terça-feira, 31 de julho de 2007

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Agora sim, está pronto. Mais uma versão do clássico PT-17.

Ontem, com a noite a cair, a ericeira cobriu-se de um espesso manto de nevoeiro vagamente reminiscente de um nos meus filmes de terror favoritos. Foi um bom (e fresquinho) remate para um dia escaldante.

Leituras

BBC | Film director Bergman dies at 89 Ontem o mundo do cinema, e o mundo em geral, ficou um pouco mais pobre com o falecimento do influente cineasta que foi Ingmar Bergman. Ao jogar xadrez com a morte, todos acabamos por perder, no final.

Guardian | Inside Iran's nuclear nerve centre Ostensivamente, o objectivo final do programa nuclear iraniano é pacífico: dotar o país de combustível nuclear para alimentar centrais nucleares. No entanto, entre os vários complexos iranianos de pesquisa nuclear, entre os quais se encontram duas centrais de enriquecimento de urânio, não se encontra uma única central nuclear. Reportagem do Guardian, numa rara visita organizada para jornalistas à polémica central de enriquecimento de urânio de Isfahan.

AOL | Concept cars of the past Nos anos 50 o styling reinava sem oposição. Foi quando surgiu o concept car, hoje em dia a epítome da combinação entre design e tecnologia, naqueles tempos sinónimo das mais estranhas propostas de veículos automóveis, desde automóveis com duas rodas equilibrados por giroscópios a veículos cujos tejadilhos eram redomas de vidro, sem esquecer os projectos da Ford de dotar os automóveis de motores nucleares... o que traria uma nova e catastrófica dimensão aos acidentes automóveis. Mas agora confessem: entre ailerons estilizados e tejadilhos em bolha, comparando com os pouco sexys dispositivos abs e de segurança no veículo, o que é que realmente preferem?

The Times | The 50 best movie robots Podemos não concordar com listas, podemos não concordar com o conteúdo das listas, podemos até não conhecer boa parte dos items das listas (que vergonha, e considero-me eu uma pessoa culta nestas coisas da FC). Mas falamos de robots. Robots. É preciso dizer mais para vos convencer a clicar na hiperligação e ler o artigo?

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Leituras

BBC | Nasa astronauts drunk on duty Como fã que sou das aventuras espaciais, retransmitir esta notícia até me fica mal, mas não resisto a comentar que a ideia de astronautas fortemente ressacados (ou ainda em estado lastimoso) aos comandos de centenas de toneladas de nave espacial e combustível altamente explosivo dá um sentido totalmente novo à expressão space cowboy.

BBC | California cuts diesel emissions Um sinal positivo de um estado americano que se fosse país estaria entre as quatro maiores economias do mundo: o governo da Califórnia aprovou medidas que restringem as emissões poluentes dos veículos de motor diesel. O alvo, no entanto, não são os veículos privados, mas sim as frotas de veículos auxiliares - tractores, buldozers, camiões de bagagem, normalmente esquecidos quando se fala da poluição causada pelos veículos automóveis.

Guardian | Southern Europe scorched as rains batters north Estranho, este verão europeu, com o sul da Europa a derreter debaixo de temperaturas escaldantes e o norte a ficar submerso debaixo de chuva incessante. Estes padrões metereológicos disruptivos são um indicador dos tempos futuros. Estas notícias só me trazem à memória o título do eco-romance de FC escrito por Bruce Sterling com o título de Heavy Weather (nunca o li, por sinal). Estes padrões erráticos de comportamento dos sistemas metereológicos são mais um sinal claro das alterações climatéricas.

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Sei que o que vou escrever a seguir me crucificará, mas eu estava a gostar imenso deste verão leve e fresquinho. Quando é que voltam os dias de vento, céu nublado e aguaceiros? Quando é que termina este insopurtável calor? E porque é que eu não largo este país, que até nem é grande coisa, e vou viver para climas mais agradáveis, como a Gronelândia ou as ilhas Spitzbergen?

domingo, 29 de julho de 2007

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Aqui os truques são outros... talvez um dia explique.

Será que o verão veio para ficar? Acabaram-se os dias fresquinhos? Quel horreur...

sábado, 28 de julho de 2007

... in progress ...



Mais um Stearman PT-17, desta vez noutro ponto de vista. Observa-se que o desenho está um pouco inacabado. É esse o objectivo. Desta vez, em vez de mostrar o produto final, mostro o trabalho em progresso, com alguns dos meus truques.

Em primeiro lugar, traço, manualmente com o rato, as formas do objecto a partir de uma referência fotográfica. A referência fotográfica serve para dar mais precisão quer em termos de formas quer em termos de perspectiva. Utilizo a pen tool do Corel Draw para isso.

Fica um amontoado confuso de linhas. Selecciono tudo, combino todas as linhas numa forma (comando combine ou ctrl+l) e selecciono todos os nós de linha com a ferramenta shape. Converto todas as linhas para curvas, deixando os nós em cúspide. Quebro a curva, voltando a ficar com um amontoado de linhas, com o comando ctrl+k.

Resta o trabalho de formiguinha. Primeiro lugar, garantir uma paleta (aquelas formas que estão por debaixo do avião). Assim asseguro-me que estou a utilizar os tons certos em todas as formas. Depois, é trabalhar linha a linha - novamente ferramenta shape, para suavizar nós, eliminar o que não interessa e limar o mais possível a forma; depois, atribuir a cor base, o tom mais escuro (combinando o eyedropper com o balde de tinta), duplicar a forma, atribuir tom intermédio, aplicar gradiente para criar a ilusão de volume, duplicar novamente a forma, atribuir tom claro, acertar o gradiente, e se ainda for preciso duplicar novamente a forma, atribuir tom branco, e manipular o gradiente para dar a ilusão de brilho. Agrupar tudo. Pegar noutra curva e repetir o processo. No final, basta, utilizando o docker object manager do Corel, definir a ordem e posicionamento das formas em relação às outras (o que está à frente ou atrás do quê.

É um trabalho de paciência que me dá muito gozo. Tempo mínimo para um desenho destes são duas horas, bem passadas com a combinação entre rock clássico (deep purple, hawkwind, doors), música clássica (luís de freitas branco, bach), blues (billie holiday, r. l. burnstein, nina simone), jazz (miles davis, stan getz), música contemporânea (iannis xenakis, krysztof penderecki) e um whiskyzinho de 12 anos se a minha namorada não estiver a ver, ou então uma cervejinha se estiver mais calor.

A vida, há que saber vivê-la com estilo.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Bibliofagia

Em diálogo com o ensaio Os Livros da Minha Vida de Henry Miller, livro recomendadíssimo a bibliófilos e bibliófagos, emperrei nestas duas frases, num capítulo sobre Jean Giono, escritor francês que francamante desconheço.

É curioso nunca ter sido capaz de mostrar nada seja a quem for. Sempre me criticaram por isso. As pessoas dizem: "Ninguém percebe aonde queres chegar". E quem nunca se sentiu assim, quem nunca sentiu que as suas palavras e acções não são as suficientes para se fazer compreender? Como diz uma boa amiga minha, podemos dizer coisas importantes às pessoas que nos rodeiam, que elas não compreendem porque não consiguem ver as nossas reais emoções.

"O erro que cometi", diz o pai, "foi querer ser bom e prestável. Tu vais cometer o mesmo erro que eu". Esta frase, meus amigos e leitores, resume a história da minha vida. E a de tantas outras, perdidas na vã esperança de tentar fazer algo de positivo e construtivo.

Ambas as frases são de Giono, escritor que decididamente tenho de ir ler.

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Tenho perfeita consciência de que as pombas da paz são branquinhas, puras, virginais... alvos perfeitos para os mais zarolhos dos caçadores... mas branco, simples branco, é demasiado monocromático para o meu gosto. Perdoem-me, mas as cores são para vibrar, para explodir na imagem, nos nossos olhos, na nossa mente. Dedicado à minha boa amiga Paula, que pegou na ave original e me deu as dicas certas para a melhorar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

PT-17 Stearman


Wikipedia | PT-17 Stearman

Um clássico da elegância aeronáutica. Com uma imprecisão - os PT-17 não tinham nacelas a cobrir o motor. Desenhei-a porque não estava com paciência para replicar os detalhes do motor.

