domingo, 10 de junho de 2012

Indícios...



... da sociedade panopticon. Seguros no controle, monitorização digital de todos os movimentos. Visão de máquina a auscultar a acção humana.

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Menz Insana

Christopher Fowler, John Bolton (1997). Menz Insana. Nova Iorque: DC Comics.

A inversão das lógicas e um certo humor negro dão algum interesse a esta graphic novel. Mas a conjugação do estilo gráfico limpo de John Bolton e um argumento previsível deixam Menz Insana muito aquém do que poderia ser. As partes da narrativa passadas num mundo mental onde a loucura é a normalidade dissolvem-se num plot twist relativamente banal de vinganças em asilos de lunáticos.

sábado, 9 de junho de 2012

New Yorker Science Fiction Issue (I)

Ainda estonteado pelo cheirinho a papel couché impresso. Prontinho para mergulhar na edição de verão da New Yorker, este ano dedicada à ficção científica.


A capa de Daniel Clowes está esplendorosa, a remeter para a quadricromia dos comics com a iconografia do género fantástico. A imagem do aventureiro espacial, robot e monstro a irromper em cores gritantes pelo acastanhado do academismo, chocado e desconfiado pela erupção de imaginação pura no meio dos silogismos da teoria literária captura bem boa parte do que se diz da Ficção Científica. Os olhares surpresos, desconfiados e assustados das figuras em primeiro plano dizem tudo. Não é a pistola de raios que mete medo, é a pura liberdade imaginativa. Só resta imaginar qual o olhar da jovem loura? Partilhará do choque académico ou terá ficado embevecida pelo arrojado astronauta?

Dei algumas voltas aos neurónios a tentar perceber o porquê deste cartoon. Até que fez clique: tudo o que naufragou na ilha é exemplo de tecnologia extinta ou em vias de extinção. Talvez até o homem como o entendíamos. 

Pobre assassino da serra eléctrica. Com uma megera em casa a cercear-lhe a expressão criativa, não admira que se tenha voltado para o corte impreciso de membros e torsos.

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Military Aircraft Of The Cold War

Jim Winchester (ed) (2006). Military Aircraft Of The Cold War. Rochester: Grange Books.

Puro divertimento, a alimentar o adolescente fascinado por aeronaves que reside dentro de mim. Apenas para contemplar fotos e perfis esteticamente apelativos. Puro gosto fusiforme da aerodinâmica. A aeronave de combate como expressão do belo, elegante e letal. O fascínio da tecnologia levada aos limites. Fantasmas de uma guerra que nunca aconteceu, detritos mecânicos de uma luta que se travou na espiral de cada vez mais elaboradas tecnologias letais.

Such stuff as dreams are made of

Em ressaca do Prometheus, cuja primeira impressão foi devastadora com este filme fabuloso. Ficção científica popular old school, erudita no género mas também apelativa para as massas. Há uma cena que só me deu vontade de aplaudir de pé: a aterragem da nave no planetóide LV-223 (e não LV-426 como no filme original, talvez a indicar outras prequelas). Uma cena especialmente fantástica no meio de um filme memorável, que me atingiu por resumir todo o sense of wonder despertado pela ficção científica em geral e space opera em particular.

A beleza do hardware astronautico, exotismo de planetas distantes, promessa de aventuras no espaço sideral, curiosidade da descoberta, maravilhas da futura tecnologia. Sintetizados em poucos segundos de tirar o fôlego.


Estes enquadramentos, com a nave em plano contrapicado enquanto por entre as poeiras e a atmosfera se vislumbram os anéis de um planeta distante são evocativos das ilustrações clássicas de Chesley Bonestell. Não são iguais, claro, mas diria que as similaridades apontam para uma forte influência.


É disto que são feitos os sonhos. E são estes acenares ao longo historial da ficção que ousa sonhar com a ciência e o futuro que tornam obras como Prometheus memoráveis.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Playtime



Brincadeiras no Truesculpt para android, que corre muito bem no meu galaxy tab de primeira geração. Os dedos já começam a modificar com algum jeitinho a mesh do truesculpt. Depois é o habitual... passagem ao Vivaty para compor um bocadinho a coisa, adicionado antena e olho criado no CB Model em cinco minutos. Render no Bryce 7. E assim vai funcionando a coisa.

