domingo, 11 de janeiro de 2015
aCalopsia: Batman Digital Justice
No aCalopsia, um regresso a um clássico esquecido dos comics. Inaugura uma série de crónicas/ensaios, em estilo de retro-crítica, que recupera algumas bandas desenhadas algo esquecidas. Quando se está mergulhado na intensa blogoesfera (pronto, intensa para os nossos padrões) e a olhar para as constantes novidades, mergulhado no fluxo do novo, há sempre momentos em que olhamos para a estante e e recordamos livros que nos marcaram, que achámos curiosos, cuja leitura nos deleitou ou que merecem ser redescobertos. A inspiração veio da clássica Fantasy & Science Fiction, que terminava sempre com uma secção de curiosidades onde escritores contemporâneos recordavam livros e autores esquecidos. Quando ao Digital Justice, foi uma banda desenhada precursora que merece releituras. Visualmente datada, marca um grafismo característico de época e tecnologia, que hoje se mantém como artefacto histórico. Aponta, com a exuberância típica do cyberpunk, para um futuro nas técnicas de ilustração que hoje é normal e invisível para o leitor. O visual colorido berrante, a pose Max Headroom, recordam a nostalgia de um futuro que prometia maravilhas e distopias, futuro esse que talvez seja o nosso cinzento presente. Também recorda os primórdios de um grafismo digital que se veio a tornar pervasivo e hiperreal. Artigo completo no aCalopsia: Batman Justiça Digital.
sábado, 10 de janeiro de 2015
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
The Strange Library
Haruki Murakami, Chip Kidd (2014). The Strange Library. Nova Iorque: Knopf.
Um livro muito morno de Murakami, que surpreende mais pelas ilustrações de Chip Kidd. Uma fábula de terror que não chega a assustar, com a história de um rapaz que descobre dentro de uma biblioteca bibliotecários canibais que gostam de engordar o cérebro dos pequeninos com conhecimento para tornar mais saboroso o sugar dos seus cérebros. E com isto acabei de fazer parecer este conto mais visceral do que é. Aprisionado numa biblioteca labiríntica, tem como companheiro um excelso cozinheiro de donuts e uma espectral rapariga que parece dissolver-se ao luar. Pequena fábula próxima do horror, oscila entre o fantástico e encantador, mas fica um pouco aquém do que esperamos de quem nos legou Kafka By The Shore. Note-se que depois de Borges, todas as bibliotecas são labirínticas. Chip Kidd ilustra no seu marcante grafismo de barroco pop, dando uma nota de cor profunda ao cinzentismo nocturno da história.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Leituras
The European Archipelago: Custa um bocado ler que "a Portuguese SF&F author is nothing but a curiosity, somewhat similar to the bizarre news announcing that in Bucharest some anonymous authors from Mars were spotted." Mas há que dar razão ao autor desta visão pessimista sobre a FC europeia. O desconhecimento das tradições editoriais dos vários países é enorme. A falta de uma língua comum e a hegemonia da FC anglo-saxónica são pesos tremendos, mas se cada um continuar fechado na sua ilha a tendência continuará. Nós por cá, na terra dos autores-curiosidade, mal sabemos do que se passa mesmo ao lado da fronteira, apesar de uma barreira linguística baixa (ou baixíssima, se escreverem em galego). Temos laivos da FC francófona, mas não graças aos esforços do Institut Français (apesar de terem cá trazido há três anos Bernard Werber no contexto de uma pequena exposição) e com a quase extinção do francês no ensino público, a possibilidade de novos leitores está cada vez mais reduzida. Da alemanha há alguma coisa por cá publicada que nem chega a levantar a ponta do véu da FC num país com a série de género mais longa de sempre. É capaz de haver FC clássica e contemporânea italiana, polaca (disse isto de forma intencional...), enfim, até romena, mas tirando pequenas iniciativas que depressa perdem fôlego fica cada uma na sua ilha. Posso recordar a International Speculative Fiction, desaparecida este ano, como um excelente exemplo do que se pode fazer no intercâmbio inter-europeu. Projectos como o Europa SF, se vencerem o teste do tempo, poderão começar a inverter estas tendências e abrir o espaço da FC europeia. Há ainda algo que me intrigou no artigo: a observação sobre o monolitismo temático da FC anglo-saxónica (e por extensão americana) que de facto revela algo que se sente, um solidificar de ideias, um constante bater na mesma tecla, apesar das lufadas de ar fresco das vanguardas de fronteira do transreal.