Nestes vectores geralmente trabalho a partir de fotografias. Podia correr o Corel Trace, e isso poupar-me-ia imenso trabalho, mas prefiro um método mais manual - identifico as formas, traço-as manualmente com a ferramenta pen, limo as arestas (converto linhas em curvas, trabalho nó a nó) e depois é uma questão de escolher cores, duplicar formas, aplicar gradientes, agrupar, escolher cores, duplicar formas, aplicar gradientes... até ao produto final.

Não sou formalmente treinado nestas coisas. Cada novo desenho é um desafio, em que tento ir mais além do que o anterior.

terça-feira, 24 de julho de 2007

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Grab your coat and get your hat
Leave your worries on the doorstep
Life can be so sweet
On the sunny side of the street


Grande canção do jazz, esta.

Leituras

BBC | $100 laptop production begins Cinco anos após o início do projecto, já há encomendas suficientes (mais de três milhões) para assegurarem o arranque da produção em massa do OLPC. Uma ideia, e uma ferramenta, verdadeiramente capaz de mudar o mundo.

Correio da Manhã | Tribunal valida base de dados para grevistas Boas notícias para as liberdades e garantias: o tribunal administrativo considerou que o projecto governamental de criação de uma base de dados sobre trabalhadores da administração pública que façam greve como algo legítimo, sublinhando a aparente intenção de que esta base de dados é uma ferramenta estatística. O problema é que tem o potencial de ser algo mais do que uma ferramenta estatística, podendo ser mais um dado a levar em conta na gestão de carreiras. A partir deste momento, eu, que geralmente sou avesso a greves, vou passar a aderir, sempre. É uma questão de princípios, e começa a estar em causa algo maior do que meras disputas laborais.

Guardian | Flirting and fornicating Os franceses, pais da corte elaborada e da galantaria, aderiram em força ao Meetic, um serviço online que propicia encontros sem distinção de preferências ou estados civis. A corte online, sem os tradicionais galanteios, assegura passagens a vias de facto (quem não perceber o eufemismo não vale a pena que lho explique) logo nos primeiros encontros cara a cara. Decadência das velhas artes do galanteio? Tempos modernos, estes, em que um homem (ou uma mulher, sejamos igualitários) já não tem tempo para ir cantando a sua canção do bandido...

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Resmungos

A história das diskettes de manhã recordou-me dos velhos tempos em que as diskettes reinavam e vinham invariávelmente ter comigo com a inevetável pergunta "Artur, não consigo guardar o meu trabalho na diskette". "É natural, o teu trabalho tem 2 megabytes (ou qualquer coisa do género). Uma diskette tem 1,44 megas". "Sim, então porque é que eu não consigo guardar o meu trabalho na diskette?" Normalmente, rebolava os olhos até ao tecto e tratava de arrranjar uma estratégia de saída o mais depressa possível.

Já recebi o selo do carro para este ano. Abri a carta, e, estupefacto, fiquei abismado a contemplar aquela coisa cor-de-rosa que vou ser obrigado a fixar no pára-brisas do carro. Cor-de-rosa? Que gayzice! Imagino já em Lisboa um subdirector qualquer verdadeiramente efeminado a magicar os esquemas de cores para o selo do carro para os próximos anos. Azul Bébé? Malva? Rosa leve? Rosa Choque? Talvez uma combinação destas cores? Estou profundamente agradecido aos senhores das finanças por ter pago o imposto e ser obrigado a exibir aquela excrecêsncia rosa no carro - cor que todos os que me conhecem sabem que simplesmente abomino.

Como Leakey

Dia de trabalho na escola, com os alunos em férias. Chegar, dirigir-me à sala onde um colega de trabalho estava a desmontar velhos pcs esquecidos nas arrecadações em busca de componentes reutilizáveis. Tentar encontrar ratos usb para colegas que não se ajeitam com os touch pads dos computadores portáteis. Sem sucesso. Ajudar a pôr a funcionar uma velha máquina a correr Windows 98 com memórias, drives de cds e discos rígidos canibalizados a outras velhas máquinas. A ideia é ter uma máquina de apoio a alguns professores que assim o pediram, sem preocupações de versões recentes, disponível numa arrecadação. Instalar o OpenOffice no dito PC, através de uma drive flash. Encontrar controladores usb compatíveis com o Win98 para a dita drive flash. Necessitar de uma diskette para transportar os controladores de um computador para aquele que realmente necessita, e descobrir que, realmente, a diskette está em vias de extinção acelarada. Após localizar uma dikette, entrar na sala onde estavam outros professores empunhando a diskette como uma hóstia, proferindo as palavras "imagino como Schliemann se sentia ao empunhar a máscara de agamemnon" (ninguém percebeu), tentando novamente com "imagino Leakey a segurar pela primeira vez nos ossinhos da Lucy" (uma colega percebeu).

Regressar a casa, ligar o computador, passar a tarde à volta dos nós, linhas e gradientes no corel. O dia clareou, talvez lá para o anoitecer dê um pulinho à praia.

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Cadillac of the skies! Os mais incautos podem sempre recordar esta expressão de um momento maravilhoso no Império do Sol de Spielberg, baseado na obra homónima de J. G. Ballard, em que o jovem protagonista, após os horrores e o desespero do campo de concentração japonês, quase toca um P-51 em pleno voo. Num momento de perfeição ballardiana, o tempo congela, a mão procura a máquina, inatingível, a aeronave de brilho metálico parece suspensa, e o piloto acena, sorrindo lentamente, e no momento seguinte tudo se acelera, o avião passa velozmente.

Leituras

BBC | Mars dust threaten rovers Desenhados para funcionar durante seis meses marcianos, os rovers Spirit e Oportunity estão desde 2004 a desafiar probabilidades, realizando maravilhosas e intrigantes observações da superfície marciana. Pesa agora uma ameaça sobre eles, na forma de uma gigantesca tempestade de poeira, que bloqueia a luz solar, essencial para alimentar os rovers de energia.

BBC | Net criminals shun virus attacks Vírus, zombie pcs e botnets são coisas que parecem estar a sair de moda no mundo obscuro do cybercrime. As técnicas criminosas tornaram-se mais subtis, como a inserção de código java malicioso em sites legítimos que permite aos criminosos, enganando os pcs dos utilizadores, tomar conta de servidores e nós de acesso. Sem grandes surpresas, as redes de partilha de ficheiros são o terreno fértil para estas novas operações.

Guardian | An inability to tolerate islam contradicts western values Aceitar a liberdade de expressão como um dos valores basilares na nossa civilização é uma tremenda responsabilidade. Temos de estar preparados para ouvir todas as opiniões, até mesmo aquelas que nos revoltam (desde que, claro, essas opiniões não sejam reforçadas por actos criminosos). As ideias combatem-se com argumentos, com discussão, e não com censuras ou segregação. Geralmente, segregar ou censurar ideias costuma ter o efeito precisamente oposto ao pretendido.

Guardian | Kosovo to declare independence despite russian opposition Aproxima-se mais uma crise diplomática entre a Europa, os EUA e a Rússia, curiosamente centrada na zona que em 1914 deu origem às convulsões que mudaram a face do planeta (bem, deu origem não é a melhor expressão. Foi antes a faísca que acendeu o rastilho que rebentou com os explosivos colocados anteriormente). O Kosovo, agora sob administração das Nações Unidas, quer ser independente, de pleno direito, da Sérvia. Essa pretensão é entusiasticamente apoiada pelos EUA mas rejeitada pela Rússia, aliada incondicional da Sérvia. Quanto à diplomacia europeia, esta opta pela cautela - embora apoie a vontade de independência kosovar, só a aceita num cenário de consenso entre todas as partes, coisa difícil de antever com os habituais vetos russos. Os kosovars começam a mostrar-se impacientes e preparam-se para dar ao mundo um fait accompli, declarando unilateralmente a independência, o que iria intensificar as tensões que se sentem naquela partida do mundo.

domingo, 22 de julho de 2007

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O dia raiou solarengo mas está fresquinho. Dizem que vai chover. Pelo menos sempre rega as plantas.

