sábado, 31 de outubro de 2009

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O calendário aponta para o inverno mas o tempo sabe a verão. No entanto o mar não se engana.

À Prova de Morte



IMDB | Death Proof

O gozo que deve ter dado participar neste filme toca provavelmente as raias do obsceno. Death Proof é um daqueles filmes que não se leva a sério, nem por quem o fez nem por quem o vê, o que o torna numa obra muito divertida. O filme é uma homenagem de Tarantino a tudo o que é filme de série B, a todos aqueles épicos mal filmados, com argumentos ilógicos e péssimos actores que agraciaram a paisagem dos tempos do VHS. Death Proof mistura tudo num cocktail estilizado: cinema de Hong Kong, filmes apocalípticos italianos, pastiches de cinema de acção e um certo fascínio por automóveis clássicos e perseguições a alta velocidade.

Os actores são fieis ao espírito do filme. Sem necessidade de agir com a seriedade de um filme que se enquandre mais nos parâmetros do normal, e sem precisar de puxar à lágrima como nos melodramas baratos que fazem as delícias das audiências, a sua representação mostra um enorme prazer em esticar os limites das personagens estereotipadas e unidimensionais. Prova disso é Kurt Russel, no papel principal de Stuntman Mike, o vilão (ou anti-herói?) de Death Proof, a levar a sua actuação ao absurdo histriónico - precisamente o espírito do filme.

Death Proof resume-se em poucas frases. Inicia-se numa cidade do Texas, onde quatro amigas vão terminar uma noitada por entre o metal retorcido de uma colisão frontal provocada pelo inefável Stuntman Mike, dono do veículo à prova de morte. A cena da colisão é o climax do filme, que segue em crescendo até ao momento de violência extrema (com Greg Nicotero nos efeitos especiais pode-se esperar muito sangue e tripas, e Tarantino mostra-nos a colisão de diversos pontos de vista, cada qual o mais mórbido) e vai decrescendo até ao final inconclusivo. Termina com o castigo do assassino, após uma perseguição a outras três amigas no seu carro clássico onde o caçador se transforma em presa.

Pouco profundo no conteúdo, o filme revela-se no estilismo, fiel ao acaso descuidado dos filmes B. Parte do filme aposta num visual de celulóide gasto, com cores exageradas, parte resvala para o preto e branco sem ligação com o argumento, e termina com um trabalho de câmara aparentemente deslavado, sem vivacidade. Os erros - intencionais - são muitos, com imagens que se repetem (como se a fita saltasse), enquadramentos que ficam suspensos e dessincronizações de som. Mas é esse o objectivo do filme, homenagear todo o mau cinema low budget, em que a cena tem que ficar pronta à primeira mesmo que os actores representem mal, o cenário cai ou a fita se acabe antes do final da gravação. Tão mau, tão mau que se torna bom, como se costuma observar sobre este género de filmes. E sendo da autoria de Quentin Tarantino, ainda podemos esperar os seus famosos diálogos carregadinhos de expressões de fazer corar um carroceiro, bem como uma banda sonora retro e revivalista impecável. Death Proof é o filme mais divertido e menos pretensioso com que me cruzei nos últimos tempos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Media

Que sorte, deve ter pensado a jornalista destacada para cobrir esta manhã a escola de Lisboa a que pertencia a criança que faleceu por complicações devidas à gripe A. Para lá do bulício habitual das entradas na escolas, reuniam-se muitos pais e encarregados de educação preocupados. O grande momento foi o discurso de uma familiar da criança falecida, exortando os pais a não deixarem as suas crianças entrar na escola, num apelo catastrófico e catastrofista. Foi um momento raro, mediatizado e a acontecer em directo e tempo real, instantâneamente disponível em todo o país nos ecrãs de televisão. Foi um puro momento de realidade aumentada pelos media.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Leituras

The New Yorker | Unmasked Para lá da elegante capa de Chris Ware para a New Yorker, a edição desta semana publica uma banda desenhada de quatro páginas do mesmo autor.

Gizmodo | Losing Net Neutrality: The Worst Case Scenario Um cenário de sonho para ISPs e corporações detentoras de direitos de autor, de pesadelo para todos os outros: uma internet acessível em escalões, em que a quantia que se paga determina precisamente o que se pode fazer online.

Singularity Hub | Self-Parking Car from Stanford and Volkswagen Isto fazia-me jeito, particularmente naquelas manhãs em que tenho que ziguezaguear por entre os carros a entregar crianças para estacionar no meu lugar favorito (precisamente frente ao portão da escola, com a frente a fazer ângulo com a curva do terreno baldio... para estas coisas vale a pena ter um carro pequeno). Mas a tecnologia ainda tem muito que andar. O hardware está aí, mas o software que o controla precisa de saber com antecedência e exactidão o preciso local de estacionamento - e se imponderáveis houver, serão atropelados. Mas não deixa de ser mais um passo.

Next Nature | Your grandparents Google Preencha o campo de pesquisa. Envie pelo correio. Resultados dentro de umas semanas.

Core.Form-ula | core.balance:City-State-SuperStructures designed by Ants Um grupo de cientistas despejou cimento dentro de um ninho de formigas, deixou endurecer e depois escavou à volta. O resultado? Uma visualização da intricada arquitectura de um formigueiro.

io9 | 25 of the Scariest Science Experiments Ever Conducted Ciência Louca... mas real. Algumas experiências roçam os limites da tolerância ética, outras assustam pelo potencial de aniquilar a humanidade ou parte dela (e, no caso do LHC, talvez o universo).

Gizmodo | Interactive Multitouch Sphere Will Make you Feel Like Gandalf Que se lixem os quadros interactivos e os telemóveis/tablets/netbooks multitoque: isto sim é que é!

Pink Tentacle Enquanto aguardamos pela realidade aumentada em lentes de contacto, estes óculos da NEC são uma boa opção: permitem projectar na retina traduções em tempo real de línguas estrangeiras.

Gizmodo | Geocities Is Dead, Long Live Geocities Adeus, Geocities. A Yahoo retirou da internet aquele que em tempos foi o maior dos sites de hosting gratuito. Foi lá que criei o meu primeiro site, nos tempos arcaicos de 1999...

Bruce Schneier | CIA Invests in Social-Network Datamining Ou, como escreveu Neal Stephenson no Snow Crash, "to condense facts from the vapor of nuance".

Peopleware | Nokia pode “sugar” até mil milhões de dólares da Apple O que é que se faz quando a tecnologia que se vende deixa muito a desejar e as perdas financeiras se acumulam? Processase outro gigante da tecnologia por infracção a patentes.

Worldchanging | From Extraction To Consumption: Oil, An Exhibition By Edward Burtynsky Os percursos do petróleo, desde os complexos nós de acesso rodoviário ao cemitério de petroleiros de Alang (que nos dá a foto mais assombrosa deste ensaio).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Serious Virtual Worlds



Sara de Freitas (2008). Serious Virtual Worlds: A Scoping Study. Bristol: JISC.

Serious Virtual Worlds

O sucesso de mundos virtuais como o second life apontam caminhos para a utilização de ambientes virtuais imersivos para enriquecer formas e estratégias de aprendizagem. Este relatório procura caracterizar vários ambientes virtuais contextualizando-os para auxiliar o trabalho de educadores e procura também mostrar como em ambientes imersivos o aprendente se torna um componente central, criando as suas próprias experiências de aprendizagem através da exploração.

Contextualização de mundos virtuais: campo em expansão rápida. Listagem exaustiva será muito difícil, novos ambientes em constante lançamento. Definições: mundos virtuais são ambientes interactivos em 3D ou 2D, imersivos, que são utilizados por vários utilizadores ao mesmo tempo. Aplicáveis em contextos que vão da administração pública à economia. Facetas lúdicas (jogos, chats) são as mais visíveis. Apresentam as seguintes características (FAZ, localizar referência): espaços partilhados, interfaces gráficos, imediatos, interactivos e persistentes. Para além destes, Freitas aponta outras características comuns, observáveis na maior parte das aplicações de mundos virtuais e aplicáveis a uso educacional: controlo do aprendente/utilizador, através da criação de avatares; ênfase na colaboração e criação de comunidades; persistência do mundo, levando ao imediatismo e sincronismo da interacção; interacções e experiências em 3D (relegando para segundo plano mundos virtuais cujos interfaces são 2D (habbo hotel, club penguin) ou apresentações gráficas de vários tipos de dados (Google Earth); inclusão de conteúdos partilháveis e criados pelos utilizadores; imersão e interactividade, conseguida pela representação do utilizador no ambiente do mundo (p:8).

Utilidade educacional de mundos imersivos: apontam-se dois eixos. Adopção de ambientes virtuais para fins lúdicos/de socialização prevalente nas faixas etárias mais jovens. Não implica utilidade educacional, mas sim potencial educacional através de aproximações integradas ao apoio à aprendizagem. Segundo eixo relaciona-se com investigações sobre como aprendemos, mostrando como a actividade cerebral é mais abrangente durante jogos do que durante aprendizagens formais (citando Kato), perspectivas sobre o uso de simulação e imitação enfatizando o visual como formas de aprendizagem: “We can learn from doing through playing and enacting situations, problems and challenges, and at the same time we can learn socially from watching others and replicating behaviours in those we observe around us” (Freitas, 2008, p:9). O potencial dos mundos virtuais insere-se em perpesctivas cognitivistas e construtivistas da aprendizagem, focalizando a interacção, simulação, exploração e construção de conhecimento. Freitas aponta que as aproximações contemporâneas à educação, para além de valorizarem a eficácia e a eficiência, poderão incluir a interactividade, o desenvolvimento do gosto e a capacidade de transformação (manipulação?) como parte integrante das aprendizagens no dia a dia.

