quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Interzone #242


Uma sólida edição desta revista, com uma excelente entrevista a David Brin sobre os temas subjacentes ao romance Existence. Em termos de ficção, a Interzone arranca de forma pouco promissora com Wonder, uma história suave que revisita os lugares comuns sobre xenofobia com o artifício de alienígenas abandonados na Terra que são ostracizados pela sua diferença. The Message de Ken Liu surpreende. A narrativa sobre a relação entre um pai distante e a filha que lhe é entregue após a morte da mãe decorre sob um cenário de exploração xeno-arqueológica. Os dramas familiares desenrolam-se durante a exploração de labirínticas ruínas num planeta sem vida, um sinal dado à longa posteridade da existência de resíduos radioactivos. Confesso que fiquei intrigado com a solidez desta história.

Passei boa parte da leitura de Needlepoint de Priya Sharma a tentar perceber que diabos fazia uma história sobre castelos, princesas, aias infelizes e intrigas palacianas a fazer numa revista de ficção científica. O mundo vagamente inspirado na Inglaterra isabelina prometia maravilhas de fantástico com relatos de criaturas estranhas em terras exóticas de além mar. Mas a escritora não seguiu esse caminho. No final do conto transforma-o em poucos parágrafos numa narrativa cruel de fantasmagoria. Surpreendente.

A FC hard está representada com o conto Beyond The Light Cone de C. W. Johnson. Num futuro não muito distante, as colónias humanas dispersas pela vastidão relativística são interligadas por uma rede de naves superlumínicas cujos tripulantes são condenados a uma eterna deriva galáctica para além do horizonte de acontecimentos. Isolada numa destas naves, a heroína do conto tem de travar uma outra nave cuja capitã pretende regressar do hiperespaço à realidade normal com consequências mortíferas para a humanidade.

E se as lulas desenvolvessem tecnologia e tentassem colonizar a superfície terrestre? Não falamos de uma invasão de lulas assassinas a arrasar cidades, destruindo tanques e aeronaves de combate com os seus tentáculo. The Remembered de Karl Bunker é uma fábula encantadora sobre os dramas da exploração, que vai beber ao mito de Perseu e constrói um mundo sólido onde lulas inteligentes ultrapassam os limites submarinos e começam a colonizar terra firme no que é uma metáfora mal velada da humanidade e exploração espacial.

Strigoi de Lavie Tidhar é uma excelente desculpa para este premiado autor nos mergulhar no exótico sistema solar do universo central station. Uma vampira que se alimenta de dados pessoais chega à Terra, recordando as suas divagações forçadas pelo sistema solar desde a fuga adolescente de um asteróide, passando pela transformação vampiresca nos corredores esquecidos de uma decaída nave trans-solar e as desventuras em Titã e nas colónias marcianas. Tidhar levanta o véu sobre este promissor universo que mistura elementos de space opera com fantástico surreal e um niquinho de cyberpunk.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Objectificar o Virtual



Num destes dias um aluno perguntou se aqueles modelos que aprendeu a criar no Doga L3 poderiam ser impressos numa daquelas impressoras 3D que mostrei no início das aulas de TIC. Sim, claro, disse-lhe, se bem que o processo não seria automático, envolvendo conversões de formatos nativos ou VRML para OBJ e STL com limpeza de faces e vértices. "Eu podia fazer no (inserir programa aqui) e depois imprimir", disse. Pois. Num futuro próximo as crianças vão poder desenhar os seus brinquedos e imprimi-los em 3D.

"Today, schoolchildren learn how to use PowerPoint and Excel as part of their computer class, and they still learn to draw and sculpt in art class. But think how much better it would be if they could choose a third option: design class. Imagine a course where kids would learn to use free 3-D CAD tools such as Sketchup or Autodesk 123D. Some would design buildings and fantastic structures, much as they sketch in their notebooks already. Others would create elaborate videogame levels with landscapes and vehicles. And yet others would invent machines.