The Anti-Tolkien: Depois de assentar a poeira do entusiasmo de fanboy por ver Michael Moorcock em perfil na venerável New Yorker, há que ressalvar que a obra do autor vai muito mais longe do que esta liminar colagem a Tolkien. O artigo toca na influência da New Worlds como renovadora de géneros, mas esquece o lado FC de Moorcock para se centrar na visão antagónica da sword & sorcery mais amoral e visceral do que a pureza ideológica de Tolkien. Mas sendo este o autor-referência na cultura popular, suspeito que esta colagem seja uma espécie de Moorcock for Dummies...
A day in 2060: Uma intrigante especulação tecnocrática de toque singularitário, num excerto de um artigo partilhado no reddit. É uma clássica visão cardboard future sobre um futuro limpo e funcional, mas algo incomoda. Todo o texto vive de uma noção benévola de controle comportamental através de tecnologia, visto como algo de positivo e desejável. Num ambiente de vigilância digital pervasiva até os desvios mais inócuos às normas podem ser identificáveis e castigáveis. No deslumbre tecnicista/singularitário os autores do artigo parecem esquecer-se do simples humanismo da liberdade individual e do direito à diferença. Ou talvez seja este o percurso da evolução e no futuro se olhem as ideias de hoje sobre liberdade e livre arbítrio como se fossem relíquias extintas, como, talvez, o adorar estátuas de madeira e barro pintado ou jurar fidelidade ao senhor feudal.
What Did Ancient Babylonian Songs Sound Like? Something Like This: O trabalho de recriação musical é ingrato. Nunca saberemos exactamente como soaria a música suméria, egípcia, romana, ou até das eras mais próximas antes da invenção dos registos audio. Estas interpretações são, no seu melhor, aproximações informadas com base nas investigações arqueológicas. No entanto, não deixa de haver algo de mágico no poder ouvir sons milenares e palavras que por fugazes momentos revivem línguas há muito transformadas em poeira.
The Anti-Tolkien: Depois de assentar a poeira do entusiasmo de fanboy por ver Michael Moorcock em perfil na venerável New Yorker, há que ressalvar que a obra do autor vai muito mais longe do que esta liminar colagem a Tolkien. O artigo toca na influência da New Worlds como renovadora de géneros, mas esquece o lado FC de Moorcock para se centrar na visão antagónica da sword & sorcery mais amoral e visceral do que a pureza ideológica de Tolkien. Mas sendo este o autor-referência na cultura popular, suspeito que esta colagem seja uma espécie de Moorcock for Dummies...
A day in 2060: Uma intrigante especulação tecnocrática de toque singularitário, num excerto de um artigo partilhado no reddit. É uma clássica visão cardboard future sobre um futuro limpo e funcional, mas algo incomoda. Todo o texto vive de uma noção benévola de controle comportamental através de tecnologia, visto como algo de positivo e desejável. Num ambiente de vigilância digital pervasiva até os desvios mais inócuos às normas podem ser identificáveis e castigáveis. No deslumbre tecnicista/singularitário os autores do artigo parecem esquecer-se do simples humanismo da liberdade individual e do direito à diferença. Ou talvez seja este o percurso da evolução e no futuro se olhem as ideias de hoje sobre liberdade e livre arbítrio como se fossem relíquias extintas, como, talvez, o adorar estátuas de madeira e barro pintado ou jurar fidelidade ao senhor feudal.