Perspectiva histórica: predecessores dos mundos virtuais estão nos MUDs e MOOs dos anos 80 (abordados por Sherry Turkle). Graficamente diferentes (houve evolução das salas baseadas em texto para ambientes gráficos tridimensionais) mantém características comuns e transversais ao longo do tempo: dimensão dialógica das formas (?) e conceito de comunidade. O desenvolvimento das capacidades gráficas dos computadores, banda larga, interoperabilidade de serviços Web e acesso à internet estimularam a recente explosão no campo dos mundos virtuais. Quanto ao seu uso educacional, pode-se apontar um primeiro momento em que as instituições se instalam nos espaços virtuais, replicando os seus espaços físicos. Num segundo momento, é crucial o desenvolvimento de metodologias que permitam a tutores e alunos o desenho e criação de actividades interactivas on-line.

Vários tipos de mundos: jogos multi-jogador e mundos sociais. Os primeiros centram-se na concretização de objectivos de jogo em ambientes 3D, ficando para segundo plano a socialização e a interactividade generalizada. Os mundos sociais não têm objectivos definidos, sendo espaços de utilização livre construídos com conteúdos criados pelos utilizadores. Interacção e socialização, conversa em tempo real e partilha de recursos multimédia são as características primordiais. No entanto, estas linhas divisórias são difusas: os jogos multi-jogador recorrem a comunidades sociais para atingir objectivos de jogo e dentro dos espaços abertos dos mundos sociais surgem comunidades dedicadas de jogo. Mas a principal distinção está na orientação dos mundos sociais não em tarefas mas em interacção social. Apontam-se também os mundos de trabalho: espaços virtuais dedicados utilizados por empresas ou instituições para apoio a comunicação e formação interna; mundos de treino, simulações dedicadas a situações específicas de aprendizagem; e mundos-espelho, visualizações virtuais de colecção de dados geoespaciais, físicos e humanos, replicando espaços reais. Os custos de implementação e acesso variam de acordo com o tipo de mundo. Os maiores custos de implementação encontram-se nos mundos de trabalho e de simulação, que recorrem a plataformas proprietárias dedicadas. Nos restantes tipos de mundos encontram-se vários modelos de financiamento, do proprietário fechado ao software livre.

Freitas analisa alguns estudos de caso de implementação educacional de mundos virtuais:
Active Worlds: num dos mais antigos mundos virtuais, relata a experiência de construção de um modelo do sistema solar por alunos de uma escola primária de Singapura (Ang, Wang, 2006). Com dez alunos participantes, com fracas avaliações nas áreas curriculares, o estudo demonstrou que os alunos se interessaram pelo tema, concentrando-se nos momentos de demonstração técnica. Freitas observa que este estudo de caso demonstra o poder dos mundos virtuais para interacção e motivação, melhor retenção de aprendizagens e melhoria de performances individuais.

Second Life – SciLands: um panorama da área do mais conhecido mundo virtual dedicada à ciência, com uma gama vasta de espaços e actividades dedicadas à aprendizagem e divulgação científica, como o Spaceflight Museum, um hospital virtual patrocinado pelo Imperial College e a autoridade de saúde de Londres para demonstrar conceitos de hospitais futuros, espaços destinados a conferências e simulações médicas, ou simulações atmosféricas e geológicas. De acordo com a autora, demonstra o potencial de usos educacionais dos mundos virtuais, em particular da utilização de simulações dentro do espaço virtual.

Croquet: comunidades virtuais baseadas em tecnologia open source para apoio ao trabalho de comunidades de investigadores. Espaços virtuais como suporte ao trabalho colaborativo entre membros de comunidades dispersas no espaço geográfico.

Project Wonderland: aberto e criado a partir de um motor de jogo, procura criar zonas de aprendizagem misturando espaços reais e virtuais. Permite troca de recursos. Focaliza-se na colaboração e encontra-se em desenvolvimento.

Forterra Olive: análise a uma plataforma complexa que entre outras utilizações permite criar simulações abrangentes de emergências médicas catastróficas. Funcionando como um jogo, cada participante treina as suas competências (triagem médica, enfermagem, resposta policial e de protecção civil a emergências) interagindo com personagens virtuais que modelam diveross sintomas. Os relatórios apontam para elevados graus de eficácia na utilização desta plataforma na realização de exercícios de treino com pessoal especializado. Plataforma proprietária com elevado custo de licenciamento.

De acordo com a autora, estes estudos mostram a vasta gama de aplicações educativas dos mundos virtuais (acontecimentos, aulas, espaços, momentos híbridos, simulações e transversalidade entre real/virtual) de forma distribuída. Sem que se pretenda que substitua o ensino tradicional, a utilização de plataformas virtuais poderá oferecer novas formas de potenciar e consolidar aprendizagens.

Desafios e oportunidades: os recursos exigidos por este tipo de mundos obriga a investimentos em largura de banda, desenvolvimento de normativos abertos e recursos de apoio à implementação (estudos de caso, guias e modelos). A mudança para formas de aprendizagem exploratória é um desafio central e poderá evoluir para uma convergência de tecnologias e realidades na criação de experiências de aprendizagem. As oportunidades criadas por estas tecnologias envolvem a criação de experiências de aprendizagem mais atractivas e motivadoras, em particular para aprendentes mais difíceis de motivar através de um maior controle sobre actividades e percursos (efectuado através de avatares); eliminação de barreiras de distância para alunos em diferentes contextos geográficos ou com deficiências físicas; potencial colaborativo transdisciplinar.

A participação dos utilizadores nos espaços virtuais levanta várias problemáticas: interactividade, controle sobre a vivência virtual, auto-organização de comunidades e a sua sobrevivência a médio e longo prazo, segurança, normas abertas, propriedade intelectual e ética comportamental. As questões de isolamento e alheamento da realidade apontadas a estas tecnologias estão a ser respondidas com a ênfase na criação de comunidades sociais e com a progressiva mistura de realidades, através de recolha e utilização de dados reais e equipamentos móveis.

Conclusões: a área destes estudos é vasta devido ao elevado número de opções de espaços virtuais, mas reduz-se ao considerar-se apenas os relevantes para uso educativo. A curto prazo os mundos sociais, empresariais e de formação têm maior potencial mas a longo prazo os jogos multijogador poderão oferecer potencial educacional através da simulação de papeis. De facto, os mundos virtuais oferecem uma nova infraestrutura para apoiar oportunidades de aprendizagem e pesquisa interdisciplinares e colaborativas. Os desenvolvimentos nesta área são muitos, mas é necessário continuar um trabalho de procura de modelos normativos e abertura de plataformas, bem como treino eficaz de tutores para que tirem partido dos potenciais dos mundos virtuais, sem esquecer que o objectivo final não deverá ser o de substituir formas mais clássicas de aprendizagem, mas sim de as complementar apontando para mais elevados níveis de eficácia e desempenho.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

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Regressam as névoas.

Recortes

"Postel's Law", a rule of thumb written by one of the Internetâ??s founders to describe a philosophy of Internet protocol development: "Be conservative in what you do; be liberal in what you accept from others." Jonhattan Zittrain, The Future Of The Internet And How To Stop It.

The shift in focus from “information” to “knowledge” is an improvement. But I prefer a different concept: the “Creative Society.” As I see it, success in the future will be based not on how much we know, but on our ability to think and act creatively. - Mitchel Resnick, Revolutionizing Learning in the Digital Age

The problem with most contemporary games isn’t that they are violent but that they are banal, formulaic and predictable. - Henry Jenkins, Art Form For The Digital Age

The net is not a place for "professionals" to publish and the masses to merely download. Online, everyone is becoming an artist; everyone is a creator. The network is providing new opportunities for self expression, and demands a new kind of artist: the artistic instigator, someone who inspires other people to be creative by setting a positive example with their own work, and providing others with tools, context, and support. - Amy Bruckman, Cyberspace is Not Disneyland: The Role of the Artist in a Networked World

Today’s teenagers are comfortable as inhabitants of simulated worlds, but most often, they are there as consumers rather than as citizens. To achieve full citizenship, our children need to work with simulations that teach about the nature of simulation itself. - Sherry Turkle, The Second Self: Computers and the Human Spirit

Research indicates, however, that the use of technology as an effective learning tool is more likely to take place when embedded in a broader education reform movement that includes improvements in teacher training, curriculum, student assessment, and a school’s capacity for change. - Changing How and What Children Learn in School with Computer-Based Technologies . Jeremy M. Roschelle, Roy D. Pea, Christopher M. Hoadley, Douglas N. Gordin, Barbara M. Means

The promise of these new machines was anchored in the dream of increasing teacher and student productivity. More could be taught in less time with these machines and students could learn more and even better than from textbooks or even the teacher. The promise was invariably followed by sporadic and limited entry of machines into classrooms, growing practitioner disillusionment with the inaccessibility of the machines, academic studies documenting small learning effects from the new technology, and a final round of blame usually deposited on the backs of teachers. With another technological invention, this cycle of ecstasy, disappointment, and blame would begin anew. - Larry Cuban, Computers Meet Classroom: Classroom Wins

When we’re immersed inside a virtual world, we usually feel that we’re really sharing a certain space with other users, which is something that is difficult to achieve with any other existing technology. - Alja Sulčič, Virtual worlds in education and Moodle.

I am, for example, indedbted to countless students whose constant need for clear and concise explanations has, in that great paradox of teaching, taught me so much about my material. - Blair Whitby, Artificial Intelligence

domingo, 25 de outubro de 2009

Uzumaki



Junji Ito (2002). Uzumaki. São Francisco: Viz Media

Uzumaki

Há uma diferença fundamental entre o horror ocidental e o horror japonês. Na sensibilidade ocidental, o terror tem uma lógica interna, uma explicação, algo que o torna com sentido. Os monstros e assombrações surgem por razões específicas, e boa parte da literatura de terror envolve o procurar dessas razões melhor combater o terror. Nem todos os finais são felizes, mas o conceito de lógica interna é inquebrável. Michael Myers esfaqueia por causa dos seus traumas de infância, mesmo que nas suas iterações se torne uma criatura sobrenatural. Drácula aterroriza para se alimentar, e qualquer fantasma é uma alma penada, irrequieta, que descansa quando a causa da sua inquietude é resolvida. Demónios podem ser exorcizados. Mas no horror japonês não existe este sentido lógico que explica as acções sobrenaturais.

