quarta-feira, 21 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Out of Our Minds
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds: Learning to be Creative. Chichester: Capstone Publishing.
A reputação de Ken Robinson como evangelista da criatividade está bem estabelecida, particularmente após as suas influentes conferências TED. A sua crítica aos sistemas de ensino que apesar de apregoarem o objectivo de formação individual se centram cada vez mais no back to basics, memorização e testes padronizados é muito válida. Atendendo à realidade complexa do mundo contemporâneo, à necessidade de compreensão profunda das ciências e tecnologia, fica claro que a noção de criatividade se estende para lá dos domínios artísticos e é aplicável em todos os domínios de intervenção humana. Robinson aponta as falhas sistémicas que impedem organizações de tirar o melhor partido das pessoas e as limitações individuais advindas dos constrangimentos uniformizantes sem alternativas para desenvolvimento do potencial pessoal.
Robinson mantém-se muito no campo difuso do desenvolvimento pessoal, próximo da auto-ajuda. Este não é um livro muito profundo, pensado como divulgador de ideias e linhas gerais de desenvolvimento criativo. Esta superficialidade permite-lhe chegar a públicos abrangentes, mas perde-se a questão da concretização prática das suas propostas. Os exemplos abundam, mas dos exemplos pessoais à reorganização sistémica vai uma grande distância. Mas não deixa de ser uma voz refrescante nestes tempos sufocantes em que mais que nunca precisamos de soluções criativas e inovadoras, em que sentimos que a preparação da maior parte dos indivíduos falhou crucialmente nestes aspectos.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Makers
Chris Anderson (2012). Makers: The New Industrial Revolution. Nova Iorque: Crown Business
Chris Anderson excede-se muito no tom optimista deste Makers. O que começa por ser uma visão abrangente do potencial da impressão em 3D arrasta-se para uma elegia rosada da nova economia onde as fronteiras entre amadores e profissionais se esbatem e pequenas organizações inovadoras conquistam interessantes nichos de mercado. São factos, mas tornam o livro demasiado superficial e centrado num optimismo financeiro e tecnológico. Não ajuda o facto do autor ser criador e investidor em parte das empresas cujo perfil traça.
Anderson tem o dedo naquilo que é o princípio de uma avalanche tecnológica transformativa. A combinação entre comunidades e partilha através da internet, o gosto pela criação técnica e a cada vez maior disponibilidade de materiais e ferramentas de software e hardware com custos em diminuição têm o potencial de revolucionar o conceito clássico de indústria. O modelo tradicional das fábricas e linhas de abastecimento está a ser complementado e desafiado por aqueles que nas suas garagens e ateliers constroem protótipos, criam produtos e desenvolvem tecnologias baseadas em plataformas open source. Num certo sentido, é um retorno às raízes locais de manufactura industrial possibilitada por ferramentas de alta tecnologia.
Uma tecnologia em particular está a destacar-se pelo seu potencial e iminência de abrangência ao grande público. A impressão em 3D saiu dos laboratórios, instalou-se nos ateliers e oficinas e ameaça chegar a todos os utilizadores. Pode parecer prematuro prever uma taxa de penetração destes equipamentos similar à das impressoras hoje, mas a comparação feita por Anderson é convicente. Hoje, uma impressora de documentos é barata e fácil de encontrar, possibilitando a quem o quiser imprimir em papel. Coisa mágica, se pensarmos que não há tanto tempo assim a impressão era domínio de técnicos especializados e maquinaria pesada. A adição da terceira dimensão já está aí e são cad a vez mais os exemplos de utilizadores que pegam nas suas impressoras 3D e software de CAD para usos que vão da impressão de brinquedos para os filhos à impressão de peças mecânicas caras ou raras. O mercado já está a prestar atenção. Sucedem-se os projectos de disponibilização de impressoras 3D a custos cada vez menores (se bem que ainda substanciais) e gigantes do software apostam em versões gratuitas de aplicações e pacotes de CAD a pensar na explosão do mercado de utilizadores pessoais. Nisto a Autodesk destaca-se com aplicações como a 123D ou 123DCatch, que democratizam o processo de modelação 3D e transformação num objecto real.
É intrigante observar esta explosão tecnológica, comparável às vagas iniciais da internet ou da computação pessoal. O fascínio humano pelo objecto físico encontra no virtual uma nova dimensão, e a possibilidade de concretização física do virtual abre novos e intrigantes campos de actuação. Num futuro muito próximo, será possível a qualquer um imprimir peças mecânicas, objectos artísticos, brinquedos, enfim, tudo o que a imaginação e o domínio de ferramentas de CAD e modelação 3D lhe permtir.
(Nota: iniciei as aulas este ano mostrando vídeos sobre tópicos bleeding edge das tic, entre os quais impressão 3D. Agora, os meus alunos começam a perguntar-me se os objectos que estão a aprender a modelar em 3D utilizando aplicações como o Sketchup poderiam ser impressos. Intrigante.)
domingo, 18 de novembro de 2012
Robocop
Portanto, um mundo urbano decadente, com uma fortíssima clivagem entre uma minoria de ricos e uma vasta massa de população cada vez mais empobrecida, com uma periclitante classe de lacaios que está em permanente risco de se juntar às massas desfavorecidas. Poder político em ocaso a entregar a gestão de serviços sociais a corporações. Exércitos privados ao serviço de empresas que complementam e se sobrepõem aos soldados tradicionais. Tecnologia pervasiva utilizada como forma de vigilância panopticon. Robots autónomos capazes de descarregar mísseis nos inimigos da ordem social. Conflitos urbanos localizados e insurgências em diversas partes do planeta. Degradação do tecido social, intensificar das desigualdades, tirania das oligarquias financeiras, tecnologia potenciadora de panopticons.
Por muito que pense qual o género ou obra de ficção científica que anteviu o corrente estado das coisas, nunca lá cheguei. As distopias ficcionais ou tocam tangencialmente nalguns aspectos da nossa modernidade ou revêem o totalitarismo opressivo. A estética cyberpunk tem muitos dos elementos no que toca à tecnologia digital e poder empresarial corporativo, mas não chega a tudo. Até que revi o velhinho robocop. Uma cidade socialmente estratificada onde centros de luxo estão rodeados pela urbanidade empobrecida em ruínas, cuja força policial é privatizada e complementada por robots controlados pelas directivas de uma elite oligárquica? Soa familiar, nesta era de colapsos financeiros, hiper-ricos que se arrogam do direito de controlar as escolhas de vida das populações, privatização desenfreada de serviços sociais e de segurança, drones e conflitos assimétricos entre forças com equipamentos de alta tecnologia e insurgentes zelotas em zonas remotas do planeta com extravasamentos pontuais para os grandes centros urbanos?
