sexta-feira, 31 de agosto de 2007

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Experiência de composição. Não me dei ao trabalho de mexer nas sombras, o que valorizaria a imagem. Mas é só uma experiência, com um resultado que não gosto muito. O problema está no PT-17. Está pouco detalhado, tem um ar demasiado rascunhado. Poderia ter feito melhor.

From Outerspace

The soviet pilot Yuri Gagarin won the honors as the first man in space after a one-orbit flight in April 1961. Unknown to the public at the time, Gagarin actually bailed out of his capsule before it landed, parachuting the last two miles back down. His arrival on Earth was witnessed by an old woman who asked, "Have you come from outer space?" He replied, "Yes. Would you believe it, I certainly have." Then, to calm her fears, he quickly added, "But don't be alarmed, I'm a Soviet".

Conta-se que isto aconteceu a Gagarin após o seu voo orbital, o primeiro voo tripulado da história. Mas talvez não tinha sido bem assim; parece, talvez, um pouco estranho que um homem que passou momentos aterradores em cima de um foguetão tonitruante, viu a terra do espaço e ao regressar teve de saltar de pára-quedas da cápsula tivesse assim tanta compostura ao voltar a sentir os pés no chão para tranquilizar a velha babushka afirmando-se como um bom soviético. Soa demasiado a propaganda.

Para além disso, quais são as probabilidades de ir ao espaço, regressar e encontrar uma velha nas planícies infindas do Cazaquistão?

Anedota retirada de A Tribble's Guide to Space, de Alan Tribble.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

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T-6 ainda em progresso. Faltam as hélices, faltam os tripulantes. Mas o pior já passou: os detalhes do motor e do cockpit. Para o próximo estou indeciso entre um Sabre ou um P-26. Provávelmente o P-26; fico sempre encantado pelo charme das velhas aeronaves.

Em Órbita



Alan Tribble, A Tribble's Guide to Space, Princeton, 2000

Princeton University Press | A Tribble's Guide to Space
New Scientist | A Tribble's Guide to Space

É precisamente aquilo que o título indica. Mas não dessa forma - o tribble do título refere-se ao autor, e não à praga de criaturas alienígenas que deixava mais esbranquiçados os cabelos do capitão Kirk e mais ponteagudas as orelhas de Mr. Spock. É apenas uma, de entre muitas, referências à série Star Trek (Caminho das Estrelas na língua lusa), da qual o autor é claramente fã.

Nesta era contemporânea em que a ciência desempenha um papel fundamental na nossa vida e sociedade, o papel da literatura de divulgação científica é fulcral. A ciência parece-nos sempre tão complexa, difícil e incompreensível, e de facto é-o, para quem não tiver as bases do conhecimento científico. Diz-se, por vezes, meio a brincar mas a sublinhar uma ideia muito séria, que a ciência é a nova religião, com os cientistas no papel dos velhos sacerdotes detentores de um conhecimento secreto e esotérico. Não é nada assim, mas é também necessário que a ciência vá de encontro à pessoa comum, para que ela a possa compreender e utilizar, mesmo sem ter as bases mais profundas. São necessários conhecimentos vastíssimos de matemática e física avançada para se compreender a fundo as grandes questões sobre a origem do universo, por exemplo, mas é possível simplesmente conhecer as questões sem essa bagagem. A existência de uma cultura científica é fundamental, porque permite fazer compreender o mundo tecnológico que nos rodeia e permite também pensar sobre as grandes questões do devir humano sem cair nas falácias das superstições, religiões ou "teorias" alternativas.

Confesso que o meu gosto pela ciência, que não se traduziu numa vocação científica mas me deixou com uma curiosidade inquieta e insaciável pelas ideias que tentam compreender a estrutura do mundo foi despertado não na sala de aula (onde, por exemplo, a minha professora de física, arreigada a fórmulas, se esforçou imenso para que eu detestasse física, gosto que só adquiri muito mais tardiamente) mas sim através da excepcional série de documentários de Carl Sagan que foi Cosmos. A combinação de rigor científico com grande erudição cultural e imagens arrebatadoras do cosmos despertaram a minha mente para a ideia de universo. Só depois é que me iniciei na FC, que levou o meu gosto pelos espaços noutros sentidos. Não por acaso, andam nas minhas prateleiras uma série de livros escritos por Sagan. A sua combinação de optimismo, curiosidade, rigor e erudição sempre me fascinaram.

Outros livros de divulgação científica houve que me marcaram. Os escritos por Stephen Hawking, marcados por um rigor e uma clareza absoluta, ou as loucuras matemáticas descritas por Rudy Rucker, as sínteses de Michiu Kaku ou o jornalismo bem informado de James Gleick, citando alguns exemplos. Livros da Gradiva, claro. Mas a ideia que desejo sublinhar é a da importância da divulgação da ciência, apoiada numa boa prosa. Outros livros houve que li, onde a pouca clareza das palavras obscureceu ideias já de si um pouco obscuras para os leigos na matéria.