Albion



International Superheroes
In The Fifty-Pee Box | An Albion Website
Comicon | Albion

Alan Moore, Leah Moore, Jonh Reppion, Shane Oakley, George Freeman, Albion, DC Comics/IPC/Wildstorm, 2007

Os fãs de banda desenhada costumam dividir as suas lealdades. Por um lado, olham para o golorioso formato comic, de origem americana, com as suas histórias em permanente continuidade mensal. Se bem que aparentemente limitados às histórias tipicamente adolescentes de super-heróis sempre em luta contra abomináveis ameaças, o comic é algo muito mais abrangente, que reúne uma série de experiências clássicas, objectos de culto a roçar o camp (ou então perfeitamente kitsch) e, nos últimos tempos, graças ao surgir da graphic novel, uma forma privilegiada de cruzar literatura com banda desenhada. Por outro lado, temos o formato clássico europeu, auto contido no album de banda desenhada, cujas personagens podem evoluir ao longo de vários albuns, quando muito publicados prancha a prancha em revistas especializadas. Há também aquele toque de guerrilha cultural, com os apologistas da cultura anglo-saxónica (o comic) a degladiarem-se com os sequazes da francofonia (o album). Mas não entremos nesses campos.

De qualquer forma, o simples citar de personagens como Batman, Asterix, Super-Homem, Spirou, Capitão América, Tintin, Liga da Justiça, Passageiros do Vento, Wonder Woman, Jonh DiFool, entre tantos, mas tantos outros possíveis, ressoa até na mente daqueles que não se interessam pela oitava arte. Para os amantes da BD, a memória enche-se de agradáveis recordações de momentos passados mergulhados no mundo quadriculado das páginas, lendo obras que percorriam o espectro do interessante ao divertido. Do policial tenebroso e super-heróico de Batman, dependente sempre da ambiência trágicamente obscura, ao puro surrealismo das aventuras de Jonh Difool na Garagem Hermética. Da iconografia vagamente nacionalista do Capitão América à puerilidade complexa das aventuras do repórter com aquela onda no cabelo, sempre acompanhado pelo fiel Milú (agora falha-me a memória... Milú era cão, ou cadela?), o rigor da reconstituição histórica aliado ao humor de Asterix... enfim, se me pusesse aqui a citar exemplos nunca mais daqui saíria. Por vezes, temos de saber parar.

O mundo da BD não vive desta dicotomia. Se os comics e os albuns são prevalentes, há outras formas de publicar e ler BD. A internet, com os webcomics a misturar a animação com o desenho, a saltar fronteiras, é onde podemos olhar para as experiências contemporâneas e tentar vislumbrar o futuro. No mais clássico meio da obra impressa, os manga são aquele estranho caso de sucesso a recordar que outras culturas têm outras formas de ver a banda desenhada. E depois temos os comics esquecidos, os personagens caídos no esquecimento, as editoras falidas que levaram consigo catálogos de personagens queridos pelos fãs.

Se nos desafiarmos a pensar em personagens de BD, a lista é infindável. Mas se há nomes conhecidos de todos, quem é que se recorda de personagens como Captain Hurricane, Kelly's Eye, The Spider, Robot Archie, Cursitor Doom, Grimly Feendish, Mytek, The Steel Claw? Uma dica: encontrei-os pela primeira vez nos longínquos anos 90, através de uma edição especial do comic britânico 2000 AD (responsável pela continuidade do infame mas divertido Judge Dredd).

A banda desenhada inglesa é bem conhecida, não tanto pelos seus personagens originais (excepção feita ao fascismo futurista de Judge Dredd), mas pelos seus criadores, muitos dos quais a trabalhar para editoras americanas e a criar aí as suas melhores obras. Podemos citar Brian Bolland e Dave McKean como dois ilustradores de excelência, mas a peculiaridade literária da língua inglesa com sotaque britânico catapultou, com mérito próprio, argumentistas como Alan Moore (incontornável), Neil Gaiman (viciante), Warren Ellis (a roçar o escatológico) ou Garth Ennis (escatológico, ponto final) para os píncaros da qualidade literária do género. Quando pegamos em obras com argumento destes autores, sabemos que nos espera sempre uma leitura interessante, viciante, provocadora.

A primeira influência destes autores britânicos, por eles assumida, foram os comics que liam enquanto crianças e adolescentes. Entre o muito que liam, entre as edições importadas dos EUA e as reedições locais da Marvel e DC Comics, liam também as aventuras da bizarra galeria de personagens dos comics britânicos. Com especial incidência nas décadas de 50, 60 e 70, as editoras britânicas apostaram muito na banda desenhada, criando uma galáxia de personagens na altura famosos e amados, mas depressa esquecidos sempre que as antologias de BD deixavam de ser publicadas quando as editoras singravam por caminhos mais lucrativos.

Os comics britânicos dessa época têm qualquer coisa de diferente. São culpados de um certo simplismo, devido não só à temática como também à forma de publicação, em antologias semanais que coligiam aventuras de muitos personagens, forçando os argumentistas a desenvolverem histórias muito curtas. Mas os personagens não se enquadram bem naquela dicotomia bem/mal sempre presente no género. Ou eram, então, simplesmente bizarros. É intrigante ler as aventuras de personagens como Robot Archie (aventuras para rapazes de dois rapazes e o seu british battling robot, The Spider (imaginem um Batman assassino e criminoso, um perfeito anti-herói e a mais marcante personagem da BD britânica), Cursitor Doom (comparável a um tenebroso Dr. Estranho, personagem que se move nos campos místicos), Steel Claw (uma mistura de detective, assassino e agente secreto capaz de se tornar invisível excepto pela sua mão de aço), Kelly's Eye (um homem indestrutível, graças à joia que enverga ao peito, o olho de Zoltec), Captain Hurricane (super-soldado especializado em espancar divisões inteiras de soldados nazis, especialmente se nas garras de uma das suas ragin' furys) ou o estranhíssimo Dolmann (um construtor de marionetas que combatia o crime com as suas marionetas, que graças aos seus dons de ventríloquo dotava de discurso próprio, o que não impedia as marionetas de discutirem com o seu criador ou agir sem o seu conhecimento, pormenor capaz de pôr em causa a sanidade do personagem ou, pelo menos, de quem a criou). Não é o heroísmo nietzschiano à mistura com estranhos poderes do comic americano; não é a puerilidade das aventuras franco-belgas. É algo de bizarro, inquietante, ou outras vezes puramente ridículo.

Tudo isto para introduzir Albion, uma edição da DC Comics que recupera os clássicos personagens britânicos. A intenção é clara, despertar a curiosidade para reedições das bandas desenhadas clássicas ou para novas encarnações dos personagens. Apesar disso, Albion tem o envolvimento de Alan Moore, o que lhe garante alguma qualidade, embora Moore esteja mais envolvido no delinear da história e personagens, ficando o desenvolver da história a cargo da filha, Leah Moore, e de John Reppion. Mais interessante são as ilustrações, modernas e estilizadas, de Shane Oakley e George Freeman. Alan Moore, recorde-se, não é estranho a estes revivalismos: note-se o seu trabalho com o Monstro do Pântano, personagem da DC Comics, para o qual Moore fez reviver inúmeros personagens esquecidos do panteão clássico da DC.

Albion utiliza uma premissa que não é novidade em comics: nos tempos presentes, não existem herois, tendo estes sido perseguidos e detidos, ou então ocultando-se nas margens da sociedade. Albion é uma viagem de descoberta dos velhos personagens, através da busca que a filha de um dos personagens clássicos e um fã incondicional fazem, que os leva à prisão onde estão detidos os heróis e anti-heróis clássicos. Albion passa-se em dois espaços, nas ruas inglesas, onde os verdadeiros heróis das histórias encontram aqueles que se ocultaram do longo braço da lei, e na prisão ultra-secreta onde estão encerrados e esquecidos os velhos heróis. O final termina o livro com uma libertação, quais génios soltos da lâmpada. Desculpem revelar o final, mas vem apenas sublinhar a intenção de reviver estes personagens.