What Did Ancient Babylonian Songs Sound Like? Something Like This: O trabalho de recriação musical é ingrato. Nunca saberemos exactamente como soaria a música suméria, egípcia, romana, ou até das eras mais próximas antes da invenção dos registos audio. Estas interpretações são, no seu melhor, aproximações informadas com base nas investigações arqueológicas. No entanto, não deixa de haver algo de mágico no poder ouvir sons milenares e palavras que por fugazes momentos revivem línguas há muito transformadas em poeira.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Je suis Charlie
Sou blogger. Escrevo aqui quase diariamente. Umas vezes bem, outras nem por isso. Posso ser cuidadoso ou desbragado, ofensivo ou acérrimo. Ou não sê-lo. Posso ter muitos leitores ou estar a teclar isolado num recanto obscuro da internet. O que quer que seja, é secundário. O que sei é que posso fazê-lo sem preocupações, sem temer que por expressar a minha opinião me venham bater à porta capangas ao serviço de polícias de defesa e vigilância do estado ou ser espancado por quem não gosta de opiniões diferentes. O pior que me pode acontecer é, caso algo aqui ofenda alguém, ter de me defender com meios legais. Porque a liberdade de expressão é um dos pilares da sociedade onde vivo, apesar dos seus defeitos e virtudes, das forças internas e externas que a ameaçam. Podemos pensar diferente e falar o que pensamos, sem temer calabouços, polícias secretas, represálias ou assassínios. É um direito que temos, conquistado ao fim de séculos de luta que vieram a estabilizar na sociedade contemporânea, assente em direitos humanos e sociais e não em privilégios de casta ou prerrogativas divinas.
Um direito hoje abalado com o horrendo e chocante ataque que vitimou os cartonistas e jornalistas do semanário satírico francês Charlie Hebdo. É chocante. Muito. É-o pela morte inesperada, violenta, criminosa de artistas, editores, jornalistas e polícias. Pela inútil perda de vida, do sangue a correr em nome do obscurantismo. Nomes que líamos, ou víamos nos eventos sobre banda desenhada aniquilados à bala. É chocante pela terrível sensação que deixa que os locais banais do dia a dia são palco de tragédias impensáveis. Fica-se sempre com aquele sentimento de que poderia ter sido Madrid, Lisboa, ou qualquer outra cidade. Choca porque pensamos: cartoonistas? E a seguir, serão os escritores, jornalistas, actores, realizadores? Todos aqueles tidos como ofensivos ao santo nome? Porque sabemos, basta olhar para os arrepiantes relatos saídos das terras ensanguentadas da Síria e norte do Iraqe, que é isso que basta. Ser dos outros, não ser como eles.
Torna-se mais chocante pela simbologia, pelo ataque directo a um dos nossos pilares sociais, ao direito de dizer, escrever, desenhar, cantar, pintar o que quisermos. Os cartoonistas hoje assassinados não são mártires de lutas pela liberdade, são vítimas de algozes que se crêem donos da verdade absoluta e desprezam de tal forma quem não for como eles que a vida deixa de ter qualquer valor. É irrelevante que as suas vitimas sejam muçulmanas, cristãs, yezedis, jornalistas, trabalhadores humanitários, cartoonistas, soldados capturados por aqueles que têm um prazer perverso em torturar os indefesos, enfim, toda a sangrenta litania de vítimas de um terror inesperado, de uma sombra horrenda que paira sobre os sonhos futuristas do século XXI. Um novo século cuja promessa não esperávamos ver esmagada pela ganância neo-liberal e pelo ressurgir dos obscurantismos religiosos.
Isto é um atentado perfeito. Os comandos mártires vingaram-se, serão heróis por entre os bárbaros. As sociedades em choque vão reagir, vão ter medo. Populistas irão acirrar as chamas da xenofobia para ganhos políticos, apoiar o estreitar dos espaços públicos através da vigilância em nome da segurança. Talvez, até, pressionar pela restrição de liberdades em nome da defesa da liberdade. O terrorismo, como bem sabemos no mundo pós-Snowden e Wikileaks, tem sido uma excelente desculpa para as forças iliberais ganharem terreno e poder. Temerosos, cedemos em nome da segurança. Não quero parecer exagerado, mas na Europa um ataque como este, atentado deliberado a jornalistas, homens de cultura e instituições culturais é o equivalente ao ataque às torres gémeas. Pela fortíssima simbologia de atentado a instituições de que nos orgulhamos, estimamos e defendemos. E também por nos mostrar que o soft power, a projecção cultural de modos de vida e ideias, não é blindada e imune às balas da AK-47.
Antes de todas as teorizações e ilações, há um facto duro a recordar. Homens e mulheres que faziam o seu trabalho foram assassinados a sangue frio. Essa é a imagem do dia. Pessoas como nós, não decisores geo-estratégicos ou personalidades. Meros jornalistas e desenhadores, pequenas-grandes personalidades dentro do círculo de leitores e admiradores, nada mais. Artistas com que nos cruzaríamos nas ruas se estivéssemos em Paris, cujas ilustrações visitávamos nos festivais de Banda Desenhada. Pessoas que começaram mais um dia banal sem suspeitar do que aí viria. Vítimas de um acto bárbaro e chocante.