A Tribble's Guide to Space é um livro muito superficial. Aborda, de uma maneira muito ligeira e resumida, um pouco de tudo sobre a exploração espacial, desde a sua história aos seus objectivos, passando pelas técnicas que permitem ao homem chegar à órbita. Mas embora superficial, é rigoroso. Sobre cada secção da obra poder-se-ia escrever uma tonelada de livros. A mistura de factos científicos puros com anedotas da história astronaútica, entremeados com referências à cultura popular (tantas, mas tantas referências a Star Trek que desisti de as contar) torna este A Tribble's Guide to Space numa leitura imparável, em que os olhos, agarrados às páginas, só páram quando literalmente o livro chega ao fim. É, por isto, um livro precioso - fala de ciência de uma forma simples e acessível, mantendo o interesse desperto como se de um empolgante romance se tratasse. Fazia falta uma tradução portuguesa.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

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Low flying creature.

Leituras

Washington Post | As mortgage mess unravels, some investors clean up O capitalismo a comer-se a si próprio, ou como há sempre quem faça lucro com as misérias alheias. A instabilidade dos mercados financeiros, ligada às altas taxas de juro que estão a despoletar o incumprimento de empréstimos, está a punir as firmas ligadas ao crédito, que vêem a sua cotação em bolsa a cair a pique. Uma situação excelente para empresas de especulação, com um negócio ainda mais esotérico: comprar acções de empresas desvalorizadas e vender as acções quando voltarem a adquirir valor. Na bolsa de Nova York, as empresas deste género estão a conseguir grandes lucros à custa das empresas que estão em dificuldades graças aos créditos concedidos.

Guardian | How the neoliberals stitched up the wealth of nations for themselves O neoliberalismo reina como teoria económica dominante. Em seu nome, os sistemas sociais são desmontados a favor da superior eficiência do mercado livre. as economias desregulamentam-se e as leis laborais tornam-se mais favoráveis à flexibilidade, eufemismo moderno para precaridade. Os resultados estão à vista: as desigualdades sociais agravaram-se, com o fosso entre os mais ricos e o resto da sociedade a parecer, virtualmente, um poço sem fundo. As medidas de combate à exclusão social, cada vez mais sob pressão daqueles que vêem o lucro pessoal acima do bem comum, não são capazes de minorar o agravar do fosso. Crónica incisiva, como sempre, de George Monbiot.

BLDBLOG | Drains of Canada O que é que podemos encontrar debaixo das nossas cidades? Quais os espaços subterrâneos, qual é a arquitectura subterrânea das cidades? Uma fascinante entrevista, ilustrada com fotografias de tirar o fôlego, com aqueles que se dedicam a explorar os espaços ocultos debaixo das nossas urbes. Só pelas fotos vale a pena clicar.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

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Movimento capturado, imobilizado em âmbar.

Quatro Estórias



Edward Gorey, Quatro Estórias, Errata Edições, 2003

Wikipedia | Edward Gorey

Não é muito simples resumir Edward Gorey. Não foi bem um ilustrador, não foi bem um autor de comics, não foi bem um cenógrafo ou criador de contos infantis. Dono de uma personalidade muito peculiar, Gorey legou um corpo de trabalhos de difícil classificação mas de elegância inegável. Gorey, iconoclasta, situou-se na fronteira entre o comic e a ilustração, tendo sido um dos primeiros autores a manipular os cânones da ilustração e a gramática dos comics

À primeira vista, Gorey parece ser um autor/ilustrador de obras infantis com um visual gótico. Os formatos fora do habitual dos livros de Gorey e uma elegância literária cheia de simplicidade nos parcos textos que acompanham as imagens parecem apontar para uma obra destinada ao mais inocente dos públicos. É uma ideia que se desmorona ao ler-se as obras de Gorey. São sem dúvida simples, enganadoramente infantis, mas roçam o macabro, abordam a violência de uma forma distante, são tenebrosos e inquietantes. O estilismo gótico de Gorey, agora tanto na moda, tenebroso, com as suas figuras longuilineas e os seus cenários de pesadelo, vem completar a inquietante estranheza dos textos.

