segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013


Os futuros prometidos parecem-nos tão distantes nesta era onde as maravilhas digitais são banais e os apocalipses financeiros suplantam as mais arrojadas distopias ficcionais. 2013 promete ser um ano de guerra contra o espírito opressivo do tempo em que vivemos. Vamos à luta?

Mercado cativo

"... funded through the Kickstarter-like site Indiegogo that ensures a market, no matter how small, does exist."

Afinal é para isso que serve realmente o crowdfunding. Não é só para ter acesso a financiamento, também garante mercado para o produto. Faz todo o sentido. Quem contribui para o financiamento do produto irá adquiri-lo. A frase mais lúcida e presciente que li hoje, e num artigo que nem sequer é sobre crowdfunding mas sobre tablets, linux e a mania que quererem meter sistemas operativos cujo interface é pensado para computadores em tablets: The LINUX TABLET IS THE FUTURE - and it always will be.

UFO win!



Mas que boa maneira de começar o dia, com um dos meus bonecos em 3D destacado pelo Sketchfab. O Sketchfab é um serviço interessante, que possibilita visualizar conteúdos em 3D na internet através de browsers actuais sem ser necessária a instalação de plugins ou aplicações externas. É 3D em WebGL done right. Basta criar uma conta e enviar os ficheiros nos formatos comuns. Testei com sucesso ficheiros em Collada, Obj, zip com ficheiros obj, mtl e imagens, e o VRML que ao contrário do que anunciam no site não funciona, talvez porque um objecto em VRML seja mais do que um conjunto de vértices, arestas e superfícies com informação de cor e textura... seria interessante que a visualização de VRML incluísse a interacção.

(Gostaram do UFO... e eu a pensar que iam gostar mais do Eagle, que é o modelo mais visto da minha página. Mas... isto sim, é começar bem o último dia de 2012!)

domingo, 30 de dezembro de 2012

#FFFFFF_bent


24_julho_sort


Lord Of Light



Roger Zelazny (2004). Lord of Light. Nova Iorque: EOS.

Tornar-se um deus é uma boa forma de se manter no topo da pirâmide social, como na antiguidade os faraós egípcios e os imperadores romanos já tinham percebido. A tripulação de uma nave geracional encontra a forma perfeita para se manter como a classe dominante num planeta distante, colónia de uma Terra esquecida e talvez desaparecida. Negando aos colonos e seus descendentes os benefícios da tecnologia, assumem-se como entidades divinas utilizando aparatos tecnológicos como símbolos de magia sobrenatural. Das mitologias possíveis que estes tripulantes poderiam escolher a selecção recai sobre o hinduísmo. Quase imortais graças a tecnologias avançadas de transferência de consciência, todo-poderosos graças a equipamentos que os descendentes de colonos não dispõem, estes falsos deuses reinam sob um planeta moldado à sua medida. Controladores das máquinas de reencarnação, garantem a pureza ideológica da população. Esmagam quaisquer ressurgimentos tecnológicos pela raiz, não hesitando em arrasar cidades inteiras por heresias como a invenção da impressão, canalização ou lentes. Feitos tecnológicos são mistificados como mitos. Guerras assumem a forma de epopeias heróicas e a quase aniquilação da população nativa do planeta é mitificada como uma luta entre deuses e demónios.

Mas Sam, um dos falsos deuses, pensa de forma diferente. Vive no meio da população e vai espalhando uma mensagem de paz e inconformismo que lentamente toma raízes. Provoca dissensões no seio da casta deificada que reina. Encontra aliados entre os demónios. E provoca convulsões que abalam a ordem estabelecida e propiciam finalmente a possibilidade de progresso tecnológico humano. O triunfo final não é uma absoluta vitória da liberdade sobre o misticismo, antes uma difusa aliança entre forças opostas para proveito mútuo. Pregador do budismo como pedra na engrenagem deísta, sem planos definidos mas muito talento para desenrasque em situações bicudas, Sam é um dos tripulantes originais que, inconformista, luta de forma assimétrica contra o poder ilegitimamente estabelecido sob a capa do obscurantismo religioso.

