domingo, 18 de dezembro de 2011

Tecnologia social

"As ever, it is less the great man or even the depth of general scientific understanding than the propitious time with its pressing social drives that really conditions technological developments in the media." (p.163).

Brian Winston (2005). Messages: Free Expression, Media and the West from Gutenberg to Google. Nova Iorque: Routledge.

Curiosa observação. Os saltos tecnológicos não dependem realmente da tecnologia. Esta pode ser a mais avançada do momento e mesmo assim ser um falhanço. As condicionantes sociais imperam. Quais serão? Interesse económico, zeitgeist do momento, vontades, gostos?

Winston aponta aqui uma das principais características do impacto da tecnologia: não depende apenas do seu carácter intrínseco. A vontade ou necessidade social é o que a faz triunfar ou relegar para o esquecimento.

sábado, 17 de dezembro de 2011

War Made New


Max Boot (2006). War Made New: Technology, Warfare, and the Course of History: 1500 to Today. Nova Iorque: Gotham Books.

Max Boot procura demonstrar nestes livro o potencial revolucionário de novas armas adaptadas a tácticas que delas tiram partido ao longo da história ocidental. Opta por relatos de batalhas que considera historicamente basilares e acaba por concluir que novos utensílios levam a novas utilizações e, como McLuhan fez bastante mais cedo e a meditar sobre outras problemáticas, que os generais de hoje estão soberbamente preparados para lutar as guerras de ontem.

Se nas primeiras épocas abordadas Boot mantém um tom neutro, assim que chega ao impacto americano começa a resvalar para uma apologia dos arsenais high tech e das estratégias neo-conservadoras, glorificando o desastre iraquiano como um triunfo, sublinhando a fase sem lei das operações no Afeganistão como um sucesso admirável e derrapando no deslumbre pelas armas robóticas que se anunciam nos teatros de operações. A primeira metade deste livro é intrigante, com análises coerentes de contextos históricos a enquadrar relatos bélicos. Infelizmente, as restantes páginas decaem na apologia da pax americana musculada.

Eles bicam

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e bicam e bicam e bicam.

Videopostais de Natal

Terminados. Aqui podem ver os postais em vídeo criados por alunos de quatro turmas do Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro na disciplina de Educação Visual e Tecnológica.



Alunos do 5º A



Alunos do 5º C



Alunos do 5º E



Alunos do 6º B

Ferramentas utilizadas: lápis, papel, canetas de feltro, lápis de cor, Audacity para gravar voz, um Galaxy Tab para fotografar desenhos e Sony Vegas Movie Studio HD para edição vídeo. Em breve, um pequeno texto sobre como fazer um trabalho deste género.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Batman: Noel


Lee Bermejo (2011). Batman: Noel. Nova Iorque: DC Comics.

Outra graphic novel. Com Batman no papel principal. Verdadeiramente raro, digo eu com um tom de ironia. O que não falta por aí são livros destes a explorar o lado tenebroso da personagem mais problemática da DC Comics. E o que nos trás de novo este Noel? Uma mistura do conto clássico de Natal de Dickens com as constantes introspecções do herói corroído pela obsessão. No lugar dos fantasmas das eras temos um Robin, um Super-homem e um Joker a interferir física e moralmente numa caça ao homem em que um Batman engripado perde a noção das vítimas e criminosos e não olha a meios para caçar a sua presa. Sem ser particularmente acima da média, este Noel destaca-se pelo grafismo classicista do ilustrador.

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Um último olhar. Sic transit mundi. I guess this is goodbye.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ler 2.0?


O radar fez blip nos feeds RSS do Gizmodo: a revista The Economist olha para o impacto de e-livros, apontando para uma tendência de crescimento nos hábitos de leitura. Especificamente, procura correlacionar hábitos de leitura com as utilizações das edições digitais, coligindo dados que mostram que utilizadores de tablets e e-books passam mais tempo a ler do que utilizadores tradicionais, particularmente artigos de fundo em revistas.

