domingo, 23 de dezembro de 2012

La Nuit


Philippe Druillet (1981). La Nuit. Paris: Les Humanoïdes Associés.

Druillet exorciza o falecimento da sua esposa neste álbum ao mesmo tempo assombroso e repelente, violento, confuso e expressivo. É uma elegia gritante onde a violência sem sentido termina num silêncio de memórias.

sábado, 22 de dezembro de 2012

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WIRED UK: The World in 2013


Estas previsões para o próximo ano servem mais como um registo do estado actual da arte do que como mapa do futuro. Nesta edição especial da Wired UK são apontadas tendências tecnológicas, sociais, políticas, económicas e ecológicas que poderão modelar o futuro próximo e modificar as percepções da realidade. A destacar o ensaio de James Dyson sobre engenharia como forma de ecologia, fugindo às receitas de mega-geoengenharia e apontando que ganhos em eficiência se traduzem em ganhos ecológicos e que esses não advéem de grandes iniciativas mas da agregação de inúmeros pequenos ganhos incrementais (ou como dizia a minha avó, grão a grão enche a galinha o papo); a mudança de percepção sobre comportamentos até agora considerados doença mental, particularmente notória em comportamentos sexuais anteriormente considerados como desviantes mas agora vistos como normais; as implicações assustadoras do marketing sinestésico, que olha para padrões de relacionamento entre cores, sons e sensações para vender tralha de forma mais eficaz, e rastreamento em tempo real de atitudes e emoções dos utilizadores de televisão, videojogos e equipamentos digitais. Se achamos que a privacidade se esvai nos serviços online que hoje utilizamos, em breve esses serviços podem detectar as nossas emoções, cortesia de câmaras de video, sistemas de reconhecimento facial e posicionamento. Estas e outras tendências estão apontas neste bloco de notas para um futuro próximo. Nota curiosa: é interessante ver como os MOOCS passaram em menos de um ano de conceito indefinido a destaque na revista Wired.

Vislumbres de outras configurações

O cinema frenético (e/ou o cinema barroco) pede ao espectador um regresso, diz-lhe: "não me vejas uma só vez, faz-me companhia, vais ver que não te arrependes e que te darei muitas surpresas e novidades, realidades subterrâneas e trans-dimensionais, vislumbres de outras configurações do real".

Edgar Pêra, sobre o Manual de Evasão LX94. Texto da sessão de 21 de Dezembro de 2012 na Cinemateca.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim


The Doors, The End. Encontramo-nos no próximo apocalipse milenarista?

and i feel fine


REM, It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine).

Abrigos


Rolling Stones, Gimme Shelter. Para cantarolar enquanto se busca abrigo por entre os destroços da civilização na paisagem devastada pelos fogos nucleares.

Abri os selos!



E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê.
E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.
E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê.
E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.
E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão.
E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.
E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.
E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra. 

Apocalipse 6:1-8

Ecce homo


Johnny Cash, When The Man Comes Around. Que apocalipse seria este sem uma pitada de milenarismo religioso?

Todos os domingos


Morrisey, Everyday is like sunday ou apocalipse nuclear para abrir o apetite.

Gritos telúricos


Tom Waits, And The Earth Died Screaming.

Até ao fim do mundo


Cortesia dos U2 e Wim Wenders.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Earth Wars



Geoff Hiscock (2012). Earth Wars: The Battle For Global Resources. Singapura: John Wiley and Sons.

Este livro promete ser uma análise aos desafios à escala planetária trazidos pelo modelo de desenvolvimento capitalista e a necessária finitude dos recursos naturais. Fica-se por uma litania de grandes negócios e análises superficiais aos maiores jogadores das áreas da energia e minérios à escala global.

As imagens que se retiram deste livro é que sim, os recursos são escassos, mas não tanto quanto isso porque estar no pico de uma curva descendente ainda implica um longo caminho até ao fundo, sempre com oportunidades de negócio. O escassear de recursos até é coisa boa, porque aumenta as possibilidades de lucro e incentiva à exploração de zonas remotas do planeta. O ambiente é um empecilho, a sua protecção apenas serve para criar barreiras àqueles que altruísticamente investem na exploração de recursos naturais para dar energia e materiais à indústria para produzir todos os bens de consumo. Que interessam umas florestas ou protecção de ecossistemas face às maravilhas da electrónica de consumo com obsolescência planeada? Excepção seja feita no campo das energias renováveis, onde o gosto pela ecologia se pode traduzir em contratos lucrativos para construção de barragens, parques eólicos ou solares.

E, claro, regimes totalitários corruptos são uma benesse para a humanidade porque os seus líderes estão desejosos de abrir as portas dos seus vastos territórios aos grandes tubarões da exploração dos recursos naturais. Tudo em nome do progresso industrial e financeiro.

A leitura deste livro não é uma perda total de tempo. O catalogar semi-exaustivo de empresas envolvidas na extracção mineira e produção energética, combinado com retratos verosímeis da evolução das necessidades energéticas mundiais trazida pela emergência da China e Índia, junto com outros países de desenvolvimento acelerado combinado com a progressiva decadência da Europa e América do Norte dão-nos um retrato actualizado de um vasto sistema global que se estende das grandes metrópoles planetárias aos locais mais agrestes e isolados com o fim único de lucrar extraindo recursos para transformação em matéria prima ou energia. E é essa a virtude deste livro. Inocentemente, apregoar que acima de tudo, do progresso humano, do ambiente, está o lucro. Mesmo que para se obter mais uns cêntimos se tenha que arrasar um planeta.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Midnight Nation



J Michael Straczynski, Gary Frank (2010). Midnight Nation. Berkeley: Top Cow

Redenção e obtenção da liberdade individual mesmo que a custo do que nos é mais precioso são os grandes temas que balizam este intrigante Midnight Nation. Este périplo de descoberta passa-se num mundo semi-paralelo ao nosso, uma quase realidade habitada por aqueles em que ninguém repara e se esfumam num esquecimento colectivo. Criaturas violentas agem como predadores nos grupos de almas extraviadas que sobrevivem nos espaços levemente dessincronizados com o real. É nesta paisagem que um detective auxiliado por uma misteriosa mulher tem de fazer a viagem da sua vida: um ano na estrada, prazo limite para recuperar a alma e no processo descobrir o real significado do livre arbítrio num mundo polarizado entre forças sobrenaturais.

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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

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Breathe


John Sheridan, Kit Wallis (2008). Breathe. Stevenage: Markosia

O estilo leve e influenciado pelo manga do ilustrador confere algum interesse a este comic. A premissa poderia ser interessante, se o argumentista não a tivesse desenvolvido com o nível de competência de um adolescente semi-letrado a escrever uma composição na escola para um professor entediado. Na China do século XIX a família de uma jovem é assassinada e o percurso de vingança vai revelar os segredos ocultos pela normalidade da vida na aldeia. É um arranque típico para muitas histórias, mas a sucessão desconexa de revelações e situações sem sequência lógica desperdiça qualquer bom princípio narrativo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Hobbit



Três horas fechado dentro da sala de cinema é doloroso. O filme recria fielmente uma história demasiadamente bem conhecida, esticada ao pormenor. Os cenários parecem reciclados da trilogia Senhor dos Aneis, e se calhar são-no. Há que manter os algoritmos de CGI da Weta a trabalhar, e daqui vem possivelmente a única lufada de ar fresco do filme. A iconografia está fiel ao original, ou pelo menos às ilustrações clássicas que se tornaram o marco visual das palavras de Tolkien. A fotografia deslumbra em ambientes fabulosos, cenários fantásticos que enchem o olho com infindos pormenores e um CGI espantoso mas que estranhamente não utiliza fluídos. Neste filme, se cortarem um monstro (e há tantos para decepar, estripar, esfaquear, espadeirar ou outras acções envolvendo lâminas e carne) ele não sangra. Estará Peter Jackson a penitenciar-se dos litros de sangue que eram apanágio de filmes como Braindead?