Quatro Estórias publica em português quatro contos de Gorey, que retratam bem a estranheza e o sentido macabro da obra do autor. Em O Casal Execrável, Gorey inspira-se num caso verídico para criar uma história infantil sobre violência, tortura e morte acerca de um casal que tem como paixão assassinar crianças e fotografar os procedimentos para a posteridade. Claramente, não estamos a falar aqui de obra recomendada pelo Plano Nacional de Leitura... Mais próxima do registo onírico do conto infantil, A Bicicleta Epiléctica narra uma iniciática viagem em que dois irmãos perdem, literalmente, o sentido do tempo. Em O Hóspede Suspeito, uma criatura reminiscente do LopLop de Max Ernst (um grande fã da obra de Gorey) invade a rotina de um lar das formas mais hilariantemente disruptivas, sem que isso desperte grande atenção. A visita Relembrada é uma história onde o deslumbramento da infância se traduz numa negligência de décadas, que se desenrola ao acompanharmos o crescer de uma rapariguinha que apenas quando já feita mulher se recorda de uma promessa feita na sua infância, um pequeno nada que todavia a marcou.

Quatro Histórias é uma obra que deixa um sabor a pouco, que dá vontade de conhecer mais da estranha e surreal obra de Edward Gorey. Há umas coisas espalhadas pela internet, nas livrarias encontra-se algumas obras na língua original.

Leituras

BBC | Great cosmic nothingness found Utilizando sofisticados equipamentos, cientistas descobriram um grande... nada... no espaço. Piadinhas à parte sobre a necessidade de caros instrumentos e o labor de cientistas para se descobrir nadas e espaços vazios, a verdade é que a descoberta de um local no espaço sideral vazio de matéria - quer matéria estelar ou matéria escura - é um resultado da própria estrutura do universo, cujas galáxias se juntam em grandes aglomerados que, vistos à distância, parecem filamentos de luz rodeados de vazios. O que surpreende neste vazio é a sua vastidão.

Guardian | Friendship by numbers Qual é o real sentido da amizade, nesta era em que a internet veio quebrar barreiras e estabelecer novos territórios? Serão as amizades virtuais, cimentadas nos agora tão na moda sites sociais, tão ou mais valiosas do que as amizades estabelecidas no mundo físico?

Guardian| Blazes threaten heritage sites A catástrofe em progresso na Grécia, varrida por incêndios incontroláveis, choca a Europa. Meios de ajuda já foram mobilizados, mas no terreno apontam-se sinais de pura incompetência da parte dos responsáveis políticos, com uma litania que se parece estranhamente com a nossa: falta de meios, desordenamento do território, nomeações políticas para cargos que exigiam pessoal altamente qualificado, tendência para procurar bodes-expiatórios em vez de se tentar compreender as verdadeiras causas do problema. A verdade é que a Grécia, tal como a Itália, Sul de França, Espanha e Portugal, está situada na zona do mediterrâneo mais atreita a fogos florestais no verão. Culpar, constantemente, este fenómeno natural nas manigâncias de perigosos incendiários enlouquecidos é pura cegueira. No caso português, em que também somos amantes da imagem do incendiário sabotador para explicar tudo, os estudos apontam para que a maioria dos incêndios não sejam de origem criminosa - isto, claro, se descontarmos as queimadas descuidadas, causa de tantos incêndios, que são no fundo negligência criminosa. Mas, claro, estas coisas não se podem dizer. A sociedade, e muito em especial os media, precisam dos seus Emanuel Goldsteins, dos seus Bin Ladens, dos bodes expiatórios a quem é fácil atribuir as causas das coisas, em vez de tentar compreender a complexidade dos factos.

TSF | SOS animal contabiliza abandono de 50 mil cães em seis meses Não há comentário possível, o número fala por si, e sublinha bem a desumanidade e a futilidade destes cinquenta mil donos de animais que acarinharam cachorrinhos para depois os abandonarem assim que o animal começa a dar chatices, quer a chatice seja o bichinho pequenino que está a crescer muito ou aquela viagem de férias que já não pode ser feita porque não há onde deixar o animal. Ter um animal de estimação é uma grande responsabilidade, mas na nossa sociedade hedonista, de consumo fácil e imediato, a ideia de longevidade, de cuidar de uma criatura durante anos, depressa se desmorona perante a pressão do brilho do imediato, da satisfação do impulso momentâneo, do capricho que alimenta as indústrias.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

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Colagem vectorial.

Un Chien Andalou



Wikipedia | Un Chien Andalou
UBUWeb | Un Chien Andalou
Internet Archive | Un Chien Andalou

Todas as histórias têm sentido. É o que nos parece lógico. Qual é o objectivo de uma história contada se não tiver uma moral, um percurso compreensível? Mas nem todas seguem esta regra.

Un Chien Andalou, curta metragem em que Luis Buñuel e Salvador Dali colaboraram, atomiza qualquer noção de sentido. Obra de surrealismo puro, foi criada em livre associação, e quaisquer pistas que nos atirem para uma história, para um percurso, depressa se revelam falsas. É um filme intencionalmente incoerente, destinado a libertar-nos das amarras do significado e assim libertar a pura imaginação. Un Chien Andalou atomiza, literalmente, o sentido do tempo e socorre-se de imagens controversas para nos inquietar - como a cena de abertura, em que uma navalha rasga o olho de uma mulher (numa cena capaz de provocar arrepios até aos maiores fãs do gore), mãos das quais saem formigas, mãos decepadas que surpreendem a multidão, pianos de cauda com carcaças de burros e padres arrastadas por um homem, a surreal sensualidade de um homem que acaricia violentamente uma mulher enquanto a imagem dela nua se sobrepõe.

