Urge estimular o desenvolvimento de aplicações de tecnologia na escola. Para isso, podem ser utilizadas várias ferramentas, que estimulem novas formas de trabalho e interacção entre os alunos. Se a escola não o fizer, correrá o risco de se tornar uma instituição obsoleta, pouco capaz de preparar indivíduos para agir numa sociedade globalizada, que vive em mudanças rápidas, num fluxo potenciado pelas tecnologias digitais que estão a levar ao desenvolvimento de novos modelos sociais, económicos e políticos.
As novas gerações crescem rodeadas de tecnologia. O ambiente mediático, apoiado em vários suportes tecnológicos, é a norma. Os jovens habitam um mundo de media diversificados, consumidos muitas vezes em paralelo, como observa Cardoso (2007) ao observar que o consumo de televisão se faz ao mesmo tempo que o de internet. Os telemóveis, os computadores, as redes, são utilizados pelos jovens como forma lúdica, como ferramenta de aprendizagem sobre o mundo que os rodeia, como forma de modelarem o mundo que os rodeia, afirmando as suas escolhas culturais e potenciando os seus laços sociais.
A emergência da internet veio transformar a sociedade em que vivemos. As comunidades, mediadas pela tecnologia, perderam o seu carácter local, anulando a geografia e estendendo o contacto social ao nível global.
Estão a surgir novos modelos sociais, políticos e económicos. Castells (2004) agrega um novo paradigma económico baseado na informação como elemento básico da economia com o poder crescente das comunidades para definir o conceito de sociedade em rede, um novo modelo social emergente que coloca em causa as estruturas tradicionais. As empresas tiram cada vez mais partido da rede (Tapscott e Williams, 2007); os indivíduos também, quer a nível pessoal (comunidades de amizade baseadas na partilha de interesses) quer a nível profissional, de prosuming (Toffler, 2006), de comunidades de prática. A rede gera alterações aos modelos tradicionais, permitindo novas formas de intervenção política que ganham força, mas que, como Giddens (2000) e Zizek avisam, podem levar a um reforçar de valores tradicionais pelos que se sentem ameaçados à estabilidade e valores instituiídos por uma sociedade em acelaração constante, que vive num fluxo de mudanças.
A escola não pode ficar alheia as estas mudanças. Por um lado, trabalha com uma geração de alunos cada vez mais habituada à tecnologia, cujas formas de organização se afastam cada vez mais dos ritmos e tempos do espaço escolar. Por outro lado, deve preparar cidadãos capazes de enfrentar e responder aos desafios do futuro, capazes de se integrarem e agirem numa sociedade cada vez mais global, flexível, onde o posicionamento do indivíduo face à rede e a capacidade de agir em redes é a competência dominante. Face a estes desafios, a escola tem de se adaptar, modificando o seu modelo tradicional para dar resposta às necessidades das novas gerações. Se não o fizer, agrava o fosso entre as necessidades reais dos indivíduos e conceitos de educação que a marcha inexorável da sociedade torna obsoletos, correndo o risco de se tornar uma instituição paradoxal: essencial para o desenvolvimento do indivíduo e sociedade, mas ineficaz no desempenho deste papel.
A abertura da escola à tecnologia pode assumir variadas formas. Uma das mais promissoras é a adopção de tecnologias e modelos advindos do conceito de web 2.0. O potencial do seu uso advém da sua contemporaneidade – são ferramentas que, fora da escola, os alunos já utilizam, embora com fins socializantes; agarra o poder das comunidades, com o potencial de envolver cada aluno em aprendizagens grupais e colaborativas. O seu carácter multi-plataformas permite libertar alguns constrangimentos tecnológicos e económicos, permitindo o uso de vários equipamentos com vários graus de usabilidade (caso do telemóvel), diminuindo o risco de info-exclusão pelo acesso a ferramentas gratuitas, na maior parte dos casos, que não dependem de hardwares específicos, mas que os transformam em bens de consumo intercambiáveis.
Com base nestas ideias, proponho a seguinte actividade:
Público-alvo: turma de sexto ano de escolaridade, na área disciplinar de Educação Visual e Tecnológica.
Actividade: Conta a tua história
Materiais e recursos: Computadores, acesso à internet, máquinas fotográficas digitais/telemóvel.
Recursos Web 2.0:
Aviary: http://a.viary.com/tools
Picnik: http://www.picnik.com/
Zoho: http://zoho.com/
Google docs: http://docs.google.com/
Wikipedia: http://www.wikipedia.org/
Planeamento da actividade:
Temática: partilhar a história e o o património local, recolhendo tradições, documentando espaços arquitectónicos ou paisagísticos. Esta temática insere-se dentro dos objectivos da àrea disciplinar
Produto final: criar um weblog que recolha textos, imagens e videos produzidos pelos alunos.
Objectivos:
Da disciplina: explorar a temática do património local; desenvolver aprendizagem de recusos estéticos; estimular a criatividade.