A imagem de alta resolução a 48fps dá um desconcertante ar hiperreal às cenas e quando há movimento a percepção visual não consegue decidir para onde olhar. Percebe-se a diferença de texturas entre próteses e o rosto do actor pela ausência de poros perfeitamente visíveis em alta resolução, que também não é caridosa com a texturização das criaturas animadas em 3D. A definição exposta no ecrã é implacável com imperfeições naturais ou recriações virtuais cujo realismo induzido não é o suficiente para enganar a percepção visual. Os famigerados 48 fotogramas funcionam muito bem nas paisagens estonteantes da Nova Zelândia, melhoradas pelos efeitos digitais. Aqui o filme parece um longo anúncios de três horas às ilhas dos antípodas, finaciado na esperança que o fim da crise traga turistas às paisagens agrestes dos rochedos dos mares do sul.

A maneira como Peter Jackson usa o 3D estéreoscopico devia vir com um aviso: provoca náuseas. Literalmente. O realizador abusa dos volteios gratuitos de câmara. O estontear deliberado da audiência deve ter sido concebido para conferir mais acção ao filme, mas acaba por ser excessivo. Por vezes eficiente, por vezes capaz de provocar vertigens coerentes com o espírito da obra, mas  na maior parte das vezes aplicado apenas para dar espectacularidade sem grande esforço. Vertigens induzidas por ilusão de óptica. Que hipermoderno. 

O filme está fiel ao texto e à iconografia das ilustrações dos livros. Este é o truque inteligente que Jackson utilizada nesta sua tentativa épica de criar a versão cinematográfica definitiva do universo da terra média. Se esta fidelidade garante que o filme se mantenha firmemente no universo conceptual de Tolkien o diferencial entre narrativa fílmica e narração literária arrasta o filme. Aliás, os filmes, porque há que incluir aqui a trilogia do Senhor dos Anéis, as partes em falta do Hobbit e se calhar o Silmarillion ou os Contos da Terra Média. Confesso que a ideia de ver o Silmarillion adaptado provoca arrepios com a promessa de vastas batalhas a encher o olho, epidemias de poses heróicas e narrações de grandiloquente tédio. Não se fala nisso mas é uma conclusão lógica do trabalho de um realizador que se meteu com a obra de Tolkien. Hobbit, anéis... porquê parar aí?

Não esperem deste filme nada de novo. Fiel à narrativa clássica, recicla o estilismo da iconografia tolkienesca. E é isso que se espera dele. Não traz nada de novo, dá-nos precisamente o que esperamos de uma obra com estética tão marcada. Dá vontade de aconselhar a sacar o filme de uma qualquer torrente mais disponível, e a poupar o caro preço do bilhete e os traseiros doridos pela impossibilidade de colocar um filme em pausa na sala de cinema. Mas não vale a pena resistir. Fãs de fantasia vão eventualmente ver este filme... é um acto de rigueur. Mas preparem-se para três horas enfiados na sala e quando o filme termina a história ainda vai a meio. Para antevisão fica aquilo que é realmente interessante no Hobbit: o trabalho de efeitos especiais, que envolveu cenários virtuais de complexidade invejável, uma atenção espantosa aos detalhes e pormenores curiosos como utilização de realidade aumentada nas filmagens, permitindo ao realizador ver em tempo real o resultado da mistura de imagens reais e compósitas. 

Entretanto, cortesia dos inconscientes colectivos alimentados pelo gosto da cultura popular pela novidade, a Wired publica uma visão muito boa sobre a desilusão que o filme provoca nos espectadores. Resume-se à dissonância entre o tom original de um livro infantil, simples e despretensioso, e o gravitas que Jackson lhe tenta conferir para entrar no tom da trilogia dos anéis. O Hobbit é uma história simples, de peripécias e aventuras. Os anões são intencionalmente cómicos e Gandalf é mais um trapaceiro ilusionista do que o personagem trágico em que se irá tornar. Mas isso não chega para o realizador, que tenta conferir um peso trágico à obra. Os momentos dramáticos são levados ao excesso, as peripécias são levadas ao extremo de batalhas épicas. Outra crítica certeira do artigo prende-se com o sentimento de filme enquanto videojogo. Na verdade, toda a parte da fuga das cavernas dos goblins está filmada como se fosse um jogo de plataformas hiperquinético. E como o filme tem cogumelos podemos sempre pensar num estilismo super mario vs. prince of persia. Mas não consigo deixar de sentir esta referência enviesada pode ser uma piada elaborada, uma metáfora da influência de Tolkien na cultura de jogos. O que realmente faz este filme falhar é a sua tentativa de insuflar drama numa história infantil, que o transforma numa obra oca. 

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domingo, 16 de dezembro de 2012

Great leveler

"Technology will continue to be the great leveler. The future Internet “moguls”—as with today’s Google or Facebook—sit on mountains of data and have more real-time information at their fingertips than most governments. As these mountains of data are used to improve knowledge of human motivations, non state actors such as private companies will be able to influence behavior on as large a scale as state actors." (p. 40)

Global Trends 2030: Alternative Worlds.

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sábado, 15 de dezembro de 2012

Challenge: Accepted


Proposta de trabalho final de um aluno de oitavo ano: modelar um dinossauro. Um T-rex, perguntei. Não, stor, um raptor. São os meus favoritos, disse. Desafio para mim: encontrar uma forma simples de criar um dinossauro realista. Opções: box modeling em Blender, Wings3D, modelação no zModeler ou Vivaty, texturização com o UVMapper. Desafio: aprender e desenvolver técnicas de modelação para depois as poder ensinar ao aluno. Desafio... aceite. Algumas notas: texturizar no UVMapper classic é muito simples, e box modeling no Blender não é assim tão difícil mas dá trabalho (boa parte do qual é orientar-me no interface absurdo do programa). O rascunho do lagarto gigante é da responsabilidade do aluno que o propôs. A mais complexa construção digital começa sempre por rabiscos no papel que ajudam a definir formas e facilitam o trabalho posterior.

Janeiro será um mês interessante. Os alunos vão criar os seus projectos multimédia em 3D. Antevejo muita casa detalhada no Sketchup, programa favorito da maior parte deles. Antevejo experiências de mundos virtuais em VRML criados no Minecraft. E vai ser o mês onde ponho, finalmente, o projecto de realidade aumentada a andar. Até lá, resta-me estudar bem estas questões de modelação. Desafios são sempre bem vindos.

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Comics


Batman #15: A DC parece apostada em destruir a inovação da era 52 e a regressar aos crossovers repetitivos. Tão repetitivos que Batman está reduzido ao rebuscar dos principais arcos de eras anteriores. Desta vez, death in the family cruza-se com plágio descarado ao Arkham Asylum de Grant Morrison e Dave McKean. Torna-se claro que a DC decidiu apostar num público desconhecedor das referências...


Before Watchmen: Dr. Manhattan #03: É uma profunda homenagem ao original de Alan Moore, com um refinamento das ramificações temporais que Moore aflora. J. Michael Straczynski estica os limites do übermensch de Watchmen numa direcção próxima do psicadelismo. Este é um dos poucos títulos das prequelas de Watchmen que está a mostrar potencial.


Before Watchmen: Rorschach #03: O outro título interessante das prequelas que tanto irritam Alan Moore é a redescoberta de Rorschach em tom de policial muito negro por Brian Azzarello. A ilustração a condizer de Lee Bermejo dá a este comic uma personalidade muito própria.


Um primeiro painel absolutamente brilhante para Change, novo título da Image Comics. Mas se a introdução deslumbrou tudo o resto descarrilou.


The Massive #07: O mergulho na hipermodernidade caricaturada por Brian Wood continua. Desta vez os eco-guerreiros do navio Das Kapital mergulham nas intrigas de uma nação flutuante, estado criado a partir de plataformas petrolíferas ocupadas por refugiados das inundações que alagaram a orla costeira do sub-continente indiano. Imaginem sealand escalado ao nível de multiplas plataformas de extracção de petróleo de grandes dimensões com desastres ecológicos e percebem a ideia.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Doença com amplo remédio


A woeful malady affecting all of us seekers of knowledge... but a malady for wich there is ample medicine. O prazer da bibliofilia em Frankenstein Alive Alive, escrito por Steve Niles e soberbamente ilustrado por Berni Wrightson, que revisita o mito do Prometeu moderno anos após a sua fabulosa série de ilustrações.

