sexta-feira, 11 de maio de 2012

Breakdowns

Art Spiegelman (2008). Breakdowns: Portrait of the Artist as a Young %@&*!. Nova Iorque: Pantheon.

Originalmente publicado em 1976, este é um livro que literalmente nos deixa espantados. É Spiegelman no seu mais radical e experimentalista, a inovar a cada vinheta, procurando novas formas de falar a linguagem da banda desenhada e quebrando todas as regras. Estes trabalhos autobiográficos e experimentais são uma lição sobre a procura dos limites de um género expressivo, e nalguns casos meta-reflexão sobre a estrutura semântica da gramática da BD.

Algo que surpreende é a aparente facilidade que Spiegelman tem de saltitar entre iconografias, manipulando o desenho à vontade das ideias e conceitos. Aparente, porque é algo a que só se pode chegar com muita reflexão e experimentalismo. Outros aspectos fascinantes estão na incorporação directa de iconografias vindas da pintura e televisão dentro das vinhetas ou a homenagem aos estilos gráficos de alguns dos mais marcantes criadores do género.

Spiegelman consegue misturar influências que vão da arte com A maiúsculo aos desenhadores de comics mais marcantes, digerindo-as de forma inovadora, estendendo as fronteiras do género. Se Maus é o livro que lhe granjeou o reconhecimento do grande público, a obra deste artista de BD não se esgota nas revisitações do holocausto em colisão com a antropomorfização. Esta colectânea mostra o lado mais bleeding edge da sua obra.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Matrix

Coisas que eu encontro pelo mais puro acaso. À procura de inspiração visual nas cidades representadas em capas de livros de FC e deparo-me com isto: Matrix. E note-se o their lives were controlled by the mother computer complex. O nome e a premissa fazem lembrar um certo filme. Um pulinho à Amazon (também conhecida como loja do vício, entupidora de caixas de correio e aniquiladora de contas bancárias) aguçou a curiosidade: The machines monitored every facet of human life, and ALWAYS made the correct decisions. Yet, there was Joe Dill, Administraator of the Citizen's Resettlement Bureau. Joe was obviously some kind of maverick. In fact, anyone less suited for the job he held could hardly have been found - - which only proved something he had long suspected; to wit., that the machines which had monitored his whole life and which had passed him for the job were not all that efficient. ~ ~~ ~ Not only that, some of the decisions they were now making were downright absurd - and worse, inhumanly cruel. And there were so many of them. Could they ALL be mistakes?. Não será um clássico da FC, mas fiquei muito curioso em ler este livro e perceber potenciais ligações com aquele filme que mistura porrada hollywoodesca com pós-modernismo baudrillardiano que até tem o mesmo nome.

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Black Kiss

Howard Chaykin (2000). Black Kiss. Seattle: Eros Comix.

É capaz de haver uma narrativa algures neste livro, mas Chaykin está tão preocupado em mostrar dinamismo e ritmo alucinado que qualquer tentativa de coerência se perde numa vertigem de contrastes a preto e branco. Reflecte o trabalho de um estilista com uma iconografia muito própria e fundamentalmente imutável. Em parte, lê-se como uma lista onde foram colocadas cruzinhas a cada item retratado. Um pouco como uma versão resumida dos temas da obra de Marquês de Sade, espalhada em pranchas que vão demonstrando cada item. Obra criada para chocar, Black Kiss lê-se pelo que é, um artefacto datado elaborado para pisar o risco moral com uma ilustração soberba. A linha narrativa assemelha-se a um catálogo de perversões onde o leitor é lançado a um ritmo alucinante ao tom do estilismo retro que caracteriza o traço de Howard Chaykin.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Crawl to Me

Alan Roberts (2012). Crawl to Me. San Diego: IDW.

É uma história previsível de terror, embora o final não seja aparente. O que parece ser um jovem casal atormentado por fantasmas e memórias de tortura às mãos de um pedófilo violento transforma-se numa grande ilusão mental, um intricado mecanismo mental criado por uma criança para lidar com o trauma da brutalidade e violência sexual.

Se a narrativa é previsível, o estilo de ilustração peca por um certo excesso de artificialismo digital. O autor mostra no final o seu processo de trabalho que mistura desenho tradicional com edição de imagem. Ao longo do livro consegue resultados gráficos interessantíssimos a oscilar entre o psicadelismo e expressividade a roçar o abstracto, mas o que sobressai é um certo sentido de limpeza digital. O ar rascunhado que sugere perde-se no brilho fotográfico embora seja um estilo coerente que funciona muito bem.