Even better, imagine if each design classroom had a few 3-D printers or a laser cutter. All those desktop design tools have a “Make” menu item. Kids could actually fabricate what they have drawn onscreen. Just consider what it would mean to them to hold something they dreamed up. This is how a generation of Makers will be created. This is how the next wave of manufacturing entrepreneurs will be born." (p. 106)

Cortesia do inconsciente colectivo, esse conceito jungiano que coloca o pulso naquela sensação que andam ideias no ar e que parecem surgir em sintonia, dou com dois parágrafos estimulantes de Chris Anderson no Makers. Leio, e penso: na minha sala de aula só falta a impressora 3D. Mesmo. Já é normal o resto, aprender os conceitos e construir em diferente programas.

"Today, with the spread of desktop fabrication tools, a generation of amateurs is also being suddenly confronted with the baffling language and techniques of professional industrial design, just as they were in the desktop publishing era. Now it’s not wraparound text and line justification, but “meshes” and “G-code,” “rasters” and “feedrates.” Don’t worry—you’ll know what you need to soon enough, and someday kids will be taught these skills in fifth-grade digital fabrication class." (p. 114)

A capacidade de ter equipamentos que permitam criar objectos tridimensionais na nossa secretária é algo de revolucionário. Arrancou com os Fablabs e começa a chegar ao mercado com o makerbot e similares, que utilizam o modelo de crowdfunding para se financiarem. Com preços entre os 2000 e 3000 dólares ainda são caros para o padrão da electrónica de consumo mas como em tudo a pressão da progressiva disponibilização de modelos com a vontade dos utilizadores vai diminuir os preços e facilitar a acessibilidade destas tecnologias. Tempos houve em que uma impressora era uma raridade cara, e agora custa uma ninharia nas lojas de informática de consumo. Começo a partilhar a opinião que a impressão 3D vai redefinir a economia num futuro próximo.

Estão a ver a imagem que ilustra este post? Foi criada como primeira experiência de uma aluna no Doga L3. Imaginem o delírio que seria se depois da criação virtual se fosse capaz de imprimir este objecto em plena sala de aula. Concretizar o virtual, dar corpo táctil aos dados binários. Em breve, talvez, em breve...

Chris Anderson (2012). Makers: The New Industrial Revolution. Nova Iorque: Crown Business

terça-feira, 13 de novembro de 2012

RA in the wild.


Momento intrigante hoje na aula. Um dos alunos deparou com um vídeo e ligações na página moodle da turma sobre realidade aumentada. Dei por isso quando o vi de telemóvel em riste a descarregar o Augment e o ES Explorer. O instinto docente quase me levou a ir ajudá-lo, mas optei por o deixar entregue a si mesmo. Passei-lhe apenas um marcador de realidade aumentada impresso, dizendo que ia precisar daquilo. E virei costas. Momentos depois era vê-lo sorridente, a apontar o telemóvel para o marcador e a visualizar a torre eiffel em realidade aumentada. O puro sorriso da descoberta de algo novo e fascinante, de um cérebro estimulado por novas ideias. Mostrei-lhe que podia pegar no marcador, movimentá-lo e visualizar o objecto 3D de diferentes pontos de vista em tempo real. E voltei a virar costas. Do canto do olho continuei a ver o sorriso e o olhar interessado. A seguir foi ter com os colegas de que é amigo e partilhou a descoberta. Alguns não ligaram, outros ficaram espantados... e lá me vieram pedir mais "papelinhos daqueles que dão para ver coisas em 3D"...

Foi um daqueles momentos mágicos, que faz valer as chatices do dia a dia, as tropelias dos ministérios e o sufoco conceptual deste momento presente. Um momento em que percebi que uma criança foi por si mais além do que o esperado, pegando no vislumbre que lhes deixei e construindo a sua aprendizagem.

(RA significa, claro, Realidade Aumentada.)

