sábado, 18 de agosto de 2012
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
X bondoso
Para o departamento de etimologia moralista: Aldeia da Rapariga de Seixos Alvos. Seixos, disse? Tenho a sensação que aquele x foi lá colocado por esforços de moral e bons costumes. É que para alvos... não foi seixos a palavra em que pensei. Mas isso sou eu que tenho mente perversa.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Dívida Sonora
Outra grande surpresa que o ciclo de cinema dedicado pela Cinemateca a António de Macedo foi a qualidade sonora dos seus filmes. Mais do que música a acompanhar a imagem e a sublinhar a narrativa, a banda sonora dos filmes que vi adquiria carácter próprio, oscilando entre o experimental e o reminiscente de época. É raro na sala de cinema ouvir sonoridades contemporâneas que se afastam da convenção do que é musicalmente acessível.
As influências e colaboração com alguns dos nomes mais importantes da vanguarda musical portuguesa, bem como o trabalho quase científico de adaptação de música de vanguarda a cinema de estilo próprio feito por António Sousa Dias transformam os filmes de Macedo em intricados panoramas aurais. É este, talvez, um dos aspectos fundamentais da sua obra: uma ideia de cinema como obra de arte total através da conjugação de elementos como o desempenho dos actores, a banda sonora, o argumento com os seus textos e sub-textos, a luminosidade, o trabalho de enquadramento e movimento de câmara.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Leituras serranas
Haverá melhor sítio para ler O Sangue e o Fogo de António de Macedo do que as serranias beirãs? Em particular, a peça O Osso de Mafoma, tão evocativo de uma medieva desolação serrana.
Interzone #241 (II)
A edição de Julho/Agosto de 2012 da Interzone conta com os contos:
Steamgoth de Sean McMullen, conto descaradamente steampunk em que o restauro de uma aeronave a vapor modifica literalmente o curso temporal da história do século XIX/XX e transforma a realidade num devaneio estilístico a vapor e latão polido.
Ship's Brother é uma história delicada de Aliette de Bodard passada no seu mundo viet-futurista onde sociedade, tecnologia cibernética e pulsões familiares colidem.
One Day in Time City de David Cleary destaca-se pelo conceito mas não pela execução num conto em que a organização geográfica de uma cidade segue a evolução temporal: quando mais próximo da baixa mais jovem se fica.
Railroad Angel por Gareth Powell reiventa o mito de Neal Cassady, companheiro de Kerouac, sob o signo de uma simulação que tanto pode ser computacional como espiritual. E se chegado o final da vida se pudesse reiniciar o sistema, revivendo de formas diferentes?
Invocation of the Lurker de C.J. Paget é talvez a peça mais fraca desta edição da Interzone, conto difuso e desconexo que, parece, gira à volta de inteligências artificiais incorporadas e malware biológico ou digital. Ou algo assim.
A encerrar a revista temos críticas literárias e cinematográficas ao mesmo tempo bem humoradas e implacáveis.
domingo, 12 de agosto de 2012
Shocking Futures
Alan Moore (1986). Shocking Futures. Londres: Titan Books.
O ritmo de publicação semanal do comic clássico britânico 2000 AD obriga os argumentistas a uma elasticidade narrativa concisa, capaz de fazer avançar uma história em poucas páginas e manter o interesse do leitor até à semana seguinte. O píncaro dessa disciplina é atingido regularmente pelos Future Shocks, histórias curtas auto-contidas, irónicas e paradoxais que quando bem conseguidas - e normalmente são-no, deixam o leitor a suspirar por mais.
Antes de se tornar a lenda dos comics que é, Moore criou para a 2000 AD séries memoráveis como Skizz e muitos Future Shocks, alguns dos quais coligidos nesta edição. O que esperar? Brilhantismo, ironia, humor negro, ficção científica pura e gosto pelos paradoxos. Não são as alquímicas palavras de um Moore mais maduro, de sentidos múltiplos e preocupações ocultistas, mas divagações livres e algo cruas de imaginação em alta rotação.
sábado, 11 de agosto de 2012
Chronos
Na sua encarnação original Chronos era um super-vilão, arqui-inimigo do The Atom. Equipado com gadgets inspirados em mecanismos de relógio, tinha o poder de parar o tempo e mais tarde adquiriu a capacidade de viajar no tempo. Como qualquer super-vilão que se preze, servia essencialmente para ser derrotado pelo herói de cujo alinhamento fazia parte. A sua morte é o mais interessante no personagem. Envelhecido e reformado numa casa decorada com artefactos comemorativos da cultura pop da era de ouro dos comics, afectado pelas cronodistorções, literalmente desvanece-se.
