sábado, 14 de julho de 2012

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É por causa destes pormenores que Frankenstein Agent of S.H.A.D.E. é o melhor comic mainstream da actualidade, imho. Um soro capaz de provocar ataques incontroláveis de violência furiosa? Onde é que já li isto, Dr. Jekyll? Esperemos é que Matt Kindt consiga manter o nível de espectacularidade e bom humor com que Jeff Lemire marcou o título. Se bem que a avaliar pelo intrigante mind mgmt... não vai desiludir.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sandman, acordado

Os legacy acts instalaram-se definitivamente nos comics. Primeiro tivemos as revisitações da Dynamite e da Boom! Studios, que deram roupagem nova a ícones como Buck Rogers, John Carter e Dejah Thoris, Green Hornet e até o Lone Ranger. As prequelas de Watchmen agitaram as águas pelo aproveitamento descarado de um clássico contemporâneo e as típicas maldições de Alan Moore. Agora é Sandman que vai ser ressuscitado... pelo menos com Neil Gaiman a escrever as aventuras de Morpheus, personificação mitológica de um eixo do destino humano, antes da colisão de eventos que levou à sua aniquilação. Certo, a ver vamos. Sai no vigésimo quinto aniversário do lançamento da série original. Mais detalhes no Forbidden Planet.

Se vai ser bom reler Gaiman em comics, é de assinalar que a indústria dos comics se rendeu à "inovação" das editoras discográficas dispostas a salvar o seu modelo de negócio: ressuscitar personagens empoeiradas.

Aventuras fast food

Confesso: um dos meus prazeres proibidos é devorar um bom e nada saudável hamburguer de fast food. Não é algo que indulga regularmente, pelas óbvias razões financeiras e de saúde, mas de quando em vez lá vai um naco de carne picada rodeada de cebola, queijo, pão e aqueles molhos especiais das multinacionais. Mas há coisas que me deixam siderado.

Sempre que passo por um burguer king e não resisto ao canto de sereia acompanho com uma coca cola. Burguer e cola, clássico. Mas não preciso de baldes para matar a sede, e por isso peço sempre uma cola. Pequena. E a resposta é sempre a mesma. Pequena não temos, só média, ou grande, ou gigântica, ou metade do depósito de um camião cisterna. Bem, então a mais pequena. Que é a média, dizem-me. Práticas curiosas de uma multinacional que pelos vistos começa a contar não a partir do um mas do cinco.

Se uma coisa aprendi nas minhas roadtrips por terras de espanha é que é um país que não funciona aos domingos e feriados. Por isso é que me vi num dia sufocante de agosto no sprawl ballardiano entre málaga e torremolinos esfaimado e obrigado a parar numa zona comercial de estrada deserta para almoçar no único sítio aberto em quilómetros em redor. Imagem mental: céu azul sufocante, calor húmido, hipermercados desertos ladeados de condomínios com varandas para o mediterrâneo. E um burguer king.

Pedido o naco de carne esmagada com gorduras e sal a rodos, fiz algo de inesperado. Pedi uma garrafa de água para acompanhar. Porque estava calor sufocante, e ainda me esperavam alguns quilómetros. A funcionária balbuciou qualquer coisa de incompreensível, irremediavelmente perdida nas traduções entre o meu espanhol inexistente e a incapacidade espanhola em entender inglês ou francês. Ao fim de muito gesticular, lá percebi. Não se vendia água naquele estabelecimento. Tinha bebidas processadas a rodos, cortesia de um self-service. Para combater o calor sufocante e hidratar as células poderia emborcar o que quisesse desde que fosse bebida açucarada e gaseificada. Água, esqueça lá isso. Mas nem uma garrafinha, implorei? É que está um calor abrasador e estou desidratado. Nada. Nem pensar em ver tal coisa na loja andaluz desta cadeia multinacional. Algures por entre a decoração pop da loja entrevi cartazes a anunciar o lado saudável das iguarias do burguer king.