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Mariazinha, com diploma

Apanhei esta pérola do capitalismo desregrado no facebook. Humor negro à parte, confesso que senti uma forte revulsão ao ler este anúncio. Tropelias às leis laborais à parte, o que está aqui expresso é a ideia de que as novas mariazinhas importadas das berças para prestar serviços de submissa serviçalidade têm de ter curso superior. Porque para quem pode nada como ter uma professora licenciada por uma instituição de ensino superior para tomar conta das crianças. Este é mais um pequeno sinal do resvalar social em que vivemos. Há gente para quem o professor é mais um empregado. Se fosse para tratar de idosos se calhar exigiria médicos especializados. Afinal, para gente de bem todos os outros são apenas meros humanos de segunda. Ralé apropriada apenas para cumprir servilmente imposições a troco de ordenados reduzidos e dos quais se espera fidelidade e agradecimentos desvelados perante a generosidade das migalhas atiradas, uma vez que não são merecedores da generosidade de partilhar de tão gentis ambientes. É toda uma mentalidade de um punhado de gente de bem, meritória, rodeada por um imenso maralhal de povoléu desmerecedor da mais elementar generosidade que volta a vir ao de cima neste portugal em crise provocada por uma elite que visa manter os seus privilégios, lucrar o mais possível à custa de todos e empobrecer o país, empobrecer porque é na pobreza humilde que está a virtude. Palavras que geralmente são proferidas por quem não é pobre, note-se. Portugal está a tornar-se numa imensa coutada de caça onde uma reduzida oligarquia toma tudo de assalto, descaradamente, sem qualquer pejo e ainda justificando as suas acções predatórias com o bem da nação. Pouco falta para o regresso aos velhos tempos do estado novo.



Não resisto a citar o anúncio de emprego, que é particularmente ofensivo para qualquer professor: "URGENTE Precisa-se 1 Professora do 1º ciclo, para 5 crianças de 6 anos, e será para trabalhar das 17,00 até as 21,30 de segunda a sexta (com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha), e das 09,00 as 21,30 ao sabado, domingo e feriados, para casa particular na Ericeira. Nas férias escolares é para trabalhar das 09,00 as 21,30 de segunda a sexta e com direito a uma folga sómente durante a semana, a escolha. Bom salario e com possibilidade de fazer horas extras para alem do horario. Função a desempenhar sera a de dar apoio nos trabalhos de casa, desenhar, pintar, ler, escrever, ajudar trabalhos escola, ensinar jogos didacticos,brincar com elas, bem como em tudo que se relacione com a higiene das crianças, etc. Exige-se a pessoa que for admitida, pontualidade e assuididade bem como que seja séria, limpa, educada, ter gosto por crianças, e ter capacidade de trabalhar com as outras empregadas da casa. Aos fins-de-semana, feriados, e férias escolares, damos tambem almoço. Disponibilidade para viajar em passeios quando forem as férias escolares. As candidatas selecionadas exige-se Referencias, bem como Registo Criminal (limpo)."


Portanto, alguém com dinheiro a sobrar e paciência para aturar os filhos a faltar quer uma menina licenciada que lhe tome conta dos petizes desde o momento que chegam da escola (colégio, mais provavelmente) até à hora de deitar. Férias e fins de semana são jornadas de sol a sol, a ultrapassar o horário legal de trabalho. Ainda oferece possibilidade de fazer horas extra. Possibilidade que possivelmente é obrigatoriedade. As funções a desempenhar são aquelas da estrita competência de uma docente, como alimentar e dar banho às crianças. Pois, porque é para isso que servem professoras. Note-se também a flexibilidade no trato com outras empregadas. Esta generosa oferta ainda dá a possibilidade de escolha de um dia de folga semanal, desde que não calhe ao fim de semana, feriado ou férias escolares. Talvez haja a possibilidade de horas extra a fazer serviços horizontais ao patrão, se a candidata for jeitosa, e como é na Ericeira a vista tranquila de mar é garantida.

No antigo Portugal, que está de regresso em força, era costume meninas do campo serem enviadas para casas de boas famílias para trabalhar como empregadas domésticas a troco de tostões. A escolaridade era um empecilho e exigia-se delas servilidade total e disponibilidade a toda a hora para todo o serviço. Até animar sexualmente as noites do patrão ou dos filhos. As marias de hoje já têm de vir com um canudo universitário. Sinais de progresso, escrevo amargamente?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

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Freaks Circus



Serge Mas (2009). Freaks Circus.

Dois conceitos que nunca pensei vir a usar na mesma frase: space opera steampunk. Visões oníricas de um passado industrial que nunca existiu e panoramas futuros de expansão galáctica parecem elementos incompatíveis, mas a virtude deste Freaks Circus é mostrar que no mundo da ficção não há incompatibilidades conceptuais, apenas boas construções de mundos ficcionais ou tentativas falhadas. Serge Mas ilustra uma história pouco coerente com elementos iconográficos da belle époque misturados com cinematografia clássica. Para além da homenagem a Freaks de Todd Browning notam-se influências directas de Metropolis, Meliès e pintura orientalista do século XIX. Nesta bande dessinée os homens-monstro deformados do circo convivem com andróides similares a Maria. Até os aguerridos selenitas de Voyage dans la Lune dão o seu sangrento pézinho de lança. Os adereços decalcados a Júlio Verne ajudam a criar um ambiente de ucronia, num tempo que mistura o futuro espacial com o passado da viragem de século, onde canhões colocam cápsulas no espaço e a sociedade se estabelece por linhas vitorianas.

A narrativa é pouco fluída, cheia de sobressaltos inexplicados e não muito coerente. Acompanhamos um circo de aberrações que ajuda uma rapariga a reencontrar o seu pai. A história da triste órfã perseguida por uma madrasta implacável acaba por se revelar um embuste e as aberrações acabam prisioneiras numa sinistra estação espacial. Se a história não é particularmente bem conseguida, a iconografia do mundo ficcional desta banda desenhada é-o e vai agradar aos iconoclastas capazes de destrinçar as inúmeras influências clássicas. Freaks Circus pode ser lido online.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

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Vida Virtual


Até que ponto o uso da internet se entrosou nas nossas vidas? Nem reparamos, já não nos lembramos de um tempo em que a rapidez e conveniência no que apelidamos acesso à informação mas na realidade se tornou uma espécie de segunda vida, um enorme cérebro portátil onde sabemos que podemos encontrar aqueles pedaços de informação de que necessitamos. Essa habituação fica patente nas respostas de alunos de nono ano aos quais perguntei como imaginariam a vida na internet. As visões são intrigantes. Espelham a cultura contemporânea e visões de futuro que respiram utopias com um toque de cautela humanista. Não editei as respostas, mantendo os erros ortográficos.

"Um mundo que podemos viver na Internet seria ótimo. Imaginemos que estou atrasado para uma reunião que eu tenha de dar um trabalho, se viver num mundo da Internet basta colocar na testa por exemplo um fio ou mesmo ter uns óculos onde poderíamos ver tudo que um computador tem e enviarmos o trabalho. Modo de vida, isto é, eu levantava-me e bastava colocar os óculos e pensar no que queria e dava para ver através das prateleiras ou paredes ... Comunicávamos com as pessoas sem telemóvel e clicávamos num botão e a pessoa com quem estávamos a falar via o que mostrava." Quase me atrevo a perguntar... nesta utopia de conveniência, ainda precisaremos de corpo?

"podiamos fazer de tudo. podiamos atraves de um computador mudar uma cama para outro sitio so com o rato do computador. Comprar objectos e eles virem diretamente ter a minha casa no proprio momento da compra" O frasear é pueril, mas é este o princípio por detrás do e-comércio.