Da terceira encarnação do personagem apenas sei o que está na página da Wikipedia sobre o tema. Até prova em contrário, não parece particularmente intrigante.
A segunda encarnação do personagem, Walker Gabriel, é surpreendente. Escapa aos moldes tradicionais do género e desenvolve-se com alguma complexidade e não linearidade de forma discreta, sem os espalhafatos habituais dos relançamentos de comics. Durou umas curtíssimas onze edições por sobrecarga do argumentista, incapaz de manter um elevado nível de qualidade dentro dos prazos apertados da editora DC. Passa despercebido nesse grande oceano da edição de banda desenhada norte-americana, sendo uma pequena pérola do género.
Walker é um personagem ambíguo, que não se adequa aos moldes estereotipados dos comics. É um vilão que faz a coisa certa, ou um bom da fita com métodos pouco ortodoxos. Como preferirem. Não é musculado, foge de lutas corpo a corpo porque sabe que vai ser desancado e com um longo nariz adunco não se conforma ao ideal de beleza do género. Não tem aquele aspecto ameaçador que se associa aos vilões nem o ar imponente e brilhante dos heróis. É essencialmente uma pessoa normal que anda perdida com os poderes temporais que lhe são concedidos.
Este Chronos herdou a tecnologia do personagem original e usa o dinheiro de assaltos encomendados para financiar as suas pesquisa científicas. Envolve-se com um personagem sombrio que quer controlar o fluxo do tempo e a sua companheira, uma condessa renascentista italiana que se tornará imortal, e acaba por ter de se ver a contas com os Linear Men, uma organização que vigia a linearidade causal dos fluxos temporais. Não é um ser todo-poderoso, sendo que só ao longo da série é que vai desenvolvendo as suas capacidades temporais. As suas desventuras e busca da origem, com auxílio de personagens como o Barão Winters e Destino (dos Endless de Gaiman) levam-no a Chronopolis, uma solitária cidade além do tempo habitada pelo último descendente de escravos de uma raça alienígena predadora. A cidade, um misto de arquitectura industrial vitoriana, foi originalmente construída por este escravo e pelo pai de Walker, que este acaba por conhecer nos últimos volumes da série.
Walker tem um trauma pessoal, a morte violenta em acidente de viação da sua mãe adoptiva. Quando se apercebe da extensão dos seus poderes temporais regressa ao passado para evitar a tragédia, e ao fim de algumas desventuras com paradoxos temporais que deslindam em futuros fortemente distópicos, acaba por se eliminar a si próprio do tempo, mas não deixa de existir. Coisas da lógica dos comics... torna-se um personagem guardião, que visita momentos fulcrais da continuidade da linha temporal da DC.
Estilisticamente o comic é interessante, com linhas sóbrias e traço limpo a descrever com algum pormenor os passados e futuros possibilitados pelo desenrolar do argumento. No design de Chronopolis o estilo inspirado na arquitectura do ferro do final de século evolui para uma iconografia steampunk avant la lettre.
Escrito por John Francis Moore, desenhado por Paul Guinan e colorido por Steve Leilahoa, Chronos peca pelo seu final prematuro e esquecimento na continuidade da linha editorial. É pena. Poderia ter evoluído para um interessante título de culto com vida própria fora da continuidade da DC, como aconteceu a Hellblazer. Ficam-nos, embora obscuras, onze edições contínuas e uma especial que deixam questões intrigantes na mente dos leitores atentos. Talvez seja melhor assim. Sujeitas ao inferno do desenvolvimento continuo sob pressão editorial, as personagens de comics bem sucedidas no tempo levam tantas voltas que por vezes ficam irreconhecíveis, ou quedam-se por uma eterna repetição dos mesmos pressupostos. Este Chronos escapa a isso.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Alien Life Form
Os Emissários de Khâlom
Este é o filme de ficção científica português por excelência. Não só porque seja o único que eu saiba, mas pela qualidade do seu argumento que aguenta o teste do tempo, normalmente inclemente para este género. Os Emissários de Khâlom desenrola-se em duas épocas paralelas. No final do século XIX a comissão real das minas reúne-se para decidir a continuação da exploração de uma mina que ameaça ruir. Parece assunto de pouca monta, mas o bom senso científico choca com os interesses económicos que visam manter a minha aberta a todo o custo. No futuro (que, agruras da ficção e do tempo, é agora o nosso passado) um grupo de cientistas portugueses ao tentarem evitar a previsível aniquilação atómica à escala planetária envia ao passado um ser artificial, mas uma instabilidade desconhecida divide-o em dois, provocando um nível elevado de incerteza no fluxo temporal e o risco de desaparecimento de um dos cientistas, descendente directo do presidente da real comissão que um dos emissários tenta assassinar por vários meios.