Un Chien Andalou é a aplicação ao cinema das técnicas de associação livre que os surrealistas privilegiavam. A obra é profundamente freudiana, com algumas referências directas à sexualidade e ao edipianismo.

Salvador Dali, o mais histriónico dos pintores surrealistas, e auto-proclamado génio da pintura surrealista (em minha opinião, Max Ernst é vastamente mais interessante), dispensa apresentações. Quanto a Luís Buñuel, os amantes do cinema reconhecem o polémico realizador espanhol que viveu no exílio, odiado pelo regime franquista, e que entre os EUA, a França e o México realizou uma sólida obra de cinema surreal da qual se destacam filmes como Viridiana, L'Âge d'Or, Belle de Jour ou Cette Obscure Object du Désir. Vencedor de inúmeros prémos e galardões, Buñuel ficou para a história do cinema como um autor que durante toda a carreira se manteve fiel aos princípios surrealistas, detentor de um olhar diferente.

Un Chien Andalou foi a sua primeira obra, uma brincadeira surreal na Paris dos anos 20 que o iniciou no mundo do cinema. É um dos marcos do cinema, e está disponivel para download na UBUWeb (um repositório de som, texto, imagem e cinema surrealista) e no Internet Archive.

Língua Viva

"Um membro da famosa trupe Habina que, ao chegar pela primeira vez à Palestina, vindo da Rússia, onde o hebraico só era falado no palco (e na sinagoga), ouve de súbito os miúdos da rua a praguejarem e a dizerem palavrões na língua antiga. 'Agora sei o que é uma língua viva!', exclamou."

Uma historieta contada por Henry Miller em Os Livros da Minha Vida que sublinha bem a aridez da cultura académica, com as suas regras e questiúnculas. A lição é óbvia: descam das torres de marfim. Mas não se leiam estas palavras como um elogio da ignorância. É mais uma reflexão sobre a importância da vitalidade do conhecimento. Conhecimento nunca é inútil, nunca é excessivo. Mas precisa de estar vivo, algo que apenas nós conseguimos fazer. Insuflar vida nos factos áridos. Transformar o saber estático em ideias dinâmicas. Em suma, saber e viver, saber viver.

domingo, 26 de agosto de 2007

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Pássaro com umas folhas. Não passa de um esboço, mas as virtudes do digital fazem oes esboços parecerem produtos finais.

800

Editorial Caminho | O Caçador de Brinquedos
Editorial Caminho | Terrarium

Acabei de ler no blog de João Seixas, Blade Runner, uma entrevista a João Barreiros, o incontestável mestre da FC em língua portuguesa. Ali descobri que duas das suas obras editadas pela Caminho na velhinha colecção de capa azul dedicada à FC (onde descobri, entre outros autores, a riqueza da prosa de Ray Bradbury que me fez apaixonar pela FC), O Caçador de Brinquedos e Terrarium não chegaram a vender 800 exemplares, apesar de terem sido editadas há mais de dez anos.

É lamentável. Só me apetece gritar corram para as livrarias! Rebusquem as prateleiras, irritem os livreiros com pedidos insistentes. Procurem nas livrarias online, peçam reedições, enxameiem aquelas feiras do livro onde as editoras aproveitam para se livrarem dos livros acumulados. O Caçador de Brinquedos e Terrarium são duas obras incontornáveis, do melhor que já se escreveu em FC portuguesa. São voos extraordinários de imaginação, escritos com uma prosa de uma clareza assinalável, que encantam, surpreendem, repelem, fazem sonhar, e deslumbram pela riqueza dos seus mundos imaginários. O Caçador de Brinquedos é Barreiros no seu estado mais puro, acutilante e um pouco malévolo; Terrarium, escrito a quatro mãos com Luís Filipe Silva, é uma space opera de contornos cósmicos, uma homenagem ao espírito e ao amor à FC. São, repito, duas obras apaixonantes.

Enfim, estamos em portugal, país onde não é suposto pensar, imaginar ou conhecer. País onde as inanidades escritas por Miguel Sousa Tavares ou Margarida Rebelo Pinto acumulam elogios, onde parece só haver espaço para uma certa ideia de arte e literatura, sendo tudo o resto, todas as possibilidades, encaradas como uma brincaderia sem seriedade ou uma perversão a ser depressa esquecida.

