domingo, 19 de agosto de 2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

X bondoso

Para o departamento de etimologia moralista: Aldeia da Rapariga de Seixos Alvos. Seixos, disse? Tenho a sensação que aquele x foi lá colocado por esforços de moral e bons costumes.  É que para alvos... não foi seixos a palavra em que pensei. Mas isso sou eu que tenho mente perversa. 

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dívida Sonora

Devo a Stanley Kubrick a aprendizagem do gosto pela música erudita contemporânea. Ao ouvir a música que acompanhava os momentos mais assustadores de The Shining ou as vastas paisagens cósmicas de 2001 fiquei com a curiosidade desperta. De onde viriam aqueles sons por vezes dissonantes, tão alheados das experiências musicais mais acessíveis, audições complexas que tocavam as profundezas da alma? Graças a estes filmes descobri a grandiloquência de Penderecki, a precisão de Bartok, o silêncio gritante de Pärt e o lirismo de Ligeti. Confesso que sem estes visionamentos na adolescência possivelmente hoje desconheceria estas sonoridades, ou repudiá-las-ia como dissonantes e inacessíveis. São difíceis de ouvir, mas não inacessíveis. Basta deixar ressoar na alma.

Outra grande surpresa que o ciclo de cinema dedicado pela Cinemateca a António de Macedo foi a qualidade sonora dos seus filmes. Mais do que música a acompanhar a imagem e a sublinhar a narrativa, a banda sonora dos filmes que vi adquiria carácter próprio, oscilando entre o experimental e o reminiscente de época. É raro na sala de cinema ouvir sonoridades contemporâneas que se afastam da convenção do que é musicalmente acessível.

As influências e colaboração com alguns dos nomes mais importantes da vanguarda musical portuguesa, bem como o trabalho quase científico de adaptação de música de vanguarda a cinema de estilo próprio feito por António Sousa Dias transformam os filmes de Macedo em intricados panoramas aurais. É este, talvez, um dos aspectos fundamentais da sua obra: uma ideia de cinema como obra de arte total através da conjugação de elementos como o desempenho dos actores, a banda sonora, o argumento com os seus textos e sub-textos, a luminosidade, o trabalho de enquadramento e movimento de câmara.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Leituras serranas

Haverá melhor sítio para ler O Sangue e o Fogo de António de Macedo do que as serranias beirãs? Em particular,  a peça O Osso de Mafoma,  tão evocativo de uma medieva desolação serrana. 

Interzone #241 (II)

A edição de Julho/Agosto de 2012 da Interzone conta com os contos:

Steamgoth de Sean McMullen, conto descaradamente steampunk em que o restauro de uma aeronave a vapor modifica literalmente o curso temporal da história do século XIX/XX e transforma a realidade num devaneio estilístico a vapor e latão polido.

Ship's Brother é uma história delicada de Aliette de Bodard passada no seu mundo viet-futurista onde sociedade, tecnologia cibernética e pulsões familiares colidem.

One Day in Time City de David Cleary destaca-se pelo conceito mas não pela execução num conto em que a organização geográfica de uma cidade segue a evolução temporal: quando mais próximo da baixa mais jovem se fica.

Railroad Angel por Gareth Powell reiventa o mito de Neal Cassady, companheiro de Kerouac, sob o signo de uma simulação que tanto pode ser computacional como espiritual. E se chegado o final da vida se pudesse reiniciar o sistema, revivendo de formas diferentes?

Invocation of the Lurker de C.J. Paget é talvez a peça mais fraca desta edição da Interzone, conto difuso e desconexo que, parece, gira à volta de inteligências artificiais incorporadas e malware biológico ou digital. Ou algo assim.

A encerrar a revista temos críticas literárias e cinematográficas ao mesmo tempo bem humoradas e implacáveis.

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domingo, 12 de agosto de 2012

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... are creepy.

Shocking Futures

Alan Moore (1986). Shocking Futures. Londres: Titan Books.

O ritmo de publicação semanal do comic clássico britânico 2000 AD obriga os argumentistas a uma elasticidade narrativa concisa, capaz de fazer avançar uma história em poucas páginas e manter o interesse do leitor até à semana seguinte. O píncaro dessa disciplina é atingido regularmente pelos Future Shocks, histórias curtas auto-contidas, irónicas e paradoxais que quando bem conseguidas - e normalmente são-no, deixam o leitor a suspirar por mais.