Por muito que pense qual o género ou obra de ficção científica que anteviu o corrente estado das coisas, nunca lá cheguei. As distopias ficcionais ou tocam tangencialmente nalguns aspectos da nossa modernidade ou revêem o totalitarismo opressivo. A estética cyberpunk tem muitos dos elementos no que toca à tecnologia digital e poder empresarial corporativo, mas não chega a tudo. Até que revi o velhinho robocop. Uma cidade socialmente estratificada onde centros de luxo estão rodeados pela urbanidade empobrecida em ruínas, cuja força policial é privatizada e complementada por robots controlados pelas directivas de uma elite oligárquica? Soa familiar, nesta era de colapsos financeiros, hiper-ricos que se arrogam do direito de controlar as escolhas de vida das populações, privatização desenfreada de serviços sociais e de segurança, drones e conflitos assimétricos entre forças com equipamentos de alta tecnologia e insurgentes zelotas em zonas remotas do planeta com extravasamentos pontuais para os grandes centros urbanos?
Salvação
"Depois de ler muitos livros do tipo P. C. Cast, ou mommy porn, tipo fifty shades, género que já anda aí desde os anos oitenta, comecei a aperceber-me dos padrões que estes autores usam para escrever estes livros. São todos sobre homens poderosos mas que no seu íntimo são desiquilbrados, e mulheres fracas que são capazes de completar o que lhes falta."
Interiormente arrepiei-me. Século XXI, feminismo, igualdades e a literatura popular para público feminino vive de estereótipos submissivos? Os ínvios caminhos da psique humana não cessam de me surpreender. Para mim a melhor imagem do Cinquenta Sombras é tê-lo encontrado empilhado em promoção num supermercado ao lado de uma promoção de papel higiénico. A sério, estas coisas não se inventam.
"Sabes, é o sonho de muitas mulheres. Ser capaz de salvar alguém que não quer ser salvo."
Nesta frase cabe o conceito que vende a metro livros sobre vampiros efeminados, dominação sedosa, lobisomens dóceis e talvez alguém se lembre de criar zombies existencialistas que matutam na inelutabilidade do ser e do devir com as résteas de neurónios putrefactos enquanto abocanham relutantemente humanos indefesos, à espera das jovens submissivas que os irão libertar através da dominação sentimental.
Interiormente arrepiei-me. Século XXI, feminismo, igualdades e a literatura popular para público feminino vive de estereótipos submissivos? Os ínvios caminhos da psique humana não cessam de me surpreender. Para mim a melhor imagem do Cinquenta Sombras é tê-lo encontrado empilhado em promoção num supermercado ao lado de uma promoção de papel higiénico. A sério, estas coisas não se inventam.
"Sabes, é o sonho de muitas mulheres. Ser capaz de salvar alguém que não quer ser salvo."
Nesta frase cabe o conceito que vende a metro livros sobre vampiros efeminados, dominação sedosa, lobisomens dóceis e talvez alguém se lembre de criar zombies existencialistas que matutam na inelutabilidade do ser e do devir com as résteas de neurónios putrefactos enquanto abocanham relutantemente humanos indefesos, à espera das jovens submissivas que os irão libertar através da dominação sentimental.
sábado, 17 de novembro de 2012
À Meia Noite Levarei Sua Alma
Haverá maneiras menos interessantes ou mais convencionais de contar a história de um homem atormentado pelo desejo de assegurar a sua descendência. À Meia Noite Levarei Sua Alma é talvez uma das mais estranhas visões da vontade masculina de assegurar um legado dinástico, através de um dos mais intrigantes filmes de terror que já vi.
Este é um daqueles filmes que encarna a expressão tão mau, tão mau que se torna bom. José Mojica Marins escreve, realiza e encarna um filme que acumula todos dos lugares comuns do género. Assassínios, almas penadas, divagações góticas com caveiras de papier machè, violência cínica, féretros putrefactos, premonições amaldiçoadas, presságios funestos, terrores nocturnos no cemitério, até uma espécie de proto-zombie tem direito a segurar uma vela neste filme. A iconografia do terror clássico, da historia de fantasmas vitoriana, é revista à luz da ruralidade brasileira dos anos 60 com um toque grand guignol. Para a história do género fica a personagem Zé do Caixão, cangalheiro amoral que é mergulhado num vingativo turbilhão sobrenatural.
Apesar de todas as suas falhas, o filme aguenta-se com uma rigorosa progressão lógica que transmite uma metódica descida aos infernos. Os adereços e efeitos especiais primam pelo amadorismo. A sonoplastia é quase inexistente e as prestações dos actores algo de inenarrável. Isto é Ed Wood tropical ao ritmo do samba e candomblé a canalizar a mais clássica tradição do terror gótico europeu. Resta o icónico Zé do Caixão, personagem maior que o ecrã, canalizado por Morins como um alter-ego demente que se atreve a representar os mais recônditos desejos ocultos nos recantos negros da alma.
Comics
Atomic Robo and the Flying She-Devils of the Pacific: bom humor, retrofuturismo e ciência insana caracterizam as aventuras do indestrutível robot atómico criado por Nikola Tesla. Cientistas loucos, criminosos desafortunados e zelotas japonesas com armas secretas cruzam-se nos argumentos de Brian Clevinger, ilustrados com um traço perfeito para robots de estilo retro de Scott Wegener.
Battlefields: The Green Fields Beyond #1: Garth Ennis continua as suas histórias de elevado nível com um tema que lhe é querido. Depois de séries excepcionais sobre a II Guerra Ennis volta-se para a Guerra da Coreia para mais uma série que promete lama, reconstituições fieis de armas, muito acaso e pouco heroísmo.
2000 AD #1809: Brass Sun de Ian Edgington é a melhor série de momento no lendário comic britânico. O traço simples e elegante de I. J. N. Culbard foge aos excessos barrocos que caracterizam o steampunk, mas nem por isso deixa de ser evocativo do imaginário dos mecanismos de relojoaria. A cada edição é desvendado mais um novo mundo do planetário mecânico imaginado por Edgington.
Dial H #06: o absurdo do género de super-heróis é posto a nu pelos excessos imaginativos de China Mièville, que está a levar a premissa de poderes concedidos pelo disco telefónico rotativo a colisão com a história da humanidade.