O horror japonês vive desse sentimento surreal do inexplicado. Mesmo que se procurem ou surjam razões que estabelecem nexos entre causalidade e efeito, não explicam ou travam os crescendos de horror. O terror japonês é visceral e ilógico, sempre surpreendente e sempre capaz de alterar as regras já de si obscuras dos jogos com as trevas que mesmo nesta era dominada pelo objetivismo científico nos dão tanto prazer (ou que nos dão especial prazer precisamente pelo domínio do objectivismo nesta era contemporânea). Perante um filme, romance ou manga de terror de origem nipónica, não podemos esperar qualquer laivo de sequencialidade. E mesmo que tudo se pareça resolver, ressurge, mostrando-nos uma visão do terror como forças que estão para lá da nossa compreensão e controlo, que agem à parte de quaisquer pressupostos. Note-se que a ficção de terror ocidental vive precisamente da capacidade de compreender e controlar forças ocultas que interferem nos destinos do homem.

Uzumaki é uma obra surreal do mestre japonês do manga de horror contemporâneo. Fortemente estilizado, o motivo de terror é a espiral - a espiral enquanto constructo e enquanto objecto. A acção passa-se numa cidade japonesa que ficou isolada do resto do mundo após um tufão particularmente violento. Mais do que isolada, a cidade tornou-se um labirinto espiralado que aprisiona todos os que dela tentam sair. O padrão das espirais é recorrente - nos comportamentos, nas doenças, na forma com que as plantas crescem, na arquitectura que sobrevive ao furacão - um misterioso conjunto de casas antigas que crescerá orgânicamente transformando a cidade numa enorme avenida espiralada. As pessoas não escapam ao destino. No horror nipónico não há finais felizes, não há final girls que vencem o slasher, não há exorcistas que aniquilam os demónios. Em Uzumaki, aqueles que caem na armadilha espiralada da cidade ou são apanhados numa armadilha espiralada do espaço e do tempo, ou se transformam numa literal mole humana, massa que mistura corpos e mentes, ou se transformam em caracóis (é horror japonês, a bizarria e o absurdo são elementos essenciais).

Este manga dá-nos o que dele esperamos: um sentimento do bizarro, uma ideia de terror ilógico, e... um certo medo das espirais. De repente, aquelas cenas de cinema e desenho animado dos anos 70 com figuras espiraladas a rodar já não parecem tão inocentes... tal como Hitchcock nos tinha já tentado avisar no filme Spellbound.

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Nº. 14.

sábado, 24 de outubro de 2009

Constipações

A religião está em grande nos media nestes dias: primeiro foi Saramago a resmungar sobre a bíblia (com a consequente reacção alérgica do outro lado da barricada), agora é José Rodrigues dos Santos a editar um romance crítico sobre o fundamentalismo islâmico (as fatwas devem seguir-se em breve). Ok, alguém se oferece para criticar o budismo, o judaísmo e todas as outras? É uma questão de igualdade de oportunidades...

Como ateu que sou, divirto-me à brava com estas ressurgências do vírus da religião. E para uma crítica certeira dos fundamentalismos, recomendo o o mais recente número do Air: becoming a fundie is like catching a cold: you get tired out or run down, and boom, it moves in.

Urbes

Incríveis cenas filmadas no Rio de Janeiro ontem nos telejornais. Favelas como zonas de combate urbano, com veículos blindados e soldados fortemente armados em troca de tiros. Nas ruas as pessoas vão à sua vida por entre a chuva de balas, nos cafés come-se, bebe-se e comenta-se os acontecimentos. Certamente que algumas avenidas à frente a vida decorre com normalidade, a bolsa, os bancos, as empreas, serviços públicos, transportes, tudo funciona normalmente. Sublinha a complexidade do ecossistema da cidade contemporânea, já não um espaço limitado mas de uma urbanidade complexa. amálgama de diferentes comportamentos e espaços arquitectónicos, onde a emergência de focos de violência não paralisa o organismo completo do espaço urbano.

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... está nos detalhes.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Leituras

io9 | The 6 Types Of Brains In Jars O cérebro vivo num jarro de formol, a tentar controlar os destinos da humanidade. Bons velhos tempos da ficção científica.

Peopleware | ASSOFT diz que – Magalhães são uma “fábrica de piratinhas” Na verdade o problema está mais no eEscolas (boa parte dos quais já corre o windows 7 crackado de mil e uma maneiras) do que no eEscolinhas, mas como de pequenino se torçe o pepino, há que assustar os encarregados de educação e eles talvez não se chateiem de pagar os preços desajustados de boa parte do software que se vende por aí. Quanto ao risco de as crianças aprenderem desde cedo a instalar aplicações informáticas sem pagar por elas, é algo que eu espero que aconteça e para o qual desenvolvo esforços - aplicações informáticas open source, claro está! Mas diga-se de passagem que a ética da sociedade de informação é algo que não é abordado nas escolas. Geralmente fica-se pelos papões das redes sociais e aprender a utilizar o office (que é boa parte do programa das TIC no 9º ano).

i09 | They Are The Law Os mais durões homens da lei do mundo dos comics. De Reuben Flagg ao Judge Dredd, sem esquecer o masoquista Marshall Law.

Intomobile | Video: Verizon’s anti-iPhone commercial – Droid Does É um anúncio, certo. Mas até sublinha bem o paradoxo do iPhone: prodigio tecnológico, de design apaixonante, que na prática é uma gaiola dourada para os seus utilizadores (a menos que se dediquem ao arriscado processo de jailbraking).

Bibliodyssey | Handshakes in Thought O blog favorito dos bibliófilos recupera as cartas de Van Gogh, com os seus rascunhos de obras de arte que marcaram a humanidade.

Boing Boing | From Death Row convicts' advocate to Middle School mentor Farto de tentar salvar vidas perdidas dos corredores da morte, um advogado norte-americano decidiu mudar de profissão: tornou-se professor numa das piores escolas possíveis, trabalhando com as turmas mais difíceis. Porquê? "It is easier to build strong children than to repair broken men."

Boing Boing | 86-year-old WWII vet on gay marriage: "What do you think I fought for in Omaha Beach?" Uma lição de liberdade e dos sacrifícios que se fizeram por ela: questionado sobre se seria boa ideia proibir casamentos homossexuais, um idoso veterano da II guerra responde desta forma desarmante. Certamente que não arriscou a vida para restringir liberdades.

Worldchanging | Giz Explains: Why Stuff Crashes (And Why It Happens Less Often Now) Ecrãs azuis da morte e programas que congelam: ainda acontece, mas cada vez menos. Interessante guia do Gizmodo.

Urbeingrecorded | Virtual Autopsy Table Uma fantástica demonstração das capacidades da tecnologia multitoque no ensino - no caso, de anatomia.

Next Big Future | Google is Planning for 10 Million Servers and an Exabyte of Information Googleplex galore: antevendo o futuro crescimento do mundo online, os engenheiros da Google esperam num futuro próximo ter de gerir dez milhões de servidores e um exabyte de informação. Dez milhões. Um só já me dá dores de cabeça que chegue...

io9 | The Vehicle Of Our Mars Dreams Is A Needle Waiting To Thread Space Fotografias do novissimo Ares I-X, o foguetão que de acordo com a NASA poderá voltar a colocar a humanidade na lua.

Pink Tentacle | Computopia: Old visions of a high-tech future Fascinam-me visões do passado sobre o futuro digital. Estas ilustrações de uma revista japonesa dos anos 60 são fascinantes - particularmente a previsão de salas de aulas futuras, nas imagens uma mainframe com clientes onde os alunos se sentam a realizar exercícios e um robot que mantém a disciplina com umas vergastadas bem aplicadas. Plus ça change...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Crepúsculo



Faria ontem anos o lendário maestro Georg Solti, que conduziu a orquestra sinfónica de Chicago em performances de obras clássicas que se tornaram cânones de representação destas obras. Se pensamos numa sinfonia ou ópera que nos tenha tocado especialmente, há boas hipóteses de nos estarmos a recordar de uma interpretação conduzida por Solti. Para saborear um pouquinho a capacidade épica do maestro, saboreiem o final do Crepúsculo dos Deuses de Wagner conduzido pelo genial maestro. Com o som bem alto, por favor, para que o poder da música penetre nos ossos, até ao mais profundo do ser.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Argumentos Válidos

Uma das coisas mais interessantes na liberdade de expressão à portuguesa é que embora ela exista, não é supostamente aplicável. Há coisas que no país dos brandos costumes não é suposto dizer-se, e pode-se pensá-las enquanto não houver tecnologia que penetre nos mais íntimos pensamentos. Se as expressarmos não somos encostados à parede e fuzilados, mas as reacções de quem não gosta de ideias que ultrapassem o consenso do que é aceitável são um equivalente verbal ou escrito de balas disparadas em fúria. Veja-se o caso dos comentários de Saramago sobre a bíblia. Por cá a religião é um daqueles assuntos sobre os quais a opinião generalizada deve obedecer a um certo consenso que não ultrapasse muito os limites estabelecidos. A religião católica, que nas outras pode-se zurzir à discrição. As reacções foram... divertidas de ver, ouvir e ler. Desde padres a acusar o escritor de senilidade a eurodeputados que quase se confessam envergonhados por serem tão portugueses como Saramago. Se as palavras fossem balas, nestas horas desde o comentário já Saramago tinha sido encostado ao muro da opinião pública e fuzilado umas centenas de vezes.

