quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Conceitos


A conceptualização comercializada: partilha sem solavancos de ambientes de trabalho, faces sorridentes a colaborar em tempo real à distância, olhando a câmara de frente.


A realidade: o ângulo contrapicado aleatório da câmara web incorporada de baixa resolução a sublinhar a luminosidade sombria. Contemplação de imagens estáticas. Texto corre sobre o ecrã. Constantes interrupções no discurso porque a transmissão de som tem falhas constantes. Intermitência sonora. A adopção da videoconferência através da web começou, mas a realidade ainda está longe da experiência elegantes que conceptualizamos nas visões optimistas do futuro tecnológico.

Levitação


Parece que a torre Eiffel fez uma aparição no Centro de Recursos. Ou isso ou um teste ao Augment, aplicação de realidade aumentada que permite visualizar modelos 3D descarregados da web sobrepostos aos ambientes do dia a dia.


Basta deixar o marcador à vista da câmara, arrancar a app com acesso web... e nem a sala de professores escapa à invasão.

Próximos passos: dar a volta à texturização em 3D, na qual eu sou notoriamente azelha. Maus hábitos do vrml, que deixa que cada componente de um objecto tenha uma cor nativa atribuída. Os formatos de ficheiro lidos pelas apps de AR vão para a gama obj/stl, e esses precisam de um mapa de texturas. É desta que tenho de aprender a fazer wrapping de UVs. Em seguida, libertar para os alunos. Ensiná-los a criar objectos 3D, fazer o upload para a augment e... soltar bicharada virtual pela escola. Para algumas turmas de 7º e 8º ano será já para a próxima semana. Entretanto magica-se nas palavras apressadas da coordenadora do Centro de Recursos, que olhou para o tablet e falou em contar histórias. Agora é matutar no como.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Realidade Virtual na sala de aula


Agora ovelhas voam pela sala de aula? É o resultado dos primeiros testes com uma aplicação de realidade aumentada para iOS e Android. O que para mim a distinguiu de outras foi a possibilidade de descarregar um marcador universal do seu website (que funciona muito bem como PDF projectado) e poder carregar modelos 3D criados pelos utilizadores. A aposta no crowdsourcing é sempre inteligente.


A ver o invisível, apontando o tablet ao marcador...

A aplicação que estou a testar chama-se Augment. Funciona em duas formas, com um sítio web para descarga de marcadores e upload de modelos 3D e uma app para smartphone/tablet para visualizar objectos de realidade aumentada. A aplicação reconhece ficheiros OBJ, STL, DAE, 3DS e BLEND com mapas de textura incluídos em ficheiros zip. Como tenho uma relação má com mapas de textura experimentei com modelos VRML convertidos para OBJ com o Meshlab.

A app no tablet liga-se às bases de dados da Augment na web e descarrega modelos para visualização em RA. Podemos aumentar o tamanho e reposicionar o objecto no espaço. Não descortinei forma de rodar, mas o deslocar fisicamente o tablet funciona como andar à volta do modelo.Tem um inconveniente: não nos dá uma lista dos nossos modelos e obriga a uma pesquisa e descarga sempre que alteramos o modelo a visualizar. Ou então ainda não encontrei uma opção de acesso rápido aos meus modelos, ou à possibilidade de armazenar localmente um modelo.


E enquanto os alunos lutavam com marcadores de índice em Word ou navegabilidade por hiperligação no powerpoint... o professor andava a fazer voar foguetões virtuais na sala de aula.

Resta testar a criação e upload de modelos texturizados. O passo seguinte será libertar a app para uso pelos alunos. A experiência de mexer em realidade aumentada é divertida e encaixa-se bem em alguns dos projectos a desenvolver nas aulas de TIC. Estou já a planificar uma actividade que envolve  a criação de modelos 3D pelos alunos (utilizando o Doga Project, Sketchup ou Vivaty Studio), a instalação da app por aqueles cujos smartphones o permitirem, e espalhar marcadores pela escola fora para mostrar objectos virtuais sobrepostos à realidade onde menos se espertar.

nenhures_bent


frente


Uma combinação de imagens obtidas com processos de pixel sorting.

Arquitectura e Algoritmos

Algorithmic Architecture from Plethora on Vimeo.

O fascínio do glitch tem a ver com a busca deliberada da imperfeição na iconografia digital. A computação sempre esteve envolta numa mística de perfeição. O computador faz melhor, a imagem digital é mais nítida, mais realista, hiperreal, indistinguível ou melhor do que a realidade, numa escalada de perfeição progressiva. A frieza desumana dos algoritmos subjacentes ao mundo digital é humanizada pelos seus erros, pelos desvios à norma, pelos surtos de imperfeição nos sistemas. Sabemos que são fugazes, erros que serão corrigidos em novas iterações dos algoritmos ou do software. Mas estão lá. Podem ser criados, manipulados e apropriados para uma nova estética que humaniza a fria lógica algoritmica. Que encarna o pixel perdido, a operação anómala, o pacote desaparecido nas entranhas da rede. Foram pensamentos que me ocorreram ao ver Algorithmic Architecture, pequeno filme que explora os erros no algoritmo de sobreposição de imagens que permite gerar uma visão contínua do espaço urbano através de milhões de fotografias tiradas pelos sistemas que mapeiam continuamente as ruas das cidades. Mais do que um aproveitamento de erros de representação, o filme procura ser uma meditação sobre a simbiose entre o homem e os algoritmos que elabora, que começam a modificar a forma da realidade que nos rodeia.