O aparentemente banal momento do século XIX é na verdade um ponto focal na história. Da continuidade da mina depende a assinatura de um contrato que irá criar uma firma obscura que irá gerar os maiores conglomerados económicos e industriais do século XX. Os dois emissários, o original e a cópia que provoca interferências (criada num assomo passional por um dos investigadores do futuro) estão no passado para auxiliar ou travar a decisão fulcral, mas também no futuro onde se envolvem com os cientistas. E no passado profundo, numa civilização utópica milenar desaparecida há milénios. Só nos momentos finais do filme nos apercebemos qual é o emissário "mau"... e na verdade esse epíteto não se aplica, uma vez que são ambos faces de um mesmo conceito, uma dicotomia animus/anima com implicações esotéricas.
Sendo um filme de António de Macedo, podemos esperar um surpreendente e complexo argumento, cheio de linhas narrativas que colidem nos momentos cruciais do filme. O humor corrosivo do cineasta também se revela em pormenores hilariantes, como o conde inválido que todos os dias vai praticar com pouca pontaria tiro, incapaz de acreditar que o adversário para um duelo que devia ter acontecido anos antes tinha falecido de causas naturais. A fiel criadagem alimentava-lhe as pistolas com pólvora seca. Ou a visão particularmente corrosiva da ciência aplicada, com sugestões de produtos da pesquisa científica de utilidade duvidosa. Ou ainda, num pormenor pequeno que diz volumes sobre a história das mentalidades portuguesa, um sacristão que tenta em vão exorcizar aquilo que pensa ser um demónio enquanto bate em retirada, disfarçando o susto com esgares santificados.
O filme também se distingue pelo cuidado visual nos cenários. A caracterização do século XIX foi muito bem conseguida, mergulhando-nos na Belle Époque portuguesa. O futuro, inevitavelmente, surge ao olhar contemporâneo como um passado dos anos 80 do século XX, mas o aspecto futurista do centro de pesquisas surpreende apesar de pormenores que ficam inexoravelmente datados, como os computadores típicos dos anos 80. Curiosamente, temos nestes computadores de época (com as suas gloriosas diskettes de 5") um pormenor presciente. Uma modificação feita por um dos emissários permite aos computadores do centro de pesquisa comunicar com o computador em casa de um investigador, isolado numa tempestade de neve na Serra da Estrela. Uma inesperada antevisão avant la lettre da internet?
Junte-se a isto a habitual riqueza estética dos filmes deste cineasta, com a sua atenção à cor e enquadramentos, e temos um filme divertido e intrigante que marca um lugar na história do cinema português pela sua temática, originalidade e qualidade. E, fiel à tradição do conto de ficção científica, não deixa de ter um curioso plot twist no final, quando os últimos movimentos de câmara revelam a razão dos nomes de Verónica e Valdemar, os emissários da distante Khâlom/constructos digitais de software.
Glitch Art na PBS
Sem muito tempo para ruminar isto, mas a apontar ideias a merecer desenvolvimento. A Glitch Art foi focada pela PBS/Off Book numa curta reportagem exemplificadora dos grafismos intrigantes desta corrente estética com depoimentos de alguns dos seus mais conhecidos praticantes (só faltou a Rosa Menkman).
Algumas ideias: expor a mediação tecnológica que possibilita o mundo de imagens em que estamos mergulhados; reacção à perfeição hiper-realista do digital; apropriação de tecnologias empacotadas e formatadas para conveniência do utilizador; electrónica e digital como meios abertos de expressão; beleza inesperada na casualidade; estética da avaria intencional ou casual; raízes conceptuais no movimento punk; apropriação da bleeding edge estética pelas indústrias culturais; forma radicalmente contemporânea de visualizar a percepção do mundo, mediada pelos meios audiovisuais modificados intencionalmente ou não.