A questão fundamental não é a de concordância ou não com as opiniões, do escritor ou a de outros. É a capacidade de resposta que revelamos, ou falta de, a ideias e opiniões que por ultrapassarem o esperado e a mediania nos chocam. Mas liberdade de expressão é mesmo isto: aceitar o chocante e reagir com argumentos e não com resmungos que traem sentimentos interiores de vontade de proibição de afirmar ideias incómodas... ao regime, à moral ou aos bons costumes. Mas este é um traço que teima em perdurar na sociedade portuguesa, resquício de tempos totalitários ainda bastante recente. Diga-se o que se disser, historicamente habituados às cangas da monarquia e da inquisição, e mais recentemente ao fascismo (de brandos costumes), a verdade é que os portugueses não têm nem desejam ter uma cultura de liberdade. Basta prestar um pouco de atenção no dia a dia para perceber como os traços totalitários são apreciados.

(Já agora, apesar de ser ateu não partilho muito da opinião de Saramago. Até a acho um livro divertido: tem batalhas, cataclismos, sexo, e lá mais para o final zombies, acontecimentos sobrenaturais e visões de fazer inveja ao lsd. É divertido, como todos os textos mitológicos são. E é isso que é o livro é: a base da mitologia cristã. Quanto a respeitos, liberdade acima de tudo, e respeito tanto um crente na bíblia como um crente no Épico de Gilgamesh (se bem que destes já não restem nenhuns). Cada qual tem o direito de acreditar no que quiser, e os deveres de aceitar as crenças alheias e defender as suas com argumentos.)

As Artes Tecnológicas E A Rede Internet Em Portugal




Cruz, M., Pinto, J. (2009). As Artes Tecnológicas E A Rede Internet Em Portugal. Lisboa: Nova Vega.

Interact
Nova Vega | As Artes Tecnológicas E A Rede Internet Em Portugal

Organizado por Maria Teresa Cruz e José Gomes Pinto, este livro reúne um conjunto de reflexões sobre as novas formas de expressão artística recorrendo aos media digitais, traçando também um panorama desas formas de arte em Portugal.

Apresentação - José Miranda: foca a noção de rede enquadrando-a como forma de activismo artístico e cultural. Esclarece metodologias de recolha e análise de dados, observa momentos de intervenção - a divulgação online dos resultados do estudo e a criação da interact, revista online de cultura digital. Conceitos a reter: a importância das redes enquanto meio que permite inúmeras abordagens, com a consciência dos seus riscos e a necessidade de acção colectiva informada. "A hipótese geral de partida é a de que as redes tecnológicas não seu neutras, nem um mero suporte, para onde se transferem práticas do espaço construido historicamente, sem mutação apreciável. Antes de mais, as redes constituem um hipermeio, cujas potencialidades estão em aberto, presas de uma certa indecisão que apenas a prática colectiva pode configurar decisiamente. Assim, se as redes permitem pôr em contacto quase instantâneo espaços estanques e demasiado distantes, se possibilitam o teletrabalho e novas formas de comunicação, como no caso do correio electrónico, também possibilitam tendências contrárias - a vigilância generalizada, a imposição das culturas do centro capitalista sobre as culturas nacionais e locais, o meio de difusão de pornografia ou do terrorismo, etc. Somente a prática colectiva poderá levar a maximiar as melhores oportunidades. Mas para isso é preciso um domínio conceptual e técnico das próprias redes. A melhor maneira de nos defendermos dos efeitos perigosos das tecnologias é saber utilizá-las e compreendê-las. Hoje, mais do que nunca, é verdadeiro o dito de que se aprende fazendo, constituido a experimentação e o uso criativo um momento essencial do conhecer. Como hipótese subsidiária, partimos da ideia de que as culturas e realidades históricas poderão potenciar as oportunidades abertas pelas novas tecnologias da informação e das redes, minimizando os seus efeitos desestruturantes das culturas históricas, através da intervenção activa sobre as formas e os conteúdos da rede." (p: 8)

Primeira parte: state of the art das artes tecnológicas em portugal e a rede pt.

Contextualização Histórica das Artes Tecnológicas - Fernando Pereira: foca o desenvolvimento tecnológico dos media online, conjugando com práticas de aplicação artística. Revela-as como reduzidas e enquadradas em contextos específicos, denotando desinteresse do meio artístico português pelos novos media. A reter: arte digital enquanto "descendente directa das experimentações estéticas e plásticas levadas a cabo pela arte moderna e contemporânea" (p:15). Dificuldades de implmentação de artes digitais observadas enquanto curatoriais (como exibir, qual a relação da peça digital perante um público habituado a tipos muito específicos de interacção com obras de arte). Nota paradoxal: no meio portugês a discussão e reflexão sobre arte digital ultrapassa largamente a prática artística. Novos meios tecnológicos poderão facilitar a participação activa, bem como incentivos - prémios, redes de partilha ou centradas em sites especializados.

Arte e Interactividade - José Pinto: procurar definir interactividade, apesar dos seus contornos indefinidos. Cita Lev Manovich numa taxonomia de interactividades. Reflecte sobre génese do conceito, fora do campo artístico. "... o conceito de interactividade, quando aplicado ao domínio artístico, surge unicamente como uma metonímia do conceito de feedback em Cibernética" (p:19). Arte interactiva: necessita e é um interface. Altera a relação com o espectador, transformando-o em actor. Experiência estética dependente do espectador e do suporte tecnológico. Participação do espectador é noção já presente noutros movimentos artísticos, mas arte interactiva implica equilíbrio de fluxos entre criador, que programa percursos, espectador, que ao interagir os altera e manipula em direcções que podem ultrapassar as definidas pelo criador.

Hibridação - Margarida Carvalho: foca o conceito de híbrido. Conceito que ganha importância em contextos sociais, económicos, políticos e artísticos, assumindo-se como conceito trasnversal. Vindo de hubris, híbrido representa na raiz um desfazer construtivo. O seu âmbito alargado refere-se a "qualquer entidade composta por elementos provenientes de múltiplas fontes" (p: 24). Hibridização nas artes tecnológicas: permanente manipulação e metamorfose. Conceito de hibridação enquanto reunião numa peça de arte digital de elementos e reflexões de vários campos do conhecimento.

Código e Plasticidade - Maria Cruz: o código como elemento fundamental na arte, quer como objecto de criação (artistas enquanto programadores, gerando código) quer como elemento que permite a visualização/interacção dos e com os produtos digitais. Envolve-se com o conceito de plasticidade - vindo de Hegel, forma de exteriorização de interioridade.

Design e Interfaces - Cristina Sá: foca o webdesign como forma de construção de informação. Mais do que arranjo estético de página, reflecte a estrutura da informação, o seu arranjo estético, conteúdos e interface que permite ver/interagir. Utilizador apenas toma contacto com interface, ficando todo o trabalho de estruturação invisível aos olhos do utilizador. Traça as linhas de evolução do webdesign, desde as páginas de texto simples até à inclusão do multimédia, numa óptica que vai do site enquanto elemento estático até aos conceitos de sites dinâmicos que se alteram conforme os perfis de utilizador. Observa as dinâmicas do webdesign no domínio .pt, situadas em dois eixos - um mais formalista, ligado a instituições, outro mais pessoal, criativo, experimentalista e efémero.

Instituições Artísticas Portuguesas e Internet - Victor Flores: foca o investimento das principais instituições artísticas na criação, desenvolvimento e mostra/arquivo de obras de arte digital. Colecções de videoarte em Serralves e Gulbenkian, colecções e iniciativas extintas (IAC e Cyber-Festival, colaboração entre o Centro Cultural de Belém e Portugal Telecom), Projeto Atlântico de Arte Digital, workshops no âmbito da Bienal de Cerveira, programas do Instituto das Artes, investimento de escolas de arte, design e multimédia.

Arte e Rede - Fernando Pereira: foca a arte em rede enquanto forma isolada dentro do âmbito da arte contemporânea mas aberta ao exterior, assentando na hipertextualidade e na interactividade como ferramentas e objectivos centrais do seu desenvolvimento.

Ensaios

After Effects: uma revolução de veludo - Lev Manovich. Os primeiros sistemas de criação e manipulação do multimédia eram caros, limitados e difíceis de utilizar, permitindo resultados pouco dinâmicos. O desenvolvimento do After Effects e similares - do seu conceito de manipulação de elementos digitais, bem como a digitalização de imagem fixa, imagem video, texto e código gerador de efeitos veio revolucionar a criação multimédia. Desenvolvimento de estéticas de remistura, perda de autonomia dos objectos estéticos, agora elementos compositivos de um resultado final que se desenvolve no tempo e no espaço. Remistura não só de elementos mas também de filosofias estéticas. Capacidade criativa dos autores, aliada às filosofias de interface que tratam cada elemento (imagem, texto, som, vídeo) como objectos intercambiáveis geraram novas estéticas que são mais do que soma das suas partes integrantes.

Arte e Comunicação: uma aproximação teórica da Media Art - José Pinto. Os media como elementos de descrição da sua época. A escrita como principal elemento de descrição de realidades, posto em causa pelo desenvolvimento de meios tecnológicos de comunicação. Foca McLuhan ao tentar mostrar que "os meios determinam o acesso à realidade" (p:75). Integração de meios tecnológicos na expressão artística ultrapassa campos definidos, levando conceitos de comunicação a estebelecer-se como cânones artísticos.

Cultura, Media e Espaço: a instalação da Experiência e das artes - Maria Cruz. A noção do espaço enquanto constante na experiência humana, também presente nos novos media tecnológicos. Relação entre espaços e medias criados para a sua representação e intrepretação. As novas tecnologias como fusão entre espaços reais e artificiais. Arte, tecnologia e espaços, na sua criação, interpretação e apresentação.

Análise Empírica: estudos sobre a representatividade e caracterização da arte digital em portugal. Fernando Pereira traça as linhas de investigação em Objectivos e Metodologia da Análise Empírica: Dados Gerais da Situação em Portugal. Cristina Sá investiga as características dos projectos portugueses na rede em Interactividade e Webdesign em Portugal. Margarida Carvalho analisa projectos artísticos em Práticas de Net.Art em Portugale Victor Flores analisa a presença dos museus portugueses na internet no artigo A Utilização da Internet pelas Instituições Artísticas Portuguesas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

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Antes da chuva.