Albion é uma leitura nostálgica, que vale por si só, mas torna-se mais interessante quando contextualiza os personagens na história editorial e ao inclur algumas das histórias clássicas. Leitura recomendada para aqueles que gostam de descobrir coisas novas, ou redescobrir coisas esquecidas.

sábado, 21 de julho de 2007

Paciência

Não resisti a dar um pulinho à feira do livro ali ao pé da ermida de s. sebastião. Saí de lá mais pobre em dinheiro e mais rico em ideias. Mas não resisto à visão de bancadas recheadas de tomos literários e as caixas a abarrotar de lombadas convidativas. Apesar desta feira estar mais dedicada ao grande público do que aos que têm o bichinho do livro, com muita coisa nova e muito pouca coisa já esquecida e com destino certo nas prateleiras dos alfarrabistas (ah, e que locais encantandores são esses... um dia desisto de da vida de setor e dedico-me ao meu amor pelos livros já lidos e esquecidos), ainda lá se encontram coisas interessantes, como a obra poética de Virgílio traduzida por Agostinho da Silva a um preço irrisório (paguei dez vezes mais pela minha cópia), obras do Divino Marquês (sim, o de Sade), Wenceslau de Morais sobre o chá, textos de Bulhão Pato (exactamente, o que deu o nome à receita das ameijoas), Sun Tzu, Clausewitz, uma fantástica história da I Guerra, obra culinária de Da Vinci... bem, recomenda-se o pulinho, para se vir de lá carregado de coisinhas para ler à beira mar.

Entre os tesouros que encontrei, veio nas minhas mãos Os Livros da Minha Vida um ensaio apaixonante do meu velho amigo Henry Miller sobre os livros da vida dele. Nesse ensaio, abrio-o ao acaso, e deparei com estas frases:
"Para vermos aonde um professor pode chegar, que alturas pode atingir e que capacidades pode desenvolver, basta-nos pensar na história do despertar de Helen Keller para a aprendizagem. Era uma grande professora, essa Miss Sullivan. Uma aluna cega, surda e muda - que tarefa para enfrentar! Os milagres que realizou tiveram origem na paciência e no amor. Paciência, amor, compreensão. Mas, acima de tudo, paciência."

A minha fasquia profissional acabou de ficar mais elevada. Henry Miller, esse grande escritor do alto modernismo, ficou famoso pelas razões erradas. Quando de fala nele, só se pensa no lado do erotismo, quando aquilo que realmente torna Miller imortal é a sua prosa, as suas torrentes de palavras libertas. É um caso típico de se julgar um livro pela sua capa.

São palavras destas que me motivam, e não as elocubrações autocentradas dos teóricos da educação e da psicologia, que parecem existir apenas para se autojustificarem.

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Distraído como ando, só ontem é que reparei na feira do livro que está ali em beixo em S. Sebastião. Agora tenho de andar a segurar-me: não posso comprar mais livros, a minha mesa de cabeceira já está a ceder perante o peso de todos os livros que ainda tenho para ler. Se calhar não consigo resistir e ainda lá dou um salto. Nunca lemos livros a mais.

Leituras

BBC | Saturn's sixtieth moon discovered A sonda Cassini, a orbitar Saturno, enviou para a Terra imagens de uma nova lua de Saturno. Com 2 km de diâmetro, esta é a sexagésima lua encontrada na órbita de Saturno, e os cientistas suspeitam que poderão ser encontradas mais luas a orbitar o sistema.

Guardian | The greatest threat to peace in Nepal is military impunity Normalmente imaginamos os recantos remotos no sopé dos himalaias como locais duros mas paradisíacos, onde a filosofia tradicional se conjuga com a grandeza da paisagem em terras de paz pitoresca. Nada mais longe da verdade - a pobreza abjecta reina, e com ela a instabilidade política. No caso do Nepal, o país vive agora umas tréguas de uma sangrenta guerra civil entre guerrilheiros maoistas e um exército regular muito adepto do uso do rapto e tortura para conseguir os seus fins. A guerra pode ter terminado, mas os maiores criminosos ainda detêm o poder. É a receita explosiva para mais um conflito.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

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Belos fins de tarde. Mas não estou a aproveitar; pelo andar da carruagem, só me "livro" da escola em agosto. Passo lá agora mais tempo do que durante o meu horário de aulas. Enfim, os projectos não andam sozinhos. Mas como sou um tipo com bom humor, tomem lá um mapa da internet como o sistema de metro de Londres, puro photoshop phun a trocar canções com cartazes de cinema e as mais estranhas marcas de preservativos japoneses. Os robots-preservativo são um must.

Leituras

BBC | Gulf dead zone to be biggest ever A chamada zona morta do golfo do México, uma extensa àrea de oceano onde a poluição e a acumulação de fertilizantes é tão grande que não existe oxigénio e a fauna desaparece, será este ano a maior de sempre.

BBC | Fast food brands hit kids online No combate ao combate à obesidade, vale tudo, desde oferecer brinquedos para habituar as crianças a uma dieta de hamburguers a circundar as leis que proíbem a publicidade directa ao público infantil com sites onde com jogos fazem passar subtilmente a mensagem de que a comida rápida é a melhor coisa do mundo.

Guardian | Rich donors hefty cheques will never solve poverty A filantropia milionária parece excelente, até se perceber que apenas cria assimetrias na distribuição de ajuda, com os filantropos a escolherem - e, em muitos casos, a quererem gerir - causas na moda sem que se estabeleçam estratégias de combate global à pobreza e injustiças sociais.

Guardian | Insurgents form political front to plan for US pullout As várias organizações ditas terroristas que combatem as tropas americanas no Iraque uniram-se numa frente política, assumindo públicamente a intenção de expulsarem os americanos do Iraque. De fora ficaram os Baathistas, representantes do antigo regime, e a Al Qaeda, denunciada pelos insurgentes iraquianos como responsável pela violência sectária que domina a de facto guerra civil no país.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

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Não é um original meu, antes uma vectorização deste simpático ratinho.

Leituras

Guardian | This flurry of Middle East activity is the product of a very real threat: Iran Por entre os escombros do Iraque e o caos generalizado do médio oriente, o Irão surge como a de facto potência regional, com notórias ambições nucleares e um regime que faz tremer muitas capitais, assente sobre uma reserva enorme de petróleo. Os jogos geopolíticos sucedem-se, com os EUA e Israel a manobrarem, tentando influenciar a Rússia e a China, parceiros privilegiados do Irão. O espectro da guerra paira no ar, comentando-se que a administração Bush planeia utilizar a força contra o programa nuclear iraniano até ao fim da sua legislatura, ou seja, até janeiro de 2009, possivelmente termiando a legislatura com mais um perigoso e sangrento fait accompli cujo rescaldo ficará para os que vierem a seguir. Por outro lado, existem vias diplomáticas abertas, e fracturas no regime iraniano, que não é tão monolítico quanto aparenta, dependendo largamente de élites económicas que têm mais a perder com sanções económicas do que com ataques militares. Em suma, o great game do século XIX regressou, em força.

Guardian | Poppy eradication in Afghanistan risking lives, warn MPs Com as atenções concentradas no Iraque, a comunidade internacional está a esquecer o Afeganistão, nominalmente no caminho para um futuro melhor, com um governo pró-ocidental e uma força militar da NATO a assegurar a paz no país. A realidade no terreno é muito diferente - o governo afegão depende demasiado do poder dos antigos senhores da guerra afegãos; a força da NATO é reduzida e incapaz de intervir decisivamente; por outro lado, são confundidos com as forças americanas, que operam no país independentemente da NATO, e cujas accções militares contra os redutos da Al Qaeda estão a enfurecer os afegãos; a população, empobrecida, não sente as apregoadas melhorias; os talibans, derrotados, estão a ressurigir como força militar, servindo-se do sentimento de nacionalismo e assumindo-se como lutadores contra a ocupação estrangeira. Last but not least, o cultivo do ópio está a atingir níveis recorde, com as políticas de erradicação do cultivo a falharem redondamente. O Afeganistão foi o exemplo de uma guerra que militarmente foi ganha em muito pouco tempo, mas que a longo prazo está a ser perdida devido a erros admnistrativos crassos. Não chega chegar e arrasar; é, também, preciso ajudar a reconstruir.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

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Estar lá, noutro sítio, com outros a rodear-nos, algures, em novas vistas e recantos. Partir, deixar o que já passou, ir em busca do que virá.