Glitch, databending, new aesthetic, machine vision, 8bit... parecem-se ser faces de algo maior que futuros historiadores de arte irão reunir num corpus teórico comum.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Bang! #13
Edição número treze não significa edição azarada, com a revista a continuar a manter um elevado nível na ficção e particularmente na não-ficção. Com uma excepção, explicável pela posição da revista como parte integrante de uma editora que apesar de separar as águas não deixa de ter influência em parte do seu conteúdo. Assim compreende-se que no grafismo cuidado e com espectacularidade garantida dentro dos estreitos limites das convenções gráficas da fantasia surja uma antevisão de adaptação para banda desenhada do obra de George Martin que se pauta por um grafismo medíocre, muito abaixo dos padrões de qualidade dos comics enquanto vertente da banda desenhada. É curioso comparar o grafismo banal onde sombra é elemento inexistente com o destaque dado ao ilustrador da capa, com um estilismo interessante apesar dos limites da temática.
(Ok, estes meus resmungos sobre a "arte" da FC/Fantasia têm a sua razão de ser. Tecnicamente, os ilustradores que utilizam técnicas tradicionais, pintura digital ou 3D para este género são brilhantes. Particularmente os que usam o 3D para hiper-realismos inusitados, que quem percebe um pouco da coisa sabe que são dificílimos de alcançar. Estilisticamente, os elementos iconográficos caem dentro de convenções estreitas. Ou seja, é tudo muito giro e muito bem feito, mas tudo igual e repetitivo. E não precisa de o ser, como nos anos 70 provou o grafismo da revista New Worlds.)
O que esperar deste número supersticiosamente fatídico da revista Bang!? David Soares leva-nos aos bastidores do chapeleiro de Alice no País das Maravilhas, Afonso Cruz dá uma interpretação surreal a vinhetas da história, António Monteiro traça um curto perfil de M. R. James, Jorge Colaço revê um pouco da biografia de Dickens num romance que traduziu e João Morales partilha leituras definidoras de carácter. Safaa Dib e João Barreiros partilham indicações a aspirantes a autores. Pedro Marques dá-nos histórias da censura em Portugal com o mote de uma obra de Ray Bradbury que se distingue por ser visceralmente anti-censuras. António de Macedo fala com grande erudição sobre influentes livros fictícios e João Lameiras dá-nos um vislumbre precioso de um álbum de banda desenhada raro e marcante. João Seixas analisa profundamente o fenómeno literário do vampirismo sexualizante contemporâneo, com um intrigante foco na vertente feminista deste sub-género. Pessoalmente, ao ler sobre a significância dos vampiros emo e caçadoras libertas não pude deixar de me recordar das edisonades. Temáticas abismalmente diferentes, claro, mas muito similares no que toca a estilo literário de moda concentrada num tempo específico.
No domínio da ficção, temos um exemplo do género que Seixas analisa no conto Enfeitiçada de Kim Harrison. As Mãos do Marido de Adam-Troy Castro dá um toque de FC ao horror contemporâneo das guerras em terras distantes. Ainda temos curtísssimas resultadas de um concurso literário, um excerto da BD O Cavaleiro de Westeros e a continuação da BD Arquivo Morto, interessante trabalho de autores brasileiros.
Agora começa o compasso de espera pela edição #14...
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Indomável Tirano
António de Macedo (2011). O Sangue e o Fogo. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.
Interzone #241 (I)
Heading for 1.800.000 words, Song of Ice and Fire has got to be the most hideously uneconomical fantasy series since Robert Jordan's Wheel of Fire. Em cheio, numa crítica ao mais recente livro da série. Não sendo fã do género a piada não me ofende. Mas pode ser aplicada a muita coisa que se publica. Confesso que numa percebi o gosto pelas trilogias que se vão expandindo em tetra, penta, hexa e daí por diante. Ou aliás percebo. É a forma mais simples de continuar a dar ao leitor aquilo que ele gostou. Ad nauseam.
Surely the most ineptly written blockbuster of recent years, Prometheus marries stunning spectacle filmmaking to abjectly woeful science, plotting, and dialogue, reliant on liberally knocking back shots of magic black plot juice that will variously cause you to panspermatise planets, grow worms from your eyes, and inseminate human hosts with xenomorph precursors, depending on dosage. Já muito foi escrito sobre o espalhanço desilusório que foi este filme. Mas esta descrição acertada é dolorosa.
