Pareidolia digital: ou até o melhor dos algoritmos de reconhecimento facial vê rostos onde eles não existem.
Para o departamento de etimologia moralista: Aldeia da Rapariga de Seixos Alvos. Seixos, disse? Tenho a sensação que aquele x foi lá colocado por esforços de moral e bons costumes. É que para alvos... não foi seixos a palavra em que pensei. Mas isso sou eu que tenho mente perversa.
Outra grande surpresa que o ciclo de cinema dedicado pela Cinemateca a António de Macedo foi a qualidade sonora dos seus filmes. Mais do que música a acompanhar a imagem e a sublinhar a narrativa, a banda sonora dos filmes que vi adquiria carácter próprio, oscilando entre o experimental e o reminiscente de época. É raro na sala de cinema ouvir sonoridades contemporâneas que se afastam da convenção do que é musicalmente acessível.
As influências e colaboração com alguns dos nomes mais importantes da vanguarda musical portuguesa, bem como o trabalho quase científico de adaptação de música de vanguarda a cinema de estilo próprio feito por António Sousa Dias transformam os filmes de Macedo em intricados panoramas aurais. É este, talvez, um dos aspectos fundamentais da sua obra: uma ideia de cinema como obra de arte total através da conjugação de elementos como o desempenho dos actores, a banda sonora, o argumento com os seus textos e sub-textos, a luminosidade, o trabalho de enquadramento e movimento de câmara.
Haverá melhor sítio para ler O Sangue e o Fogo de António de Macedo do que as serranias beirãs? Em particular, a peça O Osso de Mafoma, tão evocativo de uma medieva desolação serrana.
A edição de Julho/Agosto de 2012 da Interzone conta com os contos:
Steamgoth de Sean McMullen, conto descaradamente steampunk em que o restauro de uma aeronave a vapor modifica literalmente o curso temporal da história do século XIX/XX e transforma a realidade num devaneio estilístico a vapor e latão polido.
Ship's Brother é uma história delicada de Aliette de Bodard passada no seu mundo viet-futurista onde sociedade, tecnologia cibernética e pulsões familiares colidem.
One Day in Time City de David Cleary destaca-se pelo conceito mas não pela execução num conto em que a organização geográfica de uma cidade segue a evolução temporal: quando mais próximo da baixa mais jovem se fica.
Railroad Angel por Gareth Powell reiventa o mito de Neal Cassady, companheiro de Kerouac, sob o signo de uma simulação que tanto pode ser computacional como espiritual. E se chegado o final da vida se pudesse reiniciar o sistema, revivendo de formas diferentes?
Invocation of the Lurker de C.J. Paget é talvez a peça mais fraca desta edição da Interzone, conto difuso e desconexo que, parece, gira à volta de inteligências artificiais incorporadas e malware biológico ou digital. Ou algo assim.
A encerrar a revista temos críticas literárias e cinematográficas ao mesmo tempo bem humoradas e implacáveis.
Alan Moore (1986). Shocking Futures. Londres: Titan Books.
O ritmo de publicação semanal do comic clássico britânico 2000 AD obriga os argumentistas a uma elasticidade narrativa concisa, capaz de fazer avançar uma história em poucas páginas e manter o interesse do leitor até à semana seguinte. O píncaro dessa disciplina é atingido regularmente pelos Future Shocks, histórias curtas auto-contidas, irónicas e paradoxais que quando bem conseguidas - e normalmente são-no, deixam o leitor a suspirar por mais.
Antes de se tornar a lenda dos comics que é, Moore criou para a 2000 AD séries memoráveis como Skizz e muitos Future Shocks, alguns dos quais coligidos nesta edição. O que esperar? Brilhantismo, ironia, humor negro, ficção científica pura e gosto pelos paradoxos. Não são as alquímicas palavras de um Moore mais maduro, de sentidos múltiplos e preocupações ocultistas, mas divagações livres e algo cruas de imaginação em alta rotação.