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What is actually there

"Imagination is the source of our creativity, but imagination and creativity are not the same thing. Imagination is the ability to bring to mind things that are not present to our senses. We can imagine things that exist or things that do not exist at all." (...) "Creativity is a step further on from imagination" (...) "People are not creative in the abstract; they are creative in something: in mathematics, in engineering, in writing, in music, in business, in whatever. Creativity involves putting your imagination to work. In a sense, creativity is applied imagination. Innovation is the process of putting new ideas into practice. Innovation is applied creativity." (p. 282)

"We ask how we can measure intelligence. The assumption is that intelligence is quantifiable. We ask how we can raise academic standards but do not question whether they deliver what we need to survive in the future. We ask where we can find talented people but ignore the talents of people that surround us. We look but we do not see, because our traditional common-sense assessment of abilities distracts us from what is
actually there. " (p. 219)

Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

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Colapso sistémico

Não é habitual ver Ray Kurzweil citado fora de contextos tecno-utopistas ou de ficção científica, e raríssimo no caso da educação. Steve Wheeler falou-nos deste tecnologista norte-americano ao extrapolou o conceito de singularidade tecnológica para um panorama educacional que se consciencializou da importância da integração de tecnologias na edicação, que enquanto se deslumbra com as potencialidades das tecnologias teme os seus efeitos, e mal domina uma aplicação  logo descobre que existe algo melhor ou mais interessante. Singularidade é um conceito de colapso sistémico sob pressão de tecnologias de evolução progressivamente acelerada com impactos transformativos profundos.

Wheeler fez-nos olhar para a evolução dos serviços web que utilizamos para perceber quão rápida a sua evolução, mudança, intensidade da explosão de comunicação e criatividade expressa no volume gargantuesco de informação criada e partilhada online. É-nos claro que a internet, particularmente na partilha ubíqua de informação, veio para ficar. Novas gerações num mundo potenciado pela tecnologia têm de adquirir conhecimento profundo, aprendizagens que lhes permitam gerir, fazer sentido, agir e ser criativos num ecossistema de constante mudança. É um novo paradigma que vai mais longe do que a aquisição de conhecimentos como finalidade da educação.

O acesso à informação, os dados por si só de pouco valem. Assumem importância quando são trabalhados, reflectidos, quando se vê o padrão a emergir do ruído de informação. O desafio presente é reorientar as práticas pedagógicas para reflectir a diversidade e os desafios contemporâneos trazidos à escala planetária pela tecnologia. Poderá passar pelo reconhecimento do potencial da acção de multidões crowdsourcing, crowdfunding, jogo de aprendizagem, espaços virtuais tridimensionais, realidade aumentada, enfim, de uma utilização activa e criativa da crescente gama de tecnologias ao dispor dos utilizadores. Este primeiro passo terá de se reflectir na qualidade da informação, dando importância ao discernimento informado e à capacidade de julgamento e reflexão sobre a veracidade e pertinência da informação disponível no cada vez mais vasto oceano de dados em que mergulhámos. Implica abordagens que estimulem a metacognição, novas competências de gestão de perfis/personas online, de segurança dos dados pessoais. Ficamos desconcertados com a vastidão do manancial de possibilidades trazidas pela explosão na acessibilidade e conectividade mediada pela tecnologia. No entanto, a capacidade de uso inteligente é algo a despertar nos alunos, membros de uma geração digital fortemente estimulada a consumir conteúdos mas que tem de ser estimulada a produzir e a utilizar livremente para os fins que entender. Cada vez mais se sente que a importância da utilização de tecnologias digitais na educação está do estímulo metacognitivo, no aprender a aprender e na flexibilização do pensamento criativo face à barragem constante de novos desafios do que no domínio de ferramentas específicas.

domingo, 11 de novembro de 2012

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Educação universal: consequências

"Some skeptics argued that it was waste of public resources to attempt to educate the children of the working classes: such children were essentially uneducable and would not benefit from these efforts. They were wrong about that. Others feared the social and political consequences: educating the working classes would give them ideas above their station and lead to a social revolution. They were not wrong about that." (p. 122)


"We now take it for granted that governments should provide mass systems of education; that they should be funded from the public purse; that all young people should go to school until they are at least 16 and that a high proportion of them should go on to college. As obvious as they may seem now, these assumptions are relatively new.1 It was only from the 1860s onwards that countries throughout Europe, as well as many of the American states, began to establish mass systems of public education." (p. 119)

Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing.

sábado, 10 de novembro de 2012

Mudança frenética

"On almost every front, the pace of change has become ever more frantic and the issues at the heart of this book have become more pressing. Consider the rate of change in technology. Ten years ago, the Internet was still a novelty for most people. There were no smart phones, iPods; no Facebook, Twitter, YouTube or most of the social media sites that are now transforming culture and economics around the world. Many other things have happened too – from the global impact of the events of 9/11 to the compounding effect of the Great Recession – that simply could not have been anticipated ten years ago: in politics, the economy, in culture and in the environment. The sheer unpredictability of human affairs lies right at the heart of my argument for cultivating our powers of creativity: in business, in education and in everyday life." (p. 20)

Ken Robinson (2011). Out of Our Minds. Chichester: Capstone Publishing,


Leituras diabólicas


As virtudes da leitura. Quem é que nunca se sentiu capaz de ser levado e pensar em ideias marotas, insanas, revolucionárias ou avassaladoras depois de mergulhar na partilha de conhecimento contida entre as páginas de um livro? Ler dá-nos lenha para as fogueiras do pensamento.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Processos


Esboços, guionização e vinhetas de Paulo Monteiro


Processo de pintura digital de Ana Afonso

Um dos pormenores interessantes do Festival Internacional de BD da Amadora foi o destacarem os processos de criação de alguns autores, mostrando guiões, rascunhos, blocos de apontamentos ou capturas de ecrã de tratamento digital. É um importante vislumbre sobre a forma de criar em banda desenhada, sobre os processos mentais dos criadores e as técnicas que utilizam para transformar ideias em imagens no papel. Achei intrigante que Paulo Monteiro use cadernos de linhas para rascunhar (mais práticos? baratos?) e interessante a organização de paletas de cor de Ana Afonso. Noutro indicador destes processos, as pranchas originais expostas de Paulo Monteiro tinham os desenhos a descolar-se... outra forma de mostrar como é composta a página de banda desenhada.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

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Sinal dos tempos

"Agora os pais têm geralmente o secundário nas habilitações. Alguns ensino superior. Antigamente era habitual o nono ano". Palavras proferidas  por uma colega de trabalho, directora de turma  já com muitos anos de experiência a lidar com grupos de alunos e os seus pais. Por pouco não faltou ir mais atrás e observar que houve tempos em que o habitual era a quarta classe. Ela falava casualmente ao caracterizar a sua direcção de turma da generalidade das habilitações literárias dos pais e encarregados de educação dos alunos.

É daquelas coisas que só nos apercebemos quando paramos para pensar. A rapidez da evolução da formação na generalidade da população portuguesa. Os pais de hoje pertencem à minha geração, pertencem a um grupo social que teve acesso (e obrigatoriedade de frequência) a uma escolaridade alargada. A normalidade do antigamente - ensino básico como padrão de escolaridade, foi substituída pelo ensino secundário. São pequenas observações que espelham o elevar no nível de habilitações da generalidade dos portugueses. Recordo-me das minhas primeiras direcções de turma, em escolas na periferia de Lisboa, cujo padrão de habilitações dos pais e encarregados de educação se ficava essencialmente pelo quarto ou nono ano. Evoluímos, e evoluímos depressa. Neste momento de crise profunda, em que muitos nos querem fazer crer que investir no progresso do país é desperdiçar recursos e desequilibrar sacrossantos modelos financeiros, é bom olhar para estes pequenos sinais e reflectir no quanto evoluímos nos últimos quarenta anos. Evolução rápida, mas de percepção lenta. Ainda resta muito que fazer. Mas este facto estatístico é revelador.

Podemos e devemos criticar a qualidade do ensino. Mas já não podemos negar a sua abrangência e o cumprir da promessa de melhorar o nível de habilitações da generalidade da população. Daí a plenas literacias e mudanças de mentalidade que reflictam a importância da educação e aprendizagem faltam muitos passos. O inicial está dado.

Murder Mysteries


Neil Gaiman, P. Craig Russell (2002). Murder Mysteries. Londres: Titan.