domingo, 14 de outubro de 2012

Sonho Europeu

A atribuição do prémio Nobel da paz em 2012 à União Europeia está a intrigar jornalistas e a despertar risos mordazes que alastram pelas redes sociais. É um prémio que nos dias que correm nos deixa um pouquinho siderados. Neste momento actual, em que políticas económicas de austeridade selvagem são impostas a boa parte da população da União, em que um país parece ter assumido uma liderança de facto mas não de jure apenas por ter os cofres recheados em tempos de míngua financeira, em que a economia se afunda e as instituições europeias se mostram incapazes ou sem vontade de intervir decisivamente, em que manifestações massivas pacíficas ou violentas mostram o progressivo descontentamento de populações cada vez mais desesperadas, em que a soberania de alguns países está efectivamente suspensa, funcionando os seus representantes eleitos como meros pro-cônsules com a obrigação de impor políticas de austeridade vindas do exterior, é atribuído o altamente simbólico prémio Nobel da paz a uma instituição notoriamente tecnocrática que funciona segundo o princípio clássico de nós sabemos o que é melhor para todos, que toma decisões que afectam a vida de milhões ultrapassando as soberanias locais sem os escutar, e que nas raras vezes em que se digna a consultar os cidadãos europeus para ratificar decisões já tomadas obriga à realização de referendos sucessivos até que a vontade expressa pelos cidadãos reflicta a vontade dos euro-tecnocratas? Um Nobel da paz... a isto?

A fundação Nobel é uma daquelas instituições que concebemos como cheias de seriedade e gravitas, a apontar para assuntos importantes e sérios. É a sua mística, de instituição neutra cuja intervenção se limita a uma fortemente simbólica escolha anual. As suas atribuições no campo das ciências destacam-se pelo carácter revolucionário silencioso das investigações premiadas, e a literatura mistura uma agenda de qualidade literária com uma promoção discreta de autores que caem fora da esfera euro-americana que domina o panorama literário mundial. Já o Nobel da paz é um prémio assumido, de forma muito discreta, como controverso e distingue habitualmente pessoas ou instituições que travam lutas contra governos opressivos ou injustiças sociais que no momento da atribuição do prémio podem parecer desesperadas ou perdidas. Recordam-se de Desmond Tutu nos tempos do apartheid, ou de Ramos Horta e Ximenes Belo quando a Indonésia ocupava Timor Leste? Também atribuiu prémios carregados de simbolismo, como a Gorbachev pelo fim da guerra fria ou Obama por ter sido o primeiro presidente afro-americano da história dos estados unidos. São atribuições dúbias, que obrigam à reflexão. Se olhamos para este prémio da paz para a União Europeia e discordamos, é porque algo está mal. Talvez seja isso que o discreto comité quer sublinhar.

Uma coisa é inegável: a União Europeia conseguiu o impensável. Num continente cuja história está recheada de conflitos sangrentos e que legou ao mundo a  primeira guerra combatida à escala planetária (a II, e felizmente não voltou a haver outra do género), onde as divisões culturais e fronteiriças imperavam, a UE trouxe... união. Trouxe paz a um continente habituado a grandes guerras periódicas ou a pequenos conflitos rotineiros. Trouxe programas de investimento que harmonizaram infraestruturas entre países mais desenvolvidos e países menos desenvolvidos e que tiraram da pobreza extrema milhões de cidadãos europeus. Recordam-se do Portugal pobre, ruralizado, sub-desenvolvido e semi-analfabeto dos tempos anteriores à adesão à CEE, posteriormente UE? Por muito negros que sejam os dias de hoje, e por muito euro mal investido em auto-estrada no meio de nenhures, é inegável que gozamos de um nível de vida superior e de horizontes mais alargados do que teríamos se não integrassemos a UE.

Este prémio Nobel é uma enorme chapada de luva branca na face dos líderes e cidadãos europeus. É um toque de despertar. É um aviso. Recorda-nos da importância da UE para a paz e prosperidade. Avisa-nos que as indecisões do momento actual, os desiquilíbrios entre regiões transnacionais, a submissão cega a mercados financeiros desregulados, a tónica na austeridade sacrificial como pena a aplicar a todos pelos desmandos de alguns, a preponderância de um estado-nação dentro de uma união de estados, colocam em risco todas as conquistas dos últimos sessenta anos. Arrisca-se a desagregação, a perda da união, a alienação dos cidadãos. Afunda-se o ideal europeu através do empobrecimento forçado para manter um status-quo ilegítimo. E avisa também que as instituições europeias têm de fazer um esforço por ser mais transparentes e democráticas. Um dos paradoxos da construção europeia é a forma pouco democrática de construção de uma cultura democrática pan-europeia. Este prémio recorda-nos tudo o que foi conquistado, o risco fortíssimo de perda dessas conquistas, e obriga a reflectir no que temos de fazer para manter de pé o sonho de uma sociedade europeia próspera, pacífica e justa.

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Em busca de ventos de mudança. Omnia mutantur et nos mutamur in illis.

sábado, 13 de outubro de 2012

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Vamos fazer barulho?

Droit de Seigneur

"Que comam brioches", terá dito Maria Antonieta nos tempos de crise que antecederam a revolução francesa. Belos tempos, em que a elegante aristocracia construía palácios à custa de um povo esfomeado. A história mostra que tudo acabou bem. Graças à revolução francesa a ideia de democracia espalhou-se pela Europa e pelo mundo. Mas só depois de um período sangrento onde muitas cabeças rolaram, entre as quais a que proferiu uma frase que afinal é apócrifa.