Resmungo

Impossível não ficar revoltado com o relatório das nações unidas que aponta para o fosso gritante entre ricos e pobres em portugal. Alguns falam em falhanço gritante das políticas sociais e económicas. Falhanço gritante ou conveniente? É que anda por aí muita gente a lucrar à custa da mão de obra barata, como o intragável presidente da CIP sublinhou recentemente ao defender o não aumento do salário mínimo (mas certamente que não defende o congelamento do seu salário e até argumentará que merece o que recebe por via das responsabilidades). Estes desfasamentos entre os que mais têm e os que menos têm são o símbolo da sociedade profundamente imoral e sem valores que se esconde por detrás dos apregoados brandos costumes e do nacional-porreirismo. E a cupidez nem sequer nos adianta muito. Somos dos países mais atrasados da europa. É o que dá ser um país de chicos-espertos.

A Teoria do Grão de Areia



Francois Schuiten, Benoit Peeters (2009). . Lisboa: Edições Asa II.A Teoria do Grão de Areia

O mais recente tomo das Cidades Obscuras, série de sucesso da influente dupla belga de Schuiten e Peeters, faz-nos regressar ao mundo onírico criado pelos autores. A morte acidental de um visitante de uma terra distante parece causar estranhos eventos na cidade de Brüsel, eventos ainda mais estranhos do que o habitual. A casa de uma jovem mãe insiste em encher-se de areia, enquanto o apartamento de Abeels se enche de pedras e um cozinheiro vai ficando mais leve até flutuar. Entretanto, uma negociante de jóias não consegue fazer duplicar o belo artefacto que lhe foi emprestado pelo falecido visitante de uma terra distante. Resta a Mary Von Rathen, personagem de A Menina Inclinada um dos primeiros livros da série, a tarefa de deslindar os segredos.

Como tem todas as obras da série, a arquitectura e o urbanismo são as verdadeiras personagens de A Teoria do Grão de Areia. Toda a série das Cidades Obscuras vibra com as visões utópicas, neo-vitorianas e de pura imaginação arquitectónica congeminada pelos autores. É essa iconografia que nos faz regressar, vezes sem conta, às cidades do mundo paralelo destes criadores belgas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

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Manhã.

Rex Mundi




Arvid Nelson, Juan Ferreyra. Rex Mundi. Milwaukee: Dark Horse Comics

Wikipedia | Rex Mundi

A busca pela posse do Graal é o fio condutor do arco de histórias de Rex Mundi. Mas esta não é uma história típica de códigos secretos, cavaleiros templários ou conspirações secretas. Rex Mundi passa-se numa era alternativa, em que as grandes unidades territoriais da idade média não se desfizeram. A Península Ibérica é ainda o Califado de Córdova, o reino de França aproxima-se das fronteiras de Carlos Magno. A Itália continua dividida nas suas repúblicas e Estados Pontifícios, enquanto a Aústria forma o coração do Sacro Império Romano Germânico, fazendo fronteira com o Império Otomano. As concessões à modernidade encontram-se na Rússia e Prússia unificadas, bem como no império Britânico. Mantendo o espírito medievalista, o mundo de Rex Mundi é um mundo de magia e nobreza, de sangue azul e distinções de classe onde a inquisção é uma força temida. Mas é também um mundo moderno, situado nos anos 20 do século XX.

O comic segue as aventuras de Jacques Saunière, médico francês que se envolve numa busca pelo Graal enquanto luta contra o regime tirânico do Duque de Lorraine, usurpador do trono francês e imperador de um regime fascista. O tratamento dado pelos autores a este império é curioso, recuperando a inconografia nazi mas aplicando-a aos franceses. Aliás, a questão inconográfica é um dos pontos fortes desta série, com os autores a mesclarem factos da realidade histórica com a realidade alternativa que criaram. Entre outros exemplos, há uma cena de coroação imperial decalcada do célebre quadro da coroação de Napoleão ou um recriar da fotografia de soldados soviéticos nos telhados do Reichstag, mas o contexto alternativo é o de uma aliança entre os impérios Francês e Russo.

A história tem um final previsível - Saunière toma posse do Graal, revelando-se de linhagem real, e o tirano de Lorraine tem o destino que merece. Mas o mais interessante nesta série é o desenvolvimento de uma realidade alternativa plausível, bem construída e com suficientes detalhes para se tornar uma história dentro da história.

domingo, 18 de outubro de 2009



Que bom. Mais sol e calor. A meio de Outubro. Começo a ter saudades de uma tarde chuvosa com sabor a darjeeling ou lapsang soochong.

Anna Mercury



Warren Ellis, Facundo Percio. Anna Mercury. Rentoul: Avatar Press

Anna Mercury

Com um longo cabelo ruivo, esta super-agente transfere-se entre mundos paralelos graças a um projecto secreto mantido pelos G8 após a descoberta acidental da existência de Terras paralelas. Anna Mercury é Warren Ellis em velocidade de cruzeiro, misturando realidades alternativas, possibilidades da física teórica, conspirações tecnológicas e cultos de carga entre universos em aventuras de grande acção. Sem o carácter mítico de Planetary ou os voos de tecnocultura urbana e distópica de Doktor Sleepless, Ignition City ou Transmetropolitan, este é um comic de aventura pura e especulação intrigante, saído da imaginação de um dos melhores argumentistas de banda desenhada da actualidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

Leituras

i9 | Is The Large Hadron Collider Being Sabotaged from the Future? Esta foi a notícia mais intrigante que li nesta semana. Perante os problemas de implementação do LHC, um grupo de físicos explorou num artigo a ideia de que esses problemas técnicos poderiam representar uma forma de sabotagem por entidades no futuro para evitar potenciais catástrofes. Uau! Raciocínio tortuoso e excitante. Desde que deixei de ler ficção científica (por causa do excesso de trabalho e não por ter deixado de gostar do género) que não apanha uma ideia tão avançada.

Gizmodo | The Dark Sword UAV - Chinese Knockoffs Can Be Better Than the Real Thing Para lá das cópias ilegais de tecnologia, a indústria aeronáutica chinesa saiu-se com este UCAV. Os rumores dizem que esta parece ser uma altamente afinada máquina de combate semi-autónoma. Se o século XX foi o século americano, cada vez mais se nota que o século XXI será o século chinês.

Peopleware | França quer proibir telemóveis nas escolas… A notícia aponta para os potenciais riscos para a saúde, mas cá por mim a coisa prende-se mais com a fobia que a escola enquanto instituição tem aos telemóveis (em particular quando o espaço sagrado da sala de aula tradicional é invadido por potentes máquinas multimédia com conexões). Pessoalmente penso que a questão passa mais por estabelecer regras e fazê-las cumprir do que proibir. Por outro lado, sei que muitos professores gostam de falar de regras mas esperam que elas se cumpram por si, ao invés de as fazer cumprir... mas isso seriam outras conversas.


Next Big Future | Current Status of Terrorists and WMDs and Nuclear Facilities Será realmente uma ameaça? Não é bem uma àrea a que me dedique mas fiquei apaixonado por esta frase: "An al-Qaeda cell killed by the Black Death may have been developing biological weapons when it was infected, it has been reported." Parece algo saído de uma versão de humor negro dos Monty Python. Terroristas que se infectam com a arma biológica que estão a desenvolver.

io9 | The Trippy Robot Toys of Yesteryear Robots. Retro. É preciso dizer mais?

io9 | Concept Art That Will Make You See Steampunk Anew Alta tecnologia a vapor. É moda, e saem imagens explêndidas.

Ecogeek | Solar Powered E-Reader Makes E-Books Eco-Friendlier A LG lançou um leitor de livros electrónicos que incorpora um painel solar. Boa ideia? Só diria que sim se soubesse que nos locais onde os paineis solares são mais eficientes - ao ar livre - o ecrã permitisse legibilidade. Por enquanto é essa a minha frustração com os livros electrónicos - para além do preço dos leitores dedicados, ou têm ecrãs monocromáticos ou são ilegíveis ao ar livre. E, francamente, quem é que quer ler aquele ficheiro pdf cheio de imagens em preto e branco?

Futurismic | Google’s Building Maker: crowdsourcing the world’s architecture Já estive a brincar com isto (requer a instalação de um plugin adicional) mas ainda não percebi se o Building Maker, uma aplicação online que permite criar modelos tridimensionais de edifícios a partir de fotografias do Google Earth é algo de excelente ou mais uma coisa a esquecer. PAra já, não consegui exportar o modelo sem ser para os servidores da Google, o que torna a aplicação inútil para mim. Se me dou ao trabalho de criar um modelo 3d e depois não o posso utilizar no Bryce, no 3Ds ou no Vivaty, de pouco me serve. De qualquer forma, a ideia da Google é outra: em vez de gastar dinheiro a criar modelos 3D para enriquecer as suas aplicações online, libertou a ferramenta aos utilizadores, e agora estes vão criar gratuitamente milhendos edifícios 3D para popular o Google Earth. Uma ideia brilhante do ponto de vista económico.

(Cá por mim ainda ando à espera do programa 3D perfeito: algo que misturasse o interface do bryce com as ferramentas do 3Ds, a capacidade vrml do Vivaty e a modelação do CB Studio com o preço do Blender. O Google Sketchup até é um passo interessante nessa direcção.)

Indústrias Culturais | Nativos Digitais O sempre interessante Indústrias Culturais aponta um estudo britânico que aponta para que 75% dos jovens já não consigam passar sem internet (antes que entrem em pânico e começem com os comentários de para onde vai este mundo lembrem-se da obsessão da minha geração com a televisão com que cresceu). Mais um estudo que cimenta o conceito de nativos digitais. Outras leituras interessantes neste domínio são o artigo Digital Natives, Digital Immigrants de Marc Prensky e o estudo e-Generation coordenado por Gustavo Cardoso.