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Literatura aos quilos

Dar a primeira leitura matinal às novidades. Seis horas de sono, seis horas fora do interminável fluxo binário que estimula as ideias. E dar com isto. Olhar, embasbacado, e pensar: ai sabe? A sério?

Neal Stephenson é um caso paradigmático de como os bons escritores precisam de bons editores. Alguém com capacidade e coragem de lhes dizer "melhora isto, resume aquilo, torna a escrita mais certeira". Os editores deste autor devem ter desistido disso algures lá para o meio do Cryptonomicon e o resultado está à vista: longas prosas alastrantes onde ideias interessantes e premissas intrigantes ficam enterradas sob um dilúvio interminável de descrições excessivas. O Ciclo Barroco foi um exercício... barroco de literatura que se mede aos quilos e o Reamde não lhe ficou atrás.

Sabe Stephenson escrever? Lá saber encher páginas e páginas e páginas de letras, isso sabe. Podia aprender a resumir o que escreve, facilitando a vida aos leitores que têm de atravessar o lamaçal que se tornaram os seus livros à procura das pérolas conceptuais que, vá lá, ainda deixa nos seus textos. Ler hoje Stephenson é uma experiência que vai do intrigante ao maçador e termina no doloroso. Longe vão os tempos do caleidoscópio furioso (e sintético) de Snow Crash.

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Lisboa, Portas do Sol, manhã luminosa. Que querem, é a minha aldeia...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Automatic Kafka

Joe Casey, Ashley Wood (2002). Automatic Kafka. La Jolla: DC Wildstorm.

E quem é o Kafka Automático? Um andróide ex-super-herói viciado em drogas nanotecnológicas que se vê obrigado a ser uma figura pública popular para fugir a agências secretas que o querem colocar a seu serviço. Esta premissa curiosa é uma boa desculpa para um comic meta-crítico, que se desenrola como uma reflexão alucinada sobre o género com requintes pós-modernistas. O argumentista Joe Casey mergulha-nos numa caricatura exagerada das temáticas que caracterizam os comics e a cultura popular. Teorias da conspiração, agências ultra-secretas, operações militares de limpeza no terceiro mundo, reality shows homicidas, heroínas hiper-sexualizadas, argutos bonecreiros exímios em fazer girar o mundo através das suas manipulações e ícones ultra-violentos. Para terminar, ainda nos dão uma reflexão baudrillardiana sobre simulacros e simulações onde o herói da BD dialoga sobre a sua existência com os seus autores.

Firmemente inserido no estilo de comics que se assume como reflexão crítica sobre o género através de boas e alucinantes narrativas, Automatic Kafka ainda beneficia de uma ilustração brilhante. O trabalho do desenhador Ashley Wood oscila entre um expressionismo abstracto e um estilismo muito devedor a Dave McKean. Esta é uma boa surpresa para os olhos e para os neurónios.

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Lugares anónimos do dia a dia. Não-lugares, espaços inexistentes na memória, por onde a percepção passa fugaz.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

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All Your Base Are Belong To Us

Harold Goldberg (2011). All Your Base Are Belong To Us. Nova Iorque: Three Rivers Press.

Suponho que há três tipos de livros sobre esta temática. Os profusamente ilustrados mas de texto liminar, para encher o olho com a espectacularidade dos jogos mais graficamente arrojados, os estudos académicos profundos, e obras destas, entusiastas e generalistas que olham para alguns detalhes da história da tecnologia.

All Your Base Are Belong To Us, cujo titulo é um piscar de olhos a um meme recente, traça uma curta história da indústria dos jogos olhando para um conjunto de casos específicos que retrata principalmente sob o ponto de vista do mundo dos negócios. Analisa o percurso de alguns dos nomes marcantes do género contando histórias que estão no cruzamento entre jogo, desenvolvimento tecnológico e negócio lucrativo. Dos diversos instantâneos retratados surge um padrão comum: a ideia de jogo como algo criativo que é cooptado por empresas que procuram modos rápidos de fazer dinheiro. E a olhar para as estatísticas o dinheiro envolvido é muito. Mais do que as restantes indústrias criativas juntas.

Este é um livro de relatos de empreendedores que arrancaram, mantiveram ou afundaram empresas lucrativas. O autor não resiste a um olhar embevecido sobre alguns jogos marcantes e aborda muito liminarmente as questões do desenvolvimento artístico e tecnológico. Há parágrafos em que a obra se assemelha a um relato contabilístico.