O fait divers que apimentou a paisagem mediática ao longo da semana envolveu quatro carros de luxo a suposto menor custo - efeito de contenção em tempos de crise. Previsivelmente, o caso causou celeuma. Num momento negro em que se exigem e impõem sacrifícios esmagadores aos portugueses, os seus representantes eleitos orgulham-se de ter poupado com a aquisição de carros de luxo um bocadinho menos caros do que o habitual. Para defender o seu direito e razão, saem-se com argumentos geniais como  «Qualquer dia querem» que o líder parlamentar do PS «ande de Clio»  (porque, enfim, as pessoas importantes têm de se deslocar em símbolos de status, não é qualquer calhambeque que serve) ou demonstram solidariedade em tempos de crise prescindindo de BMWs para andar em Audis. São actos simbólicos, luxos despesistas que no contexto global são de pouca monta mas altamente significativos para uma população acossada, esmagada e empobrecida. Incompreensíveis por todos aqueles que se deslocam para trabalhar e não esperam que as entidades para quem trabalham lhes forneçam veículos.

Mais chocante do que a manutenção de luxos e privilégios em tempos de crise pelos que pedem aos portugueses que se sacrifiquem é toda a atitude de defesa desses luxos. Fica-se estarrecido a ouvir os deputados afirmar com toda a naturalidade que é um direito que têm, que seria uma indecência fazer as coisas de outra forma, que é um pequeno custo inerente à democracia. Demonstra até que ponto aqueles que sendo os representantes eleitos do povo (ou, pelo menos, dos que votaram no seu partido) vivem na versão política das torres de marfim, afastados da realidade de um país que afirmam conhecer, embrenhados em modos de pensar onde os privilégios auto-instituídos se sobrepõem ao mais comum bom senso. Essencialmente, o que ouvimos foi representantes eleitos a afirmar com bonomia, com aquele tom mas não percebem o que é óbvio que se usa com aqueles que não têm capacidade mental, que fazem o que fazem porque têm esse direito e sempre foi assim. Uma versão contemporânea do droit de seigneur medieval, o argumento que justificava qualquer acção do senhor feudal porque, enfim, era dono e senhor das terras e das populaças que por lá pululavam.

São estes aqueles que nos representam, tutelam e decidem o que é melhor para todos. Distintos herdeiros de um espírito feudalista que evoluiu da violação ao carro de luxo de alta cilindrada. É o direito do senhor, vivo e de boa saúde no Portugal do século XXI.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

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Comics


The Massive: Brian Wood assina um comic futurista discreto ilustrado com um traço expressivo por Garry Brown. Num distópico futuro próximo o degelo provocado pelo aquecimento global submergiu as cidades costeiras e ajudou a causar um colapso económico e social. Por entre um mundo à beira da extinção um grupo naval de eco-activistas procura pelos sete mares o navio The Massive, misteriosamente desaparecido. Este comic não está a ter a promoção bombástica que outras editoras dão a produtos menores, mas está a evoluir calmamente para uma narrativa épica apocalíptica que nos obriga a reflectir sobre possibilidades de um futuro dominado por desastres ecológicos.


Frankenstein Agent of S.H.A.D.E. #13: Jeff Lemire andou a divertir-se à grande nos primeiros números deste novo título da DC 52, com resultados espantosos de sanidade duvidosa. Matt Kindt, agora ao leme do título, não está a chegar à fasquia de puro entretenimento que herdou mas mantenha-se a confiança. Afinal, trata-se do autor do intrigante Mind MGMT e do estonteante Revolver o que sugere que a insanidade divertida de Lemire seja direccionada labirintos mentais. Para não variar, Alberto Ponticelli rebenta os limites da vinheta com expressionismo puro.


Batman #13: Scott Snyder trouxe de regresso o arqui-vilão Joker numa encarnação que promete ser impossivelmente psicótica. Digamos que se está a dedicar a recordar os seus crimes icónicos para mostrar a profundidade da relação simbiótica com o homem-morcego com uma psicose sublinhada pela pele solta do rosto, arrancada numa aventura anterior. Promete ser uma interessante colisão do batman clássico com The Killing Joke e Silêncio dos Inocentes.


Before Watchmen: Dr. Manhattan #02: Não está a ser um dos mais inspiradores títulos da prequela de Watchmen, mas a forma como J. Michael Straczynski decidiu recriar a origem do todo-poderoso Dr. Manhattan é curiosa. O segundo número do comic deixa a cabeça a andar à roda com uma tortuosa visão do paradoxo do gato de Schrödinger aplicado ao planeta, onde as escolhas simples bifurcam os mundos, o herói icónico assiste à sua não existência e o único indicador que algo não está a correr como deveria é um relógio que se recusa a trabalhar. Terá parado o tempo ou o relógio? Straczynski anda a meter-se com física quântica e probabilística, mostrando o poder dos comics em simplificar conceitos complexos para leigos e fazer voar a imaginação com a poesia da ciência mais pura.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

True Skin


TRUE SKIN from H1 on Vimeo.

Mesmerizado pela estética e conceitos da curta metragem True Skin. A história que conta é banal: um humano com próteses digitais aumentativas é perseguido pelas ruas de Bangkok por ter roubado um protótipo e escapa à morte digitalizando a sua consciência para posterior descarga num corpo robótico. A estética mistura a iluminação gritante do néon com realidades aumentadas, ciber-organismos e uma visão de ruas decadentes num futuro próximo claramente inspirada - e a homenagear muito bem, em Blade Runner. Conceptualmente, o filme brinca com conceitos transhumanistas de mind uploading, próteses biónicas, convergência do real e do digital, corpos robóticos à medida, mercados negros onde qualquer tecnologia pode ser encontrada e interfaces futuristas de realidade aumentada. Uma delícia visual às voltas com premissas que espelham reflexões contemporâneas sobre possibilidades do futuro próximo.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

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A brincar com o pixel sorting. E, claro, a remisturar com o Gimp. Tentador? Descarreguem o processing e experimentem com o código.