"A internet podera estar em todo o lado nas paragens de autocarro nos cafes e em tudo." Ubiquidade de conectividade. O futuro digital não pode ter zonas escuras.

"o mundo ficara muito dependende da internet, um exemplo é que para ligarmonos á internet temos de ter energia no cumputador e se a energia faltar o mundo ficará "á noura" o que sera um ponto negativo" Bom ponto de vista, a recordar que as mais elegantes tecnologias dependem de energia. A curta Lost Memories mostra o que poderá acontecer num futuro próximo em que as nossas memórias estão guardadas numa nuvem que pode desaparecer no éter electromagnético.

"Viver na Internet é um progresso tecnológico acelerado e é transcender o corpo através de próteses cibernéticas e digitalização da mente." Ou, como diria Kurzweil, a singularidade está próxima.

"Com o os dispositivos de interface cerebrais ou até com os óculos de realidade aumentada a internet poderá acompanhar-nos para todo o lado,como um mundo virtual á nossa volta que podemos controlar e navegar."

"Se vivesse-mos no mundo da Internet seria um mundo digital, podíamos viajar onde quisesse-mos como para um computador no outro lado do mundo. Se por acaso nos morresse-mos voltava-mos a ter vidas e mais vidas, logo era-mos imortais. Criava-mo-nos como quisesse-mos, e podia-mos alterar-nos sempre que quisesse-mos. Seria uma vida na qual não tinha interesse nenhum nem havia sentimentos para qual conseguisse-mos rir, chorar e todos os outros sentimentos." Uma visão interessante, que aponta para preocupações de despersonalização e desumanização trazidas pelo digital.

"nesse mundo podemos estar em vários sitios ao mesmo tempo, dar abraços e beijos atravez de uma camara 3D na internet. ia dizer que poderiamos fazer os testes pela internet, mas isso não é o futuro é o presente." Pois, porque o professor está sobrecarregado e não está para andar a acartar com quilos de papel.

"No futuro, acredito que o ser humano, poderá viver num mundo virtual e real ao mesmo tempo. Por exemplo: no real tem a sua família e os seus amigos, e no virtual o seu momento de lazer: jogos, vídeos, filmes...em que o ser humano vai entrar nestes. Eu diria, que não estamos muito longe dessa realidade. Hoje em dia, o tele-trabalho é cada vez mais adoptado, e para isso em muito contribuiu a evolução da internet. Também já é possível ter formação, e mesmo educação superior, através da internet, processo a que se dá o nome de eLearning. De igual modo, hoje já é possível comprar praticamente qualquer coisa (de comida a roupa, passando por livros ou mesmo carros) através da internet. As relações virtuais, através das redes sociais, estão também cada vez mais na moda. Algumas empresas de serviços apostam também cada vez mais nesta realidade, nomeadamente os bancos, as seguradoras, e as empresas de telecomunicações. No nosso dia a dia, cada vez mais dispositivos estão ligados à internet, nomeadamente os telemóveis e as televisões, permitindo-nos estar praticamente sempre ligados, e usufruir de todos os serviços que referi." Convergências, tendências, o que está para vir no fundo já hoje está a ser desenvolvido e aplicado. O futuro existe, está é desigualmente distribuído, como observou William Gibson.

"Na Internet, o tipo de pessoas e um bocado parecido com o mundo real, a pessoas falsas, há pessoas que se queixam de tudo, etc....os mundos seriam muito confusos,misteriosos e perigosos.O modo de vida,cada vida e inventada para cada um,para mim acho que seria o mesmo." Porque no fundo somos humanos. Por muito que as próteses tecnológicas o disfarcem, as pulsões que nos movem são as mesmas que nos caracterizaram nas savanas africanas há milénios atrás.

"Imaginando a vida de um aluno daqui a 20 anos... Depois de acordar e tomar banho, olha para o relógio computador e compra o que quer para o pequeno almoço na internet. Não precisa de sair de casa para ir para as aulas porque a escola funciona online (os testes, as aulas). As informações não serão recolhidas numa biblioteca mas totalmente na internet. As apresentações de trabalhos serão feitas por vídeo conferência e a turma pode não ser composta apenas por pessoas da zona onde ele vive mas por gente de todo o mundo (graças ao tradutores simultâneos na internet). Vai jogar na internet, sem ser necessário sair de casa, vai conversar com os amigos na internet e estar permanentemente em rede. Vai jantar ao pé dos pais mas conversar com eles ligado em rede. A sociedade vai acabar por se isolar mais (até podemos conhecer mais gente mas interagimos menos ao vivo com elas). fechar ou abrir portas vai ser tarefa fácil usando o computador. O mundo como o conhecemos vai passar a ser verdadeiramente global: a internet alarga horizontes, uma vez que elimina fronteiras. Vamos estar rodeados e ser comandados por máquinas, que nos vão roubar empregos e também privacidade, em favor da comodidade." Conveniências, mas também sociedade panopticon e transformações económicas. Já hoje as sentimos, sempre que uma câmara de videovigilância nos contempla ou um posto de trabalho é substituído por automação.

"No mundo em que vivemos estamos perante uma aldeia global pois tudo o que se passa em qualquer parte da terra é possivel ser vista em tempo real em todo o lado. Desta forma se fosse possivel vicermos na internet formar-se -ia (tal como está a acontecer) uma identidade e cultura universal que iria juntar toda a diversidade de todo o planeta, juntando as diferentes formas de pensar e as tradições." A aldeia global de McLuhan, electrizada pelos bits que correm a velocidades sub-lumínicas nos intensos emaranhados de cabos que cobrem o planeta. À velocidade da luz as ideias locais tornam-se globais.

"Num universo paralelo, onde a internet seria a nossa fonte de energia vital e seriamos feitos de dados, o mundo seria assim: nunca chegariamos atrasados a lugares alguns pois teriamos um meio de teletransporte; poderiamos estar em vários sitios ao mesmo tempo; podiamos aceder ás redes sociais atraves da mente; nunca nos magoariamos; nunca sentiamos sede, fome, frio ou cansaço; não teriamos de vir ás aulas aprender coisas inuteis, bastaria por uns óculos ou algo que nos faça entender tudo metalmente e rapidamente; a paisagem seria sobrenatural com predios surreais, estradas e iphones que transmitiam hologramas á velocidade da luz." Utopias aguardam-nos ao virar da esquina.

"Tenho uma imaginação muito reduzida mas era giro stor, não era? Viver no FarmVile do facebook ahahah." Ah! O horror! O horror! Uma vida virtual entre o estrume digital. O horror!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Interzone #243



Era difícil ultrapassar a edição anterior, ancorada num grande nome da ficção científica contemporânea. Mas a edição número 243 da Interzone mantém a solidez ficcional e reserva-nos algumas boas surpresas.

O mote de arranque é dado com Moon Drome, onde Jon Wallace revisita as bases da space opera com um conto sobre escravatura, ganância e libertação passado nas amplas vistas de um universo assediado por uma ameaça alienígena secretiva e violenta. Acenos são dados a Spartacus, com uma sociedade futura moldada nos piores vícios do império romano e nomes romanizados dos personagens.

A grande surpresa desta edição é o conto The Flower of Shazui de Chen Qiufan, muito bem traduzido por Ken Liu. Escrevo bem traduzido não por possibilidade de comparação com o chinês original mas porque a leitura fluída da tradução deixou-me agarrado a esta história que mistura a modernidade chinesa discretamente projectada para um futuro próximo com saberes tradicionais aprimorados com tecnologia, realidade aumentada como forma de expressão individual e a colisão entre desejos básicos do ser humano e tecnologias de vigilância e controle remoto.