Dead media

Às vezes quando vislumbro uma televisão ligada, parece que sinto os neurónios a esmurrar a caixa craniana e a gritar deixem-nos sair daqui, incapazes de lidar com o fluxo de imagens processadas pelos nervos ópticos.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Helen O'Loy


E o homem criou a mulher mecânica, personificação dos seus sonhos...

Este conto de Lester Del Rey parece-me mais notável pela icónica ilustração que surgiu na Astounding de  dezembro de 1938 e que ilustra na perfeição um tema fio condutor das visões da ficção científica sobre a robótica que, no momento contemporâneo em que vivemos, encontra expressão nalgumas utilizações específicas de robots.

Helen O'Loy, título que é uma brincadeira alusiva a Helena de Tróia misturada com peles mecânicas de metal (alloy em inglês), centra-se num tema comum a muitos escritores de ficção científica: a construção artificial da mulher perfeita e suas possíveis consequências. No conto, dois solteirões com inclinações científicas dedicam-se a melhorar o desempenho de uma robot cozinheira através da simulação mecânica de emoções. Tendo levado aos limites a tecnologia disponível, investem num andróide feminino topo de gama visualmente indistinguível de uma mulher de carne e osso, modificando-o com mecanismos de simulação de emoções. O seu objectivo era simples: conceber uma cozinheira robótica mais apurada nas confecções dando-lhe emoções simples que a tornassem capaz de distinguir os sabores. Mas a andróide ultrapassa o esperado. Exposta a dramas televisivos e literatura romântica, começa a simular emoções de ordem mais elevada e apaixona-se pelo seu criador (ou recriador, no caso). Este, numa curiosa premunição do conceito de uncanny valley, começa por rejeitar a companhia da andróide mas acaba por perceber que gosta desta mulher mecânica perfeita e passa o resto da vida ao seu lado. O conto termina com uma certa amargura, com a morte do criador, o suicídio da andróide que deseja acompanhar o homem na morte e o reconhecimento do narrador que também ele não foi imune aos encantos artificiais da robot.

Note-se que não falei aqui em programação. O conto é dos anos 30, e Del Rey extrapolou a ciência mecânica da época. O que hoje concebemos como objecto mecânico controlado por programação digital foi pensado pelo autor como uma máquina eléctrica alimentada por um motor atómico. Daí a simulação mecânica das emoções. Inteligências artificiais femininas só aparecerão posteriormente na continuidade literária.

Helen junta-se à distinta galeria de andróides criadas pela imaginação de autores percursores da ficção científica que procuraram descrever mulheres perfeitas, imitações mecânicas da carne e osso sem as imperfeições da personalidade feminina vistas pelos olhos masculinos dos padrões de época. Há uma linha de continuidade entre a Olimpia de Hoffman, Hadaly de L'Isle-Adam, Amelia de E. E. Kellet, Maria de Lang e Von Harbou e uma vertente de utilizadores de robots que escolhem mecanismos como companhia emocional ou sexual.


Da esquerda para a direita: L'Eve Future, Maria em Metropolis e Amelia.

Este ideal de mulher perfeita vai variando de acordo com as épocas. Olimpia é uma criatura de silêncio e mistério, construída de madeira e limitada no seu reportório de acções. O que atrai os admiradores é a sua aura de distância e silêncio, a imobilidade que de vez em quando se quebra com algum movimento pré-concebido. Reflecte o ideal espiritual gótico da mulher enquanto ser misterioso e distante. Já Hadaly e o seu mecanismo de relógio está pensada para ser a companheira ideal da era vitoriana, mulher mecânica de grandes encantos físicos e personalidade criada à medida do seu inventor, que procura uma encarnação da sua ideia de perfeição feminina. Amelia é um protótipo de mulher social, criada para ser volúvel e companheira perfeita. Quanto a Maria, surge em oposição aos ideais de virtude encarnados pela Maria de carne e osso que galvaniza os untermenschen que habitam nas profundezas proletárias de Metropolis. Rotwang cria propositadamente uma andróide perversa e sexualizada que liberta no bairro decadente de Yoshiwara. Helen O'Loy encarna o ideal de mulher suburbana da era industrial, responsável pela boa manutenção do lar e do estômago de um marido que passa os dias a laborar nas criações da indústria.

Roxxxy, na colisão entre a robótica e a sexualidade. Escolha o género, aparência, cor de pele e cabelo, e desligue quando está cansado de a aturar. Ligue quando apetecer.