É o aspecto intrigante deste livro: fazer olhar para as ligações entre dinheiro e jogo, e para os sucessos e falhanços da indústria. Fãs do género não encontram aqui descrições de tirar o fôlego sobre os espantosos ambientes virtuais. Os interessados no lado mais académico também não encontram reflexões sobre o impacto cultural do género. Fica apenas a ideia de dinheiro enquanto motor dos produtos culturais que adquirem visibilidade na cultura global.

domingo, 6 de maio de 2012

Aprender a ler

Uma experiência de distracção humana e falta de memória numa era de sobrecarga informativa: esta manhã ao entrar no Facebook deparo com uma notícia sobre o falecimento de Vasco Granja. De fonte credível. Fazendo parte da geração que ficou marcada pelo excepcional trabalho de Granja na divulgação de estilos diversos de animação, fiquei tocado. Ainda pensei em verificar a notícia noutros jornais, mas deu-me a preguiça. Sem pensar, cliquei na opção de partilha e não pensei mais nisso.

Poucos minutos depois um dos primeiros comentários assinalava que a notícia já tinha dois anos. Grande ooops, pensei. É o que dá ler uma frase e não o resto do texto.

Ao longo do dia fui assistindo à notícia a replicar-se ao longo dos meus contactos. E assumo que não fui caso único. É estarrecedor ver como muitos simplesmente partilham informação sem ler o que estão a partilhar...

Este fait divers dá que pensar. Primeiro, na memória curta que temos numa era de informação instantânea. O caso tocante de há dois anos foi totalmente esquecido. O que marcou hoje amanhã já nem se regista na memória. Segundo, na forma como é fácil espalhar informação falsa. Mesmo que se vá tentando dizer que afinal as coisas não são bem assim, o mal já foi feito. E as palavras replicam-se. Terceiro, na nossa atitude perante a informação: lida de relance, partilhada sem sentido crítico. Diz-se que vivemos na era da informação. Depois desta experiência, fiquei a sentir que vivemos na era da informação superficial. Apanhados na rede da velocidade informativa incessante, esquecemos as mais elementares competências para lidar com informação: atenção e sentido crítico. No rodopio da velocidade o que está à volta torna-se um borrão.

Há lições a tirar deste pequeno acontecimento. A minha primeira? Voltar a aprender a ler.

Leave me

No carro, a saltitar entre estações de rádio à procura de algo interessante para ouvir. Tarefa normalmente difícil. Sou surpreendido em plena antena 3 com Nina Simone a cantar Love me or leave me naquele registo tão especial em que a cantora introduz uma fuga de Bach no meio do blues puro. E nesse momento tão sublime, o que é que se ouve? Ao mesmo tempo que as mãos de Nina Simone dão aquele fabuloso toque jazz à fuga em dó maior de Bach sobrepõem-se anúncios a peregrinações a Fátima e festas de dance music. A sério. Mal termina a fuga calam-se os anúncios e a canção segue até ao fim... alguém na estação deve ter pensado "os boçais que ouvem a antena 3 não devem ser capazes de processar Bach nem mesmo em tom de jazz por isso vamos lá aproveitar o tempo de antena para publicidade".

O momento wtf do dia, sem dúvida.

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Shot

Grandes momentos dos meus dia: editar vídeo ao som dos Atari Teenage Riot a vociferar destroy 2000 years of culture numa sala de espera do hospital. Num corredor igual a tantos outros, paredes brancas e cananalização exposta. Mesmo ao lado da máquina de café, local estratégico para mim. Sempre que ia buscar um ficava embasbacado a conteplar um gráfico progressivo. Ali, as máquinas de café têm barra de progresso.

sábado, 5 de maio de 2012

Olho de satélite

Sala de espera nas urgências do Hospital de Santa Maria. Um idoso delicia-se a visualizar a terra vista pelo olho do satélite no google maps, utilizando o que aparenta ser um iPod. Concentração total, gestos delicados dos dedos como pinças a manipular o interface de toque. Verbaliza o que vai vendo numa voz pausada, significando que está arrebatado pela maravilha e pensa em voz alta.

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Nova estética

Máquina automática de café com barra de progresso. Os quadradinhos pixelizados alongam a barra à medida que a chávena se enche. Pormenor do mundo digital aplicado à banal realidade, ou como o encher a chávena equivale à transferência de um ficheiro.