John Carter is as entertaining as it could possibly be for a blockbuster based upon a century-old pulp finally adapted for cinema decades after Star Wars looted its panoramic visions. From its wild west parallels to steampunk Flash Gordon and interspecies gladiatoria, that's more designer fantasy than science fiction, Pixar graduate director Andrew Stanton fashions his medley of familiarity into something that is fairly pleasant and fun viewing, but still manifestly unexceptional. Dá vontade de não ir ver, certo? E esta até é uma crítica simpática.
Por outro lado, também nos dá pérolas como esta, que colocam obras e realizadores numa nova luz: John Carpenter's peculiarly Lovecraftian trilogy The Thing - Prince of Darkness - In The Mouth Of Madness (...). Confesso que nunca tinha ligados os pontos desta forma, e esta frase deu-me um novo ponto de vista sobre três filmes de Carpenter que se contam entre os meus favoritos. A esta luz, realmente o monstro de The Thing é quintessencialmente lovecraftiano, bem como a ambiência de Prince of Darkness. E In The Mouth Of Madness... a sátira à literatura de horror a metro ao estilo de Stephen King depressa degenera numa insanidade que cita o caos rastejante do visionário de Providence.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Monsterland
Hans Arnold (2007). Monsterland. Estocolmo: Arvinius Förlag AB.
Uma surpresa intrigante, apanhada nas prateleiras de refugo e material danificado de uma livraria bem conhecida. Imagine-se um cruzamento entre o estilismo de Edward Gorey e a iconografia da E.C. Comics e fica-se com uma ideia do que é este delicioso Monsterland. Essencialmente uma fábula negra em tom cómico, é uma curta narrativa de viagem a uma terra de monstros por uma rapariga que, digamos... faz pela vida. Ingenuidade e sensualidade estão em colisão nesta fábula macabra que vive do traço do desenhador sueco Hans Arnold.
Um novo sentido para a expressão flying crate...
Arnold, que confesso que até agora desconhecia, foi um influente desenhador sueco que revolucionou a literatura infantil com obras que aliavam a puerilidade do género ao lado tenebroso do horror. Tal como Gorey, um criador de histórias para traumatizar crianças. O que no fundo é o objectivo da literatura infantil, embora estes traumas geralmente se fiquem pelas lições de moralismo ou comportamento social ou sejam adocicados, caso das versões imortalizadas pelos irmãos Grimm das arrepiantes lendas e narrativas tradicionais norte-europeias.
A curta história lê-se nas interessantes ilustrações do autor, que insuflam de vida e simpatia os mais arrepiantes monstros do imaginário de género fantástico.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
A Maldição de Marialva
A lenda tradicional da Dama Pé-de-Cabra popularizada por Alexandre Herculano, é abordada por António de Macedo num filme ritualista alicerçado numa sólida reconstituição da era da reconquista. Filme ritualista pela sua lentidão e hieratismo. Os actores movem-se em gestos comedidos, declamando solenemente os diálogos numa reminiscência do teatro clássico. A força e intemporalidade das tradições e lendas de antanho saem reforçadas por este tratamento. Quanto à lenda em si, Macedo não se fica pela versão popularizada por Herculano na obra Lendas e Narrativas, mergulhando mais fundo na raiz popular e histórica. O filme define-se pela luta subtil entre o bem intemporal simbolizado por um sábio visigodo e o mal escatológico do demónio de raiz popular encarnado pela bela e altiva dama de vestes brancas imaculadas. Esta colisão não esgota este mergulho nas lendas de antanho, completo com lutas da baixa nobreza, religiosos interesseiros, povo manobrável e injustiçados que assombram a noite profunda da aldeia com a corda da forca ao pescoço.
Talvez pelo tema, talvez por ter sido filmado para televisão, não se sente neste filme o poderoso sentido da cor que atravessa a obra deste cineasta singular, embora o enquadramento preciso sublinhe a forte carga simbólica do filme.
Coisa rara: encontrar imagens dos filmes de Macedo é tarefa difícil. Para este, no entanto, deparei com uma página carregada de imagens que ajudarão quem não o conhece a ter uma ideia do que é este filme.
domingo, 5 de agosto de 2012
Robot
sábado, 4 de agosto de 2012
Subitâneo refinamento
Fervem nas auras zumbidos ominosos. Ergue-se de envolta ao ataúde crassa poeira ardente, que flutua fúlgida, e ténue se dilata. E em seus nichos entumecem as imagens dos santos, solfejando com as bocas de pedra, ou de madeiro, cantos eróticos de loucura e ebriedade.
Do conto A Febre Do Jogo (p. 45), in Álvaro do Carvalhal (2004). Contos. Lisboa: Assírio e Alvim.