Sátira anti-misticista sob a pele de obra de ficção científica, Lord of Light caracteriza-se por uma extraordinária fluidez linguística que mistura elementos míticos com tecnológicos e o banal com o sagrado. História circular, repetindo o ritmo dos ciclos místicos orientais, mergulha-nos num mundo onde os mais fantásticos aparatos sobrenaturais são tecnologias descrita sobre outro ponto de vista, os deuses adoram pausas para um cigarro, a promessa pós-humanista de imortalidade digital e migração entre corpos artificiais se consuma como um ciclo de reencarnações e quem desagrada aos poderes instituídos acaba reencarnado como criatura não humana e as résteas de uma facção cristã dominam hordes de zombies. Típico de uma obra de Zelazny, os trocadilhos linguísticos elegantes sucedem-se com um ritmo de sagacidade bem humorada.

meio grau abaixo de zero






Que não é assim tão frio quanto isso. Peregrinação anual aos píncaros da serra, para espairecer os neurónios.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Vimanarama


Grant Morrison, Philip Bond (2005). Vimanarama. Nova Iorque: DC Comics.

Uma boa dose de demência ao estilo inconfundível de Grant Morrison às voltas com uma interpretação muito livre dos mitos hindus. Em Vinamarama, Morrison liberta acidentalmente no planeta antigos demónios das epopeias hindus e as únicas forças capazes de os travar são encarnações tecnológicas das divindades. O caminho é intrigante. Morrison trata os mitos como interpretações de visões de alta tecnologia por parte daqueles que as vêem como magia, mas fá-lo num estilo leve e bem humorado. Vimanarama oferece-nos forças devastadoras da antiguidade à solta pelo mundo, delírios psicadélicos e uma radiosa utopia pós-humana. Tudo servido em cores brilhantes com um toque da estética de bollywood.

44_bent


verde_sort


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Internet ecosystem


"I’ve been immersed in the Internet ecosystem for almost two decades now, and the surge of information has been increasing exponentially throughout that time, a real firehose of data, much of it unstructured. I devour more new facts in a day than my ancestors ate in a lifetime. There’s a real richness to it, but there’s also powerful existential indigestion. And when you swallow the world’s information, there are inevitable toxins, so many raw, wild, and often conflicting chunks. 

In the 21st century, with so much knowledge created every day, hour, minute, second, we have many sources of confusion: new studies reverse the findings of older studies, new interpretations of facts radically change perspectives, there’s a real crisis of authority, a question whether we know what we know. 

I find myself questioning everything I read, hear - even what I see with my own eyeballs... "

Bruce Sterling a definir com uma impressionante exactidão a explosão cognitiva da internet nas salvas de abertura do diálogo State of the World 2013 com Jon Lebkowsky. Vale a pena ler. É uma conversa lúcida entre vozes que têm o dedo no pulso na modernidade contemporânea e a capacidade de interpretar e antever as tendências que modelam o mundo que nos rodeia. Entre outras ideias interessantes, a deselegância chinesa que impede uma maior influência global, os encantos de Zagreb ou como não é preciso competir com Londres, Paris ou Nova Iorque para ser uma cidade interessante, o momento Coreano (como o Japão nos anos 80...), a sofisticação progressiva de Bollywood, a evolução do poder suave turco e o domínio do mundo digital pelo que Sterling apelida de stacks, as grandes empresas do mundo tecnológico que controlam fluxos de informação ou constroem os equipamentos para consumo de informação mas cuja enorme influência económica e conceptual não se traduz em acções concretas sobre plataformas tradicionais. Talvez por falta de consciência da importância de influenciar decisões políticas, ou por um espírito de reconhecimento de inutilidade das instituições tradicionais num mundo digitalizado. Para mim, ligado à tecnologia e à educação por gosto e profissão, esta leitura vale logo pelos parágrafos que cito no início deste post. A internet representa uma explosão cognitiva ímpar na história da humanidade e Sterling sublinha a incomensurável vastidão de conhecimento produzida. Note-se que não fala da qualidade mas da pertinência desse conhecimento, da explosão de ideias e da necessidade de adaptação a este realmente admirável mundo novo.