Da utilização das ferramentas digitais: fomentar a criação de comunidades; explorar usos éticos da informação; explorar aplicações online; recorrer ao telemóvel como ferramenta de recolha de informação.
Metodologia:
1 - Divisão da turma em grupos de trabalho, fomentando o trabalho colaborativo.
2 - Exploração de recursos online:
Wikipedia, como fonte primária para recolha de informação. Sublinha-se o carácter pouco rigoroso da informação. A recolha de informações através da Wikipédia terá de ser cruzada com informações recolhidas noutros suportes (biblioteca, trabalhos prévios, fontes orais). Explora-se também a importância da partilha ética de informação online, estimulando a identificação de fontes de texto ou imagem, e sublinhado que o uso não autorizado de informação é pernicioso.
Blogger, como plataforma de publicação. É uma plataforma simples e intuitiva, fácil de utilizar, que permite a partilha global de conteúdos produzidos pelos utilizadores. Cada grupo de alunos terá de criar um perfil google, para que lhe seja atribuída a edição do blog. Este blog assume um carácter colaborativo, com os vários utilizadores como editores.
Zoho ou Google Docs, duas aplicações online que permitem edição de texto, folha de cálculo e outras funcionalidades (wikis, calendários e outras ferramentas integradas no caso do Zoho). Pretende-se explorar o carácter colaborativo das aplicações web 2.0, através de ferramentas que permitem edição de documentos por múltiplos utilizadores e que colocam os trabalhos produzidos online, onde estão sempre acessíveis, a qualquer momento e numa grande variedade de plataformas. Sublinha-se que o trabalho produzido não necessita de ser guardado em suporte local (dispositivo flash ou disco rígido). A escolha das aplicações será feita pelos alunos. A exploração das aplicações envolve a produção de um pequeno texto, explorando os recursos básicos do processamento de texto.
Aviary Phoenix ou Picnik, como ferramentas de edição de imagem, explorando os recursos básicos das plataformas.
Dailymotion, como plataforma de publicação de videos online.
Acesso à web, câmara digital, telemóvel: exploram-se aqui conceitos básicos, ética de utilização, potencialidades das ferramentas.
3- Criação do espaço comunitário, um blog, em grande grupo.
4 - Recolha e produção de textos, imagens e videos. A produção dos textos será feita recorrendo às aplicações Zoho Writer ou Google Docs. Espera-se que os alunos utilizem as aplicações para lá do espaço da aula. A recolha de imagens poderá utilizar máquinas fotográficas digitais ou telemóveis com câmara integrada, caso os alunos disponham destes equipamentos.
5- Manipulação de imagem no Aviary ou Picnik, actividade específica da disciplina, estimulando-se a utilização criativa dos vários recursos destas aplicações.
6 - Publicação no blog: cada grupo, após elaborar o seu texto, revisto pelo professor, publica texto e imagens no blog da turma. Divulgação do mesmo.
Com esta actividade, procuro aproveitar com os alunos vários dos recursos Web 2.0 já existentes, bem como ferramentas digitais que à partida não são consideradas úteis em contexto escolar. Para além deste objectivo, pretende-se estimular nos alunos formas de trabalho colaborativas, dando uma contribuição para a sua preparação como elementos actuantes na complexa sociedade futura.
Referências
D’Souza, Q. (2006). Web 2.0 Ideas for Educators. Acedido em 26 de Janeiro, 2008, disponível em http://www.scribd.com/doc/3273/100-Web-20-Ideas-for-Educators
Castells, M. (2004). A Galáxia Internet: Reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Cardoso, G., et al. (2007). Portugal Móvel: Utilização do Telemóvel e Transformação da Vida Social. OberCom. Acedido a 11 de Outubro de 2008, disponível em http://www.obercom.pt/client/?newsId=29&fileName=rr4.pdf
Cardoso, G., Espanha, R., Lapa, T. (2007). E-Generation: Os Usos de Media pelas Crianças e Jovens em Portugal. Lisboa: CIES/ISCTE. Acedido a 11 de Outubro de 2008, disponível em http://cies.iscte.pt/destaques/documents/E-Generation.pdf
Giddens, A. (2000). O Mundo na Era da Globalização. Lisboa: Presença
Hargadon, S. (2008). Web 2.0 Is The Future of Education. Steve Hargadon, 4 de Março de 2008. Acedido a 11 de Abril de 2008, disponível no endereço web http://www.stevehargadon.com/2008/03/web-20-is-future-of-education.html
Tapscott, D. e Williams, A. (2007). Wikinomics. Lisboa: QuidNovi
Toffler, A. e Toffler, H. (2006). A Revolução da Riqueza. Lisboa: Actual Editora
O’Reilly, T. (2005, 30 de Setembro). What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. Acedido em 16 de Janeiro, 2008, disponível em http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-20.html