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Nove horas

Um daqueles anúncios intersticiais que enxameia o facebook. Este supostamente é para alertar sobre questões ecológicas com um obrigatório like para uma página onde nos poderemos envolver mais a fundo. Mas se repararem bem, é profundamente infeliz. A ler a comparação entre o gasto de água para produção de umas calças de ganga e horas de rega de jardim, penso logo duas coisas. Uso calças durante muito mais tempo que nove horas. Com algum cuidado e um saudável desenhar de épocas e modas, geralmente duram-me até se romperem irremediavelmente. O que significa que esse gasto original de água, para ser bem analisado, teria de ser distribuído ao longo de anos. Por outro lado, a ideia que água poupada na indústria serve bem é para regar jardins parece-me perfeitamente estúpida. Imagino logo um tipo de sorriso estampado a pavonear as suas calças ecológicas enquanto o sistema de rega vai mantendo a relva verdejante no pino do verão.

Pois. Se querem alertar para os problemas bem reais do ambiente, talvez esta não seja a melhor metáfora.

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

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Estação azul


Metro Baixa-Chiado, onde a intrusão da teoria económica no real nos legou leds azuis que se acendem à passagem de um comboio.


Desvio azul vernacular.


Tomadas trifásicas sobre soalho no salão nobre do TNSC,

Everybody is Stupid Except for Me

Peter Bagge (2009). Everybody is Stupid Except for Me and Other Astute Observations. Seattle: Fantagraphics.

Peter Bagge morde, algo a que os que o conhecem a sua obra já sabem. Neste livro o alvo do seu humor mordaz é apenas os sistemas políticos, ideologias e ditos formadores de opinião pública, dissecados com uma fina navalha de occam pelo olhar de um libertário perito em apontar a falta de bom senso na forma como a política lida com a sociedade. Se os detalhes desta banda desenhada que colige crónicas visuais para a revista Reason passam ao lado de leitores não norte-americanos, a crítica mordaz e incisiva aos lugares comuns e extremismos populistas é uma mensagem universal.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Redshirts: A Novel with Three Codas

John Scalzi (2012). Redshirts: A Novel with Three Codas. Nova Iorque: TOR.

Nas séries televisivas de FC há personagens que foram criados expressamente para serem atomizados, aniquilados, engolidos por monstros mutantes, alvos de raios da morte ou outras sevícias destinadas a sublinhar o carácter heróico dos personagens principais e a conferir momentos emocionais à narrativa. Redshirts é o termo que os imortaliza, baseado no facto de na série de televisão Star Trek os tripulantes de camisa vermelha que acompanham o comandante Kirk e companhia nas suas alvas vestes azuis terem geralmente o destino traçado antes do intervalo para anúncios.

Mas e se... num futuro distante, quatro aspirantes colocados na nave capital da União de Planetas depressa descobrem que algo de estranho se passa. A taxa de mortalidade em missões é vastamente superior ao normal na frota. A nave capital parece estar sempre envolvida em aventuras violentas, apesar de como símbolo da frota ter sido destinada a missões de cortesia. Tripulantes que acompanhem os oficiais superiores em missões geralmente não sobrevivem a pragas, rebeliões ou devorados nas mandíbulas de vermes gargantuescos. Os oficiais superiores estão sempre em missões dramáticas, na qual são feridos gravemente mas recuperando sempre em poucos dias. Sempre que há batalhas espaciais sobra sempre um projéctil inimigo que não é destruído pelas defesas da nave e provoca estragos sempre no mesmo convés. E, nos momentos mais críticos, a lógica e a física parecem suspender-se para dar mais gravitas às situações.

A explicação é surreal. Sob influência de uma força nunca explicada, a tripulação da malfadada nave está condenada a replicar as tropelias e desventuras de uma má série televisiva de ficção científica. Nos momentos em que a narrativa ficcional se sobrepõe à realidade, a normalidade é suspensa e os personagens descobrem-se até a dizer palavras que nunca pensaram. Os tristes aspirantes depressa se apercebem que ou procuram lutar contra os espartilhos narrativos ou a sua esperança de vida diminui aceleradamente. Para sobreviver, utilizam as armadilhas narrativas para viajar no tempo e vir ao passado para convencer os produtores e argumentistas da série a ser mais benévolos no tratamento dos personagens e nas aventuras da nave.