Atrevo-me a dizer que podemos ir mais longe neste género de representações. A milénios da ideia de recriação mecânica através da ciência, o mito de Pigmalião olha para a recriação da mulher perfeita através da arte com a escultura que a deusa Afrodite insufla de vida para felicidade do escultor/criador e para a identificação da ilha de Pafos. Num extremo oposto podemos olhar para os homens e mulheres que escolhem acompanhar-se de realdolls ou outros andróides, ainda imperfeitos pelas limitações tecnológicas mas para estes pigmaliões modernos já capazes de encarnar os seus ideais de mulher perfeita. Sherry Turkle faz algumas observações sobre o distanciamento emocional e a progressiva incapacidade de lidar com as emoções do outro indiciadas por esta adopção do robot enquanto companheiro de relações no livro Alone Together.


Mas qual o significado disto? Porquê esta necessidade de recriar um ser pensado como perfeito se desenhado há medida de que o utiliza? A própria ideia de utilizar um ser, recriar mecânicamente um indivíduo para uso, já arrepia, como Turkle observa. O tema da mulher ideal é comum na literatura, e esta ramificação leva-nos a pensar entre as colisões entre sexualidade e tecnologia. Mas se Hoffmann, L'Isle-Adam ou Del Rey apenas poderiam imaginar, temos hoje os meios técnicos para construir andróides que na convergência entre inteligência artificial, estética e mecânica robótica se aproximam cada vez mais de um realismo hiperreal. E, como alguns dos entrevistados por Sherry Turkle revelam, a vontade de os utilizar como pigmaliões da era contemporânea. As visões vagamente pornográficas de andróides de companhia ainda não se aproximam da elegância icónica de Helen O'Loy, mas outras vertentes - em particular os animais de estimação robóticos, bonecas que simulam bebés ou andróides de investigação capazes de simular expressões apontam para um futuro em que a ligação emocional entre humanos e máquinas será algo de banal.

Comics


iZombie: Começa a sentir-se uma certa rotina no título. O brilho do arranque desvaneceu-se e começa a procura de algo que mantenha o elevado nível. Mas o traço de Allred por si só é boa razão para ir acompanhando. E ainda somos premiados com coisas destas. Ah, os bons velhos tempos dos apocalipses zombie.


Menz Insana: não particularmente interessante, apesar dos esforços de John Bolton. Mas não resisto a uma dose mcluhanista.


Dial H: China Mièville leva o surrealismo absurdo aos comics mainstream. Sente-se uma intencional falta de coerência, com muitas vertentes por explicar que vão caindo em cima do leitor sem aviso prévio.


Swamp Thing: Scott Snyder não está a correr riscos. O reboot DC52 do monstro do pântano lê-se como uma releitura do trabalho de Alan Moore nos anos 80. Um literal regresso às raízes.

Admiral Byrd's Secret Journey Beyond the Poles

Tim Swartz (2007). Admiral Byrd's Secret Journey Beyond the Poles. New Brunswick: Global Communications.

Devo confessar que tenho um fraquinho por estas teorias inverosímeis. Não que as leve a sério, mas pelo carácter de elevado surrealismo que implicam. Mas há quem creia nelas firmemente, como se de verdades absolutas se tratassem. E, como Edgar Rice Burroughs bem percebeu, a ideia de uma terra oca com territórios e civilizações desconhecidas literalmente debaixo dos nossos pés é mote para ficções fantásticas onde o imaginário tem rédea livre. Este livro é um arrazoado de algumas destas ideias de sanidade duvidosa, desde provas irrefutáveis (mas jamais concretamente citadas) de conspirações para ocultar as verdades do olhar da humanidade, narrativas de proveniência duvidosa (mas indubitavelmente autênticas) de visitas às civilizações subterrâneas, leituras extemporâneas de mitos e, numa concessão à história moderna, intrigantes relatos de segredos nazis às voltas com bases secretas na antártida e discos voadores. Inconsequente mas divertido, para quem tem um sistema nervoso devidamente céptico.