Overload

E que mais falta (nota: a foto não apanhou os copos de café que se iam amontoando)?

Conta de Esmalte

Acabei de receber este interessante email a solicitar-me graciosamente as minhas passwords de acesso ao email para evitar que a minha conta seja afectada por congestionamentos. Que simpáticos: "Devido ao congestionamento de todos os usuários para nome esmalte e a remoção de todos os não usados contas a seguir: YAHOO, HOTMAIL, G MAIL, ORANGE, caixa DARTY, ETC ... departamento de contabilidade de esmalte etc... seria obrigado a fechar sua conta, você, em seguida, confirme seu e-mail, preencha suas informações de login abaixo para confirmar que você está usando sempre sua conta de e-mail."

Agora a sério, acham honestamente que esta pegava? Que ataque de phishing mais inepto. Mail de um endereço wanadoo.fr, a pedir descaradamente dados pessoais, a dizer-se representante de serviços que competem agressivamente entre si. O surreal esmalte é a cereja em cima do bolo. A sério. Os nigerianos que de vez em quando me contactam com ofertas milionárias esforçam-se mais. Os pseudo-hackers que largaram esta haviam de ser presos... por atentado à inteligência.

Esmalte. Rebolei-me a rir.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

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Eu Não Sou Um Serial Killer

Dan Wells (2011). Eu Não Sou Um Serial Killer. Lisboa: Contraponto.

Não é um livro que se lê pela beleza das palavras ou pelas ideias que nos transportam para as profundezas da vida mental, sendo uma obra linear com uma linha narrativa bem marcada e sem desvios. É um livro que se lê como divertimento, e lê-se muito bem. Entre as aventuras da acção e as desventuras da vida interior do personagem principal dei por mim a não conseguir parar de ler. A literatura é isto. Tão bons são os mais elaborados e estilizados voos linguísticos como as palavras simples que não conseguimos parar de ler. Eu Não Sou Um Serial Killer é uma história simples e bem contada.

Somos colocados na mente turbulenta de um jovem adolescente que se crê um assassino em série em potencial. Anti-social, com um confortável diagnóstico de sociopatia, uma família disfuncional, um gosto literário por criminologia e um fascínio pela preparação de cadáveres na agência funerária da mãe, vive os dilemas clássicos da adolescência com um toque criminal. Embora sejamos sujeitos a inúmeras ruminâncias sobre o seu carácter de assassino em série, quando se depara com morte violenta a sério a reacção é mais normal do que se esperaria. O mundo mórbido de fantasia entra em colisão com a realidade banal quando uma série de mortes violentas abala a cidade onde vive este pequeno serial killer. Fascinado pelos crimes, acaba revoltado ao descobrir quem os cometeu e começa uma campanha de guerrilha contra o verdadeiro assassino. Sem querer estragar leituras, digamos que um pacato vizinho tem um lado literalmente demoníaco.

Eu Não Sou Um Serial Killer é uma mistura bem conseguida de crime sob o ponto de vista do criminoso, neste caso apenas hipotético uma vez que tudo se passa na sua mente, com um toque algo incoerente de sobrenatural. Livro ente géneros, vale pelo que vale: uma boa e divertida história que se lê sem querer parar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Space Invaders!

A lula invasora começa a ganhar forma. Se bem que um monstro cor-de-rosa...

Blue

Pat Grant (2012). Blue. Marietta: Top Shelf.

Fico um pouco sem saber o que pensar deste livro. A história tem um cunho fortemente pessoal e gira à volta da nostalgia da adolescência, do gosto pelo surf, de mudanças pessoais e sociais. O narrador relembra momentos da sua adolescência na cidade onde vive, uma época que lhe parece mais pura antes da chegada de imigrantes e da falência do principal empregador que modificaram profundamente a localidade.

Se a história tem pouca coerência, o estilo visual de linha precisa com um cunho surreal deixa-me encantado. Observa-se uma iconografia marcada e individual que se inspira nos estilos gráficos underground mas opta pela limpeza visual e clareza de linha em vinhetas elegantes.