Redshirts é uma longa anedota metaficcional, reflexão bem humorada sobre os estereótipos do lado mais visível da FC, sobre as suas incoerências e truques narrativos. Um livro cujas personagens passam boa parte do tempo a debater se são reais ou personagens de uma má série de ficção quando no fundo são personagens de um livro têm a capacidade de torcer o cérebro até as sinapses se esticarem ao limite mas a prosa leve de Scalzi consegue tornar este livro numa história bem ritmada de aventuras inauditas polvilhada por potentes meditações sobre meta-ficção. E sim, num ponto os personagens perguntam-se se tudo será real ou apenas elemento ficcional mas Sclazi resolve isso estampando a nave contra um asteróide. Porque uma boa anedota não se prolonga até ao infinito.

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Timescape

Gregory Benford (1992). Timescape. Nova Iorque: Bantam.

A história é enganadoramente simples. Num futuro, que curiosamente já é o nosso passado, o planeta encontra-se à beira de um colapso ecológico. Por entre catástrofes e restrições cada vez mais profundas, os cientistas vão-se esforçando por tentar colmatar as cada vez mais intensas eclosões destrutivas. Apenas um projecto promete difusamente ser bem sucedido, assente numa ideia improvável de comunicar com o passado utilizando taquiões, partículas capazes de se propagar no sentido inverso da seta do tempo.

É aqui que o livro começa a mostrar a sua abrangência. Poderia ser um simples romance sobre o futuro que comunica com o passado, provocando mudanças que salvariam os mensageiros do futuro com uma boa dose de paradoxos temporais à mistura. Mas Benford vai muito mais longe, e dá-nos um clássico da FC que é uma profunda reflexão sobre o processo da descoberta científica.

O livro foca-se essencialmente nesta vertente. Os cientistas que nos anos 60 recebem a mensagem do futuro têm uma dificuldade enorme em demonstrar a validade da sua teoria. São desacreditados, pressionados a largar a pesquisa, ridicularizados pelos seus pares num retrato fiável de como o que pensamos ser o processo limpo de mudança paradigmática é na verdade um campo de batalha onde interesses instituídos reagem mal ao novo e à mudança que os deixará obsoletos. Esta é a principal linha narrativa de Timescape, centrada na personagem de um persistente cientista que passa as passas do algarve para convencer os seus pares que os seus resultados são válidos.

Há uma forte componente individual nesta obra. Se no passado temos o cientista fiel às suas convicções e à validade do seu trabalho, o futuro traz-nos um burocrata inteligente que consegue olhar para lá do momento presente, sendo capaz de defender projectos imprevisíveis ameaçados pela concentração de recursos na resolução de problemas do momento.

Os paradoxos temporais surgem quando se dá a aceitação da veracidade das mensagens. Mexer com o passado é arriscado. Se for bem sucedido implica que o que levou ao envio das mensagens já não se irá verificar, o que implica que as mensagens não serão enviadas, o que implica que o passado não será alterado. Cérebro a dar piruetas com a não linearidade? Bem vindos às viagens no tempo, onde a causalidade se fecha em círculos ou os universos se bifurcam. Benford consegue mesclar estas duas perspectivas, com uma visão ondulatória do tempo.

As mudanças começam por ser subtis. Após os primeiros envios de taquiões físicos no futuro postulam a possibilidade de universos fechados dentro do universo, detectáveis apenas por emissões de taquiões. O espectro começa a ficar sobrelotado, com um ruído de partículas que são emissões de futuros mais longínquos. E quando as mensagens são descodificadas e no passado se começa a modificar o futuro o que acontece é totalmente não linear e imperceptível para quem as vive. São pequenas mudanças, detectadas pelas pequenas inconsistências de percursos de vida que Benford vai deixando nos brilhantes parágrafos finais. O tempo varre a causalidade, alterando-a a todo o momento. Como ondas do passado e futuro a esbater-se na praia do momento presente.

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domingo, 8 de julho de 2012

Não-Lugares, Lx.

Um workshop simpático a partir de uma interpretação na vertente património do conceito de não lugar postulado pelo antropólogo Marc Augé. A minha tem mais a ver com asfalto, nós de cruzamento na via rápida, parques de estacionamento, estações de comboio, condomínios de cimento armado mal disfarçado pelas varandas de cores garridas e céus azuis riscados pelo rasto de aviões a jacto (preciosismos de um ballardiano assumido). Mas realmente atravessamos cidades mergulhados no solipsismo da nossa bolha individual e até o património histórico se torna invisível, algo que registamos na retina enquanto nos ocupamos mentalmente da traçagem do percurso entre ponto A e ponto B. O workshop foi também uma boa oportunidade de visitar locais icónicos no curto percurso entre a Rua da Escola Politécnica e o Largo de S. Carlos.