Outra boa surpresa foi The Philosophy of Ships, onde Caroline M. Yoachim nos mergulha num sólido futuro ficcional em que a humanidade se espalhou pelo sistema solar e no processo se tornou pós-humana, quase imortal e com uma vasta gama de possibilidades de vida corporal ou como entidade puramente digital. A excepção está no poço gravitacional terrestre, habitada por uma humanidade 1.0. A morte acidental de uma destas humanas numa viagem de ski de um casal pós-humano em férias nas vastidões geladas do norte canadiano é o mote para uma reflexão sobre tecnologias pós-humanistas e o significado do corpo enquanto elemento de se sentir ser humano. Soa familiar? Pois soa, recorda logo a série Schismatrix de Bruce Sterling ou o Accelerando de Stross. Honestamente creio que soa muito bem, anda por aí pouca ficção sobre futuros pós-humanos energizados por tecnologias avançadas que se sobreponham aos mais entediantes raciocínios com validade científica duvidosa dos singularitários. E se estiver enganado, sintam-se livres para me contrariar com sugestões de leitura.

Priya Sharma assinou um conto singular na edição anterior da Interzone mas neste Lady Dragon and the Netsuke Carver não se percebe o porquê de fazer parte de uma publicação dedicada à ficção científica. Talvez funcione como ficção de romance fantástico, com toques muito subtis de realidade alternativa (tão subtis que mal se dá por eles). Este conto sobre uma implacável samurai que se apaixona por um escultor de miniaturas tem mais ar de Harlequin do que de Interzone. Ainda esperei por uma revira-volta final, tal como já o havia feito em Needlepoint (Interzone #241), mas nem isso. O conto não tem falhas literárias, mas... falta-lhe qualquer coisa para estar bem integrado na revista... como elementos de ficção científica ou especulativa enquanto cerne narrativo.

Para encerrar, Mirrorblink de Jason Sanford leva-nos a uma distopia cósmica cósmica informacional que mergulha a Terra no interior da fotosfera solar para a salvar da destruição. Uma espécie alienígena de vida baseada em informação conhecida como observadores espalha-se pelo universo eliminando sistematicamente vida que consideram ser erros de código. Dissenções entre as entidades cósmicas salvam o planeta, mas com um preço elevado: o regresso ao feudalismo, o isolamento das populações, a eliminação pelo fogo de focos de conhecimento científico. Fica nas mãos de uma viajante contaminada pelos ideais de um observador dissidente a restauração do progresso tecnológico, o regresso da espécie humana ao processo evolutivo e a devolução do planeta à orbita correcta. O problema ético do observador dissidente é uma questão de obsolescência de informação, uma vez que sabe não ser mais do que uma iteração de programas informacionais espalhados pela galáxia cujas premissas operativas se poderão ter modificado há muito tempo atrás. e repetir o que sempre se fez sem o questionar é um erro.

Confesso que um dos pontos que me leva a regressar fielmente a esta revista é a crítica, sempre disposta a sugerir ou a demolir o cinema dos géneros do fantástico, a mostrar novidades literárias e com duas páginas onde David Langford deixa curtas linhas sobre o mundo da FC. Novamente, esta edição não desilude, com uma particularmente sólida crítica aos filmes de ficção científica e fantástico do final deste ano de 2012.

domingo, 9 de dezembro de 2012

True devotion


"He renounced all his previous anger and ambivalence and desire for answers. He was grateful for all the pain he’d endured, contrite for not previously recognizing it as the gift it was, euphoric that he was now being granted this insight into his true purpose. He understood how life was an undeserved bounty, how even the most virtuous were not worthy of the glories of the mortal plane.
For him the mystery was solved, because he understood that everything in life is love, even pain, especially pain.
So minutes later, when Neil finally bled to death, he was truly worthy of salvation.
And God sent him to Hell anyway."

"He tells people that they can no more expect justice in the afterlife than in the mortal plane, but he doesn’t do this to dissuade them from worshiping God; on the contrary, he encourages them to do so. What he insists on is that they not love God under a misapprehension, that if they wish to love God, they be prepared to do so no matter what His intentions. God is not just, God is not kind, God is not merciful, and understanding that is essential to true devotion."

Ted Chiang, Hell is the Absence of God.



Mastered men


Arquivar em capas WTF. Superboy com ar orgásmico a aniquilar Brainiac com um raio branco saído de uma arma fálica, para horror dos restantes super-heróis. Título: the gun that mastered men. Não consigo perceber se isto é profundamente homofóbico ou representa algum recalcamento traumático. O Superboy parece estar a gostar.

arco_íris_bent


Engenho aritmético

Hoje é o dia de fingir que se é viajante no tempo e o Geekdad tem uma série de sugestões engraçadas, deliciosamente geekys. Como utilizar construções frásicas anormais ou ter ataques de pânico em frente a automóveis ou fornos microondas, essas tecnologias incompreensíveis. Também é um bom dia para desempoeirar os fatos steampunk.

E eu, preso ao computador a ultimar as avaliações dos meus duzentos e vinte alunos espalhados por nove turmas só consigo resmungar. Recordo as frases memoráveis do livro A Família Em Rede quando Papert se interroga sobre o que pensaria um cirurgião do século XIX caso entrasse numa sala de operações do século XX. Seria capaz de pegar num escalpe e operar um paciente? Já quanto a um professor do século XIX? Colocado numa sala de aula do século XX, seria capaz de dar aulas e ensinar alunos? Por isso, fiel ao espírito do dia, vou-me imaginar professor transplantado de um qualquer liceu central de mil e novecentos maravilhado com esta coisa com páginas que mexem a cores e botõezinhos que evitem que suje os dedos com o mergulhar do aparo no tinteiro. E parece que já não tenho que manuscrever as avaliações numéricas e descritivas naquelas folhas enormes em que um erro ou pequeno borrão de tinta obrigam a reescrever de novo. E até me disseram que de uma forma que parece de magia este objecto, chamam-lhe cômputo, cômputador? Não sei se gosto deste nome, recorda-me as mulheres levianas que exercem o seu métier nas esquinas e ruelas de Alfama, mas dizem-me que tem uns mecanismos muito muito pequeninos que fazem cálculos muito, muito depressa... porque não lhe chamaram máquina aritmética, ó incultas gerações futuras? Dizem que não tem mecanismo de relógio, balancetes e rodas dentadas cá dentro mas eu não acredito. Isto tem que ter qualquer coisa do engenho mecânico. Mas tergiverso, estava a pensar naquele milagre de escrever tudo o que for preciso em muitas folhinhas porque dizem-me que basta ligar este cômputo a um objecto chamado impressora, que parece que faria a inveja do senhor Gutenberg. Se bem que fico apoquentado por meter este objecto frágil ao pé de uma prensa tipográfica, com todas aquelas placas, roldanas e vapores, mas enfim, dizem-me que até isso mudou! Acho que só não posso é dar um sopapo bem aplicado naqueles alunos mais preguiçosos. De resto é tudo igual. O trabalho apela-me e terei de ir matar o bicho com um copo de três ali na tasca da esquina, e depois passar pela pharmácia buscar uma tintura que me dê energia para as próximas horas. Mas agora voltemos lá às tabelinhas com nomes dos meninos. E meninas. E meninas? Que pouca vergonhice foi esta?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Espírito Crítico


Traduzir, imprimir e colar na sala de aula? Via BoingBoing.

Comics


Dial H #7: Não se metam com o poder do colectivo do plankton. Ou como China Miéville continua a assinar o comic mainstream mais surreal do momento.


Great Pacific: A premissa é muito intrigante, a execução nem por isso. O rico herdeiro de uma fortuna petrolífera desvia os dinheiros do petróleo para um projecto pessoal: colonizar e declarar como nação independente uma gigantesca lixeira flutuante no oceano pacífico. Começou bem, com um toque de futuro distópico, critica às opções energéticas mundiais e dependência do petróleo. Mas ficou-se por polvos gigantes e indígenas exóticos.


Hellboy in Hell #01: Honestamente pensava que Mike Mignola tinha morto definitivamente o seu icónico Hellboy para se dedicar a coordenar o pouco interessante B.P.R.D. e a escrever o prometedor Baltimore. Hellboy já começava a sofrer de excesso de exposição e percebia-se um fim digno. Mas as tentações do mercado são demasiado fortes, provavelmente... e o diabo bondoso com mão de pedra está de regresso numa série escrita e ilustrada por Mignola.