Lost Rivers


O espaço urbano como destino do mistério exploratório. Após esquadrinhar, registar e mapear cada centímetro quadrado do planeta, resta-nos o subsolo urbano com a sua riqueza de substractos históricos para manter acesa a chama do mistério desvendável com expedições aos mais inauditos recantos. Fascinado pelos exploradores urbanos, que calcorreiam os túneis que serpenteiam debaixo das ruas das cidades armados de máquinas fotográficas e câmaras que registam os espaços ocultos sob os nossos pés. O mundo subterrâneo, não o de Kircher, mas aquele que se oculta sob as espaçosas avenidas e os prédios ultra-modernos. A imagem do arqueólogo aventureiro, que desvenda segredos ocultos entre tomos poeirentos e ruínas anciãs, actualizada para um século XXI onde a cidade é à escala global o local de eleição para a humanidade. Lost Rivers documenta a redescoberta dos rios e ribeiras desviados do subsolo citadino (e Lisboa é uma cidade em cujas principais avenidas já correram ribeiras, hoje vestigiais no sistema de esgotos) mas no ar fica o fascínio pela exploração dos espaços urbanos esquecidos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

On The Beach



Nevil Shute (2000). On The Beach. Thirsk: House of Stratus.

É uma tarefa ingrata. Não é tarefa fácil imaginar o impensável na época em que os cientistas atómicos andavam felizes da vida a rebentar bombas para perceber quais os estragos possíveis, ainda longe das teorias sobre o inverno nuclear e sem cair na ideia feita de andrajosos sobreviventes que sucumbem à fome e feridas múltiplas por entre as ruínas radioactivas da civilização ocidental. O notável neste livro é que tudo se fina numa calmaria enorme, longo contraponto de resignação após breves dias de loucura que aniquilaram o hemisfério norte numa chuva de bombas nucleares.

Shute nunca é muito claro sobre o que terá acontecido. Cria uma narrativa histórica a partir de conflitos regionais que por engano escalavam ao hemisfério norte. Trocas de bombas entre a União Soviética e a China, bombardeiros egípcios que arrasam Nova Iorque sob um cogumelo atómico, resposta americana com mísseis disparados para a Rússia, inevitável arrasar do continente europeu... é difuso, intencionalmente. O autor diz-nos que após o facto, pouco mais interessa. A extinção da humanidade torna inúteis as quezílias históricas.

Se o hemisfério sul é poupado à aniquilação imediata pelas bombas, não escapa à morte invisível e silenciosa trazida sob um manto de radioactividade que se espalha metodicamente sobre o planeta. Resta aos sobreviventes viver os seus últimos meses numa normalidade que é progressivamente erodida. É aqui que Shute surpreende. Não há histerias nem revoltas, apenas uma resignação que se traduz em aceitação e ir vivendo o dia a dia até à chegada inexorável da onda de radioactividade. A extinção da humanidade, com fleuma britânica.

De facto, o livro assemelha-se a uma longa novela onde pessoas normais vivem a sua vida banal, num cenário em que a terra onde vivem vai desaparecendo progressivamente debaixo de uma maré invisível. Os detalhes são sempre difusos, ficam sempre por uma perda de contacto que foge à tragédia humana. Os personagens - um oficial da marinha australiana, um comandante do que se torna o último submarino nuclear americano, um cientista que estuda os efeitos da radioactividade e os seus familiares aceitam o destino inelutável e seguem os procedimentos e regras sociais até ao tranquilo fim.

On The Beach vai-se lendo e não nos toca até aos parágrafos finais, em que assistimos ao suicídio colectivo dos personagens através de cápsulas providencialmente fornecidas por um governo previdente. É impossível não sentir uma certa tristeza. Se se lê este livro pelo que é - uma relíquia da era atómica, uma obra que fora dos limites sensacionalistas da FC da altura se atrevia a perguntar o que aconteceria "se os nossos responsáveis políticos perdessem a cabeça e libertassem a energia da fissão atómica contida nas cada vez mais incontáveis armas nucleares", terminamos com uma forte sensação de depressão. O final é previsível, mas não por isso menos triste.

domingo, 7 de outubro de 2012

Mãos anafadas


O livro 1984 de George Orwell preconiza a sociedade panopticon, e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley a sociedade do espectáculo, duas vertentes do mundo contemporâneo. Não conheço nem me recordo de nenhuma outra obra de ficção científica que antevesse o corrente apocalipse financeiro. Geralmente os escritores ficaram-se por coisas mais prosaicas como pandemias, invasões alienígenas, guerras nucleares, infestações de zombies, singularidades trazidas pela complexidade tecnológica ou o esgotamento de recursos naturais. Ninguém se lembrou que o fim da civilização ocidental poderia chegar através das mãos anafadas dos banqueiros e aventureiros da finança.