Leituras

BBC | Google cookies will auto delete Em nome da privacidade online, a Google alterou o seu sistema de cookies (aqueles pequenos ficheiros guardados no nosso computador ou nos servidores que nos identificam perante um site e que têm o potencial de nos deixar a nú perante olhares indiscretos): em vez de expirarem em 2043, expiram em dois anos, caso o utilizador não regresse ao site. Por outro lado, quem não usa o Internet Explorer não se preocupa tanto com cookies como os noventa e tal por cento de utilizadores da internet se preocupam - ou deveriam preocupar.

Correio da Manhã | Preços: energia cara em portugal Mais um estudo que prova aquilo que todos já sabiam: que em portugal, com os salários mais baixos, pagamos os preços mais altos. Estranho paradoxo, este país.

Guardian | Yes, Iraq is a calamity, but military intervention can be a good thing Uma das mais nefastas consequências do aventureirismo no iraque foi a má imagem que deu às intervenções militares em zonas perigosas do mundo. Por causa do caos iraquiano, torna-se indefensável, perante a opinião pública, intervir militarmente noutras zonas do planeta. O exemplo do Darfur salta logo aos olhos. No entanto, intervenções militares, sob a égide da ONU, seriam de extrema utilidade para pacificar zonas de conflito e permitir às ONGs e organizações governamentais trabalhar em prol do desenvolvimento das zonas mais pobres do planeta. Como casos de sucesso veja-se a intervenção britânica na Serra Leoa, o policiamento australiano das Ilhas Salomão (nação em risco de implosão, com o governo central ameaçado por grupos de bandidos armados - literalmente, banditismo, não guerrilhas ou terroristas) ou até mesmo o Kosovo.

Finalmente, eleições em Lisboa, que é e sempre será a minha cidade, embora este filho das sete colinas esteja um pouco afastado da costa do castelo onde nasceu. Um só reparo: a progressiva subida dos energúmenos do PNR nos resultados eleitorais. O partido dos mentecaptos neofascistas está a limpar de forma muito inteligente a sua imagem, mostrando-se mais e tentando influenciar os descontentes com o estado das coisas. Devem ser combatidos, mas não com a altivez do mainstream, que nestes casos combate o fogo com gasolina (pedindo, por exemplo, a proibição das manifestações deste partido). Ideias retrógradas e francamente perigosas como as do PNR combatem-se com ideias, com contraposição. Se não o fizermos, certamente que não teremos um hitler ou um novo salazar (se bem que no caso de sócrates as semelhanças por vezes iludem), mas talvez um Jorg Haider... tolerar estas ideias faz parte dos mais básicos princípios da democracia, mas lutar pela liberdade é, sem dúvida o mais básico pilar da democracia.

terça-feira, 17 de julho de 2007

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Olho pela janela e compreendo o que significa a expressão manhã submersa. O nevoeiro tudo cobre com um manto leitoso.

The Bride of Frankenstein



IMDB | The Bride of Frankenstein
Wikipedia | The Bride of Frankenstein

A sequela é um dos parentes pobres do cinema. Concebida para capitalizar sobre o sucesso de um filme que desperte imaginações e aqueça corações, a sequela normalmente deixa muito a desejar, raramente conseguindo corresponder às expectativas levantadas pelo filme original.

Realizado em 1935 por James Whale, The Bride of Frankenstein era a lógica sequela do bem sucedido Frankenstein de 1931. Com o sucesso do filme seminal que lançou a carreira de Boris Karloff e marcou a ferros na cultura pop o ícone do monstro, os estúdios Universal deram a Whale, que também havia realizado o primeiro Frankenstein, carta branca e financiamento a rodos para realizar a sequela do filme de sucesso. O resultado final é algo de inesperado, iconoclasta e inquietante, um verdadeiro clássico do cinema de terror, mais marcante do que o Frankenstein inicial.

Inspirando-se numa passagem do original de Mary Shelley, onde o monstro exige uma companheira, Whale rebusca todos os lugares comuns e mistura todos os elementos icónicos, dando-nos uma visão vastamente mais interessante e irónica sobre o mito do monstro criado pelo homem.

The Bride of Frankenstein abre onde o filme anterior tinha terminado, sobre os escombros em ruínas do moinho de vento queimado pelos aldeões, na esperança de aniquilarem o monstro. Horrivelmente queimado, o monstro de Frankenstein cai por entre as tábuas apodrecidas do soalho para dentro de um poço, que lhe salva a vida. E é a última coisa que vemos do monstro, até cerca de metade do filme.

Após os trágicos acontecimentos, o Dr. Frankenstein resigna-se à vida doméstica nos salões góticos do seu castelo de família, cuidado pela sua esmerada esposa. Mas o idílio doméstico é depressa interrompido por um sinistro personagem, o Dr. Praetorius, homem verdadeiramente mefistofélico que busca o segredo para a criação da vida. Tendo atingido um beco sem saída com as suas experiências com homúnculos de origem vegetal, Praetorius procura Frankenstein, ansioso por descobrir os segredos de Frankenstein. Melífulo, o Dr. Praetorius tenta primeiro insinuar-se junto de Frankenstein, tentando estimular a antiga vaidade científica do cientista, mas perante as insistentes recusas de Frankenstein vê-se forçado a recorrer a métodos menos legítimos para convencer o cientista.

Entretanto, o monstro vagueia, perseguido, pelas florestas, até encontrar abrigo na cabana de um velho cego, que incapaz de ver o monstro alberga-o na sua casa, ensinando-lhe o valor da amizade, ensinando-o a falar, ensinando-lhe a fumar uma boa cahimbada e a beber um bom vinho (sem dúvida, conhecimentos importantes para a vida de qualquer homem), ensinando o monstro que fire nem sempre é bad. Mas este momento de tranquiladade termina de forma trágica, quando dois caçadores reconhecem o monstro e o tentam matar, sem grande sucesso mas assegurando a trágica morte do cego ancião.

Alertado para o ressurgir do monstro, Praetorius consegue, de forma perfeitamente desapiedada, convencer o monstro a servi-lo, obrigando Frankenstein a trabalhar na concepção de uma noiva para o monstro - a noiva de Frankenstein que dá o título e o mote ao filme.

Após a obrigatória cena do roubo de cadáver numa cripta, filmada com especial ironia e genialidade, com Praetorius a gozar uma boa refeição rodeado de caveiras, o filme centra-se nos esforços de Praetorius e Frankenstein que, conjugando os seus conhecimentos, conseguem insuflar o sopro da vida no cadáver da noiva do monstro. No entanto, o fim é trágico - ao acordar, confusa, a noiva não se mostra exactamente muito empolgada com os atributos físicos do noivo, o que leva o monstro de Frankenstein ao desespero, destruíndo o laboratório e com ele o Dr. Praetorius, a noiva e a si próprio, não sem antes retribuir um dúbio favor a Frankenstein - tal como Frankenstein tinha dado vida ao monstro, este permite a fuga de Frankenstein com a esposa, retribuindo-lhe a dádiva.