Lot 13 #02: Steve Niles não corre riscos na sua estreia na DC e dá-nos um comic previsível, perfeitamente dentro do enquadramento tradicional da história de assombrações com toque gore. Torna-se interessante pela galeria fantasmagórica invocada por Niles e pelo traço realista de Glen Fabry.


Stormwatch #15: Peter Milligan tem um conceito invejável para trabalhar, herdado de Warren Ellis. Depois de um arranque interessante decidiu manter-se na fórmula super-lutas entre super-amigos que são super-engandos pelos super-vilões que são os seus super-inimigos. Pelo menos os diálogos têm espírito. Certo, é um bocadinho mais complicado do que isso, envolve uma conspiração em que os criadores da organização a tentam aniquilar, mas a fórmula é batida. Este é um sentimento que me desperta todo o alinhamento '52, lançado com grande fanfarra mas que depressa perdeu vapor e regressou aos padrões esperados do género, apesar de surpresas como um Joker hiperviolento, as bizarrias de Frankenstein Agent of S.H.A.D.E. ou o Super-Homem a ter uma ajudinha de Neil deGrasse Tyson para contemplar a luz de Krypton.

E, para terminar, um comentário ao afastamento de Karen Berger como editora da DC Vertigo que encontrei no Leituras de BD. Nuno Amado lamenta este afastamento, recordando que Berger foi a responsável pelos títulos mais marcantes dos comics da actualidade (e se bem me recordo, Berger é a culpada pelo Sandman de Gaiman, entre outras obras-primas), apontando a decadência da chancela provocada essencialmente pela cupidez da DC, apostada em fazer dinheiro à custa dos cridadores. Verdade seja dita que a Vertigo tem andado a dar sinais de estar moribunda. Alguns dos seus mais interessantes títulos foram cancelados (Air, iZombie) e aquilo parece manter-se à custa de ideias repetidas, mantidas até à exaustão, com o medíocre Fables a sobreviver pela sexualização dos contos de fadas, o inano American Vampire a escorrer-se num tédio crescente, e The Unwritten  a andar em círculos, cada vez mais longe do brilhantismo original mas insuflado pelas origens como comentário meta-ficcional. Outros títulos, como Dominique Laveau Voodoo Child ou Saucer Country, arrancam promissores mas ficam bem aquém de onde poderiam chegar. Amado observa que editoras como a Dynamite ou a Image é que irão beneficiar com esta machadada na Vertigo, e dou-lhe razão. A Dynamite tem evoluído em qualidade, com Flash Gordon: Zeitgeist a mostrar que pode ir muito longe, e a Image tem apostado em mini-séries fortemente inventivas (olhemos para Manhatthan Projects ou Fatale) com o potencial de se tornarem novos clássicos de um género que já mostrou que o tradicional herói de vestes justas se tornou um arcaísmo comercial.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ilusões deístas


Sim, muito metaficcional. A versão Marvel Comics de Thor, deus da mitologia nórdica, a ler a Desilusão de Deus de Richard Dawkins. Parte de uma capa que francamente não sei se é real ou falsa, com os Vingadores clássicos a receber prendas de natal irónicas. Provavelmente falsa, já que as referências pop são contemporâneas mas o estilo replica comics cómicos da Marvel dos anos 70. Ok, comics cómicos é um exagero, porque eram muito mauzinhos. Se não acreditam googlem Not Brand Echh. A imagem foi apanhada no Whitechapel.


An extension of our central nervous system

Como poderá ser um computador no futuro? A pergunta era deliberadamente simples e aberta, não dirigida e com múltiplas possibilidades de resposta. Estava baseada em conceitos de design fiction ou demos de novos conceitos mostrados na sala de aula. Mas também esperava que se reflectisse o resultado do crescer rodeado de tecnologia em constante evolução, do constante bombardeamento mediático com novas maravilhas digitais que brilham na sua obsolescência planeada. As gerações mais recentes já não se recordam de um ambiente ao seu redor sem computadores. Quer em casa, na escola, nos espaços do dia a dia, nas ficções da cultura popular, o computador é omnipresente mesmo para aqueles que por razões económicas não lhe têm acesso como objecto pessoal do seu dia a dia. Mais do que visões sobre futuros dos engenhos de cálculo que virtualizaram a sociedade planetária, estas respostas são retratos de como estes alunos do ensino básico concebem aquele que é o utensílio essencial para a vida contemporânea no dealbar do século XXI.

Seguem-se algumas das respostas, não editadas:

"Computadores robots , que por exemplo façam o que nós mandamos."

"no futuro o computador poderá ser mais pequeno do que um tablet (desde que os computadores existem quando se inventa outro a tendência é o tamanho diminuir); poderá ser um computador com acesso a tudo mais rapidamente."

"A forma que um computador pode ter no futuro são várias as opiniões de cada um pois ainda é uma pergunta sem resposta apenas opiniões. A minha opinião é que um computador no futuro esteja mesmo ligado ao nosso cérebro como os Neuronais, que exista lentes digitais, que apenas seja o nosso toque ou o nosso estar corporal chegue para o computador perceber o que queremos até mesmo o nosso pensamento pode chegar. O design do computador poderá ser mais pequeno, pois seria mais fácil trabalhar.Ecrãs dobráveis, carregamento sem fios, computadores enrolados ..."

"o computador no futuro, poderá ser um sistema que se interliga com o nosso cérebro, ou seja, envia o que queremos fazer, como exemplo ir a internet pesquisar algo, ou entao também poderá uma espécie de óculos que podemos "fazer tudo" o que queremos, ate mesmo mandar mensagem para alguém ou ate mesmo ver a metereologia."

"O computador no futuro poderá vir a ser um modo de vida!!!"

"Um computador no futuro, poderá estár nos nossos frigorificos, nas nossas camas, na nossa própria roupa nas nossas paredes nos nossos carros e poderá ser tatil e dobravel sem precisar de rede eletrica." Ideia interessante. Espelha aqueles projectos do MIT no campo dos interfaces fluídos.

Ubiquidade, variedade de formas, elemento indispensável ao dia a dia, progressiva interligação entre a pessoa e os seus equipamentos digitais. Longe vão os tempos das máquinas de secretária nestes futuros imaginados.

"Um computador no futuro podera ser um ipad, um computador que se transforma e m ipad e muitas outras coisas." Certo, já se percebeu o desejo natalício.


"Tendo em conta a criação do primeiro computador, desde o início que os computadores têm vindo a evoluir. Os primeiros computadores eram demasiado grandes para o seu desempenho mas já se começavam a entender algumas ideias de evolução e programação nas máquinas.
Com estudos, projetos e experiências os computadores têm vindo a ficar mais rápidos , com melhor desempenho e com uma melhor apresentação .O que significa que hoje em dia já podemos encontrar computadores com uma elevada interface gráfica para o utilizador . Como por exemplo a criação de computadores com interface tátil e gestual . Por isso no futuro os computadores poderão vir a pensar/processar melhor ou igual a um ser humano ." Melhor que um ser humano? O velho sonho da inteligência artificial, sempre adiado mas com derivações cujas aplicações quase parecem magia. Sonhos sublimes de máquinas que pensam.

"tendo em conta o avanço da tecnologia  tudo é possível talvez com mais teclas, mais funções,mais informação disponível,mais hiperligações e mais avançado em estado de memória e programas mais avançados." Ao ler isto veio-me à mente um pesadelo de FC de série B ou aquelas imagens de computadores dos primórdios da era digital, com salas cheias de máquinas com botões para carregar. Mas a visão é válida e aponta para o reconhecimento do aumento progressivo do que se pode fazer com dispositivos computacionais.