No museu de história natural, muito bem explorado durante a manhã. Sic transit mundi, ou dizer olá aos nossos antecessores.


Verde que engole o edifício degradado do observatório astronómico no jardim botânico sob céu chuvoso. A comparação com The Drowned World de J.G. Ballard é inevitável, reminiscente das descrições de cidades semi-submersas onde o verde da vegetação descontrolada esboroa os restos arquitectónicos que resistem à superfície das águas.


Num dos meus recantos favoritos do jardim botânico. Local para onde muitas vezes ia respirar nos velhos tempos em que era aluno de liceu.


No reservatório da patriarcal, toque de metal pesado, tecnologia robusta enterrada sob as ruas da cidade.


Atravessando as condutas que levam da patriarcal a s. pedro de alcântara, e continuam, entrecruzando a cidade de Lisboa numa teia invisível. A sombra é o efeito do movimento humano sobre o tempo de demora da captura da luz pelo ccd.


A colisão entre o barroco e o neoclássico no teatro nacional de s. carlos.


Onde os sonhos são construídos: o lado invisível do palco, traçado por cordame e contrapesos.

Cento e sessenta e tal fotografias com o meu venerável Xperia X1 ao longo do dia. Fotografar com telemóvel é um desafio. Não basta apontar e disparar, e não temos recursos como filtros ou profundidades de campo para brincar. Resta trabalhar com enquadramentos, massa, equilíbrio visual. Ter alguma sorte quando as condições de luz não são favoráveis ao ccd. E fazer algumas correcções de pós-produção. Normalmente restringo-me a mexer nas curvas de luminosidade para puxar o contraste ao meu gosto. E claro, algumas vão sofrer databending.
Uma selecção pode ser vista aqui.

sábado, 7 de julho de 2012

Terrarium

É uma honra ter estes traços na anteriormente imaculada página deste meu livro. Hoje João Barreiros referiu-se a este livro seu e de Luís Filipe Silva como a obra seminal e canto de cisne da ficção científica portuguesa. Terrarium é um dos melhores livros deste género que li e indubitavelmente a grande obra de FC em português. Se já tinha razões para o acarinhar o autógrafo dos autores torna-o ainda mais precioso. Ainda por cima descobri que é uma raridade. Recomendo a sua leitura, mas encontrá-lo será difícil ou mesmo impossível. Aparentemente, após a aquisição da Caminho pela editora Leya foi ordenada a destruição dos exemplares em armazém desta colecção. Se encontrarem algum exemplar esquecido num alfarrabista ou feira do livro agarrem-no, porque é muito bom e muito raro.

Li este livro no final do século passado. O preço ainda está rabiscado a lápis. 4.600$00. Ou quatro contos e seiscentos, na linguagem monetária extinta do escudo. Escrever estas frases dá um toque futurista... li-o quando estava a descobrir o acervo da FC portuguesa, a descobrir que havia escritores portugueses que escreviam tão bem e com ideias tão interessantes como os anglo-americanos. De todos João Barreiros emergiu como a voz mais importante do género. Mas estamos em portugal e as literaturas de género são desprezadas ou aproveitadas atabalhoadamente enquanto moda passageira. Por isso poucos são os que conhecem este autor e as suas obras, bem como o panorama geral da literatura. Mais um sintoma do clima sufocante que atrofia aqueles que por cá se atrevem a pensar de forma diferente.

Edit: parece que afinal quem lançou a ideia de livro seminal e canto de cisne foi o Rogério Ribeiro. Fica aqui a errata. Confesso que fiquei mais pelo seminal, que realmente o é. Certamente o melhor livro do género de sempre em portugal. Notem que não estou a falar de horror e outros géneros, mas sim de FC.

(É deprimente ouvir João Barreiros falar. Fico sempre com a sensação que li muito pouco e me falta ainda tanta leitura para ter uma cultura sólida de FC...)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

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Partículas teístas

Momento ballardiano esta manhã na via rápida. A saltitar entre rádios por entre o trânsito cerrado em três vias ouço uma locutora a esforçar-se por explicar a provável descoberta do bosão de higgs por uma equipa do CERN. "Chamado de partícula de deus, porque confere massa e ordem aos átomos". Ou algo muito similar.