Bem, nestas coisas há sempre uma dose de hipérbole. Mas olho para os meus próprios hábitos desde que adquiri um leitor de livros electrónicos e um tablet. E olho para o ar patético da minha televisão desligada. Para o hábito renovado de ler notícias e comentários nos jornais online enquanto se toma o pequeno almoço e o café da manhã desperta os neurónios. Para as pausas durante o dia de trabalho com um bom comic ou livro em epub. Para todos aqueles docx e pdf que deixei de imprimir ou de ler no computador porque, enfim, arquiva-se no tablet. Na minha experiência sim, lê-se mais, quer online quer offline. E o tablet trouxe um gostinho adicional: a capacidade de partilhar a leitura, quer seja um artigo ou uma frase particularmente encantadora de um livro. Copiar, colar, partilhar no facebook ou twitter. O mais chato é quando a bateria começa a ficar sem carga, problema que os livros de papel não têm.

A Economist chama a este fenómeno, num palavreado infeliz, lean back media. Mas no fundo o que é de salientar é o fôlego que a tecnologia deu à leitura, particularmente a tecnologia digital que sempre se temeu que aniquilaria o hábito de ler.

O que importa é ler. Quer seja um volumoso tomo, revista, jornal, epub, pdf, comic, graphic novel, banda desenhada, fanzine, artigo... ler, descobrir e reflectir sobre novas ideias. É assim que evoluímos como pessoas, que aprendemos mais, que alargamos horizontes.

21st Century Dodos: A Collection of Endangered Objects




Steve Stack (2011). 21st Century Dodos: A Collection of Endangered Objects. Londres: HarperCollins.

Extinto por evolução tecnológica. Já há quem não se lembre de cassetes, computadores spectrum ou outros produtos que caracterizaram épocas mas que se tornaram obsoletos poucos anos depois. 21st Century Dodos é uma pouco profunda reminiscência à inglesa destes objectos esquecidos, que inclui coisas tão díspares como autocarros de dois andares, idas a pé para a escola ou as eternas cassetes. É com nostalgia que este livro me fez recordar das reparações ad-hoc que se faziam ao eterno problema da fita que se partia...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Stand there and look good

A adorar Frankenstein Agent Of S.H.A.D.E. escrito por Jeff Lemire e ilustrado por Alberto Ponticelli. Lemire apostou na aventura ilimitada ao mais alto nível com um conjunto surreal de personagens cheia de toques camp que remetem para os mais inautidos filmes de série B ou os comics clássicos. Que pode ser dito de um título que reúne um taciturno monstro de Frankenstein, a sua ex-mulher e uma agência ultra-secreta trans-dimensional liderada por um cientista genial de sanidade questionável que escolheu encarnar o corpo de uma criança com uma equipe de intervenção que inclui a múmia Kharis, um lobisomem, um vampiro e uma cientista anfíbia? Talvez que a primeira aventura tenha sido o travar da ameaça de um planeta sentiente coberto de monstros que está em rota de colisão com a Terra? Mais exagerado que isto será difícil, mas suspeito que Jeff Lemire será capaz de o fazer.


Porque depois de lançar duas rodas de combate gigantes e um esquadrão de GI Robots não há como uns controles tipo playstation para facilitar o aniquilar de hordes de monstros de dentuça afiada.


Mas ao verdadeiro herói basta uma lâmina afiada para desfazer em postas um monstro gargantuesco.


Salvar o mundo tem custos e até as mais mirabolantes agências secretas têm problemas orçamentais.


E a ex-mulher de Frankenstein (longa história, espero que seja contada), tem mesmo bom aspecto, apesar dos quatro braços, cor verde e as obrigatórias costuras a segurar as partes do corpo.


Há um nome para isto... é o clássico fastball special popularizado por Colossus e Wolverine dos XMen da Marvel. Jeff Lemire pisca subtilmente o olho aos conhecedores de comics.

