sábado, 15 de setembro de 2012

manómetro_bent



Milissegundos enriquecedores

High-frequency trading raises an existential question: Why do we have stock markets? Today trading is an end in itself.

A trend that began with pigeons ends with subatomic particles, carrying data that is outdated almost before it arrives at its destination.

projects were launched to connect New York and London by a new transatlantic cable and London and Tokyo by way of the Arctic Ocean, all just to cut a few hundredths of a second off the time it takes to receive data or send an order.

Traders pay to put their servers in the same building, and to make things fair, engineers scrupulously add extra lengths of cable to equalize the runs among all the servers. Yes, we are talking about a few feet plus or minus. At nearly the speed of light.

Why do we have stock markets? To promote business investment, is the textbook answer, by assuring investors that they can always sell their shares at a published price—the guarantee of liquidity. From 1792 until 2006, the New York Stock Exchange was a nonprofit quasi utility owned by its members, the brokers who traded there. Today it is an arm of NYSE Euronext, whose own profits and stock price depend on getting high-frequency traders in the door. Trading increasingly is an end in itself, operating at a remove from the goods-and-services-producing part of the economy and taking a growing share of GDP

Jerry Adler, Raging Bulls: How Wall Street Got Addicted to Light-Speed Trading.

Este artigo lê-se como um cruzamento entre ficção científica distópica e a ganância exposta no clássico filme Wall Street. Gastar balúrdios em infra-estruturas topo de gama que depressa ficam obsoletas porque há sempre uma nova tecnologia, uma nova técnica para tornar a comunicação ponto a ponto mais rápida. Estamos a falar em ganhos de rapidez na ordem dos milisegundos, que possibilitam a algoritmos de negócios financeiros automáticos ganhar milhões com transacções de compra e venda que se processam a velocidades sub-lumínicas sem intervenção humana, excepto na sua criação (programação) e erecção das infra-estruturas necessárias para comunicarem em fracções ínfimas de segundo. Falamos de fibra-óptica dedicada, redes geodésicas de micro-ondas unicanal optimizadas, e ideias no ar que passam por redes de drones ou aceleradores de partículas para gerar neutrinos. E um campo lucrativo que mistura informática com matemática que provoca uma fuga de cérebros dos campos mais esotéricos da física. Parece que os físicos quânticos são particularmente capazes de se dar bem no mundo da finança ultra rápida.

Por si só é fascinante, mas quando levamos em conta quem é que enterra dinheiro nestes mercados voláteis e os milhares de milhões gastos para os socorrer, aliados aos milhares de milhões de dívidas incorridas com produtos financeiros exóticos, e as dívidas sociais de uma sociedade global que em poucas gerações foi incentivada ao consumo rápido graças à possibilidade do endividamento, essencialmente uma aposta que rendimentos futuros cobririam dívidas do passado que se inflacionou a níveis que ameaçam colapsos sociais e institucionais. Ou como este artigo coloca: Rarely is there a frank discussion of the legitimacy of the debt. Our leaders present our debt as necessary and our credit rating as sacred. But can debt be illegitimate? If it is run up without regard to law or public opinion, must it be binding? This is a question largely ignored. (Too Big to Fail and Too Risky to Exist)

Dinheiro. Uma abstracção matemática que move literalmente montanhas. O carácter agnóstico de um algoritmo programado para maximizar lucros apenas sublinha a rapacidade da ganância humana.

Vamos?

Não só por Lisboa. É todo um país onde se vai sentir o resultado da soma dos pequenos gestos individuais.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

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Steam engine time

You know steam engine time? Humans have built little toys, steam engines, for thousands of years. The Greeks had them. Lots of different cultures. The Chinese had them. Lots of different cultures used steam to make little metal things spin around. Nobody ever did anything with it. All of a sudden someone in Europe did one out in a garden shed and the industrial revolution happened. That was steam engine time. When I was writing those first stories, I didn’t even know to call the thing the digital. But it was steam engine time. It was happening.

William Gibson em entrevista à Wired.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

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Skynet


Humm. Este captcha é suspeito.