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

The Lovecraft Anthology: Volume II

Dan Lockwood, ed. (2012). The Lovecraft Anthology: Volume II. Londres: SelfMadeHero.
Se o primeiro volume desta antologia de Lovecraft adaptado aos comics já surpreendeu pela qualidade, este não lhe fica atrás. Diga-se de passagem que é um tema complicado. Os contos de Lovecraft são bem conhecidos e as adaptações a banda desenhada já vêem de longa data. O que de novo nos pode trazer uma iniciativa destas?
A adaptação dos contos é cuidada, conseguindo o quase impossível equilíbrio entre a prosa prolífica de Lovecraft e um meio de expressão que vive de uma bem medida proporção entre texto e imagem. É no estilo ilustrativo que a obra se distingue. Não há um estilo comum a todos os contos. Cada ilustrador traz consigo a sua visão, espelhada em iconografias diversas ao longo das páginas deste livro. Esse carácter de interpretação individual é a mais valia que esta série traz ao panorama de obras que giram à volta deste autor de culto.
É-me impossível destacar qual a melhor das adaptações. Cada qual tem o seu estilo individual numa colectânea que vai do realismo com toques degenerados a estilizações abstraccionistas ou surreais. Para os conhecedores do género de terror no mundo dos comics há um genial piscar de olhos no grafismo de Bryan Baugh ao estilo clássico de Creepy ou Eerie na adaptação do conto The Hound.

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Ler BD

A edição deste mês da revista LER é imprescindível pelo seu dossier sobre banda desenhada em Portugal. Não traz nada de novo para os fãs do género, mas mostra a um outro tipo de público a diversidade, os sucessos e os insucessos do vibrante meio. O artigo olha para a BD enquanto género, traçando um retrato da sua criação em Portugal e mostra o perfil de quatro criadores. Conclui o que sabemos: há criadores de enorme talento, que começam a publicar regularmente lá fora. O meio editorial contraiu-se, mas ainda mexe. E decididamente já passámos a fase de BD enquanto histórias infantis aos quadradinhos... embora o grande público ainda não se tenha apercebido disso.

(momento de heresia: sou bibliófilo convicto mas pouco fã desta revista, que se mantém como única publicação dedicada aos vícios da encadernação e tinta de impressão. a deste mês vale a pena por este dossier e os artigos de Pedro Marques sobre Robert Massin e Rogério Casanova sobre Quatermass.)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pingo amargo ou a doce miséria de um povo

Há cento e vinte anos atrás manifestações de operários que reclamavam direitos de justiça tão elementares como melhores condições laborais, salários justos e oito horas diárias eram dispersadas a tiro. São essas lutas, e o reconhecimento dos direitos laborais, o que se comemora no 1º de Maio.

Actualmente sob a desculpa da crise vivemos um dos maiores e mais concertados ataques aos direitos laborais e sociais. Justificando com as dificuldades económicas contemporâneas os poderes instituídos tentam fazer regredir a justiça social para níveis cada vez mais similares aos das épocas em que estas lutas se iniciaram. Tudo feito com eufemismos como reestruturação e reforma, palavras leves que não disfarçam os ataques diários aos mais elementares direitos sociais. Os nossos direitos sociais não foram dados de ânimo leve. São conquistas que se fizeram à custa do sangue de muitos.

Este ano, uma cadeia de supermercados que já é notória por aproveitar estas ocasiões para se assumir como fortemente exploradora comemora o 1º de Maio de forma inovadora: como já é habitual força os seus trabalhadores a permanecer nos postos de trabalho sem compensação por trabalhar para lá do horário laboral e ainda oferece promoções para incentivar as pessoas a frequentar as suas lojas num dia que se gostaria de reflexão. É o tipo de estratégia que parece ser um tiro no pé, que levaria à condenação pela opinião pública.

Não vem mal ao mundo que empresas não fechem num feriado, desde que os trabalhadores sejam devidamente compensados. Vivemos na era global da sociedade 24/7 e por enquanto há leis que regulamentam isto. Mas acções destas são um escarro de gozo na face de um país em dificuldades. Certamente que agora há quem se esteja a rir de gozo com a população. Enquanto conta uns milhões de euros adquiridos com um dos mais abjectos estratagemas de que há memória.

Os portugueses responderam indo em massa às lojas, acumulando multidões e esgotando stocks. Com direito a cobertura entusiástica nos canais de televisão. Somos assim tão miseráveis que trocamos os direitos que nos restam pela oportunidade de por um dia consumir a metade do preço com acesso a esta promoção só após uma despesa avultada? Num pais onde o estado social recua, o desemprego cresce e a generalidade da população empobrece, estamos assim tão pobres de espírito e cegos perante a realidade contemporânea?