Je suis Charlie. Somos todos Charlie, porque somos quem somos, somos livres de pensar e acreditar no que quisermos e bem entedermos. Aos olhos do bárbaro obscurantismo que degola e se faz explodir em nome de uma visão estreita e violenta de uma religião, somos o inimigo. Hoje, o mundo ficou ainda mais negro.
Prophet: Brothers; Empire.
Brandon Graham, et al (2013). Prophet Vol. 2: Brothers. Berkeley: Image Comics.
Isto é um corpo estranho nos comics americanos. Prophet é space opera pura, mas não segue os previsíveis esquemas do género. Acompanhamos um rebelde, um de um enorme exército de clones espalhado pela galáxia, o único a libertar-se da pressão mental da inteligência artificial terrestre que o incita a todos os momentos a meter ordem no império. Um rebelde que se rodeia dos mais aguerridos alienígenas e viaja pela galáxia, tentando quebrar o jugo terreno sobre os povos que povoam os rochedos mais distantes. Mas não esperem de Prophet gargantuescas batalhas espaciais ou miticismos de heroísmo. A série está mais no campo da sensibilidade psicadélica de Moebius e Druillet do que nos estreitos caminhos da FC tradicional. Ao ler é impossível não recordar as aventuras de Lone Sloane, visual e conceptualmente tão próximas de Prophet que é difícil não lhe perceber a influência. Também a FC surreal de Moebius se espelha nas paisagens galácticas e exóticos seres que as povoam nesta série intrigante.
Brandon Graham, et al (2014). Prophet Vol. 3: Empire. Berkeley: Image Comics.
Um dos elementos que intriga em Prophet é a forma como altera as expectativas. Pelo título, e sabendo que se trata de uma space opera, esperamos um herói profético num aventuroso périplo pela galáxia. Mas não um único John Prophet. Espalhados pela galáxia, em hibernação ou em acção, existe uma míriade de prophets de todos dos tamanhos e feitios. Todos com a missão de acordar ao fim de milénios e, controlados por inteligências artificiais maternais, recuperar o império terrestre. Entretanto a galáxia já se esqueceu dos humanos (num dos planetas os humanos sobreviventes involuíram para antropoides inteligentes), as suas vastas estruturas são ruínas indistinguíveis na paisagem rochosa e a vida pulula em múltiplas espécies exóticas. Restam as naves, espalhadas pelo espaço, e os profetas, um dos quais luta para que a velha ordem não regresse. Neste terceiro volume não consegui libertar-me da sensação que a influência de Moebius foi tremenda. Não o Moebius do Incal ou dos Mundos de Edena, mas o da ficção científica absurdista da Garagem Hermética.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Ao Gosto do Freguês
John Layman, Rob Guillory (2014). Tony Chu Detective Canibal Volume Um: Ao Gosto do Freguês. Roskilde: G.floy.
Estou incrédulo. Como é que esta série nunca me cruzou o radar? De facto já cruzou, mas o ar vagamente policial e as capas cartoony nunca me tinham cativado. Infelizmente. E depois de ter lido este primeiro volume na tradução portuguesa editada pela G.Floy, bolas, só penso que tenho estado a perder uma belíssima série de fantástico com toques de policial e horror, e muita, muita ironia no argumento.
Fiquei cativado pelo ambiente transreal numa américa onde a F.D.A. impera e o consumo de carne de aves é proibido após uma pandemia global de gripe das aves. Um franguinho assado ou umas coxinhas fritas tornam-se mais apetecíveis e lucrativas do que umas gramas de pó de talco colombiano ou psicotrópicos raros. As autoridades sanitárias imperam, protejendo o público dos malefícios do ovo estrelado e da canja de galinha, porque, dizem, o combate à gripe aviária está acima de tudo. Dizem, autoritários, porque diz-se que talvez não seja bem assim. Mas quem isto o diz acaba normalmente encerrado num centro de detenção para radicais.