Fragmentos de realidade

Talvez seja uma visão viciada por pertencer a um grupo (mas não a uma geração) que por razões que vão do simples entretenimento ao desempenho profissional passam mais tempo frente ao ecrã do computador do que é geralmente aconselhável. E boa parte desse tempo ligado à web. É como ter uma janela para o fluxo de pensamento do cérebro global. Notícias, ideias, memes, provocações e inquietudes chegam em fragmentos no refluxo das marés binárias. As formas tradicionais de aquisição de informação, os media clássicos (imprensa, rádio e televisão) perderam a predominância e tornaram-se mais um elemento de um imenso ruído de fundo do qual emergem ideias gritantes, que se tornam apelativas pela sua importância face aos nossos interesses pessoais.

O que me deixa a pensar no que Venkatesh Rao escreve no ensaio Welcome to the Future Nauseous:
The result will be a world population with a large majority of people on the edge of madness, somehow functioning in a haze where past, present and future form a chaotic soup (have you checked out your Facebook feed lately) of drunken perspective shifts. This is already starting to happen. Instead of a newspaper feeding us daily doses of a shared Field, we get a nauseating mix of news from forgotten classmates, slogan-placards about issues trivial and grave, revisionist histories coming at us via a million political voices, the future as a patchwork quilt of incoherent glimpses, all mixed in with pictures of cats doing improbable things.

É algo que penso sempre que ideias se espalham como fogo em mato seco pelas redes sociais. Algumas são boas, outras interessantes, outras erradas e outras meros boatos mal fundamentados. Mas na janela da rede social espalham-se pelas consciências dos utilizadores. Na intimidade da nossa relação com o ecrã, talvez estas ideias fragmentárias sejam as mais importantes para a construção da realidade interior, da forma como percebemos e agimos no mundo em redor.

O conceito é ao mesmo tempo excitante e assustador: a forma como pensamos construindo-se a partir de fragmentos filtrados nos fluxos da rede digital. É excitante, pela vasta gama de fontes de informação a que temos acesso. O que assusta é o problema da sua fiabilidade. Imagine-se uma mente cuja percepção da realidade é elaborada a partir de fragmentos erróneos de informação.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vulgaridade cínica

Há qualquer coisa que me incomoda fortemente com a imagem do primeiro-ministro no teatro recentemente divulgada. Não é só pelo contexto, por ver o responsável político máximo a rir, feliz, após anunciar o agravamento das condições de vida de todos os portugueses e um autêntico assalto aos nossos já parcos rendimentos encapotado sob a novilíngua da austeridade e salvação do país. É a sua iconografia, a carnalidade balofa de quem engorda enquanto todo um país se reduz à esqualidez. E a arrepiante similaridade com o estilo do pintor George Grosz, caricaturista excepcional das injustiças sociais que retratou a vulgaridade cínica e a rapacidade lúbrica daqueles que prosperam com a miséria humana.




Vêem onde quero chegar? Observem a expressão deformada e carnuda dos homens obesos de Grosz. Com essa imagem mental olhem para a fotografia do chefe do executivo que vai arrasando o país para o salvar.

Dá a volta ao estômago, não dá? Por todas as razões que já conhecemos e por algumas que ainda estão encapotadas entre alíneas imperceptíveis de decretos-lei danosos para aqueles que tiveram a má sorte de terem nascido portugueses.

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The Underwater Welder

Jeff Lemire (2012). The Underwater Welder. Atlanta: Top Shelf.

Fantasmas do passado e futuro cruzam-se na mente de um incerto professor de literatura que ganha a vida como soldador submarino. À beirinha da sua paternidade, tem de resolver fantasmas mentais envoltos em recordações do desaparecimento do seu pai. Submerso, à beira de uma tempestade climatérica que simboliza o tumulto interior, o desconcertado mergulhador vê-se submergido num tempo dilatado que o transporta à adolescência a a um presente solitário onde percorre as ruas desertas da vila marítima em que habita. Mistura de história de rito de passagem com fantástico de sabor twilight zone, este livro distingue-se pelo traço expressivo de Lemire, equilibrando o arrastamento da narrativa.

domingo, 9 de setembro de 2012

O futuro como manta de retalhos

It means you do not understand your own present in any meaningful way. You are merely able to function within it. (p. 192)

