sábado, 13 de outubro de 2012
Droit de Seigneur
"Que comam brioches", terá dito Maria Antonieta nos tempos de crise que antecederam a revolução francesa. Belos tempos, em que a elegante aristocracia construía palácios à custa de um povo esfomeado. A história mostra que tudo acabou bem. Graças à revolução francesa a ideia de democracia espalhou-se pela Europa e pelo mundo. Mas só depois de um período sangrento onde muitas cabeças rolaram, entre as quais a que proferiu uma frase que afinal é apócrifa.
O fait divers que apimentou a paisagem mediática ao longo da semana envolveu quatro carros de luxo a suposto menor custo - efeito de contenção em tempos de crise. Previsivelmente, o caso causou celeuma. Num momento negro em que se exigem e impõem sacrifícios esmagadores aos portugueses, os seus representantes eleitos orgulham-se de ter poupado com a aquisição de carros de luxo um bocadinho menos caros do que o habitual. Para defender o seu direito e razão, saem-se com argumentos geniais como «Qualquer dia querem» que o líder parlamentar do PS «ande de Clio» (porque, enfim, as pessoas importantes têm de se deslocar em símbolos de status, não é qualquer calhambeque que serve) ou demonstram solidariedade em tempos de crise prescindindo de BMWs para andar em Audis. São actos simbólicos, luxos despesistas que no contexto global são de pouca monta mas altamente significativos para uma população acossada, esmagada e empobrecida. Incompreensíveis por todos aqueles que se deslocam para trabalhar e não esperam que as entidades para quem trabalham lhes forneçam veículos.
Mais chocante do que a manutenção de luxos e privilégios em tempos de crise pelos que pedem aos portugueses que se sacrifiquem é toda a atitude de defesa desses luxos. Fica-se estarrecido a ouvir os deputados afirmar com toda a naturalidade que é um direito que têm, que seria uma indecência fazer as coisas de outra forma, que é um pequeno custo inerente à democracia. Demonstra até que ponto aqueles que sendo os representantes eleitos do povo (ou, pelo menos, dos que votaram no seu partido) vivem na versão política das torres de marfim, afastados da realidade de um país que afirmam conhecer, embrenhados em modos de pensar onde os privilégios auto-instituídos se sobrepõem ao mais comum bom senso. Essencialmente, o que ouvimos foi representantes eleitos a afirmar com bonomia, com aquele tom mas não percebem o que é óbvio que se usa com aqueles que não têm capacidade mental, que fazem o que fazem porque têm esse direito e sempre foi assim. Uma versão contemporânea do droit de seigneur medieval, o argumento que justificava qualquer acção do senhor feudal porque, enfim, era dono e senhor das terras e das populaças que por lá pululavam.
São estes aqueles que nos representam, tutelam e decidem o que é melhor para todos. Distintos herdeiros de um espírito feudalista que evoluiu da violação ao carro de luxo de alta cilindrada. É o direito do senhor, vivo e de boa saúde no Portugal do século XXI.
O fait divers que apimentou a paisagem mediática ao longo da semana envolveu quatro carros de luxo a suposto menor custo - efeito de contenção em tempos de crise. Previsivelmente, o caso causou celeuma. Num momento negro em que se exigem e impõem sacrifícios esmagadores aos portugueses, os seus representantes eleitos orgulham-se de ter poupado com a aquisição de carros de luxo um bocadinho menos caros do que o habitual. Para defender o seu direito e razão, saem-se com argumentos geniais como «Qualquer dia querem» que o líder parlamentar do PS «ande de Clio» (porque, enfim, as pessoas importantes têm de se deslocar em símbolos de status, não é qualquer calhambeque que serve) ou demonstram solidariedade em tempos de crise prescindindo de BMWs para andar em Audis. São actos simbólicos, luxos despesistas que no contexto global são de pouca monta mas altamente significativos para uma população acossada, esmagada e empobrecida. Incompreensíveis por todos aqueles que se deslocam para trabalhar e não esperam que as entidades para quem trabalham lhes forneçam veículos.