País miserável este onde vivo. A miséria portuguesa não é meramente económica. É esta mentalidade sufocante, heranças das inquisição e estado novo, de nacional-pequenismo, desconfiança face aos direitos e confiança cega em líderes sebastianistas que é a verdadeira miséria nacional. Enquanto assim continuarmos não deixaremos de ser um país de escravos, gente que vive debaixo da canga e não vê saída, que aceita ser tratada como gentalha por uma elite desavergonhada. Hoje estou triste por ser português, onde empresários descem a estes níveis e cidadãos aderem alegremente a este aviltamento.

Hoje os portugueses deram um sinal claro aos seus senhores: venham daí crises, desemprego, empobrecimento, recuo nos direitos, recuos na educação, acesso à saúde e protecção social. Se de vez em quanto atirarem um osso meio roído à plebe ficamos todos contentes.

Adenda: é fácil olhar de cima para quem participou nesta orgia consumista, mas esta acção trai a pobreza que a cada dia mais se sente no país. Quanto à empresa que transformou o 1º de Maio numa piada triste, parece que ao menos compensou os funcionários que obrigou a trabalhar. Também era melhor que não o fizesse... mas talvez para o ano, com um bocadinho mais de esforço, o consiga. Ficam outras questões no ar. Quem pagará estes descontos que roçam o dumping? Possivelmente os fornecedores, já de si sufocados por margens baixas. Sobre os possíveis lucros desta festa triste, é bom recordar que a holding do grupo arranjou uma artimanha para se deslocalizar para a Holanda, onde o regime de impostos é mais amigável. Lucram por cá, mas fogem aos impostos portugueses. A loucura de ontem, parece, é um pequeno cheirinho do que andam a fazer pela Polónia.

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Anthem

Ayn Rand (1995). Anthem. Nova Iorque: Dutton

Originalmente publicado em 1938. Pode ler lido aqui em vários formatos (epub, mobi, pdf).

É muito fácil ficar atraído por Anthem. É uma obra liminar, simplista, que vive da luta de um indivíduo contra a sociedade que o rodeia, essa mais adolescente das emoções. Quem não souber nada sobre a autora pode achar que está perante uma pequena pérola da literatura distópica. Simplista, mas intrigante.

Anthem é um hino à individualidade pura, que Ayn Rand traça através de um constraste duro entre um homem que se sente diferente e uma sociedade que é uma caricatura grosseira dos piores pesadelos colectivistas distópicos. Não é um tema novo. Huxley em Admirável Mundo Novo e Orwell em 1984 já o haviam abordado de forma mais profunda e atendendo à complexidade da alma humana. Rand não se dá a esse trabalho, com um foco quase autista numa prosa que não disfarça um ódio por qualquer outra forma de pensamento que não se enquadre na sua estreita visão.

A sociedade futura do romance é um pesadelo colectivista, onde a individualidade é negada e todos estão ao serviço do estado, que dirige minuciosamente as vidas dos cidadãos. A vida é colectiva e a submissão é total. O estado alimenta, dá abrigo, escolhe a profissão, dirige os tempos livres e regula as relações sexuais estritamente necessárias à reprodução. É um mundo retrógrado que esqueceu a ciência e onde a esperança de vida é diminuta. Agir ou pensar fora do colectivo é um crime e o pior deles é pronunciar a palavra eu. O protagonista deste romance é alguém que não se adapta aos diktats e cuja curiosidade o leva a por em causa os alicerces sociais e redescobrir um mundo que se julgava perdido.

É impossível não ler este livro e imaginar o muito real pesadelo político colectivista que é a Coreia do Norte. As descrições de Rand assemelham-se muito à imagem pública deste país. A realidade é por vezes mais estranha do que a ficção.

Este seria um livro curioso, ficção distópica menor de tom juvenil, não fosse o pendor ideológico da autora. A esta luz, o livro é um veículo para ideais objectivistas, ódio ao elemento social e um hino ao individualismo egoísta. Dentro dos estreitos limites ficcionais desta obra é difícil não concordar com Rand. Confrontados com um totalitarismo absoluto, é impossível não simpatizar com um homem diferente conhecido com o frio nome de Equality 7-2521 que se sente esmagado por forças que percebe como retrógradas e auto-destrutivas com doses de hipocrisia. Fechando as páginas do livro, e olhando para o mundo real, percebe-se que o extremo individualista tão caro a Rand é tão corrosivo e destrutivo como as utopias sociais cooptadas pela destrutiva sede de poder.