Que prosa é esta, misto de gongórico com literatura gótica? E achava eu que Lovecraft era complicado a escrever. Nada mau este primeiro embate com a obra de Álvaro do Carvalhal. Obra curta, graças a uma vida igualmente curta. É intrigante o misto de horror gótico e exacerbamento de emoções. A edição que tenho é de 2004 (e continuo a treinar as normas APA, isto é como andar de bicicleta mas convém manter a rotação). Os contos de Contos foram sendo editados em publicações periódicas entre 1863 e 1867, coligidos pela primeira vez em 1868. Com uma temática dentro do género fantástico, obra curta e um hábito de ferir sensibilidades, não surpreende que este escritor seja uma nota de rodapé vista de soslaio pelo cânone literário. Para aqueles cujo gosto literário não se esgota nos ditames das academias, fica para descoberta uma obra intrigante. Mais não digo, porque julgar um livro pelo primeiro conto é prematuro. Mas a fasquia é muito alta.
The Cipher
Kathe Koja (1991). The Cipher. Nova Iorque: Dell
Um livro desapontador, que poderia ser um excelente conto. É, na sua essência, uma história de terror sobre o vazio e a descida para a loucura que se apropria de quem está próximo desse vazio. Mas há limites para aquilo que se consegue fazer com uma premissa que envolve um pedaço de nada inescrutável, e a autora ultrapassa-os numa obra que se torna monótona e repetitiva.
A obra gira à volta do vazio, simbolizado por um buraco negro de misterioso nada que aparece num recanto de um apartamento e faz reagir duas personagens caricaturais: um poeta falhado empobrecido e a sua namorada, desesperante femme fatale esquelética. É a obsessão mórbida desta mulher pelo buraco negro que coloca em marcha um desfile obsessivo de artistas falhados que se imaginam na crista da onda, sempre em busca de novas sensações. O que está no seu interior nunca nos é revelado, apenas intuído como algo que é catalisado pelo poeta e que é visto de forma diferente por cada espectador.
Felizmente o interior do vazio nunca nos é revelado, uma interrogação imaginária que se mantém como um dos pontos de interesse deste livro. O outro prende-se com a linguagem narrativa, num coloquialismo visceral reminiscente da literatura gonzo.
Ironias
Da última edição da revista Aeroplane. Como curioso por história e histórias da II guerra, sempre achei curiosa a carreira de Erich Hartmann. É o ás da aviação com maior número de aeronaves abatidas em combate de sempre - 352 homologadas. Voou como piloto da Luftwaffe na Alemanha nazi e depois da guerra na República Federal Alemã. Pilotou Bf 109s, me 262 (os primeiros caças operacionais a jacto) e F-86 Sabre. É aqui que reside a ironia - durante a guerra, combateu contra aeronaves norte-americanas. Depois da guerra, pilotou aviões americanos. Embora diga-se com rigor que o Sabre que pilotava foi construído pela Canadair e a forma em flecha asa baseava-se em investigações em aerodinâmica desenvolvidas por cientistas alemães.
De motores a pistão a jactos, através do fosso destrutivo a II guerra.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Chá Forte Com Limão
Não menos do que quatro gotinhas espremidas de sumo de limão nem mais do que sete, é a receita para um chá capaz de despertar os sonhos nas noites de verão. Como definir este filme sublime? Elaborado sonho de noite de um verão que já passou é, talvez, apropriado. Chá Forte Com Limão é um conto elegante de fantasmas em que um espírito inquieto vinga-se com doçura de um crime passional cometido décadas antes dos acontecimentos retratados no filme. Ou é uma comédia de costumes, reconstituindo o mundo aristocrático próximo do final do século XIX, onde o bom nome, a aparência, a linhagem e a elegância alicerçada em rígidas normas tudo contavam. Não é por acaso que o filme se desenrola entre uma casa e um jardim isolados de um mundo em redor que já acusa as convulsões que viriam no século XX. Ou é uma história de amores obsessivos mas recalcados pela força das convenções sociais. Ou é tudo isto, num filme muito belo feito de olhares subtis, frases com sentidos duplos ou tríplices, silêncios gritantes e pormenores inquietantes.