Recordei-me logo de um conto de Ballard cujo título está francamente perdido entre as sinapses. Nesse texto, cientistas anunciam a descoberta de uma força composta por partículas que permeia todo o universo, sensível às acções dos seres vivos. Logo denominada partícula de Deus, provoca profundas mudanças sociais. Ateus e religiosos apercebem-se que afinal deus existe, mas não é um velhote de barbas, é apenas uma força natural. Segue-se o caos, com o colapso das instituições religiosas, sociais e económicas abandonadas por uma humanidade que se apercebe que não precisa de acreditar nas ideologias tradicionais. Poucos meses depois os poderes instituídos reagem. Desqualificam a descoberta e decretam a morte de deus.

Deus está morto, recordei imaginando a possibilidade de descoberta do bosão de higgs enquanto ziguezagueava por entre o fluxo de trânsito como um electrão apressado.

edit: uma pesquisa pelos neurónios da memória externa digital recordou-me que o nome do conto é The Life And Death Of God. A meio grita "The next day the newspapers of the world bore a hundred variants of the same headline: GOD EXISTS Supreme Being Pervades Universe During the following weeks the events of ordinary life were forgotten", e vai terminando com "The scientists at Jodrell Bank and Arecibo who had first identified the Almighty were asked to reconsider their original findings. The televised hearings in Washington, at which the tired-eyed astro-physicists were harassed and cross-examined by teams of lawyers and divines, recalled a latter-day Inquisition.")

Cyborgs Mundanos

Adoramos o conceito de organismo cibernético como uma mesclagem de homem-máquina, onde a carne se funde com engenhosos mecanismos e virtualidades digitais que aumentam a percepção dos sentidos. E enquanto imaginamos as possibilidades, encarnadas em inúmeros ícones da cultura de ficção científica, entramos num objecto espaçoso, concebido para o indivíduo, colisão de física com engenharia e química com uma cada vez mais progressiva integração de sistemas inteligentes. É um objecto que nos deixa transcender os limites biológicos da velocidade e que altera a percepção de espaço e tempo. Dentro dele, as distâncias medem-se em tempo, e o tempo contrai-se ou dilata-se em função da velocidade variável de acordo com os contextos de espaço. O local torna-se um borrão que medeia entre os pontos de partida e chegada.

Não lhe ligamos muito. É uma tecnologia antiga, amadurecida. Coloca na ponta dos dedos de quem a utiliza possibilidades de transcendência dos limites biológicos aliada a uma capacidade catastrofista inerente à colisão entre espaço e velocidade. Tal como outras tecnologias que se tornaram indispensáveis à natureza humana, o carro é exo, exterior. Canetas, computadores, smartphones, relógios e tantos outros objectos não se integram como parte do corpo. Não são próteses que fundem materiais compósitos e carne, mas são elementos de um vasto exo-esqueleto que aumenta as capacidades dos utilizadores e os transforma de maneiras fundamentais. McLuhan dizia isso quando observava que as tecnologias que utilizamos transformam as nossas percepções, e é o tema do intrigante ensaio Mundane Cyborgs de Steven Mentor.

Não somos T-100s, com o vermelho olho biónico a piscar por entre os rasgões na pele que revelam o esqueleto metálico ou cérebros humanos que controlam mecanismos avançados. Ou seremos?

terça-feira, 3 de julho de 2012

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The New Yorker Science Fiction Issue (II)



A capa diz tudo, com a invasão colorida dos monstros, rayguns e robots da acastanhada normalidade erudita. Daniel Clowes dá o mote, mas a verdadeira invasão não é tão intensa como prometido. A ficção está mais numa veia literária de um fantástico borgesiano, apesar de lidar com drone aesthetics (The Republic of Empathy de Sam Lipsyte), agentes secretos cibernéticos em formato twitter (Black Box por Jennifer Egan), zombies (Monstro de Junot Díaz) e a personalização da internet (My Internet pelo veterano de ficção da revista que é Jonatham Lethem).

O sumo está na não-ficção, colunas e artigos de opinião, onde a prata da casa e escritores de renome se revezam para nos falar dos lados pessoais do género. Parece ter sido esse o tom adoptado pela revista: ficção científica como algo de simultaneamente nostálgico e futurista.