Neste mundo tão culinário há pessoas com poderes curiosos. Tony Chu, Chew no original, tem o dúbio dom de sentir impressões psíquicas de qualquer coisa que coma. Excepto beterrabas. Esse dom torna-o muito útil como detective ao serviço da F.D.A.. Basta-lhe dar umas dentadas num cadáver para o identificar e saber o que lhe provocou o estado pós-terminal. Dons que partilha com o seu colega, Mason, e com a mulher com que se apaixona. Se bem que esta tem como variante uma capacidade inaudita de descrever por palavras o sabor da comida que prova. Algo que se torna hilariante quando esta se farta do que anda a fazer e publica uma série de crónicas no jornal sobre os piores locais onde comer, que provocam uma epidemia emética pela cidade. Chu apaixona-se, combate gangs de traficantes de frango, enfrenta combatentes armados pela liberdade culinária e resolve crimes mordiscando iguarias revoltantes.
Ter um personagem principal que resolve crimes comendo os mortos seria, e creio que é, um excelente enredo de horror. Recordo algumas partes particularmente vívidas de Necroscope de Brian Lumley com áugures soviéticos que se banhavam nas vísceras de cadáveres. Mas Chew não trilha esses caminhos. Trata-se de distopia irónica, com os proibicionismos da carne de frango a espelhar como vertente mais óbvia a época da proibição do alcool, mas a tocar mais fundo nos atropelos da guerra às drogas e nos consensos sociais impostos pela política. O foco gastronómico fez-me recordar o manga cómico Oishinbô - A La Carte, onde a essência está no degustar.
O estilo gráfico, leve e a puxar para o cartoon, segue em grande ritmo os argumentos vívidos e bem estruturados. Somos sempre mergulhados de chapa em aventuras que começam in media res, retrocedem e surpreendem sempre com um plot twist intrigante. O humor seco, visceral de uma tão profunda ironia que chega a ser cortante torna irresistível esta série da Image. É trazida ao público português pela G.Floy, que também se está a atrever a publicar a imprescindível Fatale, com mulheres fatais e horror lovecraftiano de Ed Brubaker e Sean Philips, e o popular Saga.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Comics
East of West #16: Hickman tem uma certa propensão para a grandiloquência hierática, como se nota no trabalho que fez em The Avengers Infinity, e neste East of West tem resvalado nesse sentido. O seu weird wild west continua decididamente weird, cada vez mais em toque apocalíptico. Mas confesso que prefiro os seus volteios de ficção científica em Manhattan Projects, actualmente em pausa para refrescar a criatividade.
All New Miracleman Annual #01: A Marvel está-nos a mimar. Não só reedita o clássico Miracleman de Alan Moore (assinalado como the original writer nos comics) como surpreendeu com esta edição de final de ano. Grant Morrison e Pete Milligan assinam novas histórias dos personagens. Novas, mas muito cuidadosas, apostanto mais na iconografia do que numa possível mas indesejada nova continuidade do herói. A contribuição de Morrison é discreta e visualmente bem conseguida com o traço de Joe Quesada, mas Pete Milligan sobrepõe-se. Com Mike Allred a ilustrar, lega-nos uma história que homenageia na perfeição a inocência, simplicidade e carácter ingénuo das estrutuas narrativas dos comics clássicos dos anos 50. Uma das coisas boas que a Marvel está a fazer nesta reedição de Miracleman é contrapor a sofisticação soturna de Moore com a simplicidade infantil do comic original escrito e ilustrado por Mick Anglo. Cada edição traz-nos a reedição da série que marcou a história dos comics acompanhada de algo saído dos anos 50. É uma forma interessante de acompanhar a enorme evolução conceptual das estruturas narrativas da banda desenhada, hoje narrativas complexas que noutros tempos se caracterizavam por uma simplicidade extrema. Nesta edição é esse simplismo o que Milligan coloca em evidência, de forma enganadoramente simples. Allred remata, com o seu traço tão inspirado na pop art e que remete para os velhos tempos das eras dourada e prateada dos comics.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Cold Equations
"I feel that the greatest appeal of science fiction is the creation of numerous imaginary worlds outside of reality. I’ve always felt that the greatest and most beautiful stories in the history of humanity were not sung by wandering bards or written by playwrights and novelists, but told by science. The stories of science are far more magnificent, grand, involved, profound, thrilling, strange, terrifying, mysterious, and even emotional, compared to the stories told by literature. Only, these wonderful stories are locked in cold equations that most do not know how to read."