Antes de se tornar a lenda dos comics que é, Moore criou para a 2000 AD séries memoráveis como Skizz e muitos Future Shocks, alguns dos quais coligidos nesta edição. O que esperar? Brilhantismo, ironia, humor negro, ficção científica pura e gosto pelos paradoxos. Não são as alquímicas palavras de um Moore mais maduro, de sentidos múltiplos e preocupações ocultistas, mas divagações livres e algo cruas de imaginação em alta rotação.

sábado, 11 de agosto de 2012

Chronos


Na sua encarnação original Chronos era um super-vilão, arqui-inimigo do The Atom. Equipado com gadgets inspirados em mecanismos de relógio, tinha o poder de parar o tempo e mais tarde adquiriu a capacidade de viajar no tempo. Como qualquer super-vilão que se preze, servia essencialmente para ser derrotado pelo herói de cujo alinhamento fazia parte. A sua morte é o mais interessante no personagem. Envelhecido e reformado numa casa decorada com artefactos comemorativos da cultura pop da era de ouro dos comics, afectado pelas cronodistorções, literalmente desvanece-se.

Da terceira encarnação do personagem apenas sei o que está na página da Wikipedia sobre o tema. Até prova em contrário, não parece particularmente intrigante.


A segunda encarnação do personagem, Walker Gabriel, é surpreendente. Escapa aos moldes tradicionais do género e desenvolve-se com alguma complexidade e não linearidade de forma discreta, sem os espalhafatos habituais dos relançamentos de comics. Durou umas curtíssimas onze edições por sobrecarga do argumentista, incapaz de manter um elevado nível de qualidade dentro dos prazos apertados da editora DC. Passa despercebido nesse grande oceano da edição de banda desenhada norte-americana, sendo uma pequena pérola do género.


Walker é um personagem ambíguo, que não se adequa aos moldes estereotipados dos comics. É um vilão que faz a coisa certa, ou um bom da fita com métodos pouco ortodoxos. Como preferirem. Não é musculado, foge de lutas corpo a corpo porque sabe que vai ser desancado e com um longo nariz adunco não se conforma ao ideal de beleza do género. Não tem aquele aspecto ameaçador que se associa aos vilões nem o ar imponente e brilhante dos heróis. É essencialmente uma pessoa normal que anda perdida com os poderes temporais que lhe são concedidos.

Este Chronos herdou a tecnologia do personagem original e usa o dinheiro de assaltos encomendados para financiar as suas pesquisa científicas. Envolve-se com um personagem sombrio que quer controlar o fluxo do tempo e a sua companheira, uma condessa renascentista italiana que se tornará imortal, e acaba por ter de se ver a contas com os Linear Men, uma organização que vigia a linearidade causal dos fluxos temporais. Não é um ser todo-poderoso, sendo que só ao longo da série é que vai desenvolvendo as suas capacidades temporais. As suas desventuras e busca da origem, com auxílio de personagens como o Barão Winters e Destino (dos Endless de Gaiman) levam-no a Chronopolis, uma solitária cidade além do tempo habitada pelo último descendente de escravos de uma raça alienígena predadora. A cidade, um misto de arquitectura industrial vitoriana, foi originalmente construída por este escravo e pelo pai de Walker, que este acaba por conhecer nos últimos volumes da série.

Walker tem um trauma pessoal, a morte violenta em acidente de viação da sua mãe adoptiva. Quando se apercebe da extensão dos seus poderes temporais regressa ao passado para evitar a tragédia, e ao fim de algumas desventuras com paradoxos temporais que deslindam em futuros fortemente distópicos, acaba por se eliminar a si próprio do tempo, mas não deixa de existir. Coisas da lógica dos comics... torna-se um personagem guardião, que visita momentos fulcrais da continuidade da linha temporal da DC.


Estilisticamente o comic é interessante, com linhas sóbrias e traço limpo a descrever com algum pormenor os passados e futuros possibilitados pelo desenrolar do argumento. No design de Chronopolis o estilo inspirado na arquitectura do ferro do final de século evolui para uma iconografia steampunk avant la lettre.