O mito da queda dos anjos é revisitado por Gaiman com um toque de tragédia miltoniana. A convuluta morte de um anjo nos céus é o mote para que aquele que se tornará o príncipe dos infernos comece a questionar a infalibilidade do seu criador. Por detrás do crime, investigação e castigo está uma metáfora sobre o mito enquanto história em que todos os personagens desempenham um papel pré-definido, mesmo que pela sua natureza sejam imaginados como poderosas criaturas reais paranormais. Murder Mysteries é um misto de Agatha Christie com Paradise Lost, ao qual a elegância vibrante do traço de P. Craig Russell dá vida.

Perspectivas


Maquete de cenário de opera, patente no salão nobre do Teatro Nacional de S. Carlos.


Interface gráfico do Bryce, programa de modelação 3D.

É um daqueles acasos do inconsciente colectivo. Na semana em que os alunos começaram a experimentar o 3D com o Bryce, tive oportunidade de assistir a uma ópera no S. Carlos e ver maquetes e adereços em exposição. Os paralelos visuais são enormes. O palco oculta um complexo e engenhoso sistema de cordas e roldanas que vai alternando cenários que exageram a perspectiva para que os espectadores possam visualizar a representação na perfeição. Já o programa 3D funciona como um palco onde podemos dispor os elementos e objectos no espaço. Subjacente quer aos cenários quer ao 3D está a ideia de perspectiva, esse constructo óptico-gráfico que herdámos do renascimento (mas tem uma história muito mais longa) e que condiciona o nosso modo de representar a forma como vemos o mundo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

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Creatures of the Night


Neil Gaiman, Michael Zulli (2004). Creatures of the Night. Milwaukie: Dark Horse Comics.

O traço complexo e expressivo de Zulli dá vida a duas fábulas negras de Neil Gaiman. Numa, um gato cheio de feridas é o protector de um lar face a forças tenebrosas e noutra a ignorância e a violência sexual encontram na imagem da coruja uma metáfora libertadora. Não é um livro particularmente extraordinário. Dá-nos exactamente o que esperamos da prosa de Gaiman.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Eternus 9: A Cidade dos Espelhos



Victor Mesquita (2010). Eternus 9: A Cidade dos Espelhos. Lisboa: Gradiva.

Space Opera e psicadelismo cósmico mesclam-se neste segundo volume da série criada e ilustrada por Victor Mesquita no seu estilo reminiscente da ilustração psicadélica dos anos 70, Moebius e Druillet. Um autor de BD numa distópica Lisboa futura debate-se com a conclusão de um album enquanto se divide entre reminiscências de uma infância onde aprende o gosto pelo fantástico, as pressões de uma sociedade vigiada por forças opressivas, e o canalizar da persona de Eternus 9, navegante do espaço sideral. Jornada de introespecção interior, este livro mistura o poder da fantasia com um humanismo transcendental espelhado no papel do homem face à vastidão do cosmos e as profundezas dos sentidos da vida. São temáticas algo singulares na época contemporânea, reflexo de uma outra era onde os temas cósmicos imperavam num estilo de banda desenhada que misturava surrealismo e futurismo.

Victor Mesquita é o autor português que mantém esse estilismo reminiscente do surrealismo cósmico de Moebius e do barroco futurista de Druillet. Mesquita tem um traço muito próprio e detalhado, que me faz sempre pensar nos belos excessos da ilustração psicadélica. Combina o seu traço com experimentalismo digital, que se traduz nalgumas vinhetas soberbas mas também em falhas visuais quando o desenho e do digital não combinam ou quando o excesso de desfocagem pixeliza a imagem.

Um pouco menos coerente do que o genial e marcante Eternus 9: Um Filho do Cosmos, este A Cidade dos Espelhos dá-nos vistas assombrosas de um futurismo ao mesmo tempo naturalista, surreal e urbano. Vale por ser marcante, por demonstrar a vitalidade da Banda Desenhada portuguesa num registo muito diferente ao habitual, e do esforço do percurso individual de um autor que oscila entre mestre e maldito do panorama português.