Do posfácio do intrigante romance do escritor chinês Cixin Liu, uma supresa dentro daquela FC clássica campbelliana, com uma vertente intrigante do problema do primeiro contacto com civilizações alienigenas assombrada pelo espectro da história contemporânea chinesa. E com uma tirada destas a finalizar o livro, pode-se dizer que aquela FC clássica tecnicista, centrada na ciência, herdeira da tradição tecnocrática da Astounding sob o pulso editorial de John F. Campbell.
Cixin Liu (2014). The Three-Body Problem. Nova Iorque: TOR.
Do posfácio do intrigante romance do escritor chinês Cixin Liu, uma supresa dentro daquela FC clássica campbelliana, com uma vertente intrigante do problema do primeiro contacto com civilizações alienigenas assombrada pelo espectro da história contemporânea chinesa. E com uma tirada destas a finalizar o livro, pode-se dizer que aquela FC clássica tecnicista, centrada na ciência, herdeira da tradição tecnocrática da Astounding sob o pulso editorial de John F. Campbell.
Cixin Liu (2014). The Three-Body Problem. Nova Iorque: TOR.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Insta
Pelo mapa, algures em Constância, Óbidos e Ribaldeira. Esta última é capaz de apenas surgir nos mapas mais detalhados.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
aCalopsia: Deixa-me Entrar
Para os leitores de banda desenhada atentos ao panorama nacional, o nome de Joana Afonso dispensa apresentações. Primeiro livro a solo da autora, Deixa-me Entrar é um livro marcante. Mostra que sendo já uma referência no grafismo da banda desenhada, Joana Afonso tem a clara capacidade de contar boas histórias. Promete continuar a surpreender-nos com uma obra que amadurece a cada novo livro. Observações no aCalopsia: Deixa-me Entrar,
Dylan Dog: La Bomba.
Giovanni Gualdoni, Bruno Brindisi (2013). Dylan Dog Speciale #27: La Bomba. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Passamos boa parte desta aventura do detective dos pesadelos a tentar perceber qual a origem da distopia onde este se encontra metido. De certa forma, espelhamos o percurso narrativo de Dylan, que acorda num asilo mental e tenta perceber o porquê dos contínuos tratamentos agressivos e do psiquiatra que tanto insiste em normalizar o seu comportamento. Há medida que vamos ampliando a visão do mundo de Dylan percebemos que estamos numa Inglaterra distópica, governada por ultra-nacionalistas que aprisionam dissidentes em hospícios, despacham minorias e indesejáveis para campos de concentração, instauraram um estado policial e usam uniformes que se assemelham demasiado aos nazis. Toda a história nos leva através deste mundo de pesadelo, com Dylan a ser libertado por um comando de rebeldes para ajudar o líder, assombrado por um fantasma que o aterroriza. Como é esperado, Dylan apaixona-se pela bela guerrilheira que a liberta. Faz parte do cânone do personagem, apaixonar-se em todas as aventuras. O final dá-nos a peça que dá sentido ao puzzle. Estamos numa realidade alternativa que se toca com a continuidade normal da série, e o envelhecido e aguerrido líder da resistência é perseguido pelo fantasma do seu eu jovem, num mundo paralelo em que se apercebe do perigo representado pelo futuro líder. Quando jovem, contacta Dylan porque se sente assombrado por premonições de futuro que o vão levar a cometer um assassínio decisivo para que a distopia em que acabámos de mergulhar nunca chegue a acontecer. Um esforço interessante com argumento de Giovanni Gualdoni, referenciando alguns momentos da história da personagem e pegando muito bem nas distopias e mundos paralelos. Detectavam-se uns toques de La Jetée.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
On the road
A fugir das auto-estradas, essas extensões monótonas de asfalto apenas suportáveis em velocidades acima do limite legal. As restantes estradas reservam-nos sempre surpresas estéticas. Aqui pela Golegã e Constância.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
1889: Journey to the Moon
George Wier, Billy Kring (2014). 1889: Journey to the Moon. Createspace.
Uma belíssima e inesperada surpresa, que não descobriria senão pela dica do João Barreiros. E ainda bem. Entre acumulações de leituras e afazeres é-me raro, hoje, ler livros quase de uma assentada, mas este obrigou-me a maratonas nocturnas. Comecei a lê-lo durante a noite da consoada, para combater aquele morno tédio entre o bacalhau e as couves, e fiquei depressa capturado por um livro aparentemente simples cuja toca em mais pontos do que à primeira vista faz notar.
