Mais uma brilhante cretinice que fica para os anais da pouco brilhante política portuguesa: num sinal de clara compreensão de um dos mais elementares princípios democráticos, os delegados ao congresso do psd que reuniu aqui ao lado em Mafra votaram um estatuto interno que pune militantes que expressem críticas ou opiniões divergentes às da direcção do partido alguns tempos antes de eleições. É um belíssimo sinal de respeito por princípios elementares da democracia - o da liberdade de expressão, se não estou em erro, em nome de uma visão de eficácia e união que faz a força, mesmo que forçada (mas que digo eu, não sei o que se passa na cabeça de militantes partidários, especialmente de direita).
Pelos media já circulam as habituais comparações com o estalinismo, que, observe-se, para além de fuzilar ou enviar para o gulag os seus mais ínfimos opositores também se especializou em vistosos julgamentos públicos onde os favoritos de ontem confessavam os seus enormes crimes após a queda em desgraça, manipulava activamente estatísticas (com o condão de transformar anos de fome em anos de sucesso agrícola) e aerografava as fotos oficiais para fazer desaparecer por artes mágicas. Orwell não inventou nada com o seu ministério da verdade.
E a notícia interessa? Que um bando de seguidores de uma linha ideária optem pela auto-censura forçada parece pouco importante, até nos lembrarmos que é um dos dois grandes partidos do país (ou uma das duas grandes agências de emprego do país, depende do ponto de vista). Muitos destes correligionários irão desempenhar cargos públicos no inevitável rotativismo político. Imagine-se o espírito do seu desempenho. Ou estás conosco ou... estás processado, afastado, ostracizado. Livrem-se de expressar opiniões e pensamentos impróprios.
Pior, é mais um sintoma do resvalar conservador em que deslizamos. As liberdades e direitos existem, mas o consenso social é numa espécie de ideário melífulo/catastrófico propagado pelos media (que nestes últimos tempos parecem agir de forma decalcada das observações de Naomi Klein em The Shock Doctrine) centrado num ideário específico de crise e eficiência. Quem dele se desviar paga por isso. Ou cala-se, porque teme perder um emprego ou quer evitar problemas e pressões. Mas não surpreende muito. Até ao século XX (e desconta-se uma grande parte deste) Portugal não teve tradição de liberdades incómodas. Às vezes penso que é herança genética da inquisição.