Pela parte que me toca, confesso-me fã desta série e opino, valha o que valer, que este é talvez o melhor dos títulos da DC Comics, renovada na versão 52.

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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Black Mirror - The National Anthem


Começa de forma banal. A meio da noite o primeiro ministro britânico é acordado porque no YouTube surgiu um vídeo que mostra uma princesa da casa real raptada a apresentar uma lista de exigências sob tortura. A primeira reacção é encobrir o vídeo e colocar uma mordaça sobre os meios de comunicação. Assim começam quarenta e cinco minutos de drama que, aparentemente, serão sobre as reacções das cúpulas de topo e de heróicos esforços policiais secretos para salvar a princesa.

Mas Black Mirror não é uma história habitual de crime e castigo. É antes uma fortíssima reflexão sobre o poder da internet, de uma opinião pública que muda em tempo real graças às conexões pelas redes sociais, de meios de comunicação que utilizam todos os meios de que dispõem para propagar informação, de instituições que reagem de forma desactualizada a ameaças criativas e inauditas que tiram partido da assimetria e da capacidade da rede de espalhar informação num piscar de olhos. Nada fica secreto durante mais do que poucos minutos num mundo de smartphones ligados à rede. As imagens mais marcantes deste drama televisivo não são as dos preocupados decisores, mas um infindável correr de comentários me redes sociais. As situações mudam a cada minuto, nada corre de acordo com planos pré-estabelecidos. O mais interessante deste filme é a infinda sucessão de comentadores, a constante mudança de reacções dos envolvidos, o fluxo de opiniões em tempo real providenciada pelas redes sociais.

A exigência do rapto é que o primeiro ministro execute um acto sexual ao vivo na televisão com um porco. No final do filme é revelada a origem do acto terrorista: não algum grupo militante extremista mas sim um artista conceptual que provoca este acontecimento como a primeira grande obra de arte do século XXI, sublinhando a impotência das instituições tradicionais no admirável mundo novo interconectado.

Escrito por Charlie Booker, parte de uma trilogia que reflecte como os ecrãs se tornaram o espelho, talvez a face da sociedade contemporânea, Black Mirror estreou agora num canal televisivo britânico mas, felizmente porque é uma obra que faz pensar, desperta a consciência e reflecte sobre um aspecto cada vez mais premente do mundo actual, escorregou para o YouTube onde pode ser visto até que os polícias dos direitos de autor intervenham e neguem a possibilidade de partilha de mais um intrigante produto cultural a todos os que não disponham de meios para lhe aceder das maneiras clássicas. Sem fazer a apologia da pirataria mas em nome da disseminação cultural, aqui vão os links: Black Mirror parte 1, Balck Mirror parte 2 e Black Mirror parte 3.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

W_B_C_D


Porque é segunda-feira, e por vezes a corrida de hamster na roda pesa na alma.

Plegaria Muda


Uma meditação sobre violência urbana, que nos coloca num espaço sufocante, misto de armazém misto de cemitério abandonado cujos esquifes estão acima da terra, invadidos por ervas daninhas. Experiência silenciosa, que nos deixa um peso tremendo sobre a alma.


Doris Salcedo, Plegaria Muda, no CAM.

domingo, 11 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

Theories of International Politics and Zombies


Daniel Drezner (2011). Theories of International Politics and Zombies. Princeton: Princeton University Press.

No prefácio a Synthetic Worlds, Eduardo Catronova aponta para uma tradição nas ciências sociais de escolher um tema divertido ou absurdo e fazer um paper aplicando teorias e técnicas de análise metodológica, aliviando o tédio de congressos cheios de comunicações interessantes mas... áridas. No caso de Castronova a coisa resvalou e de possível artigo divertido sobre as economias dos mundos virtuais transformou-se em objecto de investigação e carreira académica.

