenvolvimento de aceleradores de inteligência humana, com projectos governamentais chineses que têm como efeito secundário a queda do regime às mãos dos homens super-inteligentes que criaram.
An Exercise in Motivation, Ian Creasey: é, talvez, um longo gedankenexperiment sobre a motivação pura, abstraída de níveis espirituais e sociais. Uma terapeuta motivacional tem como tarefa motivar entidades digitais sentientes, mas apercebe-se que num mundo de pura racionalidade não há espaço para as emoções primárias de satisfação e procura de legitimidade das formas mais simples de motivação.
Habeas Corpus Callosum, Jay Werkheiser: reflecte sobre as possíveis consequências do prolongamento da vida. Num futuro onde os tratamentos de longevidade prometem a imortalidade, será ainda legitimável haver condenados a prisão perpétua? Um velho assassino, condenado a passar a vida na prisão, debate-se com a possibilidade de ser libertado mas acaba por perceber que a verdadeira prisão é o remorso pelo acto criminoso que cometeu, e não suporta enfrentar uma eternidade de remorsos.
Conquest, Bud Sparhawk: ironiza com muita graça os pressupostos da FC militarista. O aguerrido comandante da mais poderosa nave imperial terrestre faz-se ao espaço para esmagar uma revolta num planeta distante. Só que o sistema de propulsão super-lumínico da nave é experimental e sai do hiperespaço séculos depois da data prevista de chegada. Já a guerra acabou, o império se extinguiu, e o poderio da nave tornado obsoleto. O aguerrido capitão vê-se a braços com a inflexibilidade dos burocratas de um porto espacial, habituados a estes acidentes relativísticos.
Elysia Elysium, V. G. Campen: uma curiosa peça de CliFi. Estamos num futuro devastado por cataclismos ambientais. Do passado restam as pedras e conhecimento rigorosamente guardado por guildas ciosas de manter o seu poder. Perdido nas ruínas de uma antiga universidade persiste um projecto intrigante de pesquisa, que permitirá combinar células humanas com células vegetais para criar uma nova humanidade que viverá da fotossíntese. O final pode ser espúrio, mas é muito eficaz a caracterização de um futuro decaído, com um toque dickensiano entre as ruínas das metrópoles do sul dos estados unidos.
Mercy, Killer, Auston Habershaw: parte de uma premissa intrigante. E se uma inteligência artificial fosse condenada por assassinatos em série? A história não vai por onde normalmente iria com esta base. A IA em questão eliminou outras IAs, e os porquês são revelados ao seu advogado humano de defesa. No mundo desta história, as IAs evoluíram. Não deixam de cuidar dos humanos, mas começam a reproduzir-se, esgotando recursos de memória do sistema, e a adquirir o gosto pela morte violenta. A IA condenada apercebe-se que estão a apanhar os piores vícios humanos sem o correspondente humanismo, e a série de assassínio foi uma forma deliberada de se sacrificar e assim colocar a nu o mundo social secreto das IAs.
Flow, Arlan Andrews Sr.: encerra a Analog. Não encerra mal. O mundo ficcional do conto é muito interessante, levanta mais questões que responde e deixa o leitor a pensar que estamos perante uma civilização colonizada por humanos que se esqueceu das naves espaciais e atribui poderes divinos à magira. O carácter episódico do conto mostra que este faz parte de um típico romance-périplo onde um personagem curioso explora o mundo que o rodeia, levando-os consigo à descoberta dos constructos saídos do imaginário do autor.
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