The Well: State of the World 2013: Bruce Sterling and Jon Lebkowsky

Falhas sistémicas



Presidentes dementes esmurraram o botão vermelho que libertava os mísseis nucleares intercontinentais, mas o sistema eléctrico passou um bom par de décadas sem manutenção. Houve faíscas, saiu um fuminho com cheiro a plástico queimado do interior da consola do botão vermelho, mas os alarmes nem chegaram a acordar os soldados adormecidos de vigilância nos silos subterrâneos. Os mísseis continuam plantados no subsolo, a aguardar hidrazina fertilizante e a ordem que os liberte para semear ogivas atómicas múltiplas a partir da estratoesfera. Aguardam, pacientes, pelo seu momento de glória suborbital enquanto os técnicos labutam para reparar as ligações eléctricas das consolas de lançamento.

Também não apareceram vírus mortais ou bactérias antropofágicas, deuses vingativos ausentaram-se, asteróides falharam redondamente a pontaria, cataclismos naturais mantiveram o tempo geológico como escala de referência para medir velocidades de actuação, as gosmas cinzentas de robótica nanotecnológica auto-replicante preguiçaram nos laboratórios e nenhuma espécie alienígena mais afoita se deu ao trabalho de invadir este traseiro de judas com raios da morte e outras armas de aniquilação maciça.

torres_vedras





Aproveitar a revisão do carro para um longo passeio pedestre pelas ruas tranquilas de Torres Vedras.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Vamiré


J.-H. Rosny (1905). Vamiré, Romance dos Tempos Primitivos. Lisboa: Livraria Editora.

"Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal, levada por um homem que a não tratava severamente, começou a sentir uma vaga curiosidade, deixando descansar a cabeça e a parte superior do peito no ombro de Vamiré."

Decididamente a passagem mais divertida de Vamireh, romance clássico dos irmãos de Rosny que sob o olhar do século XIX tenta reconstituir a vida primitiva através de uma aventura em que o epónimo Vamiré, corajoso caçador e prendado homem das cavernas, vive um périplo cheio de peripécias por entre as florestas primevas. Impelido pela curiosidade, desbrava as florestas, rapta uma futura apaixonada de uma outra tribo proto-humana, defende piedosamente um grupo de neandertais das ameaças de outros proto-humanos e dos seus cães domesticados, adopta um macaco de estimação, sobrevive a violentos encontros com animais selvagens e regressa enfim à sua tribo original, acompanhado de uma amada de outra tribo e com o prestígio de corajoso explorador, caudilho destemido e diplomata que conquista alianças com uniões amorosas.

Esta passagem, hoje capaz de arrepiar qualquer pessoa de bom senso pelo seu sexismo implícito e estereotipagem de género, mostra-nos o momento em que o herói rapta uma inocente rapariga de outra tribo. No terror do rapto e da fuga, ainda tem tempo para se sentir atraída pelo raptor. Mulher afinal, observa a tradução.

"Ao longe, na planície, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os gestos. Armados de grandes arcos e lanças velozes, cobertos de mantos tecidos com fibras de plantas e lã de animais, eram por ela confusamente cotejados com Vamiré, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria também salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impressão feminina de que a violência do homem não era uma injuria, a força de Vamiré, a atracção do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu espírito semibárbaro, não permitindo a fixidez de um desejo."

Apesar de datado, ultrapassado por mais de um século de descoberta científicas, e olhando as sociedades primitivas sob um hoje obsoleto espírito de fardo de homem branco misturado com a sensação de superioridade europeísta de fin de siécle, Vamiré é um retrato convincente dos tempos pré-históricos. Reflecte o estado da arte arqueológica da época de J.-H. Rosny e, como aventura de tom proto-pulp, vai empolgando o leitor com a sucessão de peripécias do périplo do corajoso bárbaro pré-histórico que armado com a sua curiosidade, inteligência, coragem e artefactos vence todos os perigos e mistérios da floresta primeva da noite dos tempos.

Vamiré pode ser lido online numa tradução portuguesa de 1905 no Projecto Gutenberg ou descarregado em vários formatos de ebook. Também está "reeditado" para epub e mobi na Amazon e Kobo a preços que parecem convidativos para quem não sabe que estes formatos também estão disponíveis gratuitamente no Gutenberg. Ora eis uma ideia interessante: pegar em livros gratuitos do Projecto Gutenberg, colocar uma imagem de capa e pôr à venda como edições fieis à edição original em diversas lojas online...