Como argumento final a favor da FC, embora seja um argumento que eu considero um bocadinho deslavado, assinalaria que a cultura científica se alimenta da FC - muitos dos que hoje são cientistas foram, e são, leitores inspirados de FC, a quem este género literário deu a centelha para a busca do conhecimento; muitos são também os cientistas que são autores de FC. A ciência parte em busca do desconhecido, inventa o inexistente, descobre novas possibilidades. A FC tenta ver um pouco mais além, e inspira assim aqueles que querem descobrir o que está para lá dos horizontes.

Falo em argumento "deslavado" porque há melhores argumentos para a leitura de FC - os voos encantadores de imaginação, a construção minuciosa de mundos, o olhar por vezes clínico sobre a sociedade contemporânea, o sentido de evolução social e cultural das sociedades espelhada nas várias fases da FC, e tantos outros argumentos, Falar da FC enquanto inspiradora de cultura científica é redutor, em relação à abrangência quase omnívora da FC, mas sublinha bem o importantíssimo papel social da FC. Pronto, retiro o "deslavado". Não é a mais feliz das metáforas.

O Caçador de Brinquedos e Terrarium são duas obras que têm um lugar acarinhado nas minhas prateleiras. São obras que vou revisitando, de tempos a tempos, como velhos amigos, que nunca se esgotaram nas várias leituras que já fiz. É lamentável que estejam tão esquecidas. Curiosamente, o site da Caminho lista as duas obras sem qualquer resenha ou indicação do seu conteúdo, mas indica o seu peso, em gramas. Confesso que o peso de um tomo nunca foi um dos meus critérios de leitura, mas os editores lá sabem com que linhas se cosem...

sábado, 25 de agosto de 2007

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Max Ernst tinha o seu LopLop. Eu ainda ando à procura do meu LopLop.

Espressão

"Au fond, não existe semelhante coisa chamada literatura, não existe arte, religião, civilização. Nem sequer existe humanidade. Au fond, não existe nada a não ser a vida, que se manifesta de formas insondáveis. Viver, estar vivo, é partilhar do mistério."

Mais uma vez, Henry Miller, que sempre surpreende pela profundidade da sua reflexão e pelo seu amor à palavra. Um grito de desespero? Não, um aviso à navegação, um lembrete do precioso que é a vida. Se não se vive não faz sentido criar, sem sentir não há algo para exprimir.

Exprimir, ou espremer?

(E sim, eu sei que expressão se escreve com X. Rescaldo de Henry Miller.)

Leituras

Guardian | Democracy's new dawn is on CCTV: the security state as infotainment Os sistemas de videovigilância alastram como fogo em mato seco. Combinados com cada vez mais sofisticados meios tecnológicos de segurança, estão a transformar a sociedade num panopticon, onde tudo e todos são escrutinados com a desumana precisão dos sistemas informáticos.

Guardian | WHO warns of new pandemic Num mundo globalizado onde as distâncias se atomizaram graças aos transportes aéreos, o risco de ocorrências de epidemias à escala global é enorme, avisa a OMS. É simplesmente uma questão de quando.

Reuters | Martian soil may contain life Uma nova interpretação dos dados recolhidos nos anos 70 pela sonda Viking (equipada com detectores capazes de reagir a indícios de presença de vida no solo) sugere que possa existir vida microbiana no solo marciano. Vida, mas não da forma que conhecemos - esta hipótese fala em vida microbiana baseada em peróxido de hidrogénio. Homenzinhos de verde (ou octopóides de tríplices tentáculos, ou barsoomianos) parecem estar fora de questão.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

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Ave do paraíso, em que tentei ser fiel ao original. Mais complexo do que parece - só uma das asas é composta por 90 objectos.

Os Livros da Minha Vida



Henry Miller, Os Livros da Minha Vida, Antígona, 2004

Wikipedia | Henry Miller

O amor aos livros é vício estranho que toma as mais diversas formas. Há os apaixonados tecnicistas, capazes de distinguir os fólios dos in-fólios, comparando os méritos dos octavos com as encadernações de capa dura e, talvez, desdenhando o livro brochado. Há os que interpretam em reviravolta o velho dito de "não julgues os livros pela capa" e procuram, reconhece, discutem méritos ilustrativos e coleccionam obras a pensar na capa. Há os amantes do livro-objecto, obras que deram mais trabalho a produzir e encadernar do que a escrever e que se destinam a serem expostas, imaculáveis pelo contacto com as mãos de ineptos leitores. Há os escrevinhadores, que sublinham e apontam, que discutem, de lápis em riste, com as palavras impressas. Há os apaixonados dos contos e histórias, capazes de toparem as mais insuspeitas narrativas a léguas. E, finalmente, num nível rarefeito a que poucos conseguem chegar, há os apaixonados pelas ideias, que olham para o livro como uma longa conversa com o autor, conversa enriquecedora feita de acaloradas discussões. Não escrevo isto por elitismo; são mesmo muito raros os que realmente conversam com as obras, que vêem para lá dos caracteres impressos no papel.