Escrito por John Francis Moore, desenhado por Paul Guinan e colorido por Steve Leilahoa, Chronos peca pelo seu final prematuro e esquecimento na continuidade da linha editorial. É pena. Poderia ter evoluído para um interessante título de culto com vida própria fora da continuidade da DC, como aconteceu a Hellblazer. Ficam-nos, embora obscuras, onze edições contínuas e uma especial que deixam questões intrigantes na mente dos leitores atentos. Talvez seja melhor assim. Sujeitas ao inferno do desenvolvimento continuo sob pressão editorial, as personagens de comics bem sucedidas no tempo levam tantas voltas que por vezes ficam irreconhecíveis, ou quedam-se por uma eterna repetição dos mesmos pressupostos. Este Chronos escapa a isso.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Alien Life Form

Hora de ir arejar os olhos, desempoeirar os pistões e contemplar a estrada aberta. Mudanças de cenário são conducentes a novas ideias. Entretanto o robot intergaláctico fica em auto-gestão.

Os Emissários de Khâlom

Este é o filme de ficção científica português por excelência. Não só porque seja o único que eu saiba, mas pela qualidade do seu argumento que aguenta o teste do tempo, normalmente inclemente para este género. Os Emissários de Khâlom desenrola-se em duas épocas paralelas. No final do século XIX a comissão real das minas reúne-se para decidir a continuação da exploração de uma mina que ameaça ruir. Parece assunto de pouca monta, mas o bom senso científico choca com os interesses económicos que visam manter a minha aberta a todo o custo. No futuro (que, agruras da ficção e do tempo, é agora o nosso passado) um grupo de cientistas portugueses ao tentarem evitar a previsível aniquilação atómica à escala planetária envia ao passado um ser artificial, mas uma instabilidade desconhecida divide-o em dois, provocando um nível elevado de incerteza no fluxo temporal e o risco de desaparecimento de um dos cientistas, descendente directo do presidente da real comissão que um dos emissários tenta assassinar por vários meios.

O aparentemente banal momento do século XIX é na verdade um ponto focal na história. Da continuidade da mina depende a assinatura de um contrato que irá criar uma firma obscura que irá gerar os maiores conglomerados económicos e industriais do século XX. Os dois emissários, o original e a cópia que provoca interferências (criada num assomo passional por um dos investigadores do futuro) estão no passado para auxiliar ou travar a decisão fulcral, mas também no futuro onde se envolvem com os cientistas. E no passado profundo, numa civilização utópica milenar desaparecida há milénios. Só nos momentos finais do filme nos apercebemos qual é o emissário "mau"... e na verdade esse epíteto não se aplica, uma vez que são ambos faces de um mesmo conceito, uma dicotomia animus/anima com implicações esotéricas.

Sendo um filme de António de Macedo, podemos esperar um surpreendente e complexo argumento, cheio de linhas narrativas que colidem nos momentos cruciais do filme. O humor corrosivo do cineasta também se revela em pormenores hilariantes, como o conde inválido que todos os dias vai praticar com pouca pontaria tiro, incapaz de acreditar que o adversário para um duelo que devia ter acontecido anos antes tinha falecido de causas naturais. A fiel criadagem alimentava-lhe as pistolas com pólvora seca. Ou a visão particularmente corrosiva da ciência aplicada, com sugestões de produtos da pesquisa científica de utilidade duvidosa. Ou ainda, num pormenor pequeno que diz volumes sobre a história das mentalidades portuguesa, um sacristão que tenta em vão exorcizar aquilo que pensa ser um demónio enquanto bate em retirada, disfarçando o susto com esgares santificados.

O filme também se distingue pelo cuidado visual nos cenários. A caracterização do século XIX foi muito bem conseguida, mergulhando-nos na Belle Époque portuguesa. O futuro, inevitavelmente, surge ao olhar contemporâneo como um passado dos anos 80 do século XX, mas o aspecto futurista do centro de pesquisas surpreende apesar de pormenores que ficam inexoravelmente datados, como os computadores típicos dos anos 80. Curiosamente, temos nestes computadores de época (com as suas gloriosas diskettes de 5") um pormenor presciente. Uma modificação feita por um dos emissários permite aos computadores do centro de pesquisa comunicar com o computador em casa de um investigador, isolado numa tempestade de neve na Serra da Estrela. Uma inesperada antevisão avant la lettre da internet?

Junte-se a isto a habitual riqueza estética dos filmes deste cineasta, com a sua atenção à cor e enquadramentos, e temos um filme divertido e intrigante que marca um lugar na história do cinema português pela sua temática, originalidade e qualidade. E, fiel à tradição do conto de ficção científica, não deixa de ter um curioso plot twist no final, quando os últimos movimentos de câmara revelam a razão dos nomes de Verónica e Valdemar, os emissários da distante Khâlom/constructos digitais de software.