So both futurism and science fiction are trapped in an always-unreal strange land that must always exist at a certain remove from the manufactured-to-be-familiar present. Much of present-moment science fiction and fantasy is in fact forced into parallel universe territory not because there are deep philosophical counterfactuals involved (a lot of Harry Potter magic is very functionally replicable by us Muggles) but because it would lose its capacity to stimulate. (p. 198)

The result will be a world population with a large majority of people on the edge of madness, somehow functioning in a haze where past, present and future form a chaotic soup (have you checked out your Facebook feed lately) of drunken perspective shifts.
This is already starting to happen. Instead of a newspaper feeding us daily doses of a shared Field, we get a nauseating mix of news from forgotten classmates, slogan-placards about issues trivial and grave, revisionist histories coming at us via a million political voices, the future as a patchwork quilt of incoherent glimpses, all mixed in with pictures of cats doing improbable things.
(p. 205)

The most high-impact technologies of the day are almost never whatever the wisdom of the day identifies as the most potentially useful ones. (p. 232)

Venkatesh Rao, Towards an Appreciative View of Technology.

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sábado, 8 de setembro de 2012

Vislumbres de um deus críptico

The more I study technology, the more I tend to the view that it is a single connected whole. Recurring motifs like container ships can turn into obsessions precisely because they offer glimpses of a cryptic God. (p. 38)

No infrastructure pilgrimage can be complete without a reverential pause before a phallic god of destructive power. Menhirs and obelisks will not do for our age. Neither will skyscrapers, which are merely symbols of humanity’s child-like greedy grasping at earthly pleasures. Out in the heartland, among the grain silos (cornucopias?) where I began my pilgrimage, are scattered very different sorts of silos. Silos containing ballistic missiles, designed to soar up and kiss space, home to our loftiest aspirations, before diving back down to destroy us. (p. 13)

We forget that nature is the first and original system of evolving creative destruction. Schumpeter’s model of the economy came along later. (p. 19)

Taking refuge in numbers when faced with technological complexity is in part an acknowledgment of the poverty of a poetically enacted humanist life script . Numbers are how we grope for the trans-human. (p. 31)

We never build technology that will actually relieve the load on us and make things simpler. We only end up building technology that creates MORE work for us. (p. 104)

Venkatesh Rao, Towards an Appreciative View of Technology

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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Normalidade manufacturada

Em busca de peças de um puzzle maior, imagens de um panorama de percepção do sentido real das profundas mudanças que vivemos e às quais reagimos com apatia:

It’s sobering to realize most humans that have lived and died have never read. And so, we’ve been able to change what our brain does based on having the written word and having this environment. And so now the questions is will we be able to change to keep up with the new flood of information coming from all kinds of sources.

Extracto de entrevista de Jay Giedd em Development of the Young Brain. Chegou hoje à superfície mutável da internet graças ao Boing Boing, mas já é de 2011. O que é uma eternidade no tempo digital.

Agora, palavras fresquinhas de Warren Ellis, de uma palestra dada numa conferência sobre futurismo em Inglaterra:

A writer called Ventakesh Rao recently used the term “manufactured normalcy” to describe this. The idea is that things are designed to activate a psychological predisposition to believe that we’re in a static and dull continuous present. Atemporality, considered to be the condition of the early 21st century. E continua neste tom: Understand that our present time is the furthest thing from banality. Reality as we know it is exploding with novelty every day. Not all of it’s good. It’s a strange and not entirely comfortable time to be alive.

Vivemos tempos interessantes. A explosão de ideias e possibilidades é inédita na história da humanidade. Ellis observa que olhamos para algo espantoso como a capacidade de pisar a superfície de outro planeta como uma curiosidade histórica. Estamos mergulhados num pesadelo colectivo financeiro sem saber como sair dele. Mas a marcha acelerada inexorável do progresso, o verdadeiro progresso, não pára, apesar dos espelhos retrovisores.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

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Channel Sk1n @ Coilhouse

Interessante ponto de vista no Coilhouse sobre Channel Sk1n, o mais recente e intrigante livro de Jeff Noon: This is Noon in high gear, showcasing his meticulous gifts as a wordsmith, his rebellious approach to storytelling, and his knack for multi-sensory invocation. Both brightly visual and highly sonic, the narrative is full of fine-tuned passages which, when read aloud, parse like complex music, syncopated by bursts of oddly catchy static. It’s restless Burroughsian cut-up ambiance– a bookish kind of scrying-via-late night satellite TV surfing. More adventurous readers in his audience are certain to tune in, and rejoice.