Mais chocante do que a manutenção de luxos e privilégios em tempos de crise pelos que pedem aos portugueses que se sacrifiquem é toda a atitude de defesa desses luxos. Fica-se estarrecido a ouvir os deputados afirmar com toda a naturalidade que é um direito que têm, que seria uma indecência fazer as coisas de outra forma, que é um pequeno custo inerente à democracia. Demonstra até que ponto aqueles que sendo os representantes eleitos do povo (ou, pelo menos, dos que votaram no seu partido) vivem na versão política das torres de marfim, afastados da realidade de um país que afirmam conhecer, embrenhados em modos de pensar onde os privilégios auto-instituídos se sobrepõem ao mais comum bom senso. Essencialmente, o que ouvimos foi representantes eleitos a afirmar com bonomia, com aquele tom mas não percebem o que é óbvio que se usa com aqueles que não têm capacidade mental, que fazem o que fazem porque têm esse direito e sempre foi assim. Uma versão contemporânea do droit de seigneur medieval, o argumento que justificava qualquer acção do senhor feudal porque, enfim, era dono e senhor das terras e das populaças que por lá pululavam.
São estes aqueles que nos representam, tutelam e decidem o que é melhor para todos. Distintos herdeiros de um espírito feudalista que evoluiu da violação ao carro de luxo de alta cilindrada. É o direito do senhor, vivo e de boa saúde no Portugal do século XXI.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Comics
The Massive: Brian Wood assina um comic futurista discreto ilustrado com um traço expressivo por Garry Brown. Num distópico futuro próximo o degelo provocado pelo aquecimento global submergiu as cidades costeiras e ajudou a causar um colapso económico e social. Por entre um mundo à beira da extinção um grupo naval de eco-activistas procura pelos sete mares o navio The Massive, misteriosamente desaparecido. Este comic não está a ter a promoção bombástica que outras editoras dão a produtos menores, mas está a evoluir calmamente para uma narrativa épica apocalíptica que nos obriga a reflectir sobre possibilidades de um futuro dominado por desastres ecológicos.
Frankenstein Agent of S.H.A.D.E. #13: Jeff Lemire andou a divertir-se à grande nos primeiros números deste novo título da DC 52, com resultados espantosos de sanidade duvidosa. Matt Kindt, agora ao leme do título, não está a chegar à fasquia de puro entretenimento que herdou mas mantenha-se a confiança. Afinal, trata-se do autor do intrigante Mind MGMT e do estonteante Revolver o que sugere que a insanidade divertida de Lemire seja direccionada labirintos mentais. Para não variar, Alberto Ponticelli rebenta os limites da vinheta com expressionismo puro.
Batman #13: Scott Snyder trouxe de regresso o arqui-vilão Joker numa encarnação que promete ser impossivelmente psicótica. Digamos que se está a dedicar a recordar os seus crimes icónicos para mostrar a profundidade da relação simbiótica com o homem-morcego com uma psicose sublinhada pela pele solta do rosto, arrancada numa aventura anterior. Promete ser uma interessante colisão do batman clássico com The Killing Joke e Silêncio dos Inocentes.
Before Watchmen: Dr. Manhattan #02: Não está a ser um dos mais inspiradores títulos da prequela de Watchmen, mas a forma como J. Michael Straczynski decidiu recriar a origem do todo-poderoso Dr. Manhattan é curiosa. O segundo número do comic deixa a cabeça a andar à roda com uma tortuosa visão do paradoxo do gato de Schrödinger aplicado ao planeta, onde as escolhas simples bifurcam os mundos, o herói icónico assiste à sua não existência e o único indicador que algo não está a correr como deveria é um relógio que se recusa a trabalhar. Terá parado o tempo ou o relógio? Straczynski anda a meter-se com física quântica e probabilística, mostrando o poder dos comics em simplificar conceitos complexos para leigos e fazer voar a imaginação com a poesia da ciência mais pura.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
True Skin
TRUE SKIN from H1 on Vimeo.