(A imagem tem a sua razão de ser. Não, não são hordes manipuladas por um qualquer querido líder ditatorial. É um fotograma de Things To Come, um clássico do cinema de FC com argumento de H.G. Wells que segue na perfeição uma linha utópica que deixou de estar na moda. Guerras atómicas aniquilarão a sociedade, que no futuro decairá para um quase barbarismo. Um grupo de cientistas preserva o conhecimento, espalhando-o através de missionários voadores (leram bem). A sociedade humana é reconstruida e mergulha num período dourado. Mas, simbólico da era, a prosperidade civilizacional só é obtida graças a um governo tecnocrático que decide o que é melhor para a população. O filme termina com o obrigatório arranque da colonização das estrelas por uma nova humanidade.)

Comics


Creepy #10: A Dark Horse reviveu a clássica Creepy e para o décimo número preparou uma surpresa aos leitores, com uma edição de terror lovecraftiano onde pontuam Doug Moench nos argumentos e Kelley Jones, Richard Corben (cujo estilismo sempre achei cansativo mas a funcionar muito bem em curtas) ou Peter Bagge a mostrar o lado negro do humor lovecraftiano.


Dial H #5: Será que a DC sabia o que estava a fazer quando contratou China Miéville para argumentista de Dial H, originalmente um comic com uma premissa já de si pouco sã? Miéville liberta puro surrealismo em quadricromia, apoiado por um Mateus Santolouco em modo de génio do lápis. Mas apesar da elevada estranheza de Dial H, confesso que esperava mais de um escritor deste calibre.


Before Watchmen: Rorschach #02: Se Alan Moore suspeita que algum fã tem pensamentos destes a serpente glycon terá um aperitivo para abrir o apetite. Polémica pelo conceito, a prequela de Watchmen tem sido caracterizado por abordagens pouco homogéneas. Algumas ficam-se pelo banal, como se os autores tivessem medo de enfrentar Moore e fiquem-se por recriações que depressa serão esquecidas. Outras mandam os limites às urtigas. Rosrchach ficou a cargo de Brian Azzarello no argumento e Lee Bermejo na ilustração. O resultado? Uma prequela violenta, suja, num registo intrigante de urban noir que o traço de Bermejo acentua de forma quase pornográfica.

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sábado, 6 de outubro de 2012

Alfinetes


Um retrato do país em pacotes de açúcar, saídos aleatoriamente do cesto. Porque se todos fazem o diabo a quatro já a muito poucos resta algo para os alfinetes. Sabedoria de café...

Voodoo


Coisas que acontecem quando Alan Moore pega num personagem: as suas características típicas ficam esquecidas enquanto a história avança num enredo de características místicas ou esotéricas. Foi o caso de Voodoo, originalmente uma personagem da Wildstorm com a capacidade mística de saber se alguém estava possuído por agentes de uma espécie alienígena invasora. Moore coloca tudo isso de lado e mergulha a personagem em Nova Orleães, numa história que é uma boa desculpa para o autor brincar com os ícones sagrados da religião vodun com um toque de sexualidade sagrada à moda de Ísis e o eterno conflito de equilíbrio entre forças ocultas. Da personagem original mantém-se a identidade de dançarina exótica em bares de strip-tease.

Não era o que esperava quando peguei nos comics. Sendo algo da mente de Alan Moore, esperava algo mais esotérico, próximo da ilegibilidade com referências obscuras e enredos metafísicos. Fiquei muito surpreendido quando percebi que se tratava de uma encarnação de Voodoo, uma personagem não muito interessante do alinhamento DC 52.


Na nova continuidade da DC, Voodoo é uma mutante, clone híbrido de adn humano e daemonita, espécie alienígena que pretende subjugar a humanidade. Apesar de se ter revelado uma agente do inimigo da humanidade, ainda não se conseguiu perceber se Voodoo é uma heroína ou má da fita, talvez porque na salganhada que é a sua continuidade narrativa se possam incluir irmãs gémeas, agências secretas, viagens a velocidades fisicamente impossíveis a planetas do sistema solar e um segundo fôlego à encarnação falhada dos Blackhawks na DC. A coisa já está tão avançada que aquele pequeno pormenor que transforma Voodoo numa personagem particularmente atraente para os leitores, com ênfase no género masculino, depressa foi esquecido. Os primeiros números do comic ainda mostravam as formas generosas da personagem na sua identidade original, geralmente para logo a seguir se transformar numa criatura semi-reptilíca. Para a história dos comics ficam os primeiros números de uma personagem da DC mais sexy do que a Wonder Woman e todo um resto que está destinado ao esquecimento ou à terceira linha.

Diga-se de passagem que a DC é lendária por passar a vida a reciclar propriedade intelectual. Os seus títulos emblemáticos vivem de personagens icónicas com cinquenta ou mais anos, constantemente reinventadas para apelarem aos públicos contemporâneos. Nos alinhamentos secundários vai ressuscitando personagens que deixou de lado ou que vieram de aquisições corporativas, caso desta Voodoo ou dos Stormwatch, ou do promissor mas esquecido Shield, que teve uma interessante série antes das redefinições da onda 52.

letargia_estival




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Requiem


Requiem por uma república moribunda. Submersa pelo endividamento, tutelada por responsáveis políticos que desrespeitam abertamente a vontade dos eleitores, povoada por uma população em empobrecimento forçado em nome de status quos oligárquicos. Intencionalmente esquecida por aqueles que fazem vida e carreira à sua custa.