Precisamente. E já agora sugiro que agora vão acompanhando o Coilhouse. Está sempre cheio de ideias interessantes, eye candy de alta qualidade, projectos artísticos intrigantes e coisas globalmente entusiasmantes.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A Hypothetical Lizard

Alan Moore, et al. (2007). A Hypothetical Lizard. Rantoul: Avatar Press

Uma história impiedosa. Moore monta cuidadosamente o palco com a sua caracterização de uma rapariga cujo cérebro foi separado para poder corresponder aos desejos de feiticeiros poderosos que frequentam o mais exótico bordel de uma cidade fantástica. Mas a história não lhe pertence. Antes, é uma história de amor esmagado entre dois homens, ambos elementos do bordel, ambos com talento teatral. Um abandona o outro e anos depois, já famoso, regressa para recuperar o seu amor. Mas acontece o imprevisível. O amante esquecido urde uma impiedosa teia que obriga aquele que regressou a trocar de papel consigo, elegante vingança sórdida pelo extremo sofrimento do coração.

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Alento para o regresso

Para animar a rentrée, combater a letargia do regresso laboral ou a sua inexistência e os gulags profissionais por decreto. Recordar que a imaginação é o melhor dom da humanidade.


O Porto recebe a participação portuguesa na EuroSteamCon naquela que será a primeira convenção do género em Portugal. Programa a anunciar, mas espera-se uma boa dose de estéticas retro de toque vitoriano estilizado com os mecanismos de um futuro imaginário alternativo.


Novembro traz o já tradicional Fórum Fantástico, três dias que colocam à discussão os géneros do fantástico na literatura, BD, cinema e banda desenhada.

Com cartazes destes (Joana Maltez para a Steam Con e Pedro Marques para o FF) e temas interessantes, não dá uma certa vontade de acelerar o tempo?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

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Unthinkable


Mark Sable, Julian Tedesco (2010). Unthinkable. Los Angeles: Boom Studios
Imaginem um grupo de discussão muito especial, com especialistas em diferentes áreas que têm em comum a capacidade de imaginar o pior dentro dos seus campos. Juntos, têm como missão imaginar cenários impensáveis, onde as mais improváveis combinações de tecnologias e tendências se combinam em possibilidades ameaçadoras. Um romancista, uma microbióloga, um advogado, um hacker, um ambientalista, um cientista nuclear e um líder religioso apocalíptico são recrutados por uma organização obscura com possíveis laços governamentais para criar cenários implausíveis de terrorismo global. Anos depois, os cenários imaginados começam a acontecer. Resta aos sobreviventes do grupo de discussão descobrir quem está por detrás de uma sequência de ataques terroristas improváveis que coloca o mundo à beira de uma guerra nuclear.
Escrito à sombra dos atentados do 11 de setembro, Unthinkable parte de premissas muito interessantes: ciência de limites, cenários sociais improváveis, pulsões para guerras e possibilidades de criação de cortinas de fumo para despertar suspeições e ocultar as acções dos responsáveis reais. Infelizmente o desenrolar da história fica-se por uma espécie de sequências inverosímeis de acção onde os heróis incompreendidos percorrem o globo para tentar evitar novas fases dos cenários impensáveis e descobrir quem realmente está a puxar os cordelinhos de uma conspiração que implica atentados de bioterrorismo, invasões americano-israelitas do Irão, destruição das reservas petrolíferas mundiais e erosão das superpotências através de uma guerra nuclear entre a China e a Rússia, bem como a resolução do problema demográfico do subcontinente indiano através de uma troca de ogivas atómicas entre Nova Delhi e Islamabad. Tudo orquestrado por um supremacista branco em conluio com políticos e generais anti-corrupção e ambientalistas preocupados com a degradação do ambiente, graças a uma rede social.
Partindo de uma ideia brilhante Unthinkable descarrila em peripécias mal amanhadas. Para as histórias do comic ficam os dissabores do argumentista Mark Sable ao ser apanhado em aeroportos com o argumento, que provocou suspeitas da parte dos notoriamente zelosos agentes da segurança nos transportes aéreos americanos. Aparentemente, as ideias impensáveis são hoje tão plausíveis que causam desconfiança nos agentes de segurança. Sinal dos tempos complexos em que vivemos.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