Heli



Porque dos rabiscos nascem ideias. Antes do vértice e das operações booleanas há a caneta sobre o papel. E depois o beauty render.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Farewell, Mr. Bradbury

É uma das imagens marcantes daquela época entre a minha infância e adolescência: um escritor que entrava num escritório atravancado de fascinantes maravilhas e bric-a-brac, modelos de foguetões, dinossauros, desenhos, pinturas e fotos a cobrir as paredes. Um candeeiro tiffany ao lado de uma máquina de escrever, uma miniatura do nautilus a cruzar fascínios de Verne e do technicolor, e tantas outras coisas que despertavam a imaginação. Esta era a introdução a The Ray Bradbury Theater, seguida sempre de contos do fantástico que vim a redescobrir nas páginas dos livros. Mas este genérico, evocativo do mundo interior do escritor, era a parte do programa televisivo que eu nunca queria perder.

Um dos livros que me é mais querido bem folheado e em franco amarelecimento pertence à colecção de capa azul da Caminho, daquelas que hoje já não se fazem. É um livro suspeito, culpado de desviar a minha mente dos caminhos ortodoxos de leitura. Influência perniciosa, diria, porque depois de o ler nunca mais fui capaz de voltar àqueles livros que se dizem ser leituras importantes. Aqueles que os professores e os críticos literários recomendam, altos píncaros das montanhas de palavras. Impossível. Depois de saborear as histórias contidas naquele pequeno tomo de capa azul o regresso tornou-se improvável. E não desejado. A importância e gravidade da grande literatura desmoronaram-se perante as palavras simples que escondiam ideias complexas. Antes de saber o que era psicadelismo, surrealismo, space opera ou outras coisas do género as torres espiraladas dos edifícios abandonados a ladear os canais secos e cheios de pó debaixo do vermelho céu marciano ficaram cravadas a ferro na minha mente de neo-adolescente. Tive sorte. Iniciar a descoberta da verdadeira ficção científica, esse hino às maravilhas da imaginação, lendo por acaso as Crónicas Marcianas. Um feliz acaso.

Ao longo dos anos a obra de Bradbury foi uma constante nas minhas leituras. Regressar ao Marte onírico é cíclico na minha vida. Rever as maçãs douradas das pequenas cidades, mecânicas da alegria, cemitérios de lunáticos, ilustrações humanas, imperadores que esmagam homens voadores, borboletas esmagadas que mudam subtilmente a história da humanidade, médicos que libertam os ossos do peso do corpo, soldados que reduzem armas a pó, missionários em busca de conversões de mentes radicalmente diferentes, encontros entre homens e alienígenas que essencialmente almejam o mesmo, dinossauros mecatrónicos, verões de foguetões, bombeiros que se apaixonam pelos livros que queimam e inspiram um belo filme de Truffaut... e tantas, tantas histórias que encantam pela pureza das palavras, ingenuidade temperada por conhecimento, espírito de descoberta, paixão pelos elementos esquecidos da cultura popular e especialmente essa qualidade que distingue a melhor literatura do fantástico, a sense of wonder, o sentido abrangente do vasto maravilhoso que vislumbramos.

Livros de capa azul da Caminho, ilustrações garridas das capas da DelRey ou evocativas da space age nas capas da Bantam, edições pequeninas divididas em duas partes da colecção argonauta, bandas desenhadas que fixam em imagem as palavras, filmes que transformam distopias futuruas em locais de beleza estética e esperança na humanidade. A obra deste autor é vasta e influente. É esse o poder dos sonhos.

Obrigado, Mr. Bradbury. Não o sabe nem nunca o saberá, mas as suas palavras foram formativas para o meu espírito. O sense of wonder que senti da primeira vez que li as Crónicas Marcianas nunca me abandonou. E apesar de tudo o que li e vi, dos textos, fotos e documentários, sempre o recordarei como o vi naquelas imagens a preto e branco da televisão da minha infância. Um sorriso maravilhado, cabelo grisalho, rodeado dos deliciosos detritos da imaginação humana. Transmissor do amor aos livros, da beleza das palavras e das maravilhas da imaginação.

In the wild

Uma relíquia da história recente das telecomunicações apanhada no ecossistema natural da minha sala de aula. Stor, isto é que é um telemóvel a sério, dizia o aluno. Confesso que fiquei mesmerizado com o tamanho do objecto e o diminuto ecrã. Tão depressa as coisas mudaram, e tão facilmente nos esquecemos...

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Tarologia

Já sou demasiado pós-adolescente para este género de comics, mas a capa deixou-me muito curioso. Sim, parece ser isso que estão a imaginar a sair do generoso busto da heroína. O porquê... bem, eu fico-me por um incrédulo mas porquê...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Capuchinho vermelho... on acid!