Telemóvel como metáfora

Adoraria ter acesso a um vídeo ou transcrição desta sessão de perguntas e respostas de Grant Morrison numa convenção que lhe era dedicada. A uma pergunta sobre a possibilidade de esperança no futuro nestes dias negros, Morrison responde desta forma genial: 

"Everyone's got a phone now and the phone is getting smarter and smarter, the phone's getting smaller and smaller, children have them now, so what you're seeing is the development of a prosthesis," Morrison said, explaining phones were evolving alongside humans and slowly merging the two into one. He also cited Stephen Hawking's brain-computer interface as helping speed transhumanism, seeing both things as the beginning of a way of life that would turn humanity into a literal network identical to technological networks, erasing war and all barriers by interconnecting the human race. "It's going to be something new, it's going to be a networked entity," Morrison continued. "That's what happening right now and there's kind of a race on between the apocalypse and this thing -- It's not aliens that are going to come in, it's the phone that's going to come in. The phone is ringing for us right now and is about to connect everything up."

Para os mais incautos soa um pouco a uma resposta bizarra da parte de um autor que prima pelo surrealismo aplicado ao género dos comics. Na verdade, é uma intuição certeira sobre o futuro da humanidade, de parte da humanidade, pelo menos, e é se é que teremos futuro. Ideias discutíveis, porque factores como o apocalipse ecológico, a implosão financeira, o esgotamento de recursos ou o cada vez mais profundo fosso entre o ter e não ter podem e vão interferir com qualquer previsão futurista. Mas esta ideia é válida, e mostra que Morrison tem a mão no pulso das tendências tecnológicas e sociais contemporâneas. Phone, smartphone, telemóvel, é apenas uma metáfora, um referente que nos é conhecido e que dá nome à convergência cada vez próxima entre homem e computador. 

Quem não tem um telemóvel no bolso, ou perto de si? Mais do que simplesmente fazer chamadas, estes dispositivos funcionam como uma espécie de memória portátil, armazenando dados com significado para os utilizadores e abrindo a janela para a vasta memória colectiva que é a internet. Vemos essa proximidade ser reduzida sempre que surgem ideias como o Google Glass ou outros género de óculos ou lentes de realidade aumentada, e que se intui que o próximo passo é uma convergência directa entre o humano e o digital - um campo especulativo e experimental que vai desde interfaces com o cérebro até à possibilidade de digitalização humana, algo que esta semana ganhou fôlego com a notícia que investigadores planeiam digitalizar partes do cérebro de abelhas e carregá-las como simulações em robots. Soa implausível ou improvável, mas reparem nisto: os computadores começaram por ser dispositivos mecânicos de cálculo, que evoluíram para dispositivos complexos electro-mecânicos de cálculo complexo e depois para máquinas digitais programáveis. Já ocuparam enormes salas e foram reduzindo drasticamente o tamanho enquanto aumentavam exponencialmente de potência. Foram sempre ficando cada vez mais próximos do homem. Se nos tínhamos de deslocar ao computador quando este ocupava um edifício, a proximidade aumentou com o computador de secretária, com o portátil, e agora com aquele que nos cabe no bolso. Investigamos activamente a sua incorporação numa prótese corporal acessível a todos. 

Por isso, sim, há uma tendência. As nossas próteses digitais irão progressivamente integrar-se com o nosso corpo. E a mente humana irá modificar-se. Não é uma ideia nova. McLuhan compreendeu isso quando percebeu que diferentes meios de comunicação modificavam a forma de pensar. Essa revolução cognitiva, potenciada pela internet e discutida entre campos que vão do utopismo singularitário aos confrontos culturais entre a linearidade literária e a não-linearidade do hipertexto mas cuja realidade é mais prosaica e assenta na influência cultural de meios de comunicação globais. E iremos mudar. Vivemos numa era de cultura global em que ideias ganham espaço ao nível planetário, e uma uniformização cultural feita de fragmentos locais num ambiente global ganha força. Os meios de comunicação são vectores de transmissão de vírus culturais que modificam comportamentos locais para padrões globais. 

Chamem-lhe o que quiserem. Utopia tecnológica, singularidade, transhumanismo. Não acontecerá como previsto pelos futurólogos e pensadores. Mas irá acontecer. As metáforas tecnológicas para o vírus da cultura humana têm como destino final a integração com o corpo. Até porque, apesar dos sonhos mais esotéricos dos transhumanistas que já se imaginam como consciências digitais em espaços virtuais, parte do que constitui o sentir o que somos depende do nosso corpoa.

At the Mountains of Madness

Ian Culbard; H P Lovecraft (2010). At the Mountains of Madness: a graphic novel. Londres: SelfMadeHero-

Os fãs da literatura de terror conhecem bem este texto. Proto-romance do lendário autor de Providence, mergulha-nos nos mistérios de um à época mal conhecido continente antártico onde vestígios dos grandes anciães e outras raças terroríficas dos mythos de Cthulhu regressam à luz do dia. Funciona como um massivo infodump, traçando uma história da inumanidade que colonizou a terra, criou civilizações avançadas e se extinguiu sob os oceanos eões antes dos dinossauros rugirem sob as florestas primevas. Confesso que dos textos de Lovecraft este é o que mais me assombra. As suas descrições de civilizações antediluvianas, terrores do além-espaço e ruínas de arquitecturas de impossíveis geometrias sob a brancura do gelo criaram vivas impressões na minha memória literária.

Esta edição em banda desenhada não traz, felizmente, nada de novo ao texto. A narrativa segue de acordo com o original numa adaptação fiel. O que distingue este livro de outras adaptações é a sua estética de linha clara e cores vivas mas suaves. Estilisticamente, é uma colisão entre o grafismo limpo e inocente de Hergè no clássico Tintin com os terrores lovecraftianos que funciona esplendidamente. Os calafrios narrativos desenrolam-se com um grafismo ingénuo, a recordar a banda desenhada infanto-juvenil. Sem pretensões, num traço limpo, esta é uma adaptação fiel e eficaz de uma das mais influentes obras de H. P. Lovecraft.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hiperreal ou austero


Algo que me surpreende na arte digital e new media é o fosso da qualidade estética entre os criadores bleeding edge destas correntes e aqueles que utilizam meios digitais de criação aplicados, em 3D, efeitos especiais, pintura digital ou edição de imagem.