44_bent


Red Light Properties



Dan Goldman (2012). Red Light Properties. Austin: Monkeybrain.

Um webcomic inventivo, que se distingue pelo estilo gráfico que mistura grafismo clássico da bd com fotografia e o hiperrealismo da renderização em 3D. Um casal desavindo vive de um negócio pouco convencional: exorcizar assombrações que impedem a venda de imóveis. Esta premissa é uma boa desculpa para um daqueles comics em série, que vai fazendo evoluir os personagens ao longo de peripécias marcantes. Red Light Properties é uma leitura divertida e intrigante.

O comic pode ser lido online no site da TOR - Red Light Properties e está disponível no ComiXology.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

<-


Retrovirus




Jimmy Palmiotti, Norberto Fernandez (2012). Retrovirus. Berkeley: Image Comics.

Arquivar na categoria de promissor mas aquém do prometido. Palmiotti arranca com uma premissa interessante: uma corporação de pesquisa biomédica sequencia o código genético de neandertais, clona-os numa base secreta da antártida e observa os comportamentos das tribos ressuscitadas que depressam aprendem a fugir aos ambientes artificiais onde são enjaulados. Este panorama ficcional fantástico fica-se como cenário a uma história banal de uma cientista boazona louraça que é levada à base secreta para descobrir uma cura para um vírus de que os neandertais são portadores, apenas para sobreviver ao previsível massacre dos seguranças e cientistas humanos frente a uma horde de neandertais mais espertos do que pareciam. E apaixonar-se pelo chefe de segurança, um belo naco de carne que gostava de conversar com ela através das câmaras de segurança estrategicamente colocadas nos seus aposentos privados. Quanto ao vírus, não causa doença nenhuma, apenas esterilidade, e estava a ser desenvolvido como arma bacteriológica.

O que é interessante neste comic é a forma como tudo o que desperta o interesse é relegado para segundo plano, para cenário, e o previsível e entediante formam o cerne da história. Um caso puro de tiro ao lado. A ilustração de Norberto Fernandez é competente sem se tornar memorável.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sketchfab



Às voltas com o Sketchfab, um visualizador online em tempo real de modelos 3D.

A Mina do Deus Morto



João Barreiros (2012). A Mina do Deus Morto. Lisboa: Diário de Notícias/Escrit'orio

Deus está morto, atomizado em partículas cognitivamente influentes que se espalharam pelo vasto universo. Precioso recurso natural, estas partículas são desbravadas por mineiros deficientes mentais, os únicos capazes de sobreviver à expansão mental provocada pela exposição às partículas deístas. Este conto de João Barreiros insere-se no mundo ficcional retro criado para a antologia Lisboa no Ano 2000, uma realidade alternativa influenciada pela estética steampunk e onde, na visão única do autor, pedacinhos microscópicos conscientes de um deus atomizado são os responsáveis pelas capacidades das inteligências mecânicas... e um perigo lucrativo para a ordem estabelecida.

É de notar que Barreiros consegue em contos curtos criar vastos mundos ficcionais coerentes, e este A Mina do Deus Morto é um dos melhores exemplos. Conciso, maquiavélico, cru e violento nas palavras, abre panoramas ficcionais que vão muito além das curtas páginas do conto.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Divertimento Jurássico


Acabou aqui... (Bryce 7 PLE)


Começou aqui... (Vivaty Studio)


Passou por aqui (Meshlab)


Ainda precisou disto... (UV Mapper)


E a culpa é disto: um dos alunos de TIC - 8.º ano quer como projecto final de semestre modelar em 3D um velociraptor. Antes de avançar, eu tinha de fazer provas de conceito que estão a ser aproveitadas para animação de avatares. Mas isso ainda é outro longo caminho.

Desassossego

Uma boa surpresa no átrio da Cinemateca: uma exposição de desenhos, cenários e adereços do filme de animação em stop motion Desassossego.


Um cenário completo.


Elementos para o boneco em stop motion, com a gama de rostos a utilizar num dos personagens.



Detalhes do cenário

É interessante ver através dos objectos expostos a complexidade e os detalhes minuciosos desta técnica de animação. Dessassossego é uma produção da Sardinha em Lata realizada por Lorenzo Degl'Innocenti. O trailer está no YouTube.