Drezner aplica o mesmo raciocínio às principais correntes de pensamento e realidades do espectro político internacional, procurando responder a uma simples pergunta: como reagiriam as instituições e responsáveis políticos a uma epidemia de zombies? Sim, estamos mesmo a ver no que vai dar. Liberais e neo-liberais aproveitariam para expandir o sector privado, largar umas bombas atómicas e se calhar, apenas porque já é hábito, invadir um país do médio oriente, progressistas iriam tentar dialogar com as criaturas e encará-las como coitadinhas, construtivistas poriam em causa o próprio constructo teórico do que seria ser zombie ou normal, e a união europeia seria possivelmente devorada enquanto os burocratas de Bruxelas se multiplicariam em reuniões e comités para analisar a análise das repostas a dar ao problema.

Este livro é um divertido ensaio que revê perspectivas teóricas de ciência política à luz da mais improvável das catástrofes. Misto de comédia e análise, consegue despertar alguns sorrisos. Particularmente quando um europeu lê sobre a painful comitology da união europeia.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

6G

A Vodafone começou esta semana a divulgar o seu serviço de rede móvel 4G. Não se assustem. A bleeding edge técnica já anda a estudar o protocolo 6G. E quando os sistemas 6G começarem a chegar ao mercado... bem, façam as contas. Assim de repente, num toque de nostalgia, recordei-me da estonteante velocidade de 36 kbps do meu primeiro modem.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

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Filtro azul, projecção azul. 

Inferno: The World at War, 1939-1945


Max Hastings (2011). Inferno: The World at War, 1939-1945. Nova Iorque: Knopf.

As histórias da II guerra seguem normalmente as grandes decisões e personagens do conflito, filão bem explorado por Ian Kershaw, ou as manobras no terreno, numa gama de perspectivas que vai do mais abrangente à minúcia que deleita o público de publicações centradas na estética militar. Ultimamente, desenha-se uma nova tendência, procurando retratar este conflito seminal do século XX através de história oral, olhando também para as experiências dos que se viram nele envolvidos, desde soldados a criptógrafos, diaristas nas ruínas das cidades alemãs e pessoas comuns apanhadas no conflito. Este Inferno procura ser uma mistura de dois géneros, traçando as linhas gerais do conflito mas humanizando-o com vozes recolhidas de cartas e diários daqueles que estando longe das grandes decisões sofreram as duras consequências.

Outro pormenor curioso está num certo carácter militante desta obra, que assume pontos de vista bem definidos sobre a realidade da guerra: aponta a impossibilidade económica do esforço de guerra alemão, a injustiça e violência dos bombardeamentos aliados que arrasaram as cidades alemãs, a incapacidade de generais britânicos e americanos no terreno, a brutalidade da guerra na frente leste, as reais motivações dos ingleses para o combate (os soldados combatiam não pela manutenção do império e do velho sistema mas por coisas bem mais prementes como uma reforma dos sistemas de segurança social), o racismo presente na luta asiática, a incapacidade bélica nipónica e os falhanços das tecnologias miraculosas que enchiam de fé os últimos zelotas do regime nazi. Também como ponto de interesse está na busca de relatar com maior profundidade os acontecimentos em teatros de operações que normalmente se ficam por poucos parágrafos em boa parte dos livros sobre a II guerra, olhando para o médio oriente, indo-china, Índia e Finlândia de forma pormenorizada.

Sem abandonar a tradicional linha apologética dos actos aliados, Hastings trouxe ao grande público uma interessante linha crítica que desmistifica os aparentes grandes feitos militares e aponta os paradoxos retóricos de combatentes pela liberdade que mantinham países inteiros debaixo de ocupação colonial. De uma forma particularmente preocupante, mostra como a única força capaz de enfrentar eficazmente o totalitarismo germânico foi não a liberdade democrática mas o brutal totalitarismo soviético.

Criticando acutilantemente o registo histórico sem cair no revisionismo, Inferno é um dos mais interessantes, abrangentes e inteligentes livros sobre a II guerra que já li, com uma prosa intrigante que deixa o leitor suspenso ao longo dos capítulos, mesmo que já conheça bem a narrativa deste momento pivot da história contemporânea.