1889: Journey to the Moon é uma frenética aventura steampunk sobre um inventor que constrói um dirigível capaz de chegar à lua, e que reúne como tripulantes personagens tão curiosos como Billy The Kid, a trisavó de Yuri Gagarin, Nikola Tesla a dar um toque electropunk, o trisneto do pirata Edward Teach, a seguir as pisadas familiares com uma frota de pirataria dos ares, um discreto mas eficaz Jack o Estripador e todo um restante grupo de ícones da ficção pulp. Temos o engenheiro genial capaz de construir todo o tipo de mecanismos, um matemático poliglota indiano, e até um índio com dotes culinários e de karateca que busca vingar-se de um general Custer que não foi abatido em Little Big Horn. A história é uma sucessão frenética de aventuras e combates. Os heróis têm de se bater incessamentemente contra o sétimo de cavalaria liderado por um Custer apostado em capturar a presidência americana aos comandos do dirigível espacial, piratas dos ares, as predações cirúrgicas do estripador, alienígenas numa base secreta na lua, e uma batalha espacial contra naves movidas por velas solares. Mal se respira, com tanto fragor e acção, num romance que termina com o despenhar de uma nave esboroada no oceano índico.
Kring e Wier fazem bom uso dos elementos da estética steampunk, mergulhando-nos numa visão alternativa de máquinas a vapor, dirigíveis que cruzam os céus, latão polido, robots retro e todo aquele ar neo-edwardiano que tanto encanta. Visto como mera aventura frenética de tom steam já torna este livro uma leitura muito divertida. Só que aventuras frenéticas a vapor é coisa que por aí abunda, e este livro tem muito mais para nos oferecer, dando-nos dimensões de leitura perceptíveis àqueles que forem conhecedores da evolução histórica da ficção científica. Apesar dos autores encerrarem um livro com um posfácio ao jeito de manifesto a rejeitar a ideia do steampunk como ficção científica, afirmando-o como um género por direito próprio que não teme elementos da fantasia, horror e FC.
O primeiro aspecto a intrigar neste livro é que a ciência bate certo. Há microgravidade, velocidades de escape, a lua é uma paisagem desolada sem atmosfera, cálculos orbitais. O elemento fantástico é a forma de propulsão capaz de levar a aeronave à lua, um elemento electro-mecânico denominado transmogrificador que tem a capacidade de anular a influência do campo gravitacional e com finos ajustes direccionar o flutuar da nave através do espaço. Elemento fantástico que nos remete para o outro aspecto notável deste livro: a forma como mostra conhecer a longa historiografia da FC.
Todo o tema da viagem à lua remete logo para Verne, como é óbvio, mas as referências não se ficam por aqui. Fiquei com a distinta impressão que os alienígenas humanóides com fatos algo insectóides refugiados em bases construídas em grutas no subsolo lunar remetem para o filme Le Voyage dans la Lune de Meliés. Já a ideia de uma substância ou elemento capaz de contrariar os efeitos da gravidade tem ascendente directo em The First Men of the Moon de H.G. Wells, com a viagem do distinto professor Cavour num engenho propulsionado por cavourite, também a cruzar-se com habitantes das crateras lunares.
O conceito de um inventor, criador de tecnologias avançadas que reúne um grupo de aventureiros e parte à aventura para paragens exóticas, desconhecidas ou extra-planetárias remete para as edisonades. Este género dos primórdios da FC baseava-se nos feitos fantásticos de inventores modelados em Edison, capazes de, entre outras aventuras, levar frotas de dirigíveis a Marte para retaliar e submeter os marcianos ao jugo terrestre, e caracterizava parte da literatura fantástica popular da viragem do século. Outro género em voga à época, e também de génese da FC, é a guerra futura, visões de combate com armas futuristas, algo que este livro nos dá amplamente, desde scooters a vapor armadas com arpões, dirigíveis de combate, carros blindados, espingardas de ar comprimido, robots e até lasers no espaço. É uma vénia, suspeito, dos autores, aos géneros que formaram a FC e que estavam mais pujantes na época que o steampunk tanto gosta de reinventar. Também não fica esquecido o género wild wild west, apesar daqui a inspiração partir mais da série televisiva e do filme do que dos mais clássicos steam men of the prairie, também contemporâneos do final do século XIX.