Salammbô I


Inspirado na obra homónima de Flaubert, Philippe Druillet reapropriou em três álbuns o clássico Salammbô na sua perspectiva única de space opera psicadélica. Estou a dar os primeiros passos nesta obra, e fiquei completamente deslumbrado. É um traço de época, enquadrado na ilustração de cariz cósmico e psicadélico com toque surrealista dos anos 70. O olhar perde-se no excesso barroco de pormenores que enchem as pranchas. Elegante, ritualizado, surreal, reminiscente de vastas paisagens imaginárias. Profundamente cósmico.



De encher o olho, a contemplar durante horas a fio. Simplesmente extraordinário. Altera a percepção da vastidão narrativa da banda desenhada. A bela e exótica Salammbô, as portas de uma Cartago de space opera, a demência arquitectónica da cidade... ilustrações que me deixam sem fôlego.

domingo, 23 de dezembro de 2012

india_bent


O mundo ainda não acabou?

White Knuckle


Cy Dethan (2012). White Knuckle. Plymouth: Markosia.


O estilo visual da ilustração é o mais interessante nesta história sobre um serial killer envelhecido que graças aos volteios do acaso se vê numa relação de interdependência com a filha de uma das suas vítimas. Legível, mas não particularmente memorável.

La Nuit


Philippe Druillet (1981). La Nuit. Paris: Les Humanoïdes Associés.

Druillet exorciza o falecimento da sua esposa neste álbum ao mesmo tempo assombroso e repelente, violento, confuso e expressivo. É uma elegia gritante onde a violência sem sentido termina num silêncio de memórias.

sábado, 22 de dezembro de 2012

272_bent


WIRED UK: The World in 2013


Estas previsões para o próximo ano servem mais como um registo do estado actual da arte do que como mapa do futuro. Nesta edição especial da Wired UK são apontadas tendências tecnológicas, sociais, políticas, económicas e ecológicas que poderão modelar o futuro próximo e modificar as percepções da realidade. A destacar o ensaio de James Dyson sobre engenharia como forma de ecologia, fugindo às receitas de mega-geoengenharia e apontando que ganhos em eficiência se traduzem em ganhos ecológicos e que esses não advéem de grandes iniciativas mas da agregação de inúmeros pequenos ganhos incrementais (ou como dizia a minha avó, grão a grão enche a galinha o papo); a mudança de percepção sobre comportamentos até agora considerados doença mental, particularmente notória em comportamentos sexuais anteriormente considerados como desviantes mas agora vistos como normais; as implicações assustadoras do marketing sinestésico, que olha para padrões de relacionamento entre cores, sons e sensações para vender tralha de forma mais eficaz, e rastreamento em tempo real de atitudes e emoções dos utilizadores de televisão, videojogos e equipamentos digitais. Se achamos que a privacidade se esvai nos serviços online que hoje utilizamos, em breve esses serviços podem detectar as nossas emoções, cortesia de câmaras de video, sistemas de reconhecimento facial e posicionamento. Estas e outras tendências estão apontas neste bloco de notas para um futuro próximo. Nota curiosa: é interessante ver como os MOOCS passaram em menos de um ano de conceito indefinido a destaque na revista Wired.

Vislumbres de outras configurações

O cinema frenético (e/ou o cinema barroco) pede ao espectador um regresso, diz-lhe: "não me vejas uma só vez, faz-me companhia, vais ver que não te arrependes e que te darei muitas surpresas e novidades, realidades subterrâneas e trans-dimensionais, vislumbres de outras configurações do real".

Edgar Pêra, sobre o Manual de Evasão LX94. Texto da sessão de 21 de Dezembro de 2012 na Cinemateca.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim


The Doors, The End. Encontramo-nos no próximo apocalipse milenarista?

and i feel fine


REM, It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine).

Abrigos


Rolling Stones, Gimme Shelter. Para cantarolar enquanto se busca abrigo por entre os destroços da civilização na paisagem devastada pelos fogos nucleares.

Abri os selos!



E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê.
E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.
E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê.
E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.
E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão.
E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.
E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.
E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra. 