Há dois fortíssimos elementos que transformam este filme numa obra aliciante, verdadeiramente clássica mas que se revisita, sempre com gosto: a ambiência do filme e a fina ironia que o atravessa. Em termos de cenários e ambientes, Whale deixou-se ir, legando-nos um filme que exagera o aspecto gótico, que encontra nos cemitérios abandonados, criptas húmidas e decadentes e salões encimados por arcos românicos o espaço territorial onde o terror clássico se desenvolve. Por outro lado, a adição/invenção da personagem de Praetorius, cientista desedenhoso e mefistofélico, capaz de tudo para conseguir os seus objectivos e que nunca perde a face nas mais horripilantes situações dota o filme de uma ironia que chega a tocar as raias do extremo. Se Frankenstein é um Fausto que se sacrifica em busca da verdade, Praetorius é um Mefistófeles desdenhoso, manipulador e irónico.

James Whale, que irónicamente gostava de ser reconhecido como um realizador de linha clássica e não um realizador de filmes de terror, manipulou este filme quase até ao absurdo, transformando uma mera sequela numa obra-prima de direito próprio, superior à obra original. Infelizmente, é este o ponto alto da carreira cinematográfica do monstro de Frankenstein - após The Bride of Frankenstein, a criatura entra na decadência camp de filmes como The Son of Frankenstein, Frankenstein meets the WolfMan e House of Frankenstein, que fizeram regredir o ícone do horror clássico para o ridículo do sub-produto que vale pela sua falta de qualidade - so bad that it's good.

The Bride of Frankenstein é um filme indispensável para amantes do cinema de terror e para os fãs incondicionais do ícone. Para a história do cinema fica um novo ícone - a noiva, com o seu inigualável penteado, referência óbvia da Marge Simpson do cartoon do mesmo nome.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

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Este raiar da manhã só dá vontade de ir ao sotão desempoeirar os vinis e os cds, recolher os mp3 e ouvir todas as versões de Stormy Weather. Louis Armstrong, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sydney Bechet, Irma Thomas, Pixies... A seguir, passar-se-ia à audição do songbook de Cole Porter (Let's Misbehave), rematado pelo jazz ultracool de Stan Getz. Entretanto, talvez o sol desperte, e aí a música muda de tom: vamos até Gershwin, à Porgy and Bess, ouvir o lendário Summertime, de preferência na voz de Billie Holiday ou na versão de Miles Davis, tesouro musical que este verão ainda não tive vontade de ouvir. Afinal, este verão está mais Keeps rainin' all the time do que And the livin' is easy/Fish are jumpin'/And the cotton is high.

Leituras

BBC | "Jules Verne" set for sea voyage Concebido na Holanda, o Júlio Verne embarcou agora num navio com destino à Guyana. O que é exactamente o Júlio Verne? É o primeiro ATV - Automated Transfer Vehicle, módulo de transporte automatizado que irá assegurar independência europeia face às soyuz russas e aos lançamentos americanos. Ainda não é um módulo habitável europeu, mas não deixa de ser um grande passo para a ESA.

Guardian | Don't flatter the terrorists with a po-faced hush. Mock them A ameaça terrorista é sempre encarada como uma tragédia, que desperta pena, horror e a seriedade no enfrentar da ameaça. E se, em vez de encararmos os terroristas como homens de horror, os ridicularizássemos, retirando-lhes aquela aura de dignidade trárgica do horror?

Guardian | English fraudster gets 20 years for US church scam O tipo de notícia que aquece o coração de um ateu empedernido como eu: um casal de vigaristas viajou pela américa, montando um não muito elaborado esquema de Ponzi que limpou o dinheiro a muitas vítimas. A desculpa estava num fundo de investimento lucrativo e religiosamente responsável, e as vítimas eram recrutadas em igrejas. Depois do caso provado e processado, com os culpados atrás das grades, muitos ainda são aqueles que perderam dinheiro neste esquema e ainda acreditam piamente na inocência dos vigaristas. Enfim, credulidades... don't get me started...

domingo, 15 de julho de 2007

A little dream

But in your dreams whatever they be
Dream a little dream of me


Nada como os clássicos do jazz.

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Who am i, hiding it the bushes? A beast, perchance, awaiting the best of moments to draw near you and, without warning, byte hard upon your flesh? For that is my nature, yet my nature does not make me who i truly am. Will you trust me, will you put your confidence upon a snake?

Leituras

BBC | Intel and $100 laptop join forces Seguidores da saga do OLPC sabem da intensa guerra entre a Microsoft/Intel com o projecto do MIT. É natural, pois o conceito-base do OLPC é o preciso oposto do paradigma computacional na qual assenta a prosperidade das empresas tradicionais de informática. No entanto, a Intel fornece e desenvolve chips, e chegou recentemente a acordo com o projecto OLPC para fazer parte da equipe de empresas dedicadas à manufactura destas máquinas. O OLPC, recordo, é a iniciativa One Laptop Per Child, que visa distribuir pelas crianças dos países do terceiro mundo - e não só - portáteis baratos, a correrem linux, resistentes e capazes de funcionarem como repetidores de acesso wireless, levando a internet aos locais mais pobres do mundo.

Guardian | In the new, anxious world, leaders must learn to think beyond borders Os problemas que as nações enfrentam são, hoje em dia, transnacionais. Desde a globalização às deslocalizações, passando pelo aquecimento global e a ameaça do terrorismo, as grandes questões que obrigam os governos a agir não estão circunscritas a territórios bem definidos com fronteiras. São problemas globais, que requerem dos governos do mundo a capacidade de serem capazes de olhar para lá das suas fronteiras.

sábado, 14 de julho de 2007

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Dezassete horas a renderizar, graças às nébulas por detrás da imagem.
Dados lançados. Projectos em andamento. Este ano não terei férias, e isso é imensamente recompensador.

Que me desculpem os leitores habitués do blog, porque isto tem estado um bocado parado. Marasmático, mesmo. Não é que tenha deixado de ler ou ver cinema (de facto estou a ler o penúltimo de Neil Gaiman, fartei-me de esperar pela tradução portuguesa), mas o meu tempo ao computador tem sido quase exclusivamente dedicado aos vectores. And that, my friends, is a very good thing.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Be lost in me

A shining furrow, as thy thoughts in me.
Now folds the lily all her sweetness up,
And slips into the bosom of the lake:
So fold thyself, my dearest, thou, and slip
Into my bosom and be lost in me.

- Alfred, Lord Tennyson (ca. 1849)

É por causa destas coisas que adoro a internet. Abrir o Motel de Moka em busca de música ultracool e deparar com estas centenárias linhas.

Be lost in me.

Leituras

BBC | Water vapour found on exoplanet Foram detectados indícios de vapor de àgua na atmosfera de um planeta extra-solar gigante. Embora não seja necessáriamente o caso, é mais um sinal das grandes probabilidades de existência de vida extraterrestre.

Guardian | Factory may destroy natural wonder A estupidez humana no seu pior: o grupo indiano Tata planeia construir uma gigantesca fábrica de produtos químicos... no vale do Rift, colocando em perigo a beleza de um dos locais únicos deste planeta.

TSF | Mais de 70% de negativas a matemática Mais uma vez os resultados dos exames nacionais de final do terceiro ciclo a matemática foram para lá de absolutamente deprimentes. Começa-se já a apontar o falhanço do famigerado plano de acção da matemática, mas é de sublinhar que este plano só terá resultados a médio prazo. Os alunos que agora se portaram de forma tão desastrosa no exame de matemática são o resultado dos nove anos de escolaridade vividos até ao momento do exame.

The New York Times | Let's talk. Let me outline the ways A explosão de formas de comunicação digital - email, voicemail, telemóveis, pagers, sms, instant messaging - obriga à invenção de novas éticas sociais, de parto nem sempre fácil.

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Lançar os dados. Soltar as amarras. Levantar voo. Pour n'être pas les esclaves martyrisès du temps.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

To begin, somehow.



One must begin somewhere. There is always a start, a primary point, a first step. No matter how far or how near you travel, no matter how high or how low. Travel through the deserts, soar through the air, feel the oceans coursing in your veins. Amaze yourself with the exotic vistas of unseen cities. Amaze yourself with the rich pageant of life. Hit the road, travel without stopping, without destination, without meaning or intention. Or don't travel at all, remain perfectly still in a little world with well defined borders. No matter; you still need to start somewhere. To begin, somehow.

And here, my friends, is where i began.