Mesmerizado pela estética e conceitos da curta metragem True Skin. A história que conta é banal: um humano com próteses digitais aumentativas é perseguido pelas ruas de Bangkok por ter roubado um protótipo e escapa à morte digitalizando a sua consciência para posterior descarga num corpo robótico. A estética mistura a iluminação gritante do néon com realidades aumentadas, ciber-organismos e uma visão de ruas decadentes num futuro próximo claramente inspirada - e a homenagear muito bem, em Blade Runner. Conceptualmente, o filme brinca com conceitos transhumanistas de mind uploading, próteses biónicas, convergência do real e do digital, corpos robóticos à medida, mercados negros onde qualquer tecnologia pode ser encontrada e interfaces futuristas de realidade aumentada. Uma delícia visual às voltas com premissas que espelham reflexões contemporâneas sobre possibilidades do futuro próximo.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
pixel_sort
A brincar com o pixel sorting. E, claro, a remisturar com o Gimp. Tentador? Descarreguem o processing e experimentem com o código.
Lost Rivers
O espaço urbano como destino do mistério exploratório. Após esquadrinhar, registar e mapear cada centímetro quadrado do planeta, resta-nos o subsolo urbano com a sua riqueza de substractos históricos para manter acesa a chama do mistério desvendável com expedições aos mais inauditos recantos. Fascinado pelos exploradores urbanos, que calcorreiam os túneis que serpenteiam debaixo das ruas das cidades armados de máquinas fotográficas e câmaras que registam os espaços ocultos sob os nossos pés. O mundo subterrâneo, não o de Kircher, mas aquele que se oculta sob as espaçosas avenidas e os prédios ultra-modernos. A imagem do arqueólogo aventureiro, que desvenda segredos ocultos entre tomos poeirentos e ruínas anciãs, actualizada para um século XXI onde a cidade é à escala global o local de eleição para a humanidade. Lost Rivers documenta a redescoberta dos rios e ribeiras desviados do subsolo citadino (e Lisboa é uma cidade em cujas principais avenidas já correram ribeiras, hoje vestigiais no sistema de esgotos) mas no ar fica o fascínio pela exploração dos espaços urbanos esquecidos.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
On The Beach
Nevil Shute (2000). On The Beach. Thirsk: House of Stratus.
É uma tarefa ingrata. Não é tarefa fácil imaginar o impensável na época em que os cientistas atómicos andavam felizes da vida a rebentar bombas para perceber quais os estragos possíveis, ainda longe das teorias sobre o inverno nuclear e sem cair na ideia feita de andrajosos sobreviventes que sucumbem à fome e feridas múltiplas por entre as ruínas radioactivas da civilização ocidental. O notável neste livro é que tudo se fina numa calmaria enorme, longo contraponto de resignação após breves dias de loucura que aniquilaram o hemisfério norte numa chuva de bombas nucleares.
Shute nunca é muito claro sobre o que terá acontecido. Cria uma narrativa histórica a partir de conflitos regionais que por engano escalavam ao hemisfério norte. Trocas de bombas entre a União Soviética e a China, bombardeiros egípcios que arrasam Nova Iorque sob um cogumelo atómico, resposta americana com mísseis disparados para a Rússia, inevitável arrasar do continente europeu... é difuso, intencionalmente. O autor diz-nos que após o facto, pouco mais interessa. A extinção da humanidade torna inúteis as quezílias históricas.
Se o hemisfério sul é poupado à aniquilação imediata pelas bombas, não escapa à morte invisível e silenciosa trazida sob um manto de radioactividade que se espalha metodicamente sobre o planeta. Resta aos sobreviventes viver os seus últimos meses numa normalidade que é progressivamente erodida. É aqui que Shute surpreende. Não há histerias nem revoltas, apenas uma resignação que se traduz em aceitação e ir vivendo o dia a dia até à chegada inexorável da onda de radioactividade. A extinção da humanidade, com fleuma britânica.