Este é o filme de ficção científica português por excelência. Não só porque seja o único que eu saiba, mas pela qualidade do seu argumento que aguenta o teste do tempo, normalmente inclemente para este género. Os Emissários de Khâlom desenrola-se em duas épocas paralelas. No final do século XIX a comissão real das minas reúne-se para decidir a continuação da exploração de uma mina que ameaça ruir. Parece assunto de pouca monta, mas o bom senso científico choca com os interesses económicos que visam manter a minha aberta a todo o custo. No futuro (que, agruras da ficção e do tempo, é agora o nosso passado) um grupo de cientistas portugueses ao tentarem evitar a previsível aniquilação atómica à escala planetária envia ao passado um ser artificial, mas uma instabilidade desconhecida divide-o em dois, provocando um nível elevado de incerteza no fluxo temporal e o risco de desaparecimento de um dos cientistas, descendente directo do presidente da real comissão que um dos emissários tenta assassinar por vários meios.
O aparentemente banal momento do século XIX é na verdade um ponto focal na história. Da continuidade da mina depende a assinatura de um contrato que irá criar uma firma obscura que irá gerar os maiores conglomerados económicos e industriais do século XX. Os dois emissários, o original e a cópia que provoca interferências (criada num assomo passional por um dos investigadores do futuro) estão no passado para auxiliar ou travar a decisão fulcral, mas também no futuro onde se envolvem com os cientistas. E no passado profundo, numa civilização utópica milenar desaparecida há milénios. Só nos momentos finais do filme nos apercebemos qual é o emissário "mau"... e na verdade esse epíteto não se aplica, uma vez que são ambos faces de um mesmo conceito, uma dicotomia animus/anima com implicações esotéricas.
Sendo um filme de António de Macedo, podemos esperar um surpreendente e complexo argumento, cheio de linhas narrativas que colidem nos momentos cruciais do filme. O humor corrosivo do cineasta também se revela em pormenores hilariantes, como o conde inválido que todos os dias vai praticar com pouca pontaria tiro, incapaz de acreditar que o adversário para um duelo que devia ter acontecido anos antes tinha falecido de causas naturais. A fiel criadagem alimentava-lhe as pistolas com pólvora seca. Ou a visão particularmente corrosiva da ciência aplicada, com sugestões de produtos da pesquisa científica de utilidade duvidosa. Ou ainda, num pormenor pequeno que diz volumes sobre a história das mentalidades portuguesa, um sacristão que tenta em vão exorcizar aquilo que pensa ser um demónio enquanto bate em retirada, disfarçando o susto com esgares santificados.
O filme também se distingue pelo cuidado visual nos cenários. A caracterização do século XIX foi muito bem conseguida, mergulhando-nos na Belle Époque portuguesa. O futuro, inevitavelmente, surge ao olhar contemporâneo como um passado dos anos 80 do século XX, mas o aspecto futurista do centro de pesquisas surpreende apesar de pormenores que ficam inexoravelmente datados, como os computadores típicos dos anos 80. Curiosamente, temos nestes computadores de época (com as suas gloriosas diskettes de 5") um pormenor presciente. Uma modificação feita por um dos emissários permite aos computadores do centro de pesquisa comunicar com o computador em casa de um investigador, isolado numa tempestade de neve na Serra da Estrela. Uma inesperada antevisão avant la lettre da internet?
Junte-se a isto a habitual riqueza estética dos filmes deste cineasta, com a sua atenção à cor e enquadramentos, e temos um filme divertido e intrigante que marca um lugar na história do cinema português pela sua temática, originalidade e qualidade. E, fiel à tradição do conto de ficção científica, não deixa de ter um curioso plot twist no final, quando os últimos movimentos de câmara revelam a razão dos nomes de Verónica e Valdemar, os emissários da distante Khâlom/constructos digitais de software.
Sem muito tempo para ruminar isto, mas a apontar ideias a merecer desenvolvimento. A Glitch Art foi focada pela PBS/Off Book numa curta reportagem exemplificadora dos grafismos intrigantes desta corrente estética com depoimentos de alguns dos seus mais conhecidos praticantes (só faltou a Rosa Menkman).