Gizmodo | Eight Regrettable Tech Inventions, Regretted Quais as piores invenções tecnológicas, que causaram arrependimento aos inventores? Para lá do Windows? Entre outras, as barras duplas invertidas (isto: //) ubíquas nos urls, a bomba atómica, o tipo de letra comic sans (até o seu criador o rejeita) e a irritante blink tag (com a qual tenho uma relação afectiva porque foi a primeira tag html que consegui fazer funcionar... que vergonha, eu sei).

Hyperbola | WORLD EXCLUSIVE PICTURES: China's space station concept São um conceito, apresentado por um cientista chinês num congresso astronáutico na China, e fotografadas muito à socapa. Representam as primeiras imagens do que poderá ser uma futura estação espacial chinesa.

Ptak Science Books | The Worst Job of the 19th Century? Tongue-Pullers, Nipple-Pinchers & Anal Tobacco Blowers Try to Revive the Dead. Nos velhos tempos da medicina pré-alta tecnologia (bem, velhos tempos é esticar um pouco o conceito) como é que se determinava se um paciente estaria realmente morto, evitando os horrores do enterramento prematuro explorado no belíssimo conto de Poe (e mitificado pelos filmes da Hammer)? A análise de um livro de 1930 sobre o assunto mostra algumas invenções intrigantes - como a fornalha anal de tabaco, que permitiriam aos médicos distinguir se o paciente estaria vivo mas inconsciente ou catatónico ou morto. Vão ler. Aposto que a incongruente combinação das palavras fornalha anal de tabaco despera a curiosidade.

Singularity Hub | Augmented Reality Could Be Coming to Your Contact Lens Isto é o futuro. Não temos rocket packs mas teremos em breve lentes de contacto com ecrãs embutidos que nos permitirão viver permanentemente em realidade aumentada.

Naomi Klein | Obama's Bad Influence A nomeação do presidente norte-americano para o prémio nobel da paz surpreendeu todos. É inevitável observar que o mundo está apaixonado pelo primeiro presidente afro-americano da nação mais influente do planeta, mas há ainda muito que fazer, como aponta Naomi Klein em mais um provacador e bem fundamentado artigo.

Gizmodo | Six Things I Actually Like About Windows Mobile Para aqueles que como eu têm um belíssimo telemóvel mas se sentem um bocadinho desactualizados por utilizarem o windows mobile ao invés dos mais sensuais iPhone, Android ou Pre, cá vão seis razões que mostram a potência do humilde (e desactualizado, até a microsoft admite) WM. A minha favorita? Escolha. Enquanto temos um modelo de iPhone, dois modelos de Pre, alguns Symbians e um punhado pequeno de Androids, a possibilidade de escolha de modelos WinMo é uma galáxia.

Warren Ellis | Station Ident: Yes, He’s Going On About Phones Again O escritor a falar de telemóveis. Vale a leitura por esta frase: Ultimately, the point of the device is less what it does when it comes out of the box than it is what I can make it do once it’s out of the box. Vai contra a tendência assumida das operadoras e construtoras de hardware de oferecerem máquinas com utilidades pré-definidas. Um telemóvel já deixou de ser um simples telefone. São na prática computadores multimédia que temos na palma da mão. Pessoalmente, pouco me interessa ter um telemóvel com acesso directo ao facebook ou a outros sites com que a operadora fez um acordo. Interessa-me ter uma máquina que me deixe fazer e aceder ao que eu quiser. As tendências de limitação do software e hardware ditadas por interesses económicos são altamante prejudiciais à liberdade de expressão e aos horizontes da cultura humana.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Dia Mundial da Alimentação

Hoje comemorou-se o dia mundial da alimentação, o que nas escolas equivale sempre a actividades com mensagens pedagógicas. No caso da minha o dia comemorou-se com palestras, uma exposição dedicada às sopas e um lanche saudável à base de fruta na sala de professores. Mensagem recebida. Comida. Saudável. Faz. Bem. Mal cheguei a casa deliciei-me com uma saudável pizza. Tem tudo - hortículas (no molho de tomate), lacticínos (no queijo), carnes, pescado e ovos (no salame), leguminosas (no milho) e cereais e derivados (na massa). Só falta a fruta. E até é redondinha como a roda dos alimentos.

(Pronto, estou a ser malandrinho. Mas não se preocupem com antipedagogias. Estas coisas não se fazem e não se dizem in front of the civilians.)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Constranger a experiência

Nem por acaso. Talvez seja inconsciente colectivo. Agora que se fala de rankings não deixam de ser curiosas palavras que encontrei num artigo de Larry Cuban intitulado Computers Meet Classroom: Classroom Wins. O artigo não versa sobre rankings, antes analisa o impacto da introdução de computadores nos ambientes escolares e em particular porque é que raramente as promessas de revolucionar o ensino são cumpridas. O artigo analisa vários factores, entre os quais um que me tocou profundamente: a ideia de que a tecnologia falha em modificar a instituição escolar porque temos uma imagem fixa, construída, do que deve ser a escola, de como se processa a aprendizagem e da relação entre professor, aluno e conhecimento. Tecnologias que alteram essa percepção ficam relegadas ao esquecimento sob a etiqueta de "ideia interessante mas não funciona na realidade". Tecnologias que apoiam as práticas tradicionais são valorizadas. Cuban fala do projector como exemplo, e eu penso nos quadros interactivos, dos equipamentos tecnológicos o que oferece menos possibilidades pedagógicas mas o mais adoptado porque reforça as práticas habituais dos professores. Outro factor que condiciona a adopção de tecnologia é uma crença cega num optimismo de eficácia educativa que acaba por não se traduzir em resultados porque se a tecnologia encerra potencialidades é preciso imaginação e formação para as explorar. Mas a coincidência com os rankings não está aqui.

Note-se que num texto escrito no final dos anos 90 o autor observa que ...the current movement for national goals, standards, and testing. If the movement continues its momentum, especially in its concentration on national examinations with strong consequences for individual students' futures and school funding (such as the National Assessment of Educational Progress [NAEP] ), the movement may largely channel new technologies to fit existing patterns of teaching and learning because what fuels the drive toward national goals, standards, and testing is the lure of increased student productivity. Concentration on quantitative standards reinforced by high-stake test results usually diminishes risk-taking in classroom and school innovations.

Ou seja, acreditar em excesso em métodos quantitativos de avaliação a curto prazo é contra-producente se desejamos desenvolver outras dimensões dos nossos alunos que não a capacidade de memorizar conteúdos estanques. A criatividade, flexibilidade e capacidade de recorrer a diferentes tipos de conhecimento para resolver problemas não se ajustam muito a treino e memorização, as estratégias mais usuais para superar testes e exames. Enfrentando a pressão de resultados a curto prazo, que professores serão capazes de correr riscos para experimentar novas formas de ensinar? E isso dilui o investimento. Agora, todas as salas de aulas dispõem de computador e projector, o que implica que a apresentação oral apoiada no quadro de giz está a ser substituída pela apresentação oral apoiada pelo powerpoint ou pela capacidade multimédia limitada do quadro interactivo. O que não muda é a apresentação - que é útil e necessária, mas há tanto mais que pode ser feito...

(Antes que me crucifiquem, digo desde já que também sou grande fã da apresentação oral apoiada em powerpoint ou multimédia. É perfeito para apresentar aos alunos as ferramentas - tradicionais ou digitais - para exploração criativa. Apontar o caminho não chega, também é preciso ensinar a andar...)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Piscas

Lembram-se disto? < blink> Blink < /blink>. Tive um flashback dos tempos do dialup e o netpac... felizmente já não é suportado. Infelizmente a praga dos gifs animados (particularmente os blings a piscar) ultrapassou largamente os míseros efeitos semi-indutores de epilepsia da blink tag...

Rankings

Pronto. Foram divulgados os resultados dos exames nacionais de 2009 e lá voltamos à parvoice anual dos rankings das escolas. No papel, os colégios privados apresentam resultados que os colocam no topo da escala de resultados. Mas antes de se pensar na excelência dos colégios ou no descalabro do ensino público, umas notas:

Será realmente significativo o resultado de um exame? É um dos mais antigos paradoxos da educação. Só se reflecte a longo prazo mas necessita de ser medida a curto prazo, daí os testes e exames. A preparação para um exame obriga a uma memorização e especialização a curto prazo que horas depois do exame passado se desavence. Quantos estudantes não mergulharam profundamente nos livros para obter um bom resultado num exame, e quantos desses estudantes depois se recordam do que memorizaram? No entanto é este o marco com que avaliamos uma pessoa, não as suas capacidades reais para agir sobre os desafios que se lhe colocam. Não quero com isto soar como um professor anti-exames. Testes e exames fazem jeito para aferir conhecimentos no momento e como forma de criar hábitos de estudo contínuo. Não são é o elemento preponderante das aprendizagens. Outro paradoxo do exame enquanto forma de valorizar a escola é que esta desde há muito é apontada como um local onde a teoria desfasada da realidade é preponderante... e depois é valorizada pela forma mais clássica de avaliar conhecimentos teóricos.

Na disputa entre escolas públicas e privadas, há factores a ter em conta. Podemos falar dos meios sociais e económicos, das motivações dos alunos e famílias, mas estes são relativos. Mérito e esforço suplantam questões de classe e riqueza. Vir de um meio socio-económico mais elevado não garante sucesso escolar, garante apenas uma maior exposição à cultura que pode influenciar o sucesso escolar. Mas há um factor que é indiscutível: as escolas privadas têm os alunos que escolhem, e as escolas públicas são obrigadas a responder a todos os tipos de alunos. Uma escola privada selecciona activamente os seus alunos, quer através dos critérios de admissão quer através das práticas lectivas. Ainda não conheci nenhuma escola privada que se especializasse em receber os alunos menos capazes. Quem não consegue ou não se aguenta regressa ao público. O ensino público, por lei e vocação, tem de responder a todas as situações. O que significa que no final do ensino básico e secundário uma escola privada lança aos exames grupos de alunos mentalizados, escolhidos e preparados até à exaustão por um sistema que utiliza os rankings como forma de publicidade. A escola pública lança um conjunto pouco homogéneo de alunos com diferentes motivações e preparações, com diferentes capacidades e cujas aprendizagens podem ter sido prejudicadas por climas instáveis na sala de aula.