Uma leitura frenética, empolgante, bem escrita. Destaca-se pela luxuriante iconografia steam e rigor nos elementos mais próximos da FC. Torna-se notável por espelhar de forma muito elegante elementos dos primórdios da história da ficção científica, conseguindo torná-los apreciáveis sem se tornar romance referencial. Foi uma excelente surpresa para encerrar um ano de boas leituras.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Comics
Star Spangled War Stories GI Zombie #04: Jimmy Palmiotti está a divertir-se com este personagem anacrónico. GI Zombie é um agente secreto zombie inteligente, cujas habilidades como morto-vivo o tornam valioso para missões de alto risco. Sendo zombie, tem de ser alimentado, e não sendo estas criaturas vegetarianas as forças armadas americanas têm de lhe fornecer refeições apropriadas à sua dieta específica. O que não é problema, quando se tem prisões cheias de criminosos perigosos e condenados à morte. Digamos que entre a cadeira eléctrica e o serviço de take away... venha o diabo e escolha. Esta sequência de alimentação é um momento bilhante de humor negro, que foge ao esperado horror visceral do zombie a comer com uma ironia que se torna hilariante ao ser tão comedida.
Letter 44 #13: E sim, finalmente, começamos a ter respostas. A premissa de Charles Soule continua interessante, com um artefacto alienígena algures por entre a cintura de asteróides, um presidente progressista a ter de lidar com as guerras legadas pelo seu fascizante predecessor, e o investimento em armemento avançadíssimo para dar à humanidade alguma hipótese de sobrevivência caso o artefacto se revele hostil. Mas Soule tem arrastado a série, levando-a com um passo muito lento enquanto ramifica o enredo. Só que a principal questão, a do encontro com os alienígenas, tem ficado por responder. Nisto Soule aplicou bem os princípios de manter o suspense em alta, com inúmeros recontros que quase se transformam em combate espacial. Mas pôs finalmente ponto final na questão, com a captura benévola dos tripulantes da nave de defesa/primeiro contacto e os primeiros diálogos de compreensibilidade reduzida com os alienígenas. Que, em resposta a uma das questões do comic, parecem ser amigáveis e ter vindo ao sistema solar para ajudar os incautos humanos contra uma ameaça maior. Entretanto, na Terra, o presidente americano aniquila uma divisão panzer com uma arma espacial em retaliação pelo envolvimento alemão numa detonação nuclear que aniquilou boa parte do corpo de tropas avançadas colocado no Afeganistão, uma conspiração entre a chanceler alemã e o antigo presidente americano que levanta novas questões. Cá estaremos para as ler. Sem ser esplendorosa, Letter 44 é uma das mais interessantes séries de 2014 com continuidade para o próximo ano.
The Massive #30: O pormenor final de arca de noé em rumo a um novo futuro é curioso, mas esta série termina esgotada. A criatividade e o rumo já se tinham ido há alguns números atrás. Brian Wood decidiu-se pelo catastrofismo total e aniquilou a vida na terra tal como a conhecemos com um acontecimento inexplicável em que partes da crosta terrestre foram expelidas para o espaço. Resta o navio, contendo um bioma que conserva uma amostra da antiga terra e os tripulantes humanos, para legar o melhor da humanidade no que agora está transformado num oceano planetário. É um final que deixa lugar à imaginação, mas não chega para desculpar o desastroso percurso descendente da série. Wood é um futurista de respeito e teve momentos brilhantes durante o decurso de The Massive, mas a páginas tantas percebeu-se a perda de rumo e o tactear em busca de uma inevitável conclusão.
The Ressurrectionists #02: Uma história de roubos e vinganças que começa no antigo egipto e irá concluir-se na contemporaneidade. Não se trata de viagens no tempo, antes de uma variante da premissa batida de dramas milenares que se repetem quando personagens contemporâneas despertam recordações de vidas passadas. O argumento é de Fred Van Lente, que assina a genial ironia de Archer & Armstrong e está a dar uma visão interessante semi-cyberpunk, semi-trans-humanista ao clássico Magnus Robot Fighter. Não sendo inesperado, é divertido e ritmado.
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