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Lisboa sob calor opressivo.

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Channel Sk1n

Jeff Noon (2012). Channel Sk1n.

No inesquecível primeiro parágrafo de Neuromancer William Gibson descreve o céu como da cor de ecrãs de televisão. Um ano antes David Cronenberg brincava escatologicamente com as teorias de Marshall McLuhan em Videodrome, filme onde as ilusões televisivas ganham vida própria e a carne humana se mescla com a tecnologia video em formato VHS. Uma implicação das ideias de McLuhan é a influência dos media na consciência humana. Expostos a novos media, a nossa forma de pensar altera-se, e por extensão a sociedade modifica-se. É um conceito particularmente pertinente nestes primeiros anos da era digital, onde a internet surge como força transformativa modificando profundamente os mais díspares e insuspeitos aspectos da sociedade contemporânea. Mas regressemos a Gibson. Anos depois de Neuromancer publica Idoru, romance cyberpunk sobre uma estrela pop artificial.

Misturemos estas ideias com uma dose forte de prosa experimental, numa veia de alucinação eléctrica cheia de energia verbal, e temos Channel Sk1n, onde uma estrela ascendente da música pop sofre uma transformação que torna a sua pele no ecrã de televisão. Nola, a cantora, é uma voz artificial, ser humano recriado pela sabedoria de produtores que transformam pessoas em ícones de perfeição para consumo dos gostos transientes da população. O mundo está saturado de media, saturado pelas emissões de míriades de multicanais cuja escolha se transforma numa permanente paisagem mediática em constante mutação.

Nola dilui-se no ciberespaço televisivo. O vírus etérico que lhe transforma o corpo num ecrã causa a morte e acaba esquecida, abandonada num campo. Mas Nola é um símbolo de artificialidade. Consumida pelo sonho da popularidade musical, a estrela é alguém que foi treinado e redesenhado até à exaustão pelos gestos precisos dos produtores, especialistas em recriar a mulher aos olhos do público. Uma recriação tão profunda que Nola chega a esquecer-se de si própria, transformando-se totalmente no ser artificial cuja voz e música a metro cativam multidões.

Na pervasiva paisagem mediática electrónica ninguém é poupado, nem os feiticeiros que conjuram as imagens que enchem o espectro electromagnético. George, o produtor de Nola, é um exímio criador de estrelas para o fluxo do consumo cultural mediatizado. Artesão da sensível arte de modelar humanos à imagem do gosto comercial, tem uma filha que participa num singular reality show. O mais visto dos inúmeros programas, resume-se a colocar o participante dentro de uma redoma cujo exterior projecta todas as imagens do interior. Os fãs mais renhidos concentram-se fisicamente à volta da redoma, como tribos reunidas junto do fogo que ilumina e aquece. Mas esta concorrente consegue o impossível. Sob o olhar panopticon de milhentas câmaras e espectadores, desaparece sem deixar rasto. Um mistério que se começa a resolver quando a princípio pequenos vestígios da concorrente vão surgindo nos ecrãs. Imagens fugazes, visíveis apenas pelo olho da lente. Aparições públicas, manifestações em filmes antigos. Torna-se claro que o corpo foi consumido pela febre digital e a sua imagem ganhou vida própria, habitando o éter da cultura pop televisiva.

Num fluxo cultural constante, a memória do físico depressa se desvanece, mas a memória virtual permanece. Nola é esquecida, George afunda-se entre ecrãs em busca de vislumbres da filha que reencarnou como imagem televisiva. Mas neste futuro de ecrãs interligados, em laços de bits e feixes hertzianos, há sempre uma memória digital, um ficheiro de vídeo num servidor, um clip que passa num dos milhentos canais televisivos, vislumbrado num fugaz momento de zapping.