Um filme Disney esquecido, apesar de ter sido nomeado para óscares, e não surpreende porquê. Quando dei com ele no Cartoon Brew pensei que fosse um clássico perdido, que valia a pena ver como referência para estilos gráficos de animação. Depois de o ter visto... é algo que é classificável como uma intensa trip de alucinogénicos aplicada a uma história infantil clássica. Uma animação muito demente. Os personagens têm um ar depravado - a capuchinho vermelho parece particularmente deformada. A história é simples. Casado com uma simpática ovelhinha e dedicado à sua profissão de mecânico, o lobo mau sente-se falhado por não ter conseguido abocanhar a capuchinho vermelho e constrói uma máquina do tempo, regressando ao passado para tentar ser bem sucedido. Os resultados são... bizarros e recursivos. As sequências com a máquina do tempo são verdadeiros voos psicadélicos. O absurdo tem rédea livre nesta curta de animação muito atípica dos estúdios que se caracterizam pelas suas animações inócuas. A raridade encontra-se no Cartoon Brew - Steve Moore’s “Redux Riding Hood,” The Short That Disney Hid For 15 Years, Is Finally Online e o realizador deixou intrigantes notas na sua página pessoal, que terminam com uma nota sobre o seu despedimento. Francamente, depois de ver este Red Riding Hood Redux, não admira que os responsáveis do estúdio envergonhadamente escondam as bobines dentro de cofres.

Um vídeo seriamente demente. A ver antes que os fatinhos empresariais se lembrem de o tentar apagar da internet sob desculpa que macula a imagem imaculada dos limpinhos (e entediantes) estúdios Disney.

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La Belle Mort

Mathieu Bablet (2011). La Belle Mort. Roubaix: Ankama

La Belle Mort é uma visão peculiarmente francófona sobre o tema dos mundos pós-apocalípticos. Numa desolada mega cidade em ruínas, os poucos sobreviventes de uma invasão de insectos alienígenas que exterminou a espécie humana vêem-se envolvidos num jogo de forças, manipulados por insectos que não querem partilhar o destino que lhes é reservado pela rainha: serem aniquilados com o planeta assim que esta partir pela galáxia à procura de mais recursos para se alimentar.

Esta premissa curiosa desenvolve-se numa narração algo previsível, centrada nos choques de personalidades e desventuras dos personagens. O que destaca este livro de tanta outra coisa escrita e desenhada sobre pós-apocalipses é uma fantástica ilustração. O olhar do leitor é guiado pelo traço preciso de Mathieu Bablet pelos espaços de planos que se entrechocam da enorme cidade onde decorre a acção. Esta banda desenhada é um hino ballardiano ao urbanismo hipermoderno, que vibra com a poética das paisagens de betão ao estilo arquitectónico internacional.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

epub fail

O epubBooks era um bom site para se encontrar livros gratuitos de domínio público bem organizados e formatados. Agora transformou-se em e-livraria, mas com preços destes não vai longe. Catorze milhões por um livro sobre vampiros emo? Ao pesquisar as listas ainda dei com outra bizarria gira. O livro mais barato que têm custa... -0.17 dólares. O que significa que quem o adquirir não paga e ainda recebe dezassete cêntimos da editora? Diga-se de passagem que anda por aí muito livro que para ser lido havia de ser pago ao leitor.

Algoritmos. Geralmente corre bem mas quando falham, fazem-no espectacularmente.

Fantasy & Co.

É bem vindo mais um espaço online de divulgação de literatura do fantástico. O site Fantasy & Co. posiciona-se à partida como um esforço comunitário de publicação de ficção por parte de alguns autores do género. Ainda é cedo para antever onde irá parar, mas só a vontade de iniciar já merece atenção. Agora é acompanhar o esperado crescimento do site. É com estas iniciativas que se vai gerando massa crítica para manter viva a chama das literaturas alternativas para os que gostam de sonhar e imaginar mundos diferentes da realidade banal e opressiva.

domingo, 3 de junho de 2012

Sonho húmido totalitário

Este é o tipo de ideias que me dá pesadelos. Não só pelas implicações em si ou pelo facto de quer a base tecnológica quer a vontade de as aplicar já existirem. O que verdadeiramente me assusta é que em boa parte dos usos possíveis estas seriam utilizadas de muito bom grado pelos utilizadores. E algumas já estão no mercado.