Flash Gordon Zeitgeist: Eric Trautmann e Alex Ross revisitam um dos mais clássicos personagens da banda desenhada de forma genial. Os argumentos equilibram revivalismo com novas dimensões (digamos que Ming the Merciless e Hitler partilham objectivos) e a direcção artística de Alex Ross transforma as pranchas numa explosão de cor exotismo que homenageiam o traço clássico de Alex Raymond. Este é um dos comics visualmente mais deslumbrantes dos últimos tempos.
GI Combat #06: Os personagens de guerra da DC vão sendo sucessivamente revisitados neste título da DC 52. Depois de revisitar de forma pouco impressionante o clássico Land That Time Forgot agora é a vez de Haunted Tank, ilustrado pelo veterano Howard Chaykin. The Unknown Soldier acompanha todas as edições. Se o projecto é insuflar nova vida nos clássicos, esperemos que corra melhor do que a falhada reedição de Sgt. Rock. Haunted Tank, por enquanto, está a ser bizarro. É o que se espera.
Locke & Key Omega #01: Confesso que quando deparei com este comic não fiquei cativado. Demorei um pouco a perceber o porquê da sua boa fama até que o traço expressivo, rico e preciso de Gabriel Rodriguez e a complexidade do argumento de Joe Hill me agarraram. Agora, sigo fielmente o fim anunciado que se inicia com o primeiro volume de Omega. A capacidade de utilizar as chaves mágicas desaparece com o fim da infância e adolescência e os personagens estão quase a atravessar esse limiar.
The Massive #06: Brian Wood prossegue a viagem pelo sólido futuro próximo distópico que criou nesta série de ficção científica mal disfarçada. A premissa de um navio de activistas ecológicos num périplo pelos mares cujo nível elevado submergiu as zonas costeiras de planeta mergulhado no caos da derrocada económica e social tem espaço para muitos desenvolvimentos. Wood equilibra o passado negro dos personagens (num comentário fortíssimo sobre o poder do dinheiro e das empresas de mercenários que se substituem cada vez mais aos soldados clássicos em operações militares) com um futuro próximo muito plausível onde as catástrofes ambientais representam uma singularidade inversa. O mais interessante de The Massive é que não é uma série pós-apocalíptica. Os acontecimentos sucedem-se nos momentos imediatos aos colapsos sociais, e não num futuro mais distante.
The Manhattan Projects: Talvez o mais surreal comic editado actualmente. A premissa é alucinante: o Projecto Manhattan serviu para ocultar bizarrias místico-científicas coordenadas por um Robert Oppenheimer cuja mente é habitada por múltplas instâncias da sua personalidade. O conceito de cientista louco é levado a extremos absurdos pelo argumentista Jonathan Hickman, que nos mergulha numa surreal história alternativa onde Von Braun é um nazi violento com um gargantuesco braço robótico, o presidente Truman um maçónico que toma decisões com base em rituais orgásmicos, Roosevelt é um super-computador a válvulas ou Fermi um físico nuclear alienígena.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Recordai-vos do 5 de Novembro...
Para comemorar o 5 de Novembro o blog Viagem a Andrómeda mete-se com Alan Moore, um dos gigantes da banda desenhada responsável pela imagem icónica que tomou conta das consciências contemporâneas. João Campos disseca cuidadosamente o marco literário e gráfico que é V for Vendetta, com passagem obrigatória pelo filme que lhe deu vida para lá dos conhecedores dos comics:
V for Vendetta: Introdução - do comic icónico à adaptação cinematográfica
V for Vendetta: A distopia como enquadramento da narrativa
V for Vendetta: Os protagonistas
V for Vendetta: As personagens e os arcos narrativos enquanto peças do dominó
V for Vendetta: Os altos e baixos da adaptação cinematográfica
O legado de V for Vendetta
Da genialidade do comic original aos compromissos necessários da adaptação cinematográfica, esta série de posts reflecte muito bem sobre a génese e influência de uma das obras maiores de Alan Moore, à qual o grafismo de David Lloyd deu vida.
Fórum Fantástico 2012
Já está disponível o programa da edição de 2012 do Fórum Fantástico, que irá decorrer nos dias 23, 24 e 25 de Novembro na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro em Telheiras. O programa pode ser consultado na página do Fórum Fantástico.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Leituras Fantásticas
Prevê-se que Dezembro seja um belíssimo mês para leituras no domínio do Fantástico em português. Os lançamentos decorrem neste mês de Novembro, mas é para o final do ano que antevejo as delícias exponenciais do sofá, chá e livros (nos quais se inclui A Conspiração dos Abandonados, que António de Macedo sugere que se leia nas noites invernosas). Três leituras, para acabar em cheio o ano de 2012:
A revista Trëma, coordenada pelo infatigável Rogério Ribeiro, estará em breve disponível. A capa acabou de ser divulgada.
A ser lançada no Fórum Fantástico, a antologia Lisboa no Ano 2000, organizada por João Barreiros coligindo contos sobre uma possível Lisboa electropunk.
Saída do colóquio Mensageiros das Estrelas, uma antologia de contos que conta com participações de Luís Filipe Silva e António de Macedo, entre muitos outros.
Junte-se a isto a edição de 2012 do Fórum Fantástico com os dias de 23 a 25 de Novembro dedicados à FC e Fantasia e o colóquio Mensageiros das Estrelas também a decorrer de 27 a 30 deste mês com um programa muito estimulante. As próximas semanas são prometedoras, graças aos esforços de todos aqueles que neste país organizam iniciativas ligadas à literatura de ficção científica.
A revista Trëma, coordenada pelo infatigável Rogério Ribeiro, estará em breve disponível. A capa acabou de ser divulgada.
A ser lançada no Fórum Fantástico, a antologia Lisboa no Ano 2000, organizada por João Barreiros coligindo contos sobre uma possível Lisboa electropunk.
Saída do colóquio Mensageiros das Estrelas, uma antologia de contos que conta com participações de Luís Filipe Silva e António de Macedo, entre muitos outros.
Junte-se a isto a edição de 2012 do Fórum Fantástico com os dias de 23 a 25 de Novembro dedicados à FC e Fantasia e o colóquio Mensageiros das Estrelas também a decorrer de 27 a 30 deste mês com um programa muito estimulante. As próximas semanas são prometedoras, graças aos esforços de todos aqueles que neste país organizam iniciativas ligadas à literatura de ficção científica.
Interzone #242
Uma sólida edição desta revista, com uma excelente entrevista a David Brin sobre os temas subjacentes ao romance Existence. Em termos de ficção, a Interzone arranca de forma pouco promissora com Wonder, uma história suave que revisita os lugares comuns sobre xenofobia com o artifício de alienígenas abandonados na Terra que são ostracizados pela sua diferença. The Message de Ken Liu surpreende. A narrativa sobre a relação entre um pai distante e a filha que lhe é entregue após a morte da mãe decorre sob um cenário de exploração xeno-arqueológica. Os dramas familiares desenrolam-se durante a exploração de labirínticas ruínas num planeta sem vida, um sinal dado à longa posteridade da existência de resíduos radioactivos. Confesso que fiquei intrigado com a solidez desta história.