De facto, o livro assemelha-se a uma longa novela onde pessoas normais vivem a sua vida banal, num cenário em que a terra onde vivem vai desaparecendo progressivamente debaixo de uma maré invisível. Os detalhes são sempre difusos, ficam sempre por uma perda de contacto que foge à tragédia humana. Os personagens - um oficial da marinha australiana, um comandante do que se torna o último submarino nuclear americano, um cientista que estuda os efeitos da radioactividade e os seus familiares aceitam o destino inelutável e seguem os procedimentos e regras sociais até ao tranquilo fim.
On The Beach vai-se lendo e não nos toca até aos parágrafos finais, em que assistimos ao suicídio colectivo dos personagens através de cápsulas providencialmente fornecidas por um governo previdente. É impossível não sentir uma certa tristeza. Se se lê este livro pelo que é - uma relíquia da era atómica, uma obra que fora dos limites sensacionalistas da FC da altura se atrevia a perguntar o que aconteceria "se os nossos responsáveis políticos perdessem a cabeça e libertassem a energia da fissão atómica contida nas cada vez mais incontáveis armas nucleares", terminamos com uma forte sensação de depressão. O final é previsível, mas não por isso menos triste.
domingo, 7 de outubro de 2012
Mãos anafadas
O livro 1984 de George Orwell preconiza a sociedade panopticon, e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley a sociedade do espectáculo, duas vertentes do mundo contemporâneo. Não conheço nem me recordo de nenhuma outra obra de ficção científica que antevesse o corrente apocalipse financeiro. Geralmente os escritores ficaram-se por coisas mais prosaicas como pandemias, invasões alienígenas, guerras nucleares, infestações de zombies, singularidades trazidas pela complexidade tecnológica ou o esgotamento de recursos naturais. Ninguém se lembrou que o fim da civilização ocidental poderia chegar através das mãos anafadas dos banqueiros e aventureiros da finança.
(A imagem tem a sua razão de ser. Não, não são hordes manipuladas por um qualquer querido líder ditatorial. É um fotograma de Things To Come, um clássico do cinema de FC com argumento de H.G. Wells que segue na perfeição uma linha utópica que deixou de estar na moda. Guerras atómicas aniquilarão a sociedade, que no futuro decairá para um quase barbarismo. Um grupo de cientistas preserva o conhecimento, espalhando-o através de missionários voadores (leram bem). A sociedade humana é reconstruida e mergulha num período dourado. Mas, simbólico da era, a prosperidade civilizacional só é obtida graças a um governo tecnocrático que decide o que é melhor para a população. O filme termina com o obrigatório arranque da colonização das estrelas por uma nova humanidade.)
Comics
Creepy #10: A Dark Horse reviveu a clássica Creepy e para o décimo número preparou uma surpresa aos leitores, com uma edição de terror lovecraftiano onde pontuam Doug Moench nos argumentos e Kelley Jones, Richard Corben (cujo estilismo sempre achei cansativo mas a funcionar muito bem em curtas) ou Peter Bagge a mostrar o lado negro do humor lovecraftiano.
Dial H #5: Será que a DC sabia o que estava a fazer quando contratou China Miéville para argumentista de Dial H, originalmente um comic com uma premissa já de si pouco sã? Miéville liberta puro surrealismo em quadricromia, apoiado por um Mateus Santolouco em modo de génio do lápis. Mas apesar da elevada estranheza de Dial H, confesso que esperava mais de um escritor deste calibre.
Before Watchmen: Rorschach #02: Se Alan Moore suspeita que algum fã tem pensamentos destes a serpente glycon terá um aperitivo para abrir o apetite. Polémica pelo conceito, a prequela de Watchmen tem sido caracterizado por abordagens pouco homogéneas. Algumas ficam-se pelo banal, como se os autores tivessem medo de enfrentar Moore e fiquem-se por recriações que depressa serão esquecidas. Outras mandam os limites às urtigas. Rosrchach ficou a cargo de Brian Azzarello no argumento e Lee Bermejo na ilustração. O resultado? Uma prequela violenta, suja, num registo intrigante de urban noir que o traço de Bermejo acentua de forma quase pornográfica.
sábado, 6 de outubro de 2012
Alfinetes
Um retrato do país em pacotes de açúcar, saídos aleatoriamente do cesto. Porque se todos fazem o diabo a quatro já a muito poucos resta algo para os alfinetes. Sabedoria de café...