Profit-Driven Surveillance and the Spectrum of Freedom é um artigo que discute possibilidades de aplicação de tecnologias de vigilância em tempo real. Algumas parecem óbvias - monitorizar delinquentes condenados, outras já roçam os limites da sociedade panopticon, como o controle de assiduidade de alunos através de GPS. E pode-se ir mais longe: introdução de localizadores em veículos que reportem percursos e estilo de condução a seguradoras, que com base nesses dados adaptariam os seguros dos clientes. E dos seguros automóveis a seguros pessoais o passo é curto. Créditos bancários que obriguem à monitorização de hábitos de consumo. Prestação de cuidados de saúde com base na monitorização dos hábitos dos pacientes.

Se estas tecnologias fossem impostas, o rebuliço seria elevado. Os argumentos de totalitarismos e perda de liberdade depressa seriam invocados. Mas o que realmente me preocupa é que a chegada ao mercado destas formas de monitorização seria mais insidiosa, criando condições agradáveis para que os utilizadores/consumidores escolhessem livremente estas formas de total intrusão na privacidade e individualidade. Como? Imaginem uma diferença substancial de preço entre seguros de automóvel para os que concordassem em aderir a esquemas de monitorização ou obrigatoriedade de utilização tida como condição contratual para prestações de crédito mais baixas ou flutuantes com base nos hábitos medidos. E daí à obrigatoriedade generalizada com o argumento de é melhor para todos o pulo conceptual é pequeno.

A quantidade de informação que disponibilizamos é imensa. Registos de passagem na auto-estrada. Analise-se o tempo de entrada e de saída e pode-se saber a velocidade média do veículo. Localização geográfica do telemóvel. Hábitos de consumo cultural na internet. Bens adquiridos no super-mercado. Misture-se isto com uma boa dose da venerável ganância que caracteriza esta era de capitalismo descontrolado e temos uma ladeira escorregadia muito acentuada, em que a tradição iluminista de liberdade individual se dilui na confortável conveniência de grilhões dourados.

Este é o sonho húmido dos ditadores de pacotilha, talvez o grande sonho dos tenebrosos ditadores do século XX se tivessem conhecimento destas possibilidades. Cercear a liberdade, vigiar os mais íntimos momentos, com o acordo dos vigiados que trocam alegremente a liberdade individual pela conveniência de estilos de vida.

Japonisme





Um destes dias faço um cosplay do astroboy. A festa do Japão desilude-me sempre pelo espaço exíguo e falta de um stand cheio de livros para perscrutar e adoptar para as minhas estantes. Apesar disso, a taxa de cosplayers por metro quadrado é elevada e fique deslumbrado a ver um pintor a retratar usando simples pinceladas.

Ícones

Faz lembrar a história dos cegos que descrevem um elefante com base no que sentem quando lhe tocam. Mas é uma representação de tudo o que a Ficção Científica representa, encomendada por Hugo Gernsback a Frank R. Paul. Medonho, bem sei. Não resisto a citar a descrição de Gernsback, retirara do io9:
"The symbolization of science-fiction as suggested by many of its components is graphically expressed in a unique illustration on our back cover. The form is that of a functioning robot, motivated by an electronic brain. Its head is Mount Palomar Observatory, and its nose the 200-inch telescope, which gathers light rays billions of light years away and helps piece together the mystery of the universe. Its ears are search radar units which collect the electronic waves of the stars. The trunk of its body is a complex atomic power generator that represents the foundation of our future progress. The right arm is a rocket ship reaching for the stars, and its fingers exploratory off-shoot ships. The left arm is the Hayden Planetarium projector, which brings the stars and planets dose to us and shows us the mechanics of our universe. At the waist, searchlight beams foretell the progress of scientific research. The legs are radio and television masts comprising the structure of modern communication, while the feet are caterpillar tractors capable of surmounting many natural obstacles. The huge crystalline growths symbolize the exploration and conquest of distant and alien worlds. The blazing sun, at left, shows how it appears on an airless planet! Famed veteran artist Frank R. Paul, in his inimitable style, portrayed the idea which was conceived by the editor."
Esta coisa hedionda saiu na capa do pulp Science Fiction + em 1953. Mas devo reconhecer-lhe um certo encanto e um gosto puro pela liberdade ficcional permitida pela FC. Frank Paul fez coisas bem mais interessantes, entre as quais o incónico aeronauta com jetpack que o colectivo de arquitectos Archigram se iria apropriar tão brilhantemente nos anos 60. (Via io9: Science fiction’s mascot is downright terrifying)