Passei boa parte da leitura de Needlepoint de Priya Sharma a tentar perceber que diabos fazia uma história sobre castelos, princesas, aias infelizes e intrigas palacianas a fazer numa revista de ficção científica. O mundo vagamente inspirado na Inglaterra isabelina prometia maravilhas de fantástico com relatos de criaturas estranhas em terras exóticas de além mar. Mas a escritora não seguiu esse caminho. No final do conto transforma-o em poucos parágrafos numa narrativa cruel de fantasmagoria. Surpreendente.
A FC hard está representada com o conto Beyond The Light Cone de C. W. Johnson. Num futuro não muito distante, as colónias humanas dispersas pela vastidão relativística são interligadas por uma rede de naves superlumínicas cujos tripulantes são condenados a uma eterna deriva galáctica para além do horizonte de acontecimentos. Isolada numa destas naves, a heroína do conto tem de travar uma outra nave cuja capitã pretende regressar do hiperespaço à realidade normal com consequências mortíferas para a humanidade.
E se as lulas desenvolvessem tecnologia e tentassem colonizar a superfície terrestre? Não falamos de uma invasão de lulas assassinas a arrasar cidades, destruindo tanques e aeronaves de combate com os seus tentáculo. The Remembered de Karl Bunker é uma fábula encantadora sobre os dramas da exploração, que vai beber ao mito de Perseu e constrói um mundo sólido onde lulas inteligentes ultrapassam os limites submarinos e começam a colonizar terra firme no que é uma metáfora mal velada da humanidade e exploração espacial.
Strigoi de Lavie Tidhar é uma excelente desculpa para este premiado autor nos mergulhar no exótico sistema solar do universo central station. Uma vampira que se alimenta de dados pessoais chega à Terra, recordando as suas divagações forçadas pelo sistema solar desde a fuga adolescente de um asteróide, passando pela transformação vampiresca nos corredores esquecidos de uma decaída nave trans-solar e as desventuras em Titã e nas colónias marcianas. Tidhar levanta o véu sobre este promissor universo que mistura elementos de space opera com fantástico surreal e um niquinho de cyberpunk.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Objectificar o Virtual
Num destes dias um aluno perguntou se aqueles modelos que aprendeu a criar no Doga L3 poderiam ser impressos numa daquelas impressoras 3D que mostrei no início das aulas de TIC. Sim, claro, disse-lhe, se bem que o processo não seria automático, envolvendo conversões de formatos nativos ou VRML para OBJ e STL com limpeza de faces e vértices. "Eu podia fazer no (inserir programa aqui) e depois imprimir", disse. Pois. Num futuro próximo as crianças vão poder desenhar os seus brinquedos e imprimi-los em 3D.
"Today, schoolchildren learn how to use PowerPoint and Excel as part of their computer class, and they still learn to draw and sculpt in art class. But think how much better it would be if they could choose a third option: design class. Imagine a course where kids would learn to use free 3-D CAD tools such as Sketchup or Autodesk 123D. Some would design buildings and fantastic structures, much as they sketch in their notebooks already. Others would create elaborate videogame levels with landscapes and vehicles. And yet others would invent machines.
Even better, imagine if each design classroom had a few 3-D printers or a laser cutter. All those desktop design tools have a “Make” menu item. Kids could actually fabricate what they have drawn onscreen. Just consider what it would mean to them to hold something they dreamed up. This is how a generation of Makers will be created. This is how the next wave of manufacturing entrepreneurs will be born." (p. 106)
Cortesia do inconsciente colectivo, esse conceito jungiano que coloca o pulso naquela sensação que andam ideias no ar e que parecem surgir em sintonia, dou com dois parágrafos estimulantes de Chris Anderson no Makers. Leio, e penso: na minha sala de aula só falta a impressora 3D. Mesmo. Já é normal o resto, aprender os conceitos e construir em diferente programas.
"Today, with the spread of desktop fabrication tools, a generation of amateurs is also being suddenly confronted with the baffling language and techniques of professional industrial design, just as they were in the desktop publishing era. Now it’s not wraparound text and line justification, but “meshes” and “G-code,” “rasters” and “feedrates.” Don’t worry—you’ll know what you need to soon enough, and someday kids will be taught these skills in fifth-grade digital fabrication class." (p. 114)
A capacidade de ter equipamentos que permitam criar objectos tridimensionais na nossa secretária é algo de revolucionário. Arrancou com os Fablabs e começa a chegar ao mercado com o makerbot e similares, que utilizam o modelo de crowdfunding para se financiarem. Com preços entre os 2000 e 3000 dólares ainda são caros para o padrão da electrónica de consumo mas como em tudo a pressão da progressiva disponibilização de modelos com a vontade dos utilizadores vai diminuir os preços e facilitar a acessibilidade destas tecnologias. Tempos houve em que uma impressora era uma raridade cara, e agora custa uma ninharia nas lojas de informática de consumo. Começo a partilhar a opinião que a impressão 3D vai redefinir a economia num futuro próximo.
Estão a ver a imagem que ilustra este post? Foi criada como primeira experiência de uma aluna no Doga L3. Imaginem o delírio que seria se depois da criação virtual se fosse capaz de imprimir este objecto em plena sala de aula. Concretizar o virtual, dar corpo táctil aos dados binários. Em breve, talvez, em breve...
Chris Anderson (2012). Makers: The New Industrial Revolution. Nova Iorque: Crown Business
terça-feira, 13 de novembro de 2012
RA in the wild.
Momento intrigante hoje na aula. Um dos alunos deparou com um vídeo e ligações na página moodle da turma sobre realidade aumentada. Dei por isso quando o vi de telemóvel em riste a descarregar o Augment e o ES Explorer. O instinto docente quase me levou a ir ajudá-lo, mas optei por o deixar entregue a si mesmo. Passei-lhe apenas um marcador de realidade aumentada impresso, dizendo que ia precisar daquilo. E virei costas. Momentos depois era vê-lo sorridente, a apontar o telemóvel para o marcador e a visualizar a torre eiffel em realidade aumentada. O puro sorriso da descoberta de algo novo e fascinante, de um cérebro estimulado por novas ideias. Mostrei-lhe que podia pegar no marcador, movimentá-lo e visualizar o objecto 3D de diferentes pontos de vista em tempo real. E voltei a virar costas. Do canto do olho continuei a ver o sorriso e o olhar interessado. A seguir foi ter com os colegas de que é amigo e partilhou a descoberta. Alguns não ligaram, outros ficaram espantados... e lá me vieram pedir mais "papelinhos daqueles que dão para ver coisas em 3D"...