Este é um filme de conflitos, entre novos e velhos tempos, entre tradição e modernidades que se anunciam, entre mulheres, entre gerações, até entre homens que se batem por uma honra que é oca no seu fundamento. Conflitos que explodem em catarses, umas amorosas, outras de pólvora, outras em que sentimentos e segredos reprimidos vêm irremediavelmente à tona. E que terminam numa solidão vazia, rodeada de finas porcelanas, rendas elaboradas e doçaria a acompanhar um chá que ficará para sempre solitário.
É também um filme de precisão, percebida na subtileza e profundidade expressiva do trabalho dos actores, em particular o sublime desempenho de Isabel de Castro como aristocrata de segredos ocultos, ironia cortante e arreigada a um tempo e um costume que está em processo de desagregação.
Visualmente somos avassalados pela beleza da imagem. Enquadramentos rigorosos, perfeitos, a remeter para a pintura clássica. Um tratamento inigualável de cor... bem gostava eu de saber como é que António de Macedo conseguiu que as sombras não fossem meramente cinzentas, com toques de cor mesmo no lado mais obscuro. Todo um ar luminoso, a fazer brilhar a belle époque em que o filme nos mergulha. Junte-se a isto a rigorosa reconstituição de época num palacete e jardim de grande beleza.
Chá Forte Com Limão foi, infelizmente, um canto de cisne na obra de António de Macedo, cineasta olhado de soslaio pelo mainstream que não lhe perdoa a vertente do fantástico e sobrenatural e talvez no fundo o que não lhe perdoa é aquela que é a mais forte característica dos seus filmes: complexos e profundos, são também divertidos. Agarram quem os vê intelectual e emocionalmente. Fazem pensar, sonhar, e durante o tempo de projecção não se dá pelo passar das horas. E ficam com o espectador muito depois de sair da sala de cinema.
2012, pensado em 1987
Isaac Asimov acerta na sobrepopulação - oito mil milhões e a subir, dentro do intervalo previsto entre os oito e os dez milhões. Gregory Benford também acerta neste número, e aponta algumas tendências que hoje se fazem sentir: um regresso do conservadorismo a ameaçar conquistas sociais ou água como bem escasso. Felizmente, não tivemos mortandades humanas na ásia e infelizmente as bases lunares ainda não passam de sonhos.
Algis Budrys está selvaticamente longe da realidade com as suas predições de uma classe dominante hipertecnológica (trocasse tecnologia por finança e seria aterrorizantemente presciente) mas o insight sobre a conservação de energia é interessante. Gerald Feinberg olha para a importância futura da nanotecnologia, que se verifica, embora não nos moldes por este propostos. Sheldon Glashow faz predições intrigantes - o fim do perigo da destruição nuclear (que se verificou), uma potência asiática como força económica dominante (apesar de ter sido a China e não o Japão a assumir esse papel), progressos na cura de doenças crónicas (mas sem prever a importância de decisões financeiras na investigação de curas para doenças), e um declínio económico do mundo desenvolvido com um agravar do fosso entre ricos e pobres. Em 2012, esta última predição parece... visionária. Por outro lado se em 1987 esta tendência já era visível e nada se fez para a contrariar, significa que estamos mesmo sob domínio da ganância pura.
Frederik Pohl decide-se pela ironia, antevendo um futuro utópico que sabe que nunca irá ser atingido. As melhores ideias da era dourada da FC concretizam-se na visão deste autor, que num espírito catastrofista da era da guerra fria afirma que se alguém em 2012 ler as suas predições é porque o mundo não foi aniquilado numa guerra nuclear e as coisas só podem estar melhores porque a humanidade finalmente ganhou juízo. Pois. Disso ainda muito longe andamos.
A predição de Tim Powers não está longe da realidade... as leis de propriedade intelectual estão a ser reformuladas, mas não pela razão que ele apontou. Foi antes por causa de uma coisinha que nenhum destes futuristas viu chamada internet em colisão com indústrias culturais cada vez mais rapaces. Já Orson Scott Card aposta num ultra-nacionalismo americanista apontado para a decadência do país e perda de influência num mundo que se atomiza. Certeiro na ideia de um mundo atomizado. Jack Williamson pede desculpas ao futuro, por pertencer a uma geração que deixou como herança dívida financeira, destruição ecológica e desbarate de recursos. Lê-se como palavras estranhamente actuais. Intriga a ideia que gerações futuras façam uso dos meios electrónicos para informar e libertar. Estranhamente presciente, particularmente ao antever a possibilidade de vigiar e oprimir.