Apocalipse 6:1-8

Ecce homo


Johnny Cash, When The Man Comes Around. Que apocalipse seria este sem uma pitada de milenarismo religioso?

Todos os domingos


Morrisey, Everyday is like sunday ou apocalipse nuclear para abrir o apetite.

Gritos telúricos


Tom Waits, And The Earth Died Screaming.

Até ao fim do mundo


Cortesia dos U2 e Wim Wenders.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Earth Wars



Geoff Hiscock (2012). Earth Wars: The Battle For Global Resources. Singapura: John Wiley and Sons.

Este livro promete ser uma análise aos desafios à escala planetária trazidos pelo modelo de desenvolvimento capitalista e a necessária finitude dos recursos naturais. Fica-se por uma litania de grandes negócios e análises superficiais aos maiores jogadores das áreas da energia e minérios à escala global.

As imagens que se retiram deste livro é que sim, os recursos são escassos, mas não tanto quanto isso porque estar no pico de uma curva descendente ainda implica um longo caminho até ao fundo, sempre com oportunidades de negócio. O escassear de recursos até é coisa boa, porque aumenta as possibilidades de lucro e incentiva à exploração de zonas remotas do planeta. O ambiente é um empecilho, a sua protecção apenas serve para criar barreiras àqueles que altruísticamente investem na exploração de recursos naturais para dar energia e materiais à indústria para produzir todos os bens de consumo. Que interessam umas florestas ou protecção de ecossistemas face às maravilhas da electrónica de consumo com obsolescência planeada? Excepção seja feita no campo das energias renováveis, onde o gosto pela ecologia se pode traduzir em contratos lucrativos para construção de barragens, parques eólicos ou solares.

E, claro, regimes totalitários corruptos são uma benesse para a humanidade porque os seus líderes estão desejosos de abrir as portas dos seus vastos territórios aos grandes tubarões da exploração dos recursos naturais. Tudo em nome do progresso industrial e financeiro.

A leitura deste livro não é uma perda total de tempo. O catalogar semi-exaustivo de empresas envolvidas na extracção mineira e produção energética, combinado com retratos verosímeis da evolução das necessidades energéticas mundiais trazida pela emergência da China e Índia, junto com outros países de desenvolvimento acelerado combinado com a progressiva decadência da Europa e América do Norte dão-nos um retrato actualizado de um vasto sistema global que se estende das grandes metrópoles planetárias aos locais mais agrestes e isolados com o fim único de lucrar extraindo recursos para transformação em matéria prima ou energia. E é essa a virtude deste livro. Inocentemente, apregoar que acima de tudo, do progresso humano, do ambiente, está o lucro. Mesmo que para se obter mais uns cêntimos se tenha que arrasar um planeta.

marginal_bent


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Midnight Nation



J Michael Straczynski, Gary Frank (2010). Midnight Nation. Berkeley: Top Cow

Redenção e obtenção da liberdade individual mesmo que a custo do que nos é mais precioso são os grandes temas que balizam este intrigante Midnight Nation. Este périplo de descoberta passa-se num mundo semi-paralelo ao nosso, uma quase realidade habitada por aqueles em que ninguém repara e se esfumam num esquecimento colectivo. Criaturas violentas agem como predadores nos grupos de almas extraviadas que sobrevivem nos espaços levemente dessincronizados com o real. É nesta paisagem que um detective auxiliado por uma misteriosa mulher tem de fazer a viagem da sua vida: um ano na estrada, prazo limite para recuperar a alma e no processo descobrir o real significado do livre arbítrio num mundo polarizado entre forças sobrenaturais.

ccb_bent



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

lumen_bent


Breathe


John Sheridan, Kit Wallis (2008). Breathe. Stevenage: Markosia

O estilo leve e influenciado pelo manga do ilustrador confere algum interesse a este comic. A premissa poderia ser interessante, se o argumentista não a tivesse desenvolvido com o nível de competência de um adolescente semi-letrado a escrever uma composição na escola para um professor entediado. Na China do século XIX a família de uma jovem é assassinada e o percurso de vingança vai revelar os segredos ocultos pela normalidade da vida na aldeia. É um arranque típico para muitas histórias, mas a sucessão desconexa de revelações e situações sem sequência lógica desperdiça qualquer bom princípio narrativo.