Foi um daqueles momentos mágicos, que faz valer as chatices do dia a dia, as tropelias dos ministérios e o sufoco conceptual deste momento presente. Um momento em que percebi que uma criança foi por si mais além do que o esperado, pegando no vislumbre que lhes deixei e construindo a sua aprendizagem.
(RA significa, claro, Realidade Aumentada.)
What is actually there
"Imagination is the source of our creativity, but imagination and creativity are not the same thing. Imagination is the ability to bring to mind things that are not present to our senses. We can imagine things that exist or things that do not exist at all." (...) "Creativity is a step further on from imagination" (...) "People are not creative in the abstract; they are creative in something: in mathematics, in engineering, in writing, in music, in business, in whatever. Creativity involves putting your imagination to work. In a sense, creativity is applied imagination. Innovation is the process of putting new ideas into practice. Innovation is applied creativity." (p. 282)
"We ask how we can measure intelligence. The assumption is that intelligence is quantifiable. We ask how we can raise academic standards but do not question whether they deliver what we need to survive in the future. We ask where we can find talented people but ignore the talents of people that surround us. We look but we do not see, because our traditional common-sense assessment of abilities distracts us from what is
actually there. " (p. 219)
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.
"We ask how we can measure intelligence. The assumption is that intelligence is quantifiable. We ask how we can raise academic standards but do not question whether they deliver what we need to survive in the future. We ask where we can find talented people but ignore the talents of people that surround us. We look but we do not see, because our traditional common-sense assessment of abilities distracts us from what is
actually there. " (p. 219)
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Colapso sistémico
Não é habitual ver Ray Kurzweil citado fora de contextos tecno-utopistas ou de ficção científica, e raríssimo no caso da educação. Steve Wheeler falou-nos deste tecnologista norte-americano ao extrapolou o conceito de singularidade tecnológica para um panorama educacional que se consciencializou da importância da integração de tecnologias na edicação, que enquanto se deslumbra com as potencialidades das tecnologias teme os seus efeitos, e mal domina uma aplicação logo descobre que existe algo melhor ou mais interessante. Singularidade é um conceito de colapso sistémico sob pressão de tecnologias de evolução progressivamente acelerada com impactos transformativos profundos.
Wheeler fez-nos olhar para a evolução dos serviços web que utilizamos para perceber quão rápida a sua evolução, mudança, intensidade da explosão de comunicação e criatividade expressa no volume gargantuesco de informação criada e partilhada online. É-nos claro que a internet, particularmente na partilha ubíqua de informação, veio para ficar. Novas gerações num mundo potenciado pela tecnologia têm de adquirir conhecimento profundo, aprendizagens que lhes permitam gerir, fazer sentido, agir e ser criativos num ecossistema de constante mudança. É um novo paradigma que vai mais longe do que a aquisição de conhecimentos como finalidade da educação.
O acesso à informação, os dados por si só de pouco valem. Assumem importância quando são trabalhados, reflectidos, quando se vê o padrão a emergir do ruído de informação. O desafio presente é reorientar as práticas pedagógicas para reflectir a diversidade e os desafios contemporâneos trazidos à escala planetária pela tecnologia. Poderá passar pelo reconhecimento do potencial da acção de multidões crowdsourcing, crowdfunding, jogo de aprendizagem, espaços virtuais tridimensionais, realidade aumentada, enfim, de uma utilização activa e criativa da crescente gama de tecnologias ao dispor dos utilizadores. Este primeiro passo terá de se reflectir na qualidade da informação, dando importância ao discernimento informado e à capacidade de julgamento e reflexão sobre a veracidade e pertinência da informação disponível no cada vez mais vasto oceano de dados em que mergulhámos. Implica abordagens que estimulem a metacognição, novas competências de gestão de perfis/personas online, de segurança dos dados pessoais. Ficamos desconcertados com a vastidão do manancial de possibilidades trazidas pela explosão na acessibilidade e conectividade mediada pela tecnologia. No entanto, a capacidade de uso inteligente é algo a despertar nos alunos, membros de uma geração digital fortemente estimulada a consumir conteúdos mas que tem de ser estimulada a produzir e a utilizar livremente para os fins que entender. Cada vez mais se sente que a importância da utilização de tecnologias digitais na educação está do estímulo metacognitivo, no aprender a aprender e na flexibilização do pensamento criativo face à barragem constante de novos desafios do que no domínio de ferramentas específicas.
Wheeler fez-nos olhar para a evolução dos serviços web que utilizamos para perceber quão rápida a sua evolução, mudança, intensidade da explosão de comunicação e criatividade expressa no volume gargantuesco de informação criada e partilhada online. É-nos claro que a internet, particularmente na partilha ubíqua de informação, veio para ficar. Novas gerações num mundo potenciado pela tecnologia têm de adquirir conhecimento profundo, aprendizagens que lhes permitam gerir, fazer sentido, agir e ser criativos num ecossistema de constante mudança. É um novo paradigma que vai mais longe do que a aquisição de conhecimentos como finalidade da educação.
O acesso à informação, os dados por si só de pouco valem. Assumem importância quando são trabalhados, reflectidos, quando se vê o padrão a emergir do ruído de informação. O desafio presente é reorientar as práticas pedagógicas para reflectir a diversidade e os desafios contemporâneos trazidos à escala planetária pela tecnologia. Poderá passar pelo reconhecimento do potencial da acção de multidões crowdsourcing, crowdfunding, jogo de aprendizagem, espaços virtuais tridimensionais, realidade aumentada, enfim, de uma utilização activa e criativa da crescente gama de tecnologias ao dispor dos utilizadores. Este primeiro passo terá de se reflectir na qualidade da informação, dando importância ao discernimento informado e à capacidade de julgamento e reflexão sobre a veracidade e pertinência da informação disponível no cada vez mais vasto oceano de dados em que mergulhámos. Implica abordagens que estimulem a metacognição, novas competências de gestão de perfis/personas online, de segurança dos dados pessoais. Ficamos desconcertados com a vastidão do manancial de possibilidades trazidas pela explosão na acessibilidade e conectividade mediada pela tecnologia. No entanto, a capacidade de uso inteligente é algo a despertar nos alunos, membros de uma geração digital fortemente estimulada a consumir conteúdos mas que tem de ser estimulada a produzir e a utilizar livremente para os fins que entender. Cada vez mais se sente que a importância da utilização de tecnologias digitais na educação está do estímulo metacognitivo, no aprender a aprender e na flexibilização do pensamento criativo face à barragem constante de novos desafios do que no domínio de ferramentas específicas.
domingo, 11 de novembro de 2012
Educação universal: consequências
"Some skeptics argued that it was waste of public resources to attempt to educate the children of the working classes: such children were essentially uneducable and would not benefit from these efforts. They were wrong about that. Others feared the social and political consequences: educating the working classes would give them ideas above their station and lead to a social revolution. They were not wrong about that." (p. 122)
"We now take it for granted that governments should provide mass systems of education; that they should be funded from the public purse; that all young people should go to school until they are at least 16 and that a high proportion of them should go on to college. As obvious as they may seem now, these assumptions are relatively new.1 It was only from the 1860s onwards that countries throughout Europe, as well as many of the American states, began to establish mass systems of public education." (p. 119)
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.