Voodoo
Coisas que acontecem quando Alan Moore pega num personagem: as suas características típicas ficam esquecidas enquanto a história avança num enredo de características místicas ou esotéricas. Foi o caso de Voodoo, originalmente uma personagem da Wildstorm com a capacidade mística de saber se alguém estava possuído por agentes de uma espécie alienígena invasora. Moore coloca tudo isso de lado e mergulha a personagem em Nova Orleães, numa história que é uma boa desculpa para o autor brincar com os ícones sagrados da religião vodun com um toque de sexualidade sagrada à moda de Ísis e o eterno conflito de equilíbrio entre forças ocultas. Da personagem original mantém-se a identidade de dançarina exótica em bares de strip-tease.
Não era o que esperava quando peguei nos comics. Sendo algo da mente de Alan Moore, esperava algo mais esotérico, próximo da ilegibilidade com referências obscuras e enredos metafísicos. Fiquei muito surpreendido quando percebi que se tratava de uma encarnação de Voodoo, uma personagem não muito interessante do alinhamento DC 52.
Na nova continuidade da DC, Voodoo é uma mutante, clone híbrido de adn humano e daemonita, espécie alienígena que pretende subjugar a humanidade. Apesar de se ter revelado uma agente do inimigo da humanidade, ainda não se conseguiu perceber se Voodoo é uma heroína ou má da fita, talvez porque na salganhada que é a sua continuidade narrativa se possam incluir irmãs gémeas, agências secretas, viagens a velocidades fisicamente impossíveis a planetas do sistema solar e um segundo fôlego à encarnação falhada dos Blackhawks na DC. A coisa já está tão avançada que aquele pequeno pormenor que transforma Voodoo numa personagem particularmente atraente para os leitores, com ênfase no género masculino, depressa foi esquecido. Os primeiros números do comic ainda mostravam as formas generosas da personagem na sua identidade original, geralmente para logo a seguir se transformar numa criatura semi-reptilíca. Para a história dos comics ficam os primeiros números de uma personagem da DC mais sexy do que a Wonder Woman e todo um resto que está destinado ao esquecimento ou à terceira linha.
Diga-se de passagem que a DC é lendária por passar a vida a reciclar propriedade intelectual. Os seus títulos emblemáticos vivem de personagens icónicas com cinquenta ou mais anos, constantemente reinventadas para apelarem aos públicos contemporâneos. Nos alinhamentos secundários vai ressuscitando personagens que deixou de lado ou que vieram de aquisições corporativas, caso desta Voodoo ou dos Stormwatch, ou do promissor mas esquecido Shield, que teve uma interessante série antes das redefinições da onda 52.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Requiem
Requiem por uma república moribunda. Submersa pelo endividamento, tutelada por responsáveis políticos que desrespeitam abertamente a vontade dos eleitores, povoada por uma população em empobrecimento forçado em nome de status quos oligárquicos. Intencionalmente esquecida por aqueles que fazem vida e carreira à sua custa.
Telemóvel como metáfora
Adoraria ter acesso a um vídeo ou transcrição desta sessão de perguntas e respostas de Grant Morrison numa convenção que lhe era dedicada. A uma pergunta sobre a possibilidade de esperança no futuro nestes dias negros, Morrison responde desta forma genial:
"Everyone's got a phone now and the phone is getting smarter and smarter, the phone's getting smaller and smaller, children have them now, so what you're seeing is the development of a prosthesis," Morrison said, explaining phones were evolving alongside humans and slowly merging the two into one. He also cited Stephen Hawking's brain-computer interface as helping speed transhumanism, seeing both things as the beginning of a way of life that would turn humanity into a literal network identical to technological networks, erasing war and all barriers by interconnecting the human race.