O deprimente Gene Wolfe prevê uma queda abrupta da literacia e o surgir de uma classe dominante hiperliterata. Novamente, se em vez de letras se tivesse referido a dinheiro, seria arrepiantemente presciente. Dave Wolverton falha todas, até nas tendências, mas tem piada a ideia de um movimento pelos direitos do homem - homem, género e não homem, representante da ideia de espécie humana. Para finalizar, Roger Zelazny acerta na ideia de uma sociedade onde o dinheiro se desmaterializou e onde a a automação revolucionou o trabalho. Infelizmente a visão de uma humanidade mais madura, com tempos livres dedicados ao estudo e fábricas em órbita não se veio a concretizar.
Podem ler as predições no site do Writers of the Future. É sempre interessante olhar para a forma como no passado imaginavam como iria ser o nosso momento presente.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
iZombie #28
E termina assim a simpática série escrita por Chris Roberson e ilustrada de forma sublime num estilo pop reminiscente dos anos 60 por Michael Allred. Tem um final deveras cósmico, com a zombie mais simpática de sempre a ter de devorar o cérebro de uma entidade cósmica alienígena. Braaaaaaaaains acabou de ter mais um significado. O comic fica para a história como um dos melhores e mais despretensiosos da actualidade. E também dos mais inteligentes, com uma curiosa linha narrativa que envolvia um lobisomem (bem, wereterrier no original) e a história de amor com um jovem louraço que era regularmente controlado pelo espírito de um combatente pulp do crime. Neste último número dizemos adeus a um elenco que incluía uma fantasma presa nos anos 60, vampiras sexy, zombies agentes de serviços secretos, monstros de frankenstein adolescentes e um chimpanzé falador amante de charutos e whisky.
Os Abismos da Meia Noite
Somos atirados de chofre para um mundo fantástico, de seres plenos de sabedoria que se movem em paisagens surreais. Habitantes de zonas de transcendência, têm como fraqueza a consciência da sua perfeição. Contemplam e inquirem, olhando a gota que cai e desdenhando o mundo sujo dos humanos que os invadem de surpresa sob a forma de um casal que surge do nada.
O surrealismo fantástico do mundo exterior idealizado dilui-se numa história clássica no cinema, onde um homem e uma mulher se apaixonam. Ela, inspectora de seguros incapaz de ter relações duradouras e que se vê a passar um natal a investigar um desaparecimento numa localidade do interior. Ele, professor de história no liceu local, num casamento sem amor e apaixonado pelas lendas e mistérios de um tesouro acessível apenas durante fugazes momentos na meia noite da consoada. A lenda invade a realidade e o casal descobre-se, em vários sentidos do acto, encerrados no interior secreto de um castelo por onde entraram através de uma porta que se abre ao bater das doze badaladas da meia noite.
Neste filme há uma cena que me assombra o pensamento: durante as doze badaladas, no interior da câmara secreta é-nos dada uma visão de riquezas e um livro prometendo sabedoria, que logo desaparece assim que o toque de sino deixa de ressoar. Esqueletos deitados no caminho para a câmara que encerra as riquezas estendem as mãos, inutilmente. As riquezas desaparecem, fugazes, e o verdadeiro caminho da sabedoria é o encetado pelas personagens do filme através da caverna que os levará a um outro mundo.
Intrigante exemplo da incursão do fantástico e sobrenatural no cinema português, este é um filme que se distingue pela colisão de linhas narrativas - o mundo ideal, a lenda, o real, a história de amor, o mistério do desaparecimento de um homem, as histórias individuais das várias personagens que se cruzam na película, filmadas com os inagualáveis sentidos de enquadramento e cromatismo que caracterizam a obra de António de Macedo.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Second Thoughts
Niklas Asker (2009). Second Thoughts. Marietta: Top Shelf.
Remorsos, quem não os têm? Nesta obra singular cruzam-se duas histórias num momento fugaz na transiência de um aeroporto. Numa, um fotógrafo foge da relação com uma música famosa, mas muda de ideias, é assaltado e acaba por, aliviado, descobrir que a namorada de nada se apercebeu. Na outra história uma escritora sente-se em processo de final da relação com a sua companheira, suspeitando ter sido traída noutro fuso horário. Enquanto espera que a companheira regresse a Londres vinda de Nova Iorque tem o encontro fugaz com o fotógrafo que quer partir para esse destino. A curta conversa inspira-a a escrever um livro que, tempos depois, irá mostrar ao fotógrafo o real sentido das suas acções.






