"We now take it for granted that governments should provide mass systems of education; that they should be funded from the public purse; that all young people should go to school until they are at least 16 and that a high proportion of them should go on to college. As obvious as they may seem now, these assumptions are relatively new.1 It was only from the 1860s onwards that countries throughout Europe, as well as many of the American states, began to establish mass systems of public education." (p. 119)
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.
sábado, 10 de novembro de 2012
Mudança frenética
"On almost every front, the pace of change has become ever more frantic and the issues at the heart of this book have become more pressing. Consider the rate of change in technology. Ten years ago, the Internet was still a novelty for most people. There were no smart phones, iPods; no Facebook, Twitter, YouTube or most of the social media sites that are now transforming culture and economics around the world. Many other things have happened too – from the global impact of the events of 9/11 to the compounding effect of the Great Recession – that simply could not have been anticipated ten years ago: in politics, the economy, in culture and in the environment. The sheer unpredictability of human affairs lies right at the heart of my argument for cultivating our powers of creativity: in business, in education and in everyday life." (p. 20)
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing,
Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing,
Leituras diabólicas
As virtudes da leitura. Quem é que nunca se sentiu capaz de ser levado e pensar em ideias marotas, insanas, revolucionárias ou avassaladoras depois de mergulhar na partilha de conhecimento contida entre as páginas de um livro? Ler dá-nos lenha para as fogueiras do pensamento.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Processos
Esboços, guionização e vinhetas de Paulo Monteiro
Processo de pintura digital de Ana Afonso
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Sinal dos tempos
"Agora os pais têm geralmente o secundário nas habilitações. Alguns ensino superior. Antigamente era habitual o nono ano". Palavras proferidas por uma colega de trabalho, directora de turma já com muitos anos de experiência a lidar com grupos de alunos e os seus pais. Por pouco não faltou ir mais atrás e observar que houve tempos em que o habitual era a quarta classe. Ela falava casualmente ao caracterizar a sua direcção de turma da generalidade das habilitações literárias dos pais e encarregados de educação dos alunos.
É daquelas coisas que só nos apercebemos quando paramos para pensar. A rapidez da evolução da formação na generalidade da população portuguesa. Os pais de hoje pertencem à minha geração, pertencem a um grupo social que teve acesso (e obrigatoriedade de frequência) a uma escolaridade alargada. A normalidade do antigamente - ensino básico como padrão de escolaridade, foi substituída pelo ensino secundário. São pequenas observações que espelham o elevar no nível de habilitações da generalidade dos portugueses. Recordo-me das minhas primeiras direcções de turma, em escolas na periferia de Lisboa, cujo padrão de habilitações dos pais e encarregados de educação se ficava essencialmente pelo quarto ou nono ano. Evoluímos, e evoluímos depressa. Neste momento de crise profunda, em que muitos nos querem fazer crer que investir no progresso do país é desperdiçar recursos e desequilibrar sacrossantos modelos financeiros, é bom olhar para estes pequenos sinais e reflectir no quanto evoluímos nos últimos quarenta anos. Evolução rápida, mas de percepção lenta. Ainda resta muito que fazer. Mas este facto estatístico é revelador.
Podemos e devemos criticar a qualidade do ensino. Mas já não podemos negar a sua abrangência e o cumprir da promessa de melhorar o nível de habilitações da generalidade da população. Daí a plenas literacias e mudanças de mentalidade que reflictam a importância da educação e aprendizagem faltam muitos passos. O inicial está dado.
É daquelas coisas que só nos apercebemos quando paramos para pensar. A rapidez da evolução da formação na generalidade da população portuguesa. Os pais de hoje pertencem à minha geração, pertencem a um grupo social que teve acesso (e obrigatoriedade de frequência) a uma escolaridade alargada. A normalidade do antigamente - ensino básico como padrão de escolaridade, foi substituída pelo ensino secundário. São pequenas observações que espelham o elevar no nível de habilitações da generalidade dos portugueses. Recordo-me das minhas primeiras direcções de turma, em escolas na periferia de Lisboa, cujo padrão de habilitações dos pais e encarregados de educação se ficava essencialmente pelo quarto ou nono ano. Evoluímos, e evoluímos depressa. Neste momento de crise profunda, em que muitos nos querem fazer crer que investir no progresso do país é desperdiçar recursos e desequilibrar sacrossantos modelos financeiros, é bom olhar para estes pequenos sinais e reflectir no quanto evoluímos nos últimos quarenta anos. Evolução rápida, mas de percepção lenta. Ainda resta muito que fazer. Mas este facto estatístico é revelador.
Podemos e devemos criticar a qualidade do ensino. Mas já não podemos negar a sua abrangência e o cumprir da promessa de melhorar o nível de habilitações da generalidade da população. Daí a plenas literacias e mudanças de mentalidade que reflictam a importância da educação e aprendizagem faltam muitos passos. O inicial está dado.
Murder Mysteries
Neil Gaiman, P. Craig Russell (2002). Murder Mysteries. Londres: Titan.
O mito da queda dos anjos é revisitado por Gaiman com um toque de tragédia miltoniana. A convuluta morte de um anjo nos céus é o mote para que aquele que se tornará o príncipe dos infernos comece a questionar a infalibilidade do seu criador. Por detrás do crime, investigação e castigo está uma metáfora sobre o mito enquanto história em que todos os personagens desempenham um papel pré-definido, mesmo que pela sua natureza sejam imaginados como poderosas criaturas reais paranormais. Murder Mysteries é um misto de Agatha Christie com Paradise Lost, ao qual a elegância vibrante do traço de P. Craig Russell dá vida.