Onde é que eu, rato de biblioteca convicto e acumulador de tomos em prateleiras me enquadro? Isso é algo que ainda não descobri...

Os Livros da Minha Vida colige um conjunto de ensaios onde Miller divaga, de uma forma poéticamente brilhante, sobre as obras e os autores mais marcantes na sua vida. São ensaios que ultrapassam largamente o âmbito do resumo de livros que marcaram o autor. Tratam-se de ensaios sobre a literatura e a vida, mostrando de que forma a literatura e a vida se imbricam nos autores e nas suas obras, quando as suas palavras têm realmente significado. Como é normal em Miller, muito do que escreve tem a ver consigo, com as peripécias da sua vida, temperadas com as recordações da obras que lia.

Mais do que sobre páginas empoeiradas, a obra é sobre palavras e ideias, palavras e ideias que apesar de encerradas entre as capas de livros estão vivas e vibrantes, prontas a desafiar e a apaixonar, a intrigar, a surpreender e a iluminar novos caminhos. Mas mais ainda do que sobre palavras, os ensaios de Os Livros da Minha Vida são sobre a vida. A literatura é estéril se não partir da vida, das experiências da vida. Não interessa se é uma vida cheia de peripécias ou uma vida recatada; o importante é manter a mente sempre aberta, incisiva e observadora. Miller tanto elogia a obra de Cèline, autor francês verdadeiramente globe trotter, capataz de explorações de gado sul-americanas e soldado da legião francesa nas areias saarianas, como Giono, homem que passou a sua vida na aldeia no sopé dos alpes onde já o seu pai e o seu avô tinham passado a sua vida.

Os Livros da Minha Vida é uma conversa com um mestre sobre as obras de grandes mestres. Não se esperem os autores académicos, os clássicos que todos consideram fundamentais, leituras importantes que diminuem aqueles que não as fizeram. Miller atira-se mais ao gosto da vida e da literatura, aos autores cujas palavras, literalmente, nos deixam a pensar e nos mostram novos sentidos, novos caminhos, novas vidas.

Os Livros da Minha Vida é uma obra perfeita para bibliófagos, uma obra onde os viciados em tinta de impressão podem encontrar mais alimento para o vício, e reflectir sobre as ideias que são o substrato da literatura. É uma leitura imparável, mas que se faz com inúmeras pausas, pausas para saborear a riqueza das palavras de Henry Miller.

Leituras

BBC | Mobile phones 'eroding landlines' Já se suspeitava, mas começa a ser oficial. A ubiquidade dos telemóveis está a relegar para segundo plano a tradicional linha fixa. É assim a marcha inexorável da tecnologia. As noviades de ontem são os objectos obsoletos de um amanhã que se vive hoje.

Guardian | How can this bloody failure be regarded as a good war? O Afeganistão está a tornar-se um atoleiro. A população continun empobrecida, e a pobreza é terreno fértil para a resurgência dos talibãs. Os antigos senhores da guerra, cujas lutas fractricidas após a retirada soviética abriram espaço aos talibans, estão de volta, desta vez como legítimos membros da democracia afegã, o que leva o povo a desconfiar da real legitimidade desta democracia que restaurou os senhores da guerra ao poder. A cultura do ópio, apesar dos esforços das forças ocidentais, é a indústria nacional. Não é que o Afeganistão seja um caso perdido, mas para que não se torne mais um estado falhado, é preciso que o ocidente pense sériamente na melhor forma de ajudar o país.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Górdio nos miolos

"Um ventríloquo capaz de dar um nó górdio nos miolos de um pundita rabínico."

Frase deliciosa de Henry Miller, sobre aqueles textos que parecem ter sido escritos com expressa intenção de serem inacessíveis e incompreensíveis.

Caracteriza muita da verborreia que flutua aí pela blogoesfera, this blog not excluded.

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T-6 work in progress. Working progress? A coisa está lenta. O mais chato já está feito: a repetitiva fuselagem. Agora vem o diabólico: os pormenores do motor, hélice e cockpit. E ainda falta o acabemento: marcas e tripulação.

Bem, quem corre por gosto, mesmo que se canse não desiste.

Son of Frankenstein



IMDB | Son of Frankenstein (1839)
Wikipedia | Son of Frankenstein
Son of Frankenstein

Após o excelente Frankenstein de 1931 e a sua sequela, The Bride of Frankenstein, uma verdadeira obra prima, Son of Frankenstein continua a saga da criatura que no fundo simboliza o homem, enquanto ser imperfeito largado num mundo que não compreende. Infelizmente, os duplos sentidos, o humor negro, as bizarrias assumidas e o ar obscuro que transformaram os dois primeiros filmes em obras de mérito, desaparecem neste terceiro filme, terceiro de muitos onde a criatura monstruosa causa calafrios nos mais ineptos espectadores.