(E isto, é exactamente o quê? Para onde vai? Sei apenas que vai surgindo, talvez forme um todo coerente, talvez não... mas está a ganhar autonomia.)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

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Lend me your ear, and i shall tell you the most amazing secrets, the strangest of tales, the sweetest words, said the kind snake to the wary firebird. I will tell you why the world is round and the summer sky so beautiful. I will tell you about the grandest of all firebirds, the first to rise from it's ashes. I will tell you stories about kind monsters and forgotten gods, about times gone by. For i am but a snake. I crawl, unaided and despised, feared as a creature of darkness. Yet with my open eyes i see things that happen now, and through the eyes of my ancesters i see things that happened a long time ago. And if you, kind friend, lend me your ear, to you everything i know i shall confide.

And so, wide eyed, the firebird listened intently...

Leituras

BBC | Antibiotic resistance countered Na batalha contra as bactérias, capazes de desenvolver resistência aos antibióticos, uma nova arma: os biophosphonatos, capazes de bloquear uma enzima essencial para as bactérias trocarem os seus genes. Em suma, um preservativo para bactérias...

Guardian | Hope for the alien hunters O recém descoberto planeta Gliese 581c é uma esperança para todos os que procuram a possibilidade de vida alienígena. Velho sonho da humanidade, a vida extra-terrestre, sempre tão imaginada, tem sido algo muito elusivo - basta perguntar aos entusiastas do programa SETI, que buscam, até agora em vão, sinais de vida alienígena perscrutando as ondas de rádio no universo, ou aos cientistas que inventam formas de tentar encontrar vestígios da vida microbiana que se pensa ter existido há milhões de anos atrás em Marte. Na Terra, os organismos extremófilos apontam para formas de vida pouco convencionais, capazes de sobreviver em ambientes extremos. No entanto, há limites para os ambientes extremos - o da chamada zona habitável, uma àrea da órbita de uma estrela em que um planeta não está demasiado perto para ter temperaturas demasiado elevadas nem demasiado longe para que a sua temperatura seja demasiado baixa. A Terra está precisamente dentro da zona habitável do sistema solar - um acaso quase divino. Gliese 581c, com temperaturas médias a rondar a escala entre os 0º e os 40º, também o parece estar. Estatísticamente, apesar da violência natural do cosmos e da sua incomensurável vastidão, a vida alienígena é possível. Basta encontrá-la, coisa bastante difícil neste universo onde as distâncias se medem em anos-luz - demasiado tempo para as nossas breves vidas.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Leituras

BBC | Boeing unveils Dreamliner plane Enquanto a Airbus apostou num gigante dos ares com o A380, a Boeing apostou no sentido exactamente oposto com o 787 Dreamliner - um avião de tamanho médio, mas que leva consigo o que mais de topo há na tecnologia aeronáutica, com a utilização de materiais compósitos em cerca de metade da aeronave. A indústria aeronáutica mundial encontra-se dividida entre dois gigantes, a Airbus, europeia, e a Boeing, norte americana, que, como os construtures de paquetes transatlânticos de outroura (um outroura que ainda não fez cem anos) não olham a gastos para se superarem sempre com uma nova aeronave.

Guardian | Civilisation in the city Findas as discussões sobre as maravilhas do mundo, quais são as reais maravilhas do planeta? Talvez as cidades, sempre tão vilipendiadas, mas ao longo de séculos repositório de culturas e cadinho de ideias que transformaram a humanidade.

The New York Times | An escape from the slush pile: a web site tries out new comics A venerável DC Comics (responsável pela edição de comics tão díspares como Superman, Batman, The Sandman ou Preacher) apresenta-se na web com uma nova experiência: um site que encoraja a submissão de comics escritos pelos leitores, e até se mostra disposta a pagar aos criadores das melhores submissões. Talvez, algures por entre a vasta rede, se encontrem novos autores como Neil Gaiman, Alan Moore ou Dave McKean. Resta apenas ver se esta iniciativa da DC é hype para promover a editora ou se realmente se tornará num local que acolhe e recompensa os novos criadores de comics.

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Oiseau de fer... quer no original de Stravinsky, quer no delírio encantador da jazzwoman Alice Coltrane.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Leituras

BBC | DNA reveals Greenland's lush past A ideia da Gronelândia como terra de florestas tropicais habitadas por exótica fauna é algo pouco congruente com os gelos perenes da moderna Gronelândia. Mas há 800.000 anos, aquilo que hoje são montanhas cobertas de gelo foi uma luxuriante floresta, segundo indícios descobertos através da escavação do gelo profundo.

Guardian | A great turn-off Na sua insaciável busca por receitas publicitárias e níveis de audiência, os responsáveis televisivos descem a níves cada vez mais impensáveis. Nunca foi tão verdade como agora dizer que a televisão está cheia de disparates pegados. Mas a constante busca do lucro a curto prazo está a condenar o meio a longo prazo - com a imagem da televisão perante o grande público a degradar-se, esta perde na concorrência com os novos media. E não há big brothers que dêem a volta à situação.

Guardian | What's so special about seven, wonders the world? Sábado foi dia 7/7/07, data que foi comemorada de formas tão díspares como maratonas de jogatana nos casinos, casamentos e as um bocadinho ridículas cerimónias de escolha das sete maravilhas da rua, do bairro, do país e do planeta. Porquê tanta superstição? O sete é um daqueles números com uma simbologia muito especial, que persiste, mesmo nesta era tão racional.

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É mais ou menos esta a minha cara hoje, mas sem os óculos. Casamentos... sempre boas desculpas para se provar um bocadinho mais do vinho.

domingo, 8 de julho de 2007

Tocam os sinos a repicar

Ouvi dizer que hoje há casório... que pela tardinha, ali para os lados do Seixal, vai surgir um casalinho de noivos. Ao Geraldo e à Vera, um abraço de amizade. Muitas felicidades.

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Cabecinhas desenhadas no ecrã do meu fiel Palm Zire 31, utilizando o DrawIt e o TealPaint.

sábado, 7 de julho de 2007

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A mais interessante experiência que vi no MPEG foi o trabalho de uma educadora de infância que criou, em powerpoint, jogos destinados a estimular a aprendizagem de cores, formas e sequências para crianças de quatro e cinco anos, nalguns casos com sérios problemas de aprendizagem - algo que se vai tornar mais usual nas escolas, uma vez que as medidas racionalizadoras do governo vão "aliviar" a carga de trabalho das associações de apoio à criança deficiente, retirando-lhes todas menos aquelas que são deficientes profundas, "libertando-as" nas escolas que não estão preparadas para as receber. Se a coisa correr bem, o ministério irá afirmar, untuoso, que foi mais uma medida de sucesso. Se não, a culpa recairá, naturalmente, sobre os professores, que não deram a resposta profissional que deveriam ter dado. Zero sum game. Perdem as crianças, sempre. A escola inclusiva, tese danosa que está mais do que provado que só tem servido para prejudicar os alunos, serve aqui na perfeição para justificar mais um economicismo que sacrifica o futuro a longo prazo em nome dos objectivos a curtíssimo prazo. Bem, adiante: serve este parágrafo para mostrar a génese deste pássaro - a educadora de infância utilizou os próprios desenhos dos alunos como as imagens e personagens dos jogos, e fiquei simplesmente mesmerizado pela forma sintética como uma das crianças desenhou um pássaro. Abri o caderno, rabisquei. Digitalizei e dei-lhe o meu tratamento habitual. Paths, curves, muito pormenorzinho minucioso a gerir cada nó de linha, cores garridas e a minha arma (não muito) secreta, os gradientes. Paleta CMYK, o que significa que se parece giro no ecrã, se alguma vez for impresso ficará - atrevo-me a dizê-lo - deslumbrante.

(Esta frase final revela o meu deslumbramento com as paletas CMYK, que até há bem muito pouco tempo desvalorizava, influenciado pelas diferenças entre misturas aditivas e subtractivas de cor.)