Glitch Art na PBS

Sem muito tempo para ruminar isto, mas a apontar ideias a merecer desenvolvimento. A Glitch Art foi focada pela PBS/Off Book numa curta reportagem exemplificadora dos grafismos intrigantes desta corrente estética com depoimentos de alguns dos seus mais conhecidos praticantes (só faltou a Rosa Menkman).

Algumas ideias: expor a mediação tecnológica que possibilita o mundo de imagens em que estamos mergulhados; reacção à perfeição hiper-realista do digital; apropriação de tecnologias empacotadas e formatadas para conveniência do utilizador; electrónica e digital como meios abertos de expressão; beleza inesperada na casualidade; estética da avaria intencional ou casual; raízes conceptuais no movimento punk; apropriação da bleeding edge estética pelas indústrias culturais; forma radicalmente contemporânea de visualizar a percepção do mundo, mediada pelos meios audiovisuais modificados intencionalmente ou não.

Glitch, databending, new aesthetic, machine vision, 8bit... parecem-se ser faces de algo maior que futuros historiadores de arte irão reunir num corpus teórico comum.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bang! #13

Edição número treze não significa edição azarada, com a revista a continuar a manter um elevado nível na ficção e particularmente na não-ficção. Com uma excepção, explicável pela posição da revista como parte integrante de uma editora que apesar de separar as águas não deixa de ter influência em parte do seu conteúdo. Assim compreende-se que no grafismo cuidado e com espectacularidade garantida dentro dos estreitos limites das convenções gráficas da fantasia surja uma antevisão de adaptação para banda desenhada do obra de George Martin que se pauta por um grafismo medíocre, muito abaixo dos padrões de qualidade dos comics enquanto vertente da banda desenhada. É curioso comparar o grafismo banal onde sombra é elemento inexistente com o destaque dado ao ilustrador da capa, com um estilismo interessante apesar dos limites da temática.

(Ok, estes meus resmungos sobre a "arte" da FC/Fantasia têm a sua razão de ser. Tecnicamente, os ilustradores que utilizam técnicas tradicionais, pintura digital ou 3D para este género são brilhantes. Particularmente os que usam o 3D para hiper-realismos inusitados, que quem percebe um pouco da coisa sabe que são dificílimos de alcançar. Estilisticamente, os elementos iconográficos caem dentro de convenções estreitas. Ou seja, é tudo muito giro e muito bem feito, mas tudo igual e repetitivo. E não precisa de o ser, como nos anos 70 provou o grafismo da revista New Worlds.)

O que esperar deste número supersticiosamente fatídico da revista Bang!? David Soares leva-nos aos bastidores do chapeleiro de Alice no País das Maravilhas, Afonso Cruz dá uma interpretação surreal a vinhetas da história, António Monteiro traça um curto perfil de M. R. James, Jorge Colaço revê um pouco da biografia de Dickens num romance que traduziu e João Morales partilha leituras definidoras de carácter. Safaa Dib e João Barreiros partilham indicações a aspirantes a autores. Pedro Marques dá-nos histórias da censura em Portugal com o mote de uma obra de Ray Bradbury que se distingue por ser visceralmente anti-censuras. António de Macedo fala com grande erudição sobre influentes livros fictícios e João Lameiras dá-nos um vislumbre precioso de um álbum de banda desenhada raro e marcante. João Seixas analisa profundamente o fenómeno literário do vampirismo sexualizante contemporâneo, com um intrigante foco na vertente feminista deste sub-género. Pessoalmente, ao ler sobre a significância dos vampiros emo e caçadoras libertas não pude deixar de me recordar das edisonades. Temáticas abismalmente diferentes, claro, mas muito similares no que toca a estilo literário de moda concentrada num tempo específico.

No domínio da ficção, temos um exemplo do género que Seixas analisa no conto Enfeitiçada de Kim Harrison. As Mãos do Marido de Adam-Troy Castro dá um toque de FC ao horror contemporâneo das guerras em terras distantes. Ainda temos curtísssimas resultadas de um concurso literário, um excerto da BD O Cavaleiro de Westeros e a continuação da BD Arquivo Morto, interessante trabalho de autores brasileiros.

Agora começa o compasso de espera pela edição #14...

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Indomável Tirano

Um indomável tirano, chamado realidade, não se amerceia das vossas temerárias, ainda que esperançosas, fantasias.

António de Macedo (2011). O Sangue e o Fogo. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.