Diz-se, com razão, que Son of Frankenstein marca o início do declínio da personagem. A cuidadosa caracterização da criatura banaliza-se, a duplicidade moral que nos apresenta a criatura como um ente dividido entre o bem e o mal, incapaz de ser boa por estar sempre acossada pela humanidade que a teme por não a compreender é simplesmente riscada, a favor de um quase animal mongolóide(1) que apenas rosna e assassina. A loquacidade (limitada, enfim) da criatura em The Bride of Frankenstein é esquecida. Son of Frankenstein foi o filme que marcou a criatura como o Frankenstein, o monstro desconjuntado para criar calafrios e arrepios de terror, o ícone arrastado de lugar comum em lugar comum, repetido até à exaustão em filmes que se esgotam nos primeiros segundos de película. Depois do brilhantismo de James Whale, realizador dos dois filmes anteriores, a decadência.

Son of Frankenstein até poderia ser um bom filme. A realização, embora sem os extremos de Whale, é competente. Nos cenários, o gótico elaborado, visualmente rico e propenso a belos jogos de luz e sombra como só o cinema a preto e branco é capaz é abandonado a favor de um ambiente mais austero, uma racionalização do expressionismo alemão que influenciou O Gabinete do Dr. Caligari e que legou ao cinema um visual cénico de planos entrecortados e linhas rectas em ângulos precários, que contrariam a estabilidade do dualismo vertical/horizontal. Os actores variam entre a mera representação oca - caso de Basil Rathbone no papel do filho do Barão Frankenstein, à simples leitura do guião - basta ver as representações perfeitamente planas da mulher e do filho do novo barão, ou a teimosia pouco profunda e repetitiva dos aldeãos; o que salva o filme é Lionel Atwill no papel de Inspector Krogh, a dar uma rara profundidade a um personagem secundário, e Bela Lugosi, completamente over the top(2) no papel de Ygor, o "guardião" da criatura, num exagero que fuciona e transforma as suas cenas nas mais ricas do filme.



O argumento estraga tudo. As inconsistências sucedem-se, o diálogo é inano, há momentos em que o filme simplesmente não faz sentido. Son of Frankenstein é um filme cocktail, com todos os elementos misturados, a tragédia, o horror clássico, o cientista louco, o castelo assombroso, a aldeia povoada por aldeões supersticiosos, o rigoroso cumpridor do dever e da lei, o monstro, os aparatos científicos de aspecto ominoso, os laboratórios semi-arruinados, a poça de enxofre fervente que não parece dar calores a ninguém, a cripta, e mistura tudo, agita, mas sai uma coisa badly shaken, definitely not stirred(3). Quando Basil Rathbone, depois da tremenda inconsistência na sua viva defesa dos ideais do seu pai(4), feita com o entusiasmo com que se fala da sandes debicada no almoço de anteontem, analisa minuciosamente o monstro com a acuidade de um médico de família e atribui a força e a resistência sobre-humana da criatura à acção... de raios cósmicos capturados por Victor Frankenstein na mais seminal das cenas do filme de 1931, aí é que se percebe que a coisa descarrilou.

A imagem sublime dos filmes anteriores perdeu-se. Daqui para a frente, Frankenstein entra no mais puro e banal lugar comum, repetido até à exaustão. A repetição é eficaz: a imagem que temos da criatura não é a do romance de Mary Shelley ou a dos filmes de Whale, é esta imagem banal do monstro desengonçado que rosna enquanto caminha como um sonâmbulo. Son of Frankenstein é o momento onde esta triste versão do mito nasce. Daqui para a frente, é sempre a decair, talvez excepção feita aos filmes da Hammer, que desconheço.

Notas:
(1) Onde se lê mongolóide leia-se Síndrome de Down. Não quero ter a polícia do pensamento politicamente correcto atrás de mim, que nestas coisas costumam ser piores do que hordes sanguinárias de mongóis de espada em riste, a carregar a cavalo pela estepe fora.
(2) Over the top, through the roof, o exagero na sua mais requintada perfeição.
(3) James Bond through the looking glass.
(4) Há uma certa tensão edipiana no ar, como se Frankenstein-filho tivesse inveja da coisa grande do Frankenstein-papá. Coisa grande essa sendo as descobertas e a criatura, claro. Mas a tensão é tão diluída que mal se nota.

Leituras

BBC | Endeavour shuttle returns safely Decorreu sem incidentes o regresso do vai-vém Endeavour à Terra, apesar dos danos registados no seu escudo térmico.