Resumindo: se um pai preocupado pensar que escolher uma boa escola para o filho passa pelo ranking desta, pense novamente. A escolha da escola tem influência, mas nas relações sociais das crianças. Por si só não garante sucesso, independentemente da qualidade ou tipologia dos métodos pedagógicos. Se quer realmente que o seu filho se torne excelente, exponha-o. Mergulhe-o na cultura, disponibilize livros, estimule o questionar da realidade que o rodeia e cultura de mérito, e vai ver que o sucesso escolar vai ficar mais facilitado. E isso não depende da escola onde esteja a estudar. Até porque um dos factores que distingue as escolas públicas é um fortíssimo investimento na divulgação de cultura (com um papel preponderante das bibliotecas escolares através de esforços coerentes e organizados) para colmatar os factores culturais. O que nos leva de regresso à tipologia pouco homogénea de alunos do público versus a homogeneidade garantida de alunos do privado.

Uma nota final, mais rebelde: chateia-me este sublinhar dos exames como forma de excelência educativa. Chateia-me porque faz parecer que uma abordagem formalista e pouco inovadora, mas com resultados garantidos, seja superior a abordagens experimentais, mais complicadas de gerir e difíceis de medir a curto prazo. Na verdade, quantos de nós resolveram problemas e desafios do dia a dia profissional com respostas de exame?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Informação Inútil

Alguns resultados dos logs de acesso ao irobot:

Lisbon, Lisboa arrived from google.pt on "Intergalacticrobot: FSCK" by searching for fsck magalhães. Porreiro, isso quer dizer que aquela resolução de um problema de arranque do caixa mágica mag sempre dá jeito. Como é que descobri a histórica do fsck? Graças a uma encarregada de educação de origem ucraniana que num fim de tarde chegou à escola e me pediu alguns minutos do meu tempo porque a filha adorava o caixa mágica e com o computador assim não conseguia fazer nada. Claro que um sistema de reparação de erros deste tipo numa máquina destinada a crianças entre os seis e os dez anos, utilizada em ambientes para quem a distinção entre linux e windows é uma incógnita, não é um momento brilhante de design. Comigo foi sorte: no momento andava na minha fase ubuntu.

Fort Bragg, North Carolina arrived from olpcnews.com on "Intergalacticrobot: Leituras". Fort Bragg? Isso não é aquele famoso campo de treino militar norte-americano? É melhor portar-me bem, senão algum uav ainda me descarrega alguma coisa explosiva em cima.

Cacém, Lisboa arrived from google.pt on "Intergalacticrobot: Janeiro 2009" by searching for jogos simuladores de retroescavadoras gratis para pc. Esta é um pouco bizarra. Percebo os fetishes por automóveis, aviões ou comboios. Agora retroescavadoras? Imagino logo uma comunidade irredutível de fãs arreigados que se dedica a discutir os méritos dos simuladores de retroescavação.

Lisboa arrived from google.pt on "Intergalacticrobot: Histórias em Verso para Meninos Perversos" by searching for obra completa da gata borralheira para meninos perversos. Sem comentários. Será uma versão hardcore 3º escalão da Gata Boralheira? Prefiro não saber.

Vila Real arrived from google.pt on "Intergalacticrobot: Erros do Magalhães" by searching for como desinstalar o "e-learning" do magalhaes. Ok, painel de controlo - adicionar ou remover programas. Já experimentou? pte2010 se for preciso alguma palavra-passe.

Póvoa De Varzim, Porto arrived from google.pt on "Intergalacticrobot: A Bíblia de Satanás" by searching for biblia de satanas. Vêem cá muitos bater com este string. Fãs do filme de John Carpenter (que é daqueles que ou se gosta ou se detesta, e eu sou um dos raros que gosta) ou satanistas a tentar sair do armário?

Yahoo Search: coma fazer pen de recupera& ccedil;& atilde;o do magalhaes. Eu destes tenho pena. Já pensei em deixar online uma imagem da pen de recuperação, mas aquilo passa dos 5 gigas e se me ligaram a uma acção dessas (que seria justa e lógica) poderia ficar em maus lençóis.

Leituras

Gizmodo | T-Mobile Sidekick Out(r)age: Your Data's Probably Gone Forever Os perigos da computação em núvem: o que é que acontece quando o servidor na rede que aloja os ficheiros frita, ou o serviço é descontinuado? Recentemente, os clientes americanos da T-Mobile sentiram na pele a primeira opção.

Fail Blog | Burglary Fail Prova de que o Facebook é altamente perigoso: se assaltar uma casa, não aproveite o computador da vítima para ir ao Facebook actualizar o estado...

Posthuman Blues | I don't have an iPhone . . . Universe Splitter: porque cada decisão é uma bifurcação no universo.

Boing Boing | Big Entertainment's century-long technophobic binge No futuro, as crianças serão embaladas por máquinas. O vídeo é equivalente a um serial killer estrangulador. Copiar uma cassete é pirataria. Saltar a publicidade no DVR é um crime. Brilhante artigo no Ars Technica sobre os eternos argumentos que a indústria dos media encontra para tentar sufocar os desenvolvimentos tecnológicos que colocaram em perigo modelos de negócio fáceis.

Grinding | Sarah Reinertsen Poses Nude for ESPN Cover Ok, e o que é que tem de especial mais uma revista com uma menina vestida com a roupa que veio ao mundo na capa? Banal, certo? Não quando a menina em questão é uma atleta com uma perna biónica e a revista é uma das maiores revistas especializadas em desporto do planeta.

io9 | 50 Years, 200 Missions, One Enormous Map Cinquenta anos de missões espaciais condensados num gráfico de enorme beleza, cortesia dos ilustradores da National Geographic.

OLPC News | OLPC Afghanistan's Pedal Powered Progress É chato quando a bateria do computador se esgota e não há tomadas nas redondezas. E quando as redondezas podem ser de dezenas de quilómetros, que fazer? A solução engenhosa do OLPC é, no caso do Afeganistão, adaptar uma mesa com pedais para gerar energia para manter o computador a carregar. Seria um bom acessório também para os países ocidentais, como forma de combater o sedentarismo dos escritórios...

Wave

ok, já tenho o Google Wave. E agora? Será que isto se integra com os meus serviços Google ou é mais uma coisa para dividir a atenção? Vou experimentar...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

N

Confesso que me assustam um pouco os resultados das eleições autárquias. Ele é tanta maioria absoluta, tanto presidente eleito e re-eleito pela terceira, quarta, enésima vez... espelha bem o carácter português de querer no poder homens que tomem as rédeas e levem tudo a eito. A tradição dos caciques locais (que já vem do liberalismo monárquico do século XIX) continua bem viva. Sem um salazar desejado como um d. sebastião, aposta-se numa míriade de salazarinhos de província (e urbe), porque, enfim, o que interessa é que isto vá para a frente, e para a frente entenda-se betão e asfalto. Presidentes, chefes, caciques, caudilhos... vai tudo dar ao mesmo. Confesso que não consigo compreender o gosto lusitano pelo autoritarismo. Gosto ou... preguiça, porque quem é mandado não tem de pensar muito, não tem de decidir ou arriscar.

Democracia. Uma bela ideia que em portugal custa a amadurecer.

domingo, 11 de outubro de 2009

Portugal Tecnológico




Dediquei a tarde ontem a visitar a exposição Portugal Tecnológico na FIL. De certa forma, podemos ver esta exposição como um dos corolários do socratismo, com toda a esperança depositada na tecnologia. E também o é num outro aspecto, o da mediatização exagerada de projectos que se revelam mais ocos do que aparentam.

O principal pavilhão da exposição estava dedicado a iniciativas institucionais, expondo as iniciativas tecnológicas de entidades públicas como a GNR (com uns interessantes veículos que se abriam para revelar paraísos de hackers no seu interior), o programa Simplex, agências de inovação e investimento, ministérios e empresas públicas de transporte. Felizmente a exposição decorreu após as eleições legislativas, senão poderia ser confundida com propoaganda eleitoral.

Era neste pavilhão que se encontrava o que mais me interessava, a divulgação das iniciativas do Plano Tecnológico. O conjunto de stands do PTE prometia muito mas dava muito pouco. Alguns pcs PTE ligados à web mostrando páginas institucionais, uma amostra mínima (muito mínima, quase inexistente, e lá mais para os lados do projecto Ciência Viva do que do PTE) de trabalhos desenvolvidos por professores e alunos na área das TI. Não faltava uma salinha onde se podia experimentar os quadros interactivos promethean e muitos magalhães, quase todos a mostrar aquele que se tornou o símbolo do projecto para a criançada do país: o ubíquo Super Tux.

Os verdadeiros pontos de interesse da exposição passavam-se nos pavilhões secundários, que reuniam instituições de ensino e empresas. Aí imperava a diversidade de projectos tecnológicos desenvolvidos em Portugal. Como estou mais ligado às TI e media digitais foi para aí que virei a minha atenção, mas fiquei também fascinado por outros projectos: o desenvolvimento de redes wifi submarinas pela universidade do algarve (não que os peixes precisem de navegar na internet mas dá muito jeito para criar redes de sensores ambientais), projectos de aeronáutica com materiais compósitos da universidade de beja, muitos robots e rovs de várias universidades portuguesas. Destes, o mais fascinante (e desconcertante) era o Chico, elemento português de uma rede europeia de pesquisa de robótica e máquina exímia a simular emoções e reacções ao ambiente.