Estes distinguem-se pela busca quase barroca de uma perfeição que torna por vezes o digital indistinguível do real ou do meio de expressão tradicional, num  registo hiperreal cuja vanguarda procura simular através de ferramentas avançadas a física óptica para tornar mais realista a representação virtual, cada vez mais indistinguível do real excepto por um senão: o excesso de perfeição torna-se a pista que nos leva a perceber que estamos perante uma imagem de síntese e não uma reprodução do real.

No extremo oposto, os praticantes de artes new media não estão preocupados com realismo ou com regras de design elegante. Muitas das suas criações vivem de uma estética crua, similar ao lado extravagante e popular da internet. Outras vivem de uma sobriedade extrema, do espírito quase zen do código nu, linhas minimalistas ou da estética destrutiva aleatória ou intencional do glitching.

Se uns nos deslumbram com uma iconografia hiperreal que dá vida ao imaginário impensável, outros tocam o coração e a mente com peças reflexivas, esteticamente austeras mas cheias de camadas de significado. Quais as mais significativas, quais as que resistirão o teste do tempo, quais as que tocam mais profundamente no pulsar do espírito do tempo e de uma alma humana irremediavelmente transformada por próteses tecnológicas?

(A ideia chegou através deste intrigante vídeo de Michael Bell-Smith que me faz pensar no que seria a realidade se fosse similar a ambientes de trabalho tácteis - a paisagem marítima com relógio e aplicações num loop recursivo infindo.)

Bunker underground




A frieza do betão e do néon nos espaços subterrâneos que transportam as pessoas por entre as entranhas da cidade.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Frankenstein Digital

Devo dizer que cada vez compreendo melhor e mais admiro o Dr. Viktor. A elegância mental do acto de pegar em partes infectas, peças carcomidas e carcaças postas de parte, para as reconectar com alguma precisão cirúrgica. Aplicar electricidade e ver o que estava descartado a ganhar novamente vida. Só apetece gritar it's alive, It's Alive, IT'S ALIVE no tom de voz inconfundível de Colin Clive na cena memorável de Frankenstein de James Whale em que a criatura ganha vida através da infusão liberal da electricidade dos raios que trovejam na tempestade e bobinas de Tesla. Sim, Dr. Viktor, há algo de divino no acto de com conhecimento e electricidade dar vida ao que se julgava fenecido. Mas no meu caso são todos aqueles computadores que ao longo dos últimos anos deixaram de funcionar por uma ou outra razão e finalmente tive tempo de resgatar das garras do oblívio fúnebre digital. Tal como a criatura, os computadores reconstruídos piscam os olhos e acordam novamente para o mundo. Mas trato-os melhor do que o fiel assistente Igor tratou a malfadada criatura cujo nome todos confundem com o seu criador, talvez o verdadeiro monstro da historia de Frankenstein.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Das mandíbulas mutantes

Gosto de sublinhar a relação íntima entre o computador e a guerra, observando a proximidade entre a necessidade que fez nascer o mundo digital e o gosto humano por aniquilar o vizinho com máximo prejuízo. O cálculo de trajectórias balísticas, o decifrar de códigos secretos militares ou cálculos de efeitos de explosões nucleares foram a razão de ser de máquinas como o Colossus ou o Eniac, anciães antecessores do dispositivo computacional portátil periclitantemente equilibrado no colo em que escrevo estas palavras. Na história da computação é claro que os computadores foram criados com o fim expresso de perceber como esmagar mais eficazmente o inimigo.

Essa relação caliente é particularmente notória ao olhar para as origens da internet. A arpanet, antecessora do éter virtual de enorme complexidade que trouxe à humanidade as maravilhas dos lolcats, memes irritantes, pornografia à la carte e actualizações anódinas de perfis em redes sociais, nasceu da necessidade de descentralizar comunicações no caso extremo de guerra nuclear terminal.

Nos bons velhos tempos da guerra fria era sério o medo de que um desentendimento sério entre Washington e Moscovo levaria em sete minutos os céus da Europa, América do Norte e Ásia a serem percorridos pelos rastos de mísseis de ogivas múltiplas, que reduziriam as grandes cidades a poeira radioactiva debaixo de cogumelos nucleares onde os sobreviventes se desfazeriam em pústulas sangrentas tentando raspar restos de comida contaminada por entre os restos reluzentes de radiação de uma civilização autofágica. Talvez acabando por entre as mandíbulas de um qualquer insecto mutante sobrevivente à catástrofe atómica, exemplar das espécies disformes que herdariam o planeta após o suicídio da espécie humana. Imagens de uma era em que a capacidade das armas nucleares chegava para destruir o planeta três vezes, porque, enfim, uma só poderia não chegar. Mesmo assim, raciocinaram as mentes inteligentes da DARPA, seria necessário continuar o governo e as instituições, apesar das dificuldades logísticas advindas do facto de os principais centros urbanos se tornarem crateras radioactivas no caso de uma troca razoável de bombas e mísseis balísticos intercontinentais.