"It's going to be something new, it's going to be a networked entity," Morrison continued. "That's what happening right now and there's kind of a race on between the apocalypse and this thing -- It's not aliens that are going to come in, it's the phone that's going to come in. The phone is ringing for us right now and is about to connect everything up."
Para os mais incautos soa um pouco a uma resposta bizarra da parte de um autor que prima pelo surrealismo aplicado ao género dos comics. Na verdade, é uma intuição certeira sobre o futuro da humanidade, de parte da humanidade, pelo menos, e é se é que teremos futuro. Ideias discutíveis, porque factores como o apocalipse ecológico, a implosão financeira, o esgotamento de recursos ou o cada vez mais profundo fosso entre o ter e não ter podem e vão interferir com qualquer previsão futurista. Mas esta ideia é válida, e mostra que Morrison tem a mão no pulso das tendências tecnológicas e sociais contemporâneas. Phone, smartphone, telemóvel, é apenas uma metáfora, um referente que nos é conhecido e que dá nome à convergência cada vez próxima entre homem e computador.
Quem não tem um telemóvel no bolso, ou perto de si? Mais do que simplesmente fazer chamadas, estes dispositivos funcionam como uma espécie de memória portátil, armazenando dados com significado para os utilizadores e abrindo a janela para a vasta memória colectiva que é a internet. Vemos essa proximidade ser reduzida sempre que surgem ideias como o Google Glass ou outros género de óculos ou lentes de realidade aumentada, e que se intui que o próximo passo é uma convergência directa entre o humano e o digital - um campo especulativo e experimental que vai desde interfaces com o cérebro até à possibilidade de digitalização humana, algo que esta semana ganhou fôlego com a notícia que investigadores planeiam digitalizar partes do cérebro de abelhas e carregá-las como simulações em robots. Soa implausível ou improvável, mas reparem nisto: os computadores começaram por ser dispositivos mecânicos de cálculo, que evoluíram para dispositivos complexos electro-mecânicos de cálculo complexo e depois para máquinas digitais programáveis. Já ocuparam enormes salas e foram reduzindo drasticamente o tamanho enquanto aumentavam exponencialmente de potência. Foram sempre ficando cada vez mais próximos do homem. Se nos tínhamos de deslocar ao computador quando este ocupava um edifício, a proximidade aumentou com o computador de secretária, com o portátil, e agora com aquele que nos cabe no bolso. Investigamos activamente a sua incorporação numa prótese corporal acessível a todos.
Por isso, sim, há uma tendência. As nossas próteses digitais irão progressivamente integrar-se com o nosso corpo. E a mente humana irá modificar-se. Não é uma ideia nova. McLuhan compreendeu isso quando percebeu que diferentes meios de comunicação modificavam a forma de pensar. Essa revolução cognitiva, potenciada pela internet e discutida entre campos que vão do utopismo singularitário aos confrontos culturais entre a linearidade literária e a não-linearidade do hipertexto mas cuja realidade é mais prosaica e assenta na influência cultural de meios de comunicação globais. E iremos mudar. Vivemos numa era de cultura global em que ideias ganham espaço ao nível planetário, e uma uniformização cultural feita de fragmentos locais num ambiente global ganha força. Os meios de comunicação são vectores de transmissão de vírus culturais que modificam comportamentos locais para padrões globais.
Chamem-lhe o que quiserem. Utopia tecnológica, singularidade, transhumanismo. Não acontecerá como previsto pelos futurólogos e pensadores. Mas irá acontecer. As metáforas tecnológicas para o vírus da cultura humana têm como destino final a integração com o corpo. Até porque, apesar dos sonhos mais esotéricos dos transhumanistas que já se imaginam como consciências digitais em espaços virtuais, parte do que constitui o sentir o que somos depende do nosso corpoa.
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