Dez mil

Outro número porreiro, 10.049, número de visitas à minha página no Deviant Art. Mas o meu número favorito é este: 405 deviations were viewed 15,249 times. É bom ter feedback e saber que não se está a criar para o disco rígido.

Egoboost logo de manhã. Recomendo. Melhor do que café.

Leituras

Guardian | Since terrorism is not the only threat, our leaders must learn to multi-task Cada vez mais as teses da unipolaridade se revelam ocas e sintomáticas de uma visão muito incompleta do estado do mundo, que esquece as complexidades em nome de vagos interesses rarefeitos.

Guardian | Oil a factor in Iraq conflict, says Australian defence minister Incauto, o ministro da defesa australiano acabou por afirmar aquilo que há muito já se sabia: que a intervenção no Iraque, que derrubou o regime sanguinário que já tinha sido fiel cliente das capitais ocidentais e gerou o mais absoluto e sangrento caos, teve como principal motivo o controle dos campos petrolíferos iraquianos.

The New York Times | Seeking the new leader's persona in Turkmenistan Ex-república soviética, agora estado independente, o Turquemenistão foi governado como uma mistura de satrapia com estado policial por Saparmurat Nyazov, típico ditador de pacotilha, com culto de personalidade de fazer inveja a Estaline, Mao ou Kim Il Sung. Entre outras brilhantes medidas, Nyazov alterou o nome dos meses do calendário, aboliu a educação a partir do 5º ano de escolaridade, substituindo tudo o resto pela aprendizagem dos três ou quatro volumes da sua autobiografia e filosofia pessoal, e declarando-se pai de todos os turcomenos. Com a morte de Nyazov, o regime começa a dar sinais de mudança... ou talvez não, para desespero dos diplomatas ocidentais, desejosos de negociarem acesso aos vastos recursos de gás e petróleo deste país nas estepes da àsia central.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Egosurfing

Das poucas coisas que me recordo por entre as névoas de alcool que caracterizaram os meus quatro anos de aprendizagem superior, são as poucas conversas que tive com o Manuel Anastácio. Poucas, mas para sempre registadas na memória - tal como aquele copo de vinho que nunca bebemos nas tascas ribatejanas.

E hoje ao ler o sempre interessante, erudito e poético Da Condição Humana dei com isto. Obrigado! Não sabes, mas deste um raio de luz e uma força adicional numa daquelas alturas em que o peso do mundo se abate sobre os meus ombros.

E Nam June Paik? Boa escolha, faz vir à memória o número único da tenbtativa de agitar as àguas mentais da ribeira ribatejana - cuja capa foi precisamente a partir de Nam June Paik. Realmente, um artista dos anos 60/70 era algo muito à frente para os estudantes de 1998.

Egoboost. Thanks, man!

Off the road.



Ressaca da estrada. Não é tanto os quilómetros o que me cansa; o chegar ao destino final é que fica sempre àquem das expectativas. Quando estou na estrada, o pensamento que me ocorre é e se eu não parar? Continuar sempre em frente, em busca do fim final da estrada? Largar tudo, deixar todos, cortar todos os laços e grilhetas, e deixar-me ir estrada fora, rumo ao desconhecido?

O interesse está no processo, não no produto.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

200.000

Esta manhã os números do conta quilómetros do meu venerável 205 XAD rodaram do 199.999 até este número redondo, algures no km 97 da A8, logo a seguir a S. Martinho do Porto.
O carro é oficialmente antigo. E quem se atrever a chamar-lhe de lata velha sofrerá na pele a intensidade da minha fúria.

Leiturasw

BBC | Gadgets 'threaten energy savings' O crescimento exponencial dos gadgets digitais está a inutilizar os projectos de poupança e maior eficiência energética. É certo que cada gadget está cada vez mais eficiente em termos energéticos. O que dificulta a eficiência global é o acumular de leitores de DVD, mp3, telemóveis, pdas, computadores, lcds, plasmas... toda a tralha digital que tanto nos fascinam.

The New York Times | Say ‘Hybrid’ and Many People Will Hear ‘Prius’ O Prius é um caso de sucesso, que mistura ambientalismo com tecnologia automóvel. É, também, um caso de sucesso comercial - Prius é sinónimo de tecnologia híbrida, muito por opção da marca que o fabrica, que optou por vender o Prius como um carro à parte, em vez de uma versão híbrida de outros modelos de veículo.
Confesso que gostaria de ter um.

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Estou prestes a levantar voo até ao MPEG - Moodle, Portáteis, Escolas e GATO, um encontro promovido pelo Centro de Competências Entre Mar e Serra para aferir e discutir o que se faz nas escolas com os projectos de portais Moodle, portáteis nas escolas e GATO - um software de gestão de recursos educativos online.

Não vou com muito boa vontade - supostamente iria apresentar as minhas experiências com 3D e desenho vexel/vectorial com os alunos de 2º ciclo, mas as linhas cruzaram-se, as coisas foram mal entendidas, e o meu trabalho só lá para setembro é que será mostrado. É pena. Modéstia à parte, tenho a sensação que o trabalho que desenvolvi nos portáteis foi realmente inovador, embora para mim tenha sido algo normal e corriqueiro. Mas é preciso não esquecer que, nas escolas, o uso do computador é estimulado como de uma mera máquina de escrever se tratasse. Ok, momento de convencimento narcisista pessoal. Mil perdões pela veleidade. Já passou, já passou. Agora porto-me bem, prometo.

De qualquer maneira lá irei. Ver o estado da arte, ver outras experiências. É preciso ter sempre o espírito aberto.... o problema é que a coisa é um bocadinho longe. A Batalha fica um bocadito distante daqui. Enfim, serão umas boas horas on the road, tornadas suportáveis à conta de Morrissey e Deep Purple.

Nada como uns bons momentos pela estrada fora.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

terça-feira, 3 de julho de 2007

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Downside up.

.oıɹáɹʇuoɔ oɐ ɐpuɐ opnʇ ǝnb ɯǝ sɐıp áɥ ǝ1ǝ

Flip, um simpático script que vira o unicode precisamente ao contrário. Via a bíblia.

.ouɹǝʌuı ǝɔǝɹɐd sıɐɯ ǝnb oãɹǝʌ ǝʇsǝ oɯoɔ é

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Detalhe de um projecto de colaboração entre mim e a minha colega e amiga Paula Frade.

Leituras

BBC | "Space hotel" test craft launched A Bigelow Aerospace, financiada por um magnata americano da hotelaria, lançou com sucesso a Genesis II, uma nave-protótipo que pretende validar o conceito de estações espaciais insufláveis. O objectivo declarado da Bigelow Aerospace é o de ter um hotel em órbita em 2015.

BBC | China finds secret tomb chamber O túmulo de Qing Huangdi, tido como o fundador da China, revelou mais uma intrigante surpresa: para lá do enorme exército de soldados de terracota, esconde-se uma câmara secreta, esquecida há milénios. Os arqueólogos chineses ainda não a exploraram, esperando desenvolver técnicas que permitam saber o que se encontra dentro da câmara secreta sem a danificar.

The New YOrk Times | Bomber's end: flash of terror, humble grave Qual o destino final dos bombistas suicidas, mártires da jihad? No Afeganistão, uma sepultura ignorada, sem glória, com algum desprezo, até.

domingo, 1 de julho de 2007

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Ladies and gentlemen, this is your stewardess speaking. Please return to your cabins. In approximately eleven minutes we will come to a rest at the main spaceport

Leituras

BBC | Team claims synthetic life feat Craig Venter, conhecido pela sua empresa de sequenciação de genes e pela recente patente sobre vida sintética, acabou de anunciar o transplante de um genoma das células de uma bactéria para outra, abrindo caminho à criação artifical de microorganismos.

Guardian | Robot cop: coming to a city near you soon Máquinas autónomas dotadas de armamento já não são novidade. As forças americanas já se tornaram peritas em armar UAVs para ataques de oprtunidade e precisão. A novidade está na aplicação em robots de uso civil - robots anti-minas ou robots de pesquisa e vigilância, armados com armas não letais. Não são bem cyborgs, ou andróides assassinos, mas são um princípio...