Do lado dos new media a YDreams deslumbrava com as suas aplicações de realidade aumentada. No pavilhão dedicado ao norte estavam também duas aplicações surpreendentes: uma tecnologia desenvolvida pela universidade católica que digitaliza em 3D objectos de arte danificados simulando o seu restauro e um monitor extremamente fino, uma película que mostrava o ecrã de um computador ensanduichada entre duas placas de acrílico. É por causa destas tecnologias (e de outras, como a mesa microsoft surface onde alguns miudos jogavam xadrês em multitoque) que penso que os quadros interactivos que agora agraciam as nossas escolas são dinossauros tecnológicos).

Resumindo, valeu a pena. Embora as inciativas institucionais, que primam pela grandeza de objectivos, pelo brilho das apresentações e vazio de aplicações se tenham revelado desapontadoras. Interessante foi descobrir o vibrante panorama de investigação e desenvolvimento das empresas e universidades portuguesas. Só por isso valeu bem a pena.

iMac

Encontro de gerações numa exposição: um visitante puxa do seu iPhone e fotografa um Apple Macintosh.

sábado, 10 de outubro de 2009

Traduções



Leia-se a frase em português. E agora a sua tradução inglesa. Bem observado. Os porcos lusitanos têm de ganhar hábitos de higiene. Já aos estrangeiros confia-se um grau mais elevado de higiene. Ou então alguém foi descuidado a traduzir (aposto nesta).

Apanhado numa casa de banho da FIL, o que me torna num tipo que anda a tirar fotografias em casas de banho, o que soa um bocadinho arrepiante. Mas foi por uma boa causa...

Notas

Intelligence is not based upon the number of the brain's neurons, but how many connections we forge between them, linking one concept, one neuron with another, in a shimmering, self-aware neural net.

The only reality we can ever truly know is that of our perceptions, our own consciousness, while that consciousness, and thus our entire reality, is made of nothing but signs and symbols. Nothing but language.


Alan Moore (2005). Promethea #32. La Jolla: America's Best Comics

(Um bocadinho mais aqui: Promethea.)

Leituras

Vintage Photo Só consigo pensar numa frase para descrever esta imagem: a history of violence. Tirada em 1943, esta foto mostra dois miúdos a brincar enquanto ao fundo jovens cadetes desfilam em uniforme militar. Um dos miúdos parece apontar a arma à cabeça do outro, numa pose estranhamente reminiscente da famosa fotografia do chefe de polícia sul-vietnamita a executar à queima roupa um guerrilheiro vietcong.

Singularity Hub | Should Students Be Tested for Brain-Enhancing Drugs? A questão é mais profudanda do que parece. Será que tomar medicamentos e substância que melhoram o desempenho cognitivo é, na prática, doping intelectual que dá vantagens injustas perante os que apenas dependem dos seus recursos cerebrais?

Kottke | From sketch to photo instantly (this is insanely awesome Estou mortinho por testar isto (mas ainda não tive tempo): uma web app que a partir de um rabisco vai procurar imagens que correspondam ao rascunho e as monta numa image coerente. É o Photosketch, e o site da webapp está em baixo por excesso de utilizações...

Next Big Future | Attoseconds, Zeptoseconds and Yoctoseconds Ou seja, instantes que fazem um piscar do olho parcer uma longa eternidade.

Gizmodo | 10 Of Your Funniest, Nerdiest Comic Strips São piadas que é preciso perceber antes de rir. Dez das mais intrigantes e divertidas piadas sobre tecnologia.

io9 | Retro Shot from Battlestar Galactica, Recreated By FX Artists Pode-se dizer que um dos marcos maiores dos efeitos especiais 3D está em serem capazes de recriar na perfeição (ou aliás, imperfeição) efeitos especiais analógicos.

Gizmodo | Bloatfest! Microsoft Office Starter 2010 Edition to Have F*cking Ads Boa notícia: aproxima-se uma versão gratuita do Office, a versão Starter 2010, a funcionar com o Word e o Excel. Melhor notícia: vai ser adware...

OLPC News | Technology in Education Integration: People not Laptops Interessante depoimento sobre a implementação de tecnologia nas escolas, da parte do responsável por um agrupamento escolar canadiano. Sublinha-se a necessidade de formação para professores e alunos como forma de explorar as utulizações do computador, referindo que It is a major mistake to assume that children will simply integrate technology into their learning patterns. The natural curiosity of a child allows for exploration without fear but it does not convey specific and intrinsic learning. They still need to be taught how the laptop can make a difference.. Fala dos medos dos professores face à proficiência tecnológica dos alunos, observando que Our students do show our teachers how to problem solve in using technology and for some teachers, this brings them into a zone of discomfort. Uma das questões levantadas que mais se envolve com a minha experiência tem a ver com a fiabilidade da tecnologia: If the technology (laptops-infrastructure) is not reliable (95% regular, sustainable and supported), then the teachers will simply put the machines to the side. Ou irritam-se com a equipe PTE porque o acesso à internet sem fios não cobre todas as salas e planearam sem alternativa uma aula de pesquisa na internet...

Estas são questões que ainda não vi resolvidas no PTE, que se tem resumido a colocar equipamentos e infraestrutura, mas com enormes questões de manutenção. Quanto à formação... é melhor nem falar disso.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Planetary



Planetary #27 está aí. O comic é a esperada conclusão da brilhante série escrita por Warren Ellis e ilustrada por John Cassaday. Sendo uma conclusão, espera-se um atar de pontas soltas e um ponto final nas aventuras. Por outro lado, o argumento é de Warren Ellis, o que significa que vai sair qualquer coisa de espantoso e tortuoso que vai levantar mais perguntas do que respostas.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

...



I've been waiting for her for so long/Open the sky and let her come down (Lembram-se?)

Prisioneiros do útil

Uma coisa que me assusta: anúncios a telemóveis de nova geração que apregoam como funcionalidade extra o acesso directo a sites na internet. Assusta-me porque não se tratam de funcionalidades extra, antes de restrições ao uso da máquina. Um telemóvel, em particular os potentes telemóveis/pda que estão agora no mercado, deveria ser uma ferramenta aberta que permitisse ao utilizador fazer o que quiser com ela. Mas a tendência está no oposto: sistema operativos fechados ou semi-fechados, que direccionam os utilizadores para sites e aplicações do agrado das operadoras/contrutores de equipamentos. O uso fica restrito a um conjunto de funcionalidades definidas como úteis por entidades terceiras.

Pessoalmente gosto de ser eu a decidir o que é util ou não para mim, e não deixar essas decisões ao critério de empresas. Assusta ver como o potencial libertador da tecnologia digital é tão facilmente cooptada para usos que fazem vergonha aos esquemas de vigilância e restrições à liberdade implementados pelos piores regimes totalitários. Este é um totalitarismo insidioso: o totalitarismo do sorriso utilitário.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Zelo

Li ontem o decreto-lei 220/2009, que regulamenta a habilitação profissional dos docentes face à reestruturação dos cursos superiores sob o processo de Bolonha. A partir de 2010, os novos professores terão de ter mestrado (já incluído nos currículos dos cursos) para aceder à profissão.

Não quero parecer velho do restelo, sempre desconfiado perante inovações, mas tenho algumas dúvidas sobre a qualidade dos mestrados no processo de bolonha. Por uma razão: estando já inseridos no curso, perdem a experiência profissional adquirida entre a conclusão da licenciatura e a realização do mestrado. Falo da minha experiência. Estou neste momento mergulhado num mestrado que beneficiou e muito dos anos que mediaram entre a conclusão do curso e o arranque do novo desafio. Se o tivesse feito quando terminei o curso, certamente que não sairia um trabalho tão interessante como o que estou a desenvolver (agora, acabar, isso logo se vê...).

Também não sou totalmente céptico. Certamente que sairão muitos e bons trabalhos. Mas temo que por falta de experiência no terreno, os correntes estudantes de cursos de formação de professores optem por teses e trabalhos de investigação na linha directa do que aprenderam o curso. Ao invés de questionarem práticas ou procurarem novos campos de intervenção, temo que se instale uma tendência de validar as teorias e modelos de ensino abordadas nos cursos. O risco é o da propagação do eduquês puro. Fresquinhos das aulas teóricas e com uma experiência prática limitada aos estágios (fortemente condicionados em termos de autonomia das práticas do futuro professor face ao esperado pelos seus professores), o campo está a aberto a aplicações directas e potencialmente pouco realistas das teorias puras. E aí o conceito de trabalho de investigação perde valor (mas vai ajudar a sustentar muitas teorias iluminadas).

Já agora, convém clarificar o que é isso do eduquês, de que tantos falam. Para mim, trata-se da defesa cerrada e aplicação cega de uma teoria educativa face a outras. A aprendizagem é um ecossistema complexo, dependente de muitos factores pessoais, sociais, económicos ou cognitivos, entre outros. Escolher uma só teoria e elevá-la à condição de teoria óptima não significa aprendizagens mais eficazes. Significa que as aprendizagens eficazes que se obteriam aplicando outros modelos se perdem, e caímos num exagero epistemológico. A gama de modelos de aplicação possível vão desde os mais tradicionais de aula directiva e memorização aos mais na moda como a aprendizagem baseada em problemas ou o construtivismo. Este último tem sido uma das principais bandeiras dos exageros educativos, o que é uma pena, pois pode anular a interessante contribuição que esta corrente dá à compreensão da aprendizagem.

Ao fim de algum tempo no terreno, qualquer professor percebe que perante os alunos não há verdades estabelecidas, não há modelos únicos que funcionem. Diferentes momentos de aprendizagem pedem diferentes abordagens. É interessante assumir um modelo construtivista em que os alunos encontram os seus caminhos de aprendizagem mas se não lhes forem dadas as bases para essa construção eles não irão muito longe. E para aquisição dessas bases o velho modelo drill and practice ou a simples memorização, bem como a exposição, são muito eficazes. Diversidade, e não crenças zelotas, são na minha opinião a chave para aprendizagens eficazes a longo prazo, com consequências no estado geral da educação e no futuro de um país.

Mas regressando ao tema original, também não desesperemos. Confiemos no potencial de abordagens diversas que os futuros professores trarão para o terreno de investigação.