Take Me Home: Ray Bradbury, mestre do futurismo nostálgico, mistura FC e recordações pessoais sublinhando o carácter intimista das suas ficções e visões de futuro alicerçadas num passado dourado de infância.
The Clockwork Condition: ensaio onde Anthony Burgess revisita a sua obra icónica, interligando os males ficcionais com a asfixia intelectual de uma sociedade mediatizada onde os medos são aproveitados, crimes vistos como justificados à luz de pretensas guerras e, essencialmente, conceitos como bem e mal são nebulosos.
The Golden Age: Ursula K. LeGuin olha para a FC como um clube sexista, onde as raparigas que começaram a entrar foram alvo de olhares críticos, disparando tiros sobre a segurança dos ghettos culturais e o género enquanto coisa masculina.
Forward Thinking: China Miéville destrói barreiras, mostrando como um autor de literatura fantástica vai buscar inspiração às mais variadas raízes literárias, com uma pergunta pertinente: não é como não se deixa de fantasias, mas sim porque é que se deixa?
The Spider Woman: Margaret Atwood faz uma elegia de algo cada vez mais raro na era das educações estruturadas - a liberdade de ler sem estrutura, encontrar livros intrigantes em bibliotecas bem fornecidas onde ninguém diz ao leitor "olhe, isso não é para a sua idade", ou "deixe lá de parte esse livro e tome lá este que é literatura séria".
A Psychotronic Childhood: Colson Whitehead fala-nos de algo que quem cresceu nos anos oitenta e noventa conhece bem: o gosto pelos maus filmes, alugados à socapa em VHS, onde a incredulidade dos argumentos e a inenarrabilidade das obras colidem com o gosto pela procura de algo que está fora dos padrões de normalidade.
Quests: Karen Russel pega em recordações de incentivos à leitura na infância para sublinhar a importância da liberdade do leitor ler o que entender, e não o que socialmente se convencionou como importante. Este conceito de liberdade é um padrão para os apaixonados das literaturas de género.
Rocket 88: novamente, revisitas nostálgicas ao passado, desta vez pela pena de William Gibson que confessa que a sua paixão por FC vem dos detritos pop-culturais. Pára-choques cromados, rayguns de brincar ou visões de Chesley Bonestell. E depois vem a literatura.
The Cosmic Menagerie: Laura Miller traz-nos algo de banal para os conhecedores do género mas possivelmente novidade para o público habitual da New Yorker com uma génese da iconografia do  alienígena alicerçada na história da ciência e no trabalho de um obscuro escritor francês de literatura fantástica, contemporâneo de Verne.
Fantastic Voyage: Emily Nussbaum utiliza o caso paradigmático da série televisiva Doctor Who para sublinhar o carácter afectivo do género na televisão, que independentemente das audiências globais tem o poder de gerar pequenas legiões de ferrenhos e activos fãs.

Há que recordar que a New Yorker não se destina a fãs do género. É uma revista literária e de jornalismo de referência com um toque elitista. Este olhar para a ficção científica é quase didáctico, uma lição dada pelos praticantes aos que desconhecem o género, o que talvez explique o tom suave dos textos e o lado pouco radical da ficção. Pouco estrondosa para os fãs conhecedores do género, mas talvez o tenha sido para quem não está habituado a ver o monóculo vagamente snob de Eustace Tilley a contemplar coisas arrepiantes às voltas com foguetões ou futuros imaginários.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

UFOCar



Muitas e longas reuniões são o fado dos professores. Um rabiscador compulsivo vai aproveitando para riscar ideias no papel. Algumas até parecem ter piada e merecem um tratamento mais... tridimensional. Foi assim que nasceu este misto de ovni com carro voador do Professor Pardal  com carro de sonho do Homer Simpson. São brincadeiras que obrigam a colocar e resolver problemas de modelação. Forma de afinar os métodos e puxar a cabeça a pensar como representar formas com geometria em 3D? Construído totalmente no Vivaty Studio (posso aproveitar para qualquer coisa em VRML) e vanity render no Bryce. 205 objectos finais num total de 43426 polígonos.

Amped


Daniel Wilson (2012). Amped. Nova Iorque: Knopf.