Washington Post | Introducing The New and Improved iPhone -- by Hackers Há meses atrás, Steve Jobs anunciou que o iPhone iria ser totalmente controlado pela Apple. Mais uma vez, hackers e programadores provam que no mundo digital os dogmas são de curta duração.

Guardian | Guantánamo in Germany É o legado mais pernicioso do terrorismo: a erosão dos direitos e liberdades que são fundamentais às nossas democracias em nome do medo e da segurança.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

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Não é bem a lagoa de Walden. É mais o regresso das minhas estranhas criaturas.

On the road

"A mensagem essencial de Whitman era a Estrada Aberta. Deixar a alma entregue a si mesma, depositar o seu destino nas mãos dela e nas da miragem da estrada aberta. O que constitui a doutrina mais corajosa que o homem propôs a si mesmo."

Assim citou Henry Miller as palavras de D.H. Lawrence sobre Walt Whitman, poeta transcendentalista americano do século XIX. Citações de citações de citações... este blog está a transformar-se numa pequena biblioteca de babel. Não vou divagar sobre os méritos do autor de Song of Myself e Leaves of Grass, celebrizado por um filme muito apreciado, especialmente por docentes universitários encarregues de formar futuros professores que de volta e meia o mostravam nas suas aulas, pregando o credo romântico da educação às pouco exigentes audiências de futuros docentes em treino. Até porque prefiro Thoureau, o semi-eremita que construiu a sua cabana na lagoa de Walden e escreveu a mais bela elegia à alma humana que é, precisamente, Walden.

Se bem que quem considera que o Clube dos Poetas Mortos é uma epítome educacional esquece que entre Dartmouth e a Quinta do Mocho os paralelos são inexistentes. Estas concepções românticas, infelizmente, influenciam muito o pensamento educativo, o que ajuda a explicar o desnorte que se vive no sistema educativo, especialmente em tudo o que tem a ver com o que é que se espera do sistema educativo. Mas, adiante.

A estrada aberta é a metáfora perfeita para o libertar de amarras, o pegar no destino com as nossas próprias mãos, o estabelecer do nosso destino final. Mas não é preciso estar On The Road, nesse espírito vagabundo de Jack Kerouac (ou de Bruce Chatwin e Luis Sepúlveda), a marcar quilómetros e a percorrer caminhos mais ou menos ínvios. A mais libertadora das estradas é a interior, a que conduz o nosso livre espírito.

No entanto, com tanta pressão e empurrão, quais de entre nós têm realmente coragem e possibilidade de seguir a sua própria estrada? Não desanimemos; certamente que dentro de todos nós há uma faísca de liberdade individual, se seguir o seu próprio caminho, à revelia das pressões do peso do mundo. Porque se essa faísca não houver, a nossa humanidade desvaneceu-se. Creio que não precisamos de nos retirarmos do mundo e ir habitar cabanas à beira de lagos isolados no meio do arvoredo para manter a faísca da Estrada Aberta; mas extinguir a faísca é a morte da alma.

(How metaphysical of me. Mais dia menos dia ando a citar Heráclito... eu, que sempre me identifiquei mais com Diógenes...)

Já que estou com a mão no teclado e a ligação ao vasto cérebro digital activa, aqui ficam algumas palavras mais, palavras registadas na mente colectiva pela sua beleza.

"Only that day dawns to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star."

Um toque de Thoreau, precisamente retirado de Walden. Saboreiem a frase, deixem-na enrolar-se na língua.

E esta, caros e pacientes leitores, é a primeira frase de A Biblioteca de Babel, pérola entre as pérolas que são os contos de Jorge Luis Borges. Mais uma para, simplesmente, saborear.

"O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas."

Leituras

BBC | Rare dead star found near Earth Até agora só se conheciam sete - apelidadas carinhosamente de sete magníficas. Esta oitava tem a particularidade de estar relativamente proxima da terra. Trata-se de uma recém-descoberta estrela de neutrões, que tem a rara particularidade de não pertencer a um sistema binário.

Guardian | Instruments of change A deliciosa elegância vibrante da música clássica encanta e apaixona aqueles a quem a música se entranha na alma. Mas que não se fale nisso. A música clássica é chata e elitista. As pautas empoeiradas escritas pelo punho de compositores já mortos e decompostos certamente que é entediante comparada com as melopeias a metro saídas das entranhas da indústria musical.
O sublime é inescapável, resiste à poeira do tempo e às modas fugazes. Boa música é boa música, independentemente do estilo. Mas a música clássica (aliás, a música erudita) toca a nossa alma com o sentido do eterno. Ouvir é sentir, quer seja o Lamento de Ariadne (Monteverdi), as sonatas de Vivaldi, a cantata Dona Nobis Pacem e as fugas de Bach, a Rhapsody in Blue (Gershwin), a Pastoral de Beethoven, a