"No futuro os computadores poderão ser óculos de realidade aumentada,onde poderemos estar sempre acompanhados de internet,ou de aplicações através do olhar e dispositivos de interface cerebrais,onde poderemos ir á internet  com  a nossa mente. Um computador no futuro poderá ser visto por uns óculos, esses óculos permitem-nos não nos esquecer-mos das coisas do dia a dia como compromissos, tachos ao lume, temperatura e muitas outras coisas." Claramente, houve aqui inspiração dos conceitos de óculos de realidade aumentada como o Google Glasses. Interessante o pormenor dos tachos ao lume. Nenhum bife ficará carbonizado ou arroz colado ao tacho no admirável mundo novo digital!

"a tecnologia por mais simples que seja está sempre presente na nossa vida, já não conseguiríamos viver sem ela. No futuro o computador será aplicado em tudo  (a ler um simples livro). Quem sabe se não passamos a ter aulas num computador seria mais motivante para os alunos." Obrigadinho pela parte que me toca, pensa o professor... mas nota-se o instalar da noção de ubiquidade digital na mente das crianças. Vida antes do computador? Seria possível? E também, robots coreanos que colocam os professores em telepresença.

"No futuro, os computadores serão uns óculos em que, para fazermos, uma pesquisa, ver um filme, jogar um jogo...basta pensarmos no que queremos fazer, porque os óculos terão um leitor de mentes. E no futuro as pessoas serão muito calmas, têm de ter um pensamento de cada vez, porque se não «bloqueiam» o computador." Regresso aos óculos de RA. Com o pormenor da leitura de mentes (aqui há as influências das tecnologias assistivas de interface cérebro-máquina) que sublinha um possível problema de um equipamento controlado por pensamentos... há que pensar de acordo com a máquina.

"o computador do futuro poderá ser implantado no nosso cérebro  e com base em ideias do mesmo e a informação será processado por ele em que executávamos todas as nossas ordens via pensamentos cerebrais,e também que nos iria dizer como estamos bem psicologicamente, socialmente, fisicamente,e iria ser tudo executado em milésimas de segundo." Uma ideia profundamente singularitária: convergência entre o real e o virtual. Transcendência humana através do computador. We are borgs, we were assimilated a long time ago.

"Um computador no futuro poderá funcionar pela voz, ser mais inteligente que todos os outros ja criados, poderá ter de tudo em relação a programas, ligações e tudo mais, podera nao ter rato e teclado sendo apenas uma progeção numa mesa que consegue perceber o que a pessoa quer simplesmente aproximando a mão da zona do rato por exemplo." Alguém disse... kinect?

"Nos últimos anos tem-se assistido a uma enorme transformação nos computadores e devemos esperar uma evolução semelhante nos próximos tempos - ou ainda mais rápida. Um dos próximos passos deve ser tornar comum os ecrãs tácteis (que já existem em algumas marcas). Depois, antecipam-se ecrãs dobráveis, por exemplo. Está também a ser desenvolvido  o Nexstep, um computador que se assemelha a um relógio de pulso e quem sabe o computador do futuro não pode estar integrado nuns óculos ou sob qualquer outra forma até dentro do nosso corpo. É certo que dentro de pouco tempo os computadores vão tornar-se objetos mais moldáveis e cada vez mais pequenos (parecidos aos smartphones), os teclados e os ratos vão ser desnecessários e tudo vai ser feito sem fios." Boa resposta. Similar a tantas reportagens recheadas de gadgets brilhantes, milagres tecnológicos simbolizados como objectos de desejo.

"No futuro, o computador, poderá deixar de ser como nós estamos o abituados a ver.
Podemos passar a viver em mundos virtuais e de realidade aumentada, com dispositivos inseridos nos nossos óculos ou em tudo o que nos rodeia. O computador poderá deixar de ser uma máquina esterior e pasar a ser parte de nós com dispositivos inseridos no nosso corpo." Qual a natureza da realidade? Já seremos isto, agregados de bits a imaginar que estamos conscientes mas na verdade a habitar uma simulação bem programada?

"O computador no futuro será um aparelho indispensável à comunicação e mesmo a vida, pois como precisamos dele em todo o lado eu penso que irá ser um tipo de vidro, fino e leve para poder ser mais prático e inteligente." Novamente, o sublinhar da ideia do computador como objecto de extrema necessidade.

"Não sei bem como será um computador do futuro pois não vivo nele, mas se eu tivesse de escolher o computador das próximas gerações seriam: umas lentes de contacto muito fashion, onde podiamos ver tudo o que está nos nossos ecrãs dos pcs, através de hologramas; umas unhas postiças que nos permitiam interagir com os hologramas e as nossas atuais pens da net seriam uns brincos que mudavam de cor consoante os Gs." A resposta mais divertida que recebi. Faz recordar conceitos de design dos anos 90 do século XX. Alguém se recorda dos wearable computers?

"O cOmputador no futuro será por interfaces cerebais e oculos de realidade aumentada.
Além de ser 500 vezes mais rapido que nos dias de hoje, vao responder a um comando de voz ou seja ja nao presisaremos de escrever apenas falar, será também muito  flexivel tanto que se pode dubrar e ser guardado onde quizermos. Será o maximo criativo." Certo, há por aqui uma certa falta daquele corrector ortográfico cerebral que se treina com leituras. Apesar disto, resume muito bem grande parte dos conceitos que abordámos na sala de aula.

"Para mim um computador no futuro poderá ter a forma de um micro chip que pode ser transportado conosco em qualquer lugar, ou mesmo ser implantado no nosso corpo." Não cheguei a falar aos alunos de Kevin Warwick, investigador britânico que ficou famoso por implantar sensores no corpo nos anos 90, talvez o primeiro exemplo de cyborg.

"O computador no futuro vai ser como um cerebro humano," Isto escreve inocentemente o meu aluno. Recordo the computer: an extention of the human intellect do clássico filme Tron, uma frase com profunda inspiração em Marshall McLuhan, cujas teorias sobre tecnologias como extensão dos sentidos ecoam nesta sociedade contemporânea tecno-dependente, tecno-luxuriante e tecno-fetishista. The computer is the most extraordinary of man's technological clothing; it's an extension of our central nervous system, escreveu McLuhan em Understanding Media. Warren Ellis usa a expressão external brain para caracterizar o rebanho de gadgets que usa no seu dia a dia. Porque é neles, nos tablets, e-readers, computadores, cloud servers, telemóveis, que guardamos os pedaços de informação que têm significado para nós.

É um retrato. Opiniões recolhidas a alunos do ensino básico. Nativos digitais por inerência, mas com dificuldade em navegar os labirintos da era digital. Influenciados por visões cinematográficas, pelo que vêem no televisor e no ecrã de jogo. Habituados a utilizar o computador para brincar e consumir informação, utentes exímios de redes sociais. Tumblr e ask.fm são os novos facebooks, reparo ao observar a forma como interagem na internet quando pensam que estou desatento. Habituados à submersão constante em barragens de informação, mas com sérios problemas no interpretar de informação. Isto talvez seja algo mais específico à escola, onde a interpretação de informação segue limites restritos e o hábito do professor esclarecer/ajudar/demonstrar se sobrepõe à curiosidade.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Melhor. Resposta. Ever.

A pergunta era "como poderá ser um computador no futuro" e a aluna deixou-me uma resposta de cair o queixo:  

"Não sei bem como será um computador do futuro pois não vivo nele, mas se eu tivesse de escolher o computador das próximas gerações seriam: umas lentes de contacto muito fashion, onde podiamos ver tudo o que está nos nossos ecrãs dos pcs, através de hologramas; umas unhas postiças que nos permitiam interagir com os hologramas e as nossas atuais pens da net seriam uns brincos que mudavam de cor consoante os Gs."

A melhor. Resposta. A uma pergunta. Que fiz. De sempre. Que não só reflectiu as experiências de aprendizagem da sala de aula como respondeu elegantemente com uma dose orbital de criatividade. Ou como disse o João Campos, i'm breeding cyberpunks. Com muito gosto.

Trëma #1



Rogério Ribeiro (ed.). (2012). Trëma. EuEdito.