Começa a perceber-se que Daniel Wilson é um escritor de FC de cariz popular que mistura enredos cinemáticos e questões contemporâneas das consequências do desenvolvimento tecnológico em histórias simples onde amplia um aspecto catastrófico e o torna leit-motiv de um romance. A fórmula funcionou com Robopocalypse, e é mantida com este Amped. A premissa é intrigante: num futuro próximo a disponibilidade de tecnologias que aumentam as capacidades humanas gera uma clivagem entre humanos normais e humanos cujas capacidades são ampliadas por implantes cerebrais e físicos.

Esta é uma questão que hoje já se coloca com a progressiva utilização de smart drugs e próteses cibernéticas. Mas não esperemos uma reflexão aturada sobre o assunto. Wilson não pretende divulgar estudos científicos ou prever tendências futuras, apenas contar histórias que ficam muito próximas do cinema. A questão é levada ao absurdo como uma colisão social despoletada por um político sedento de poder que se aproveita dos medos da população para espicaçar uma convulsão social. A história sobe um pouco no nível de complexidade com as acções de um ex-militar detentor de tecnologias de aumento avançadas que se alia ao político para tentar despoletar uma guerra civil. Isto é-nos contado do ponto de vista de um humilde professor que pensa que o seu implante o livrou de uma vida de ataques epilépticos, mas que na verdade é um protótipo de tecnologias capazes de tornar um humano normal numa espécie de super-homem fisicamente imbatível. Facilita o argumento e sempre dá aquele lado de personagem humilde cujas acções salvam a humanidade que é tão popular. Quanto ao resto, temos os medos sociais, discriminações legais e arrebanhar de aumentados em campos de concentração. Quem leu o comic X-Men nos anos noventa com Chris Claremont a escrever encontra em Amped um decalque das temáticas e narrativas. Só faltam os sentinelas...

Amped parte de uma ideia interessante mas desenrola-se como um filme perfeitamente normal. Poderá ser intrigante para o público em geral mas é prejudicado pela superficialidade com que olha para uma questão que começa já hoje a ter importância.

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domingo, 1 de julho de 2012

Heresia

Os primeiros resultados das prequelas da DC ao marcante Watchmen já estão aí. E... por herético que isto seja, são boas leituras. Podemos refilar com o tratamento fílmico que as obras de Moore têm levado, que deixam na consciência popular imagens vastamente diferentes e diluídas dos livros originais. Podemos resmungar sobre o conservadorismo editorial que foge do novo e inovador e nos dá ciclicamente as mesmas personagens com diferentes empacotamentos. Mas há que reconhecer que os criadores escolhidos para este projecto estão a ser cuidadosos. As suas visões dos personagens de estão muito próximas da original de Alan Moore. Um pouco menos acutilantes e mais diluídas, mas muito distantes das bastardizações cinematográficas.


Minutemen, escrito e ilustrado por Darwin Cooke, traz um lustro golden age às histórias de fina perversidade daqueles que vestem uma máscara para poderem combater crimes e dar asas aos seus desejos íntimos.


Cooke também assina Silk Spectre, onde o respeito pela obra original se nota até nos traços da ilustradora Amanda Conner e na composição das vinhetas que segue muito próxima da rigorosa composição de painéis do original. Replica até vinhetas originais com enquadramentos um pouco diferentes, como se fossem o minuto seguinte do retratado em Watchmen.


Brian Azzarello assina Comedian de forma intrigante, puxando o lado conspiratório dos poderes políticos para a história do anti-herói violento cujas convicções de direita mal disfarçam o seu lado assumidamente perverso.


Em Nite Owl J. Michael Straczinsky deixa afloradas algumas questões psico-sexuais utilizando Rorschach como uma espécie de id que verbaliza aquilo que Nite Owl não assume. O traço classicista de Andy e Joe Kubert remetem para a silver age. Quase me atrevo a rever Neal Adams e o seu luxuriantemente desenhado Batman.

Estão a ver o que quero dizer por verbalizar o não assumido? Restam ainda Ozymandias e Dr. Manhattan, mas estas primeiras edições estão bem acima do que se esperava. Se ignorarmos a vertente de mexida na iconografia de um clássico temos comics sólidos com pernas para andar.

Pernas. Pois, distraí-me a olhar para a imagem.

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