sábado, 2 de junho de 2012

Estabilizar a europa

Uma ideia futurista distópica: e se levarmos a crise financeira, intervenções do FMI, ingerências e incompetência das instituições europeias, pressões capitalistas centro-europeias e medos de desagregação da união europeia ao limite? Imaginemos forças franco-germânicas a ocupar os países sul europeus, combatendo guerrilhas urbanas nas grandes cidades-capital de países como Portugal, Grécia ou Espanha. Governos e instituições locais substituídas por comissões de emergência nomeadas por Bruxelas para travar a possibilidade de fuga dos países do espaço europeu. Ingleses pragmaticamente a observar, tropas alemãs e francesas espalhadas a proteger os interesses financeiros e os condomínios de praia para reformados centro-europeus. Costa del Sol com postos de controle ladeados por carros de combate Panhard, céus do Alentejo percorridos por Rafales em patrulha, a Madeira como base militar da Kriegsmarine para controle da ZEE, IEDs na acrópole a desfazer forças de estabilização europeias em polpa sangrenta. Tensões no leste europeu, ETA aliada ao governo espanhol no exílio a explodir seats carregados de tnt na avenue des etoiles. Cocktails molotov em garrafas de Guiness atirados contra o consulado da UE em Dublin. Uma guerra civil europeia. O sonho de construção de uma nova europa na ponta da baioneta.

Circus maximus

Ah, o futebol. Como ando entretido com coisas que me parecem mais interessantes estou totalmente abstraído de boa parte das notícias do dia a dia. Mas a realidade tem um jeito especial de invadir o meu mundo pessoal. Como, por exemplo, chegar a Lisboa e ao saltitar entre rádios enquanto navego no trânsito ouvir um coro de crianças a desafinar o hino nacional. Comemorações nacionalistas do dia mundial da criança, pensei, até ser anunciado pelo excitado locutor que se tratava da recepção de despedida da selecção nacional em Óbidos. Logo de seguida passa um hino à selecção, uma versão de um clássico dos Peste e Sida dos anos oitenta com o refrão chuta ronaldo em vez do original chuta cavalo. Fiquei estupefacto. Até porque nas brumas da minha memória recordo cavalo como calão para um tipo específico de estupefaciente altamente danoso. Mas é futebol, ópio de massas, à sua maneira também um estupefaciente.

E hoje uma reportagem televisiva sobre o mesmo assunto, com o habitual folclore mas cantores luso-pimbas importados de França no lugar dos meninos canoros do hino. Celebrar os possíveis triunfos da nação no rectângulo verde com o menor denominador comum musical. Percebe-se. O circo para as massas tem que ser estridente e com o seu quê de foleiro. E o futebol é a possível expressão moderna do nacionalismo exacerbado. Se virmos turbas ululantes de bandeiras em punho a percorrer as ruas não ficamos preocupados porque estão a torcer pela selecção. Os jogadores são os novos cavaleiros, a defender a honra e as cores da dama nacional no campo de batalha relvado. Pois. Plus ça change...

Certo, estou a torcer o nariz do alto do meu pedestal de literaturas de género, cinema, pensamento e investigações nas virtualidades contemporâneas. Decididamente o circo máximo não é lugar para mim. Para quem gosta... bem, sejam felizes. Pelo menos este ano não temos que levar com a chinfrineira das vuvuzelas, instrumento que faz um buzinão soar a orquestra bem dirigida.

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Transmutar

Uma ideia intrigante. Hoje, no Clube de Literatura do Fantástico na Bertrand David Soares observou que os alquimistas e filósofos ocultistas tinham sido pessoas inteligentes que procuravam dar sentido ao mundo utilizando a linguagem dos símbolos que tinham ao seu dispor, tal como hoje fazemos com a linguagem da ciência. E os axónios electrificaram os neurónios numa imagem e se. E se Nicholas Flamel andasse à solta com o Large Hadron Collider? Isaac Newton contemplasse o ecrã de um microscópio de tunelamento electrónico? Ou Roger Bacon perscrutasse as estrelas através do Hubble?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Enjoy

Porque é essa a essência das ficções. O humano, animal sonhador, não vive sem as suas narrativas que ajudam a transformar a realidade percepcionada em algo com sentido interior. Contos, poemas, filmes, romances, frases soltas, notícias. A realidade é mediada pelas palavras e imagens mentais.

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