Perspectivas
Maquete de cenário de opera, patente no salão nobre do Teatro Nacional de S. Carlos.
Interface gráfico do Bryce, programa de modelação 3D.
É um daqueles acasos do inconsciente colectivo. Na semana em que os alunos começaram a experimentar o 3D com o Bryce, tive oportunidade de assistir a uma ópera no S. Carlos e ver maquetes e adereços em exposição. Os paralelos visuais são enormes. O palco oculta um complexo e engenhoso sistema de cordas e roldanas que vai alternando cenários que exageram a perspectiva para que os espectadores possam visualizar a representação na perfeição. Já o programa 3D funciona como um palco onde podemos dispor os elementos e objectos no espaço. Subjacente quer aos cenários quer ao 3D está a ideia de perspectiva, esse constructo óptico-gráfico que herdámos do renascimento (mas tem uma história muito mais longa) e que condiciona o nosso modo de representar a forma como vemos o mundo.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Creatures of the Night
Neil Gaiman, Michael Zulli (2004). Creatures of the Night. Milwaukie: Dark Horse Comics.
O traço complexo e expressivo de Zulli dá vida a duas fábulas negras de Neil Gaiman. Numa, um gato cheio de feridas é o protector de um lar face a forças tenebrosas e noutra a ignorância e a violência sexual encontram na imagem da coruja uma metáfora libertadora. Não é um livro particularmente extraordinário. Dá-nos exactamente o que esperamos da prosa de Gaiman.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Eternus 9: A Cidade dos Espelhos
Victor Mesquita (2010). Eternus 9: A Cidade dos Espelhos. Lisboa: Gradiva.
Space Opera e psicadelismo cósmico mesclam-se neste segundo volume da série criada e ilustrada por Victor Mesquita no seu estilo reminiscente da ilustração psicadélica dos anos 70, Moebius e Druillet. Um autor de BD numa distópica Lisboa futura debate-se com a conclusão de um album enquanto se divide entre reminiscências de uma infância onde aprende o gosto pelo fantástico, as pressões de uma sociedade vigiada por forças opressivas, e o canalizar da persona de Eternus 9, navegante do espaço sideral. Jornada de introespecção interior, este livro mistura o poder da fantasia com um humanismo transcendental espelhado no papel do homem face à vastidão do cosmos e as profundezas dos sentidos da vida. São temáticas algo singulares na época contemporânea, reflexo de uma outra era onde os temas cósmicos imperavam num estilo de banda desenhada que misturava surrealismo e futurismo.
Victor Mesquita é o autor português que mantém esse estilismo reminiscente do surrealismo cósmico de Moebius e do barroco futurista de Druillet. Mesquita tem um traço muito próprio e detalhado, que me faz sempre pensar nos belos excessos da ilustração psicadélica. Combina o seu traço com experimentalismo digital, que se traduz nalgumas vinhetas soberbas mas também em falhas visuais quando o desenho e do digital não combinam ou quando o excesso de desfocagem pixeliza a imagem.
Um pouco menos coerente do que o genial e marcante Eternus 9: Um Filho do Cosmos, este A Cidade dos Espelhos dá-nos vistas assombrosas de um futurismo ao mesmo tempo naturalista, surreal e urbano. Vale por ser marcante, por demonstrar a vitalidade da Banda Desenhada portuguesa num registo muito diferente ao habitual, e do esforço do percurso individual de um autor que oscila entre mestre e maldito do panorama português.
Playtime
Faz bem mexer os músculos. Andar a abordar a modelação 3D nas aulas de TIC inspira a fazer qualquer coisa. Para combater o cansaço das sobrecargas.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You
Eli Pariser (2011). The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You. Nova Iorque: Penguin Press.
Uma das virtudes da web é a facilidade com que coloca na ponta dos dedos a capacidade de aceder à informação. Virtude que é um problema. A quantidade disponível é enorme. Na rede global encontrar a informação que se precisa tornou-se mais complicado do que encontrar uma proverbial agulha no palheiro.
Um dos pilares da cidadania na sociedade contemporânea é a informação. A liberdade de acesso, o conhecimento sobre o que nos rodeia, são elementos cruciais para conhecer o mundo que nos rodeia, tomar decisões e participar na sociedade global e local. É algo que está consagrado nos direitos humanos e é uma herança essencial do iluminismo.
Estes dois factores estão em colisão na internet contemporânea. Se o sonho de acesso à informação pareceu realizar-se para lá das expectativas mais entusiastas, a enorme quantidade gera problemas de fiabilidade e capacidade de leitura. Somos humanos, a nossa capacidade de atenção tem limites e a quantidade de estímulos disparou para níveis estratosféricos. Simplesmente não há tempo para absorver mais do que uma pequena parte das vastas quantidades de ideias que nos chegam todos os dias.
Uma solução de engenharia para este problema social está no uso de filtros. Essencialmente são algoritmos que filtram a informação que nos chega ao ecrã do computador. Tecnologias que se adaptam aos interesses dos utilizadores, escolhendo automaticamente o que lhes é apresentado por relevância são à primeira vista uma solução elegante para o problema da sobrecarga informativa. Tecnicamente impressionam. O vasto poder computacional disponível hoje permite a algumas empresas estabelecer padrões a partir das acções dos milhões de utilizadores da internet. Esses padrões afinam algoritmos que estão em constante refinamento. O resultado? A quase assustadora precisão com que a Google nos apresenta resultados de pesquisas ou os avançados algoritmos de sugestão literária da Amazon, que parece conhecer os nossos gostos melhor do que nós. E de facto conhecem-nos. Misturando padrões globais com um refinamento conseguido a partir da análise das escolhas do utilizador, estes algoritmos condicionam boa parte da informação a que acedemos. E é aí que reside o seu perigo para a coesão social e a necessidade de acesso à informação.
Pode parecer paradoxal. Se os filtros facilitam o acesso e gestão de informação, porque é que são perigosos? A resposta está na forma como o fazem. Aprendendo com as nossas escolhas, refinando-se ao longo do tempo, vão-nos apresentando informação que consideramos relevante para os nossos interesses. De fora fica aquilo que não nos interessa, que não faz parte do nosso horizonte, que não encaixa no padrão de utilização. No entanto a necessidade de informação para decidir e participar em cidadania exige precisamente o oposto, a capacidade de conhecer com alguma profundidade outros pontos de vista que entrem em conflito com o nosso.