Isto é hoje uma curiosidade histórica. Os silos de mísseis vão sendo desmantelados ou transformados em habitações de luxo para fãs endinheirados de sobrevivência extrema ou tecno-fetichistas. Podemos contemplar em museus a grandeza fálica dos mísseis capazes de chegar à orbita baixa e libertar uma panspermia atómica. E graças à ideia de comunicações descentralizadas tivemos o percurso de investigação tecnológica que criou a internet, esse meio de comunicação eminentemente mcluhanista que literalmente mudou o mundo e a mente humana. Aquele futuro pós-apocalíptico em que andrajosos sobreviventes se arrastavam por entre crateras radioactivas não chegou a acontecer, embora talvez uma pandemia viral global ou uma singularidade tecnológica nos levem desta para melhor. Até lá, mergulhemos no pulsar da consciência global alimentada pelos pacotes de dados binários que circulam nos cabos de fibra óptica que abraçam o planeta.

Password

Instantâneos do meu dia a dia:
- Eh pá, tens de me ajudar. Não consigo entrar no site! Esqueci-me da password...
- Qual password? Aquela que escolheste à tua vontade e escreveste no teu perfil?
- Essa mesmo...

névoa_bent


Killer App

- Diz-se que o email foi a killer app da internet. Quando surge uma nova tecnologia as pessoas não aderem massivamente. Precisam de algo que as convença, que lhes desperte o interesse. Quando pessoas e organizações perceberam que era mais fácil e barato enviar correio através do computador do que ir à estação colar selos nas cartas, isso ajudou muito ao alastrar da adopção da internet e...
- Mas professor, o email nem sempre é o mais eficiente. Imagine que quer mandar uma encomenda para um amigo... um email não serve para isso...
- Pois, tens razão... mas agora imagina o seguinte cenário: em vez de enviares uma encomenda física, envias por email ao teu amigo os planos em 3D de um objecto e ele descarrega-os e imprime-os na sua impressora 3D. Se calhar irá dar ao mesmo...

(Instantâneos da aula de TIC sobre introdução aos conceitos elementares da internet. Eu bem disse aos meus alunos no início do ano que tinham tido azar com o professor que lhes calhou. Não me fico pelo esperado. Havia de arranjar um makerbot e demonstrar o que apregoo...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Global Style

Devo confessar que ando com um fascínio pouco saudável pelo mais recente vírus aural a alastrar pela cultura global como fogo em mato seco encharcado de gasolina. Sim, é uma sonoridade sofrível e uma iconografia kitsch. Mas tornou-se a mais recente metáfora do espírito do tempo: uma cultura global hipermoderna, apátrida, deslocalizada, cujos elementos essenciais são identificáveis em qualquer ponto do globo.

Comecemos pela sonoridade, um ritmo synth-pop electrónico repetitivo que penetra no ouvido e se agarra como uma carraça ao cérebro. Poderia ter saído de algum músico europeu ou norte-americano e não é muito diferente de boa parte do ruído melódico que enche ondas hertzianas, mas tem uma enorme capacidade aditiva. O vídeo é um primor de alienação hipermoderna. Grupos de modelos esculturais dançam de forma aparentemente aleatória em movimentos inspirados nos traços de um personagem de comics. Um cantor agita-se e pronuncia palavras incompreensíveis em cenários anónimos, entrecortando planos de filmagem com a rapidez de metralhadoras movidas a anfetaminas.

Canta-se e dança-se em cenários anónimos. Recreios, estações de metropolitano, parques de estacionamento, descampados à sombra de passagens aéreas de vias rápidas, bairros de arquitectura internacional, discotecas. Espaços definíveis como não-lugares, espaços anónimos que são tão iguais nos subúrbios de Astana ou Lisboa, de Tokyo ou Nova Iorque. São visões que nos recordam esse paradigma da hipermodernidade arquitectónica que e o Dubai, sublinhado pelo tom quente das cores do vídeo. Os sonhos de Walter Gropius e Le Corbusier infectaram as urbes globais com um ballardianismo desolador. Os espaços da modernidade são apátridas, uma iconografia de uma cultura própria de cimento armado que se estende através das radiais e auto-estradas das cidades que albergam as massas ululantes da população urbana.

Não há fatos tradicionais ou vestimentas que identifiquem os protagonistas. Sabemos que são sul-coreanos mas nada nos seus gestos e roupa nos transmite isso. Vestem-se num estilo internacional colorido, tão igual nas ruas de Seul como de Londres ou Vladivostok. Novamente, os atavios são indistinguíveis. É a exposição de uma cultura visual de trajes de centro comercial com franchisings globais.

Algumas palavras no inglês internacional são inteligíveis no meio de uma algaraviada que fará todo o sentido para quem entenda coreano mas que para as audiências globais tanto poderia ser polaco como azeri ou japonês. A incompreensibilidade da canção torna-a numa tela em branco, onde quem ouve projecta a sua imaginação. A cultura global da internet agradeceu e agraciou-nos com uma avalanche de versões, sátiras e interpretações de um original que espelha uma iconografia amena que se recicla a si própria em ciclos recursivos.

Estarei a ver muita coisa naquilo que é a mais corrente iteração das manias da interweb, o nyan cat do final de 2012, que explode na consciência global e depressa é varrido por outro fenómeno viral? Ou será o gangnam style um sintoma de uma cultura global que esbate diferenças locais com uma uniformidade internacional? Olhemos por onde olharmos, é inegável que é mais um ciclo do pulsar da consciência global energizada pelos bits e electrões da internet.

Não temam


Desfile ritualizado, procissão onde os símbolos religiosos foram substituídos por declarações políticas e o cerimonial misticista por discursos inflamatórios. Mas a necessidade de mudar de rumo é muito real.



Um outro olhar sobre a minha cidade.