Para terminar as leituras editadas em papel que fixam no tempo um momento particularmente activo da literatura fantástica em Portugal fica a revista Trëma, projecto literário editado pelo infatigável Rogério Ribeiro e lançada na edição de 2012 do Fórum Fantástico. Termina o papel, mas não as leituras, porque o formato electrónico está a tornar-se cada vez mais importante neste género de iniciativas.

Esta primeira edição arranca com O Vigésimo Oitavo Dia, conto claustrofóbico e implacável de Maria Ribeiro que dá o mote à capa. Ilustrada por Luís Melo num estilo reminiscente da fantasia clássica, apresenta-nos uma cena idílica desequilibrada por um toque subtil de malevolência. Rogério Ribeiro assina o editorial onde explana os objectivos ambiciosos do projecto e considerações sobre as vicissitudes do mercado editorial. Não por acaso segue-se Ana Ferreira com uma visão bem humorada sobre as tropelias das vanity presses, fenómeno que a um professor com o nariz enfiado em vértices e coordenadas cartesianas tridimensionais nas horas vagas como eu passa completamente ao lado, e francamente deixa um pouco surpreso. Ou talvez não. Em cada desejo há uma oportunidade, e como diz o ditado, a oportunidade faz o ladrão.

Uma surpresa encantadora é o conto de Carina Portugal, O Cais do Poeta, fábula sobre poesia, liberdade e espaços urbanos onde estátuas ganham vida e um sem-abrigo oscila entre o lirismo e o abandono. A proeminência do espaço urbano num texto é algo que me deixa sempre rendido, e se complementado por um voo de fantasia, melhor. A minha contribuição, com o algo pedante título de Espaços virtuais, espaços pictóricos, espaços ficcionais é uma versão alargada do que na tese de mestrado teve de se ficar por três parágrafos. Integrado em investigações sobre educação e tecnologias de realidade virtual, este artigo olha para a iconografia dos mundos virtuais tridimensionais sob a influência directa da ficção científica literária e a continuidade estética da representação imersiva e hiper-realista do real ao longo da tradição artística ocidental.

Felizmente a coisa alivia com nazis e fábulas misturadas no voo surreal que é A Bela Adormecida do Mosela por Rui Araújo, que mais do que conto do género fantástico entra nos campos do surrealismo onírico. E nazis. Que são sempre promessa de divertimento puro. João Campos no artigo O Sofisma da Ficção de Género disseca os elitismos discriminatórios patentes nas classificações de géneros literários com uma visão crítica sobre compartimentalizações baseadas em juízos de valor que reflectem distinções académicas com o seu quê de pretensioso.

A encerrar a ficção nesta revista, Luís Filipe Silva assina Na Crista da Onda, um conto de pura hard sf cujo implacável final roça a criação de mitos, partindo de uma sólida construção de mundos que nos dá vislumbres de um futuro onde a humanidade se espalha pelo sistema solar. Se me permitirem o spoiler, claro que surfar uma onda de choque termonuclear não teria resultados saudáveis.... A emergência da FC enquanto género literário em África é observada através de uma entrevista de Rogério Ribeiro ao autor e editor Ivor Hartmann, que lançou a primeira antologia de contos de FC de autores africanos. A crítica olha para um romance de Bulgakov analisado por Andreia Torres.

O projecto Trëma é ambicioso, contendo a promessa de se tornar uma referência na publicação literária do género em Portugal. É difícil não estabelecer paralelos com a britânica Interzone, embora o atingir desse patamar de solidez pela Trëma seja difícil de antever neste país. Mas a semente está lançada, e algo de interessante está a nascer.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Lusitânia #1



Pedro Cipriano, et al (ed.) (2012). Lusitânia. EuEdito.

Mais uma boa surpresa, surgida num momento de grande vitalidade no panorama nacional de Ficção Científica e Fantástico. A revista Lusitânia foge às etiquetas posicionando-se como de ficção especulativa e surpreende pela sua frescura de juventude, apostando em novos autores sem se socorrer da ancoragem em nomes já consagrados.

O tom da literatura fantástica é dado no arranque com o conto Sonhos de uma Noite de Natal onde Marcelina Leandro mistura ambientes tradicionais do género com premonições e tempo não linear. Subtis invasões alienígenas contaminam a humanidade através do vinho do porto em Vinho Fino de Inês Montenegro. Segue-se Catarina Lima, tongue in cheek a recordar certas afirmações recentes de alguns políticos, num  Como Portugal Foi Salvo Pelos Pastéis de Nata misturando cataclismos lisboetas e a estética da bruxaria benfazeja que se remete mais para a fantasia do que para o horror. Uma prosa mais rebuscada, fortemente dentro do gótico literário, é o que nos reserva a reinvenção do mito de Viriato por Nuno Almeida em A Guerra do Fogo.

A Cidade das Luzes intriga pelo seu conceito, para mim fortemente reminiscente da emergência contemporânea de uma sociedade panopticon potenciada pela tecnologia, onde os perfis digitais de cada um colidem com uma ideia de privacidade em desaparecimento. Neste conto são luzes que mostram e condicionam estados de alma. O retrato de uma sociedade totalitária assente no controle emocional é outra das vertentes interessantes deste conto. A prosa de José Pedro Lopes, com clareza descritiva mas com problemas de interligação dos diferentes momentos narrativos dificulta a compreensão deste texto que parte de premissas intrigantes. Pedro Cipriano termina com um sólido futuro ficcional em A Passagem Uivante, conto em que vai revelando vistas progressivamente mais abrangentes de um futuro distópico inspirado no passado histórico.

Vozes novas, frescas, com ideias interessantes numa edição com curadoria cuidada é o que nos reserva este primeiro número da Lusitânia.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Almanaque Steampunk



Joana Lima, et al (ed.). (2012). Almanaque Steampunk. EuEdito.

Lê-se quase de uma assentada. Bem concebido, divertido e com um grafismo cuidado, homenageia a tradição dos almanaques e assume-se como representativo da estética steampunk. Recheado de textos interessantes e divertidos, só não se lê de uma assentada porque a realidade tem uma irritante tendência de roubar tempo às fantasias. Numa obra que se caracteriza por uma grande diversidade literária é difícil caracterizar tudo, mas algumas peças destacaram-se pelos conceitos e estilo literário. João Barreiros mistura steam e cyberpunk numa revisitação a ferro e vapor do seu universo ficcional fortaleza europa e está ao nível habitual daquele que é o decano da FC portuguesa. Não será por acaso que este seu conto, O Saque de Lampedusa, encerra a antologia/almanaque.

Tenho um fraquinho por teorias bizarras, particularmente pelas da terra oca com o seu vasto potencial ficcional. Joel Puga toca precisamente nesse ponto com o conto Portugal e o Mundo Interior, sobre aventuras coloniais portuguesas num subsolo que se revela um novo mundo. Também intrigante é a experiência meta-ficcional das Aventuras do Intrépido Teófilo, assinada por Carlos Silva que constrói um possível mundo ficcional a partir de alusões publicadas nos jornais a obras de ficção. Recorda o Borges de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius e o Lovecraft de Imprisoned with the Pharaos com uma forte vénia à literatura pulp clássica e deixa vontade de ler as famigeradas aventuras do intrépido aventureiro.

De todas as ficções deste Almanaque uma fez-me sorrir particularmente, pelo toque ballardiano adaptado à estética steampunk. No conto Este Nosso Vasto Mundo, escrito num estilo seco e académico, João Ventura fala-nos de uma expedição antropológica que se depara com um culto de carga polinésio no estilo a vapor. A temática e estilismo têm um claro toque de Ballard, com uma divertida adaptação à estética que inspira o almanaque. Ou então sou eu que vejo toques ballardianos por todo o lado.

Na primeira de, espera-se, muitas edições, este Almanaque Steampunk surpreende pela solidez e cuidado. Levanta possibilidades ficcionais que merecem ser mais exploradas. E o toque gráfico está bem pensado, dando coerência estética a este livro.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Come quietly


É por estas, e por outras também, mas particularmente por estas que Dredd é tão icónico. Ironia hiperviolenta, cortesia de Brian Bolland.