Facilitando o acesso e gestão das vastas quantidades de informação que a internet nos traz, os filtros encerram-nos numa bolha de ideias construída a partir dos nossos padrões de interesses, que se ramifica apenas para outras bolhas similares. Atomiza e balcaniza a sociedade em grupos de interesse altamente especializados na sua área e quase ignorantes de outros pontos de vista. Sublinha a necessidade de manter o controlo humano sobre a tecnologia. Se os filtros são necessários e úteis, ainda mais necessária é a capacidade de cada utilizador, cada um de nós estar consciente do risco de isolamento dentro dos seus padrões de interesse e agir em contravenção. É simples. Basta confundir as previsões algorítmicas com acesso a informações ou produtos culturais que não caibam no padrão normal.
domingo, 4 de novembro de 2012
Amadora BD 2012
Banda desenhada autobiográfica tem o seu quê de voyeurista.
O festival de banda desenhada da Amadora começa a ficar demasiado previsível. É sempre bom lá ir ver os destaques, contemplar pranchas originais de BD, rever autores consagrados e ser surpreendido por coisas novas e interessantes. Mas saio de lá com uma sensação de que o festival é sempre igual. Destaque central a um tema estabelecido, que não choque sensibilidades ou levante sobrancelhas ancorado por algumas exposições auto-congratulatórias. O mais interessante reside geralmente nas exposições que destacam autores ou albúns recentes. Confesso que as exposições principais me entediam e só nas laterais é que encontro aquilo que me leva a estes festivais, a divulgação de obras pouco conhecidas ou de grande envergadura.
Vinhetas do fabuloso O Amor Infinito Que Te Tenho de Paulo Monteiro
Destaques muito positivos: o intimismo de Paulo Monteiro, autor em destaque nesta edição do FIBDA; o espantoso traço de Ricardo Cabral, com a mostra de panoramas originais num moleskine cujos limites não impedem o registo do campo de visão do autor; o lirismo de José Carlos Fernandes, que é sempre bom de revisitar; o reconhecimento da mestria de Victor Mesquita com uma exposição que nos mostra o seu traço único em pranchas originais de Eternus 9; o relevo dado na exposição da ilustradora Ana Afonso aos vários passos de um projecto gráfico, com capturas de ecrã de várias fases de tratamento digital.
A primeira página do primeiro Homem Aranha.
Quanto ao resto em exposição, o destaque a Cyril Pedrosa pareceu-me modismo ("é em frança! é meio português! vamos dar-lhe três salas"). Se o apelido não fosse português e não tivesse feito um album sobre portugal talvez nunca chegasse às paredes do FIBDA. O tema da autobiografia foi uma aposta que não corre riscos. Reflecte o carácter institucionalizado do festival, destino típico de visitas de estudo e programas culturais. Em Portugal a banda desenhada sofre o estigma de ser considerada arte menor e as temáticas do festival incidem no conferir de uma certa gravitas para convencer o público cultural do valor do género enquanto forma válida de expressão artística. Percebe-se que o Amadora BD começa a acusar uma certa meia idade, com um certo provincianismo nas exposições temáticas ("há gajos tugas a fazer o homem aranha? na marvel? na marvel? no estrangeiro? vamos lá fazer uma sala dedicada a isso!") que ficou bem expresso nas exposições sobre Cyril Pedrosa ou na totalmente espúria dedicada ao Homem Aranha, que só serviu para mostrar pranchas de autores portugueses. Ok, estão de parabéns. Ok, se calhar até merecem mais destaque. Mas ali desenquadrados no meio da exposição central sobre a tradição da autobiografia nos comics... pareceu um mero abanar de bandeira.
A encantadora entrada da exposição de Ana Afonso.
Pranchas originais de Eternus 9 por Victor Mesquita. De cair o queixo com espanto...
O péssimo: aquela disposição em labirinto da exposição principal. Percebe-se a intenção de permitir explorações livres. Na prática é quase preciso um GPS para navegar os espaços interiores. Torna-se difícil perceber sequências temporais em exposições que visam mostrar percursos históricos. Algo horrível: a música pop comercial que azucrina os ouvidos na exposição principal. Quem foi o génio da organização que achou que para melhor se ver uma exposição densa era precisa música da moda? Tenho mesmo que levar com lady gaga enquanto contemplo pranchas originais de robert crumb (curiosa ironia...)? Havia um certo ambiente de supermercado, com magotes de espectadores a atropelarem-se nas salas labirínticas ao som de música comercial. Qual é o problema de observar exposições... em silêncio? Parece que funciona noutros espaços. Museus em geral parece que têm muito sucesso com o conceito. Felizmente não houve nenhum cretinismo como o do ano passado com aquela ideia idiota das cuecas na cabeça.
Certa vez...
Desenhar como forma de manter viva a chama da imaginação. De Eternus 9: A Cidade dos Espelhos, por Victor Mesquita.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Comics
Amelia Cole and the Unknown World: um comic que não traz nada de novo. Magia, mundos paralelos, injustiças, conspirações, uma jovem com poderes que tem de aprender a viver no mundo que a rodeia auxiliada por amigos simpáticos e que é consumida por um segredo que se vai desvendando de aventura em aventura. São artifícios banalizados, particularmente desde que o insuportável harry potter se estabeleceu como referência máxima do género na cultura popular, mas isso não impede esta simpática série sobre uma jovem com poderes mágicos e o seu golem criado a partir de detritos de construção civil de ser encantadora. Ah, já me esquecia da sua incomparável varinha mágica: uma chave inglesa. Magia ao estilo industrial.
Happy #02: A Image Comics está em grande, com uma gama de mini-séries interessantes a puxar os limites do comic comercial. Títulos como Fatale onde Lovecraft e a ficção policial noir colidem, o totalmente insano The Manhattan Projects, o cyberpunk puro de Nonhumans, o horror clássico de Hoax Hunters ou labiríntico Morning Glories. E agora deram rédea solta a Grant Morrison. Venham daí as alucinações com cavalinhos azuis!
Justice League Dark Annual #01: Ok, é um guilty pleasure. Mas como resistir a um título que mistura os super-heróis do sobrenatural da DC? Vale a pena, nem que seja pela tensão sexual óbvia entre John Constantine e as sensuais Zatanna e Madame Xanadu. Confesso que se fosse comigo teria muita dificuldade em escolher. O que me intrigou neste anual da JLD foi o volte-face final dos Books of Magic. Afinal os famigerados livros secretos de magia... são cibernéticos? Ok, ganharam a minha atenção.
Lot 13 #01: Steve Niles chega à DC com um comic curiosamente moderado sobre terrores nos subúrbios. As primeiras páginas são brilhantes, às voltas com superstições da época puritana. Todo o resto é um colocar de peças no tabuleiro. Niles é uma referência do género, por isso aguardemos a ver se Lot 13 é tão interessante como promete.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
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