Algumas ideias: expor a mediação tecnológica que possibilita o mundo de imagens em que estamos mergulhados; reacção à perfeição hiper-realista do digital; apropriação de tecnologias empacotadas e formatadas para conveniência do utilizador; electrónica e digital como meios abertos de expressão; beleza inesperada na casualidade; estética da avaria intencional ou casual; raízes conceptuais no movimento punk; apropriação da bleeding edge estética pelas indústrias culturais; forma radicalmente contemporânea de visualizar a percepção do mundo, mediada pelos meios audiovisuais modificados intencionalmente ou não.
Glitch, databending, new aesthetic, machine vision, 8bit... parecem-se ser faces de algo maior que futuros historiadores de arte irão reunir num corpus teórico comum.
Edição número treze não significa edição azarada, com a revista a continuar a manter um elevado nível na ficção e particularmente na não-ficção. Com uma excepção, explicável pela posição da revista como parte integrante de uma editora que apesar de separar as águas não deixa de ter influência em parte do seu conteúdo. Assim compreende-se que no grafismo cuidado e com espectacularidade garantida dentro dos estreitos limites das convenções gráficas da fantasia surja uma antevisão de adaptação para banda desenhada do obra de George Martin que se pauta por um grafismo medíocre, muito abaixo dos padrões de qualidade dos comics enquanto vertente da banda desenhada. É curioso comparar o grafismo banal onde sombra é elemento inexistente com o destaque dado ao ilustrador da capa, com um estilismo interessante apesar dos limites da temática.
(Ok, estes meus resmungos sobre a "arte" da FC/Fantasia têm a sua razão de ser. Tecnicamente, os ilustradores que utilizam técnicas tradicionais, pintura digital ou 3D para este género são brilhantes. Particularmente os que usam o 3D para hiper-realismos inusitados, que quem percebe um pouco da coisa sabe que são dificílimos de alcançar. Estilisticamente, os elementos iconográficos caem dentro de convenções estreitas. Ou seja, é tudo muito giro e muito bem feito, mas tudo igual e repetitivo. E não precisa de o ser, como nos anos 70 provou o grafismo da revista New Worlds.)
O que esperar deste número supersticiosamente fatídico da revista Bang!? David Soares leva-nos aos bastidores do chapeleiro de Alice no País das Maravilhas, Afonso Cruz dá uma interpretação surreal a vinhetas da história, António Monteiro traça um curto perfil de M. R. James, Jorge Colaço revê um pouco da biografia de Dickens num romance que traduziu e João Morales partilha leituras definidoras de carácter. Safaa Dib e João Barreiros partilham indicações a aspirantes a autores. Pedro Marques dá-nos histórias da censura em Portugal com o mote de uma obra de Ray Bradbury que se distingue por ser visceralmente anti-censuras. António de Macedo fala com grande erudição sobre influentes livros fictícios e João Lameiras dá-nos um vislumbre precioso de um álbum de banda desenhada raro e marcante. João Seixas analisa profundamente o fenómeno literário do vampirismo sexualizante contemporâneo, com um intrigante foco na vertente feminista deste sub-género. Pessoalmente, ao ler sobre a significância dos vampiros emo e caçadoras libertas não pude deixar de me recordar das edisonades. Temáticas abismalmente diferentes, claro, mas muito similares no que toca a estilo literário de moda concentrada num tempo específico.
No domínio da ficção, temos um exemplo do género que Seixas analisa no conto Enfeitiçada de Kim Harrison. As Mãos do Marido de Adam-Troy Castro dá um toque de FC ao horror contemporâneo das guerras em terras distantes. Ainda temos curtísssimas resultadas de um concurso literário, um excerto da BD O Cavaleiro de Westeros e a continuação da BD Arquivo Morto, interessante trabalho de autores brasileiros.
Agora começa o compasso de espera pela edição #14...
António de Macedo (2011). O Sangue e o Fogo. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.