Confesso que já há bastante tempo que um livro não me deixava tão intrigado. Talvez pelo experimentalismo da prosa. Channel Sk1n não é leitura fácil, com uma linguagem vernacular muito própria, inventada para a obra. Faz recordar o inglês futuro que dá a Clockwork Orange de Burgess a estranheza do plausível. Ou talvez pela temática, remisturando teorias da vida digital, sociedade de informação, cultura pop comercial com forte dose de McLuhan. Neste livro, Jeff Noon reduz ao absurdo a ideia que as tecnologias que criamos nos modificam intimamente. Perdoem-me o name dropping, mas a dromologia de Virílio, a era da informação de Castells, a terceira vaga dos Toffler e o meio como mensagem de McLuhan colidem e inspiram este livro. Ou então estou muito enganado e sucumbi à doença mediática de atribuir demasiado significado às imagens transmitidas.

domingo, 2 de setembro de 2012

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B.P.R.D.: 1946

Mike Mignola, Joshua Dysart, Paul Azaceta (2003). B.P.R.D.: 1946. Milwaukie: Dark Horse Comics

O sucesso de Mignola com Hellboy alastrou e permitiu-lhe capitalizar as personagens secundárias com títulos próprios. O que não implica uma diminuição da loucura descarrilante que torna Hellboy e seus derivados tão divertidos. Neste B.P.R.D.: 1946 somos transportados até Berlim, ano zero, onde os responsáveis pela agência paranormal se aliam à sua versão soviética para desbravar os segredos místicos do III Reich... para darem de caras com vampiros geneticamente modificados, gorilas cyborgs, instalações secretas de alta tecnologia, cérebros dentro de receptáculos mecânicos e um plano apocalíptico para bombardear a américa com vampiros através de um míssil balístico. Precisamente. Isso mesmo. Entretenimento puro, bem escrito e ilustrado. Mignola tem explorado bem o filão da II Guerra e do ocultismo nazi, com uma fortíssima dose de inspiração nas mais inacreditáveis e improváveis ideias. E fá-lo sem pretensiosismos, num gozo de puro divertimento. Embora pormenores como a ilustração e o argumento fiquem para outros, nota-se a mão rija de Mike Mignola na concepção dos comics saídos de Hellboy.

Espelho retrovisor



Heaven, hell or mother earth: the choice is yours.

Sinal numa das estradas mais altas do mundo, a Ladakh Mountain Pass. Com uma belíssima frase para deixar o cérebro ruminar no meio das mais altas montanhas deste planeta.


“The past went that-a-way. When faced with a totally new situation, we tend always to attach ourselves to the objects, to the flavor of the most recent past. We look at the present through a rear view mirror. We march backwards into the future.”

Marshall McLuhan, página do lendário, excelente e totalmente actual The Media is the Massage. Livro que de repente tive vontade de reler. McLuhan viveu a era da televisão, mas descreveu na perfeição a era digital. Perante a inelutabilidade de andar para a frente, único caminho cronologicamente possível, a nostalgia do passado prende o pensamento.

sábado, 1 de setembro de 2012

Seeds

Ross Mackintosh (2011). Seeds. Londres: Com.x

Este foi um livro que me tocou particularmente. Seeds é a crónica dos sentimentos e percepções do autor ao acompanhar o doloroso processo da morte do pai, vítima de cancro. Foi nisto que me atingiu. Também passei pela mesma terrível experiência, e revi nas páginas desenhadas com um traço simples os sentimentos de impotência perante a degradação física, incredulidade, esperança nos limites e poder liberatório do acto de chorar. E sim, também tive uma experiência de falta de tacto nos momentos seguintes ao falecimento. Com o autor foi uma enfermeira bruta. Comigo foi uma médica que decididamente não tinha estofo para dar certo tipo de notícias. Mas percebe-se. Não há manuais para estas coisas. Se os padrões são similares, a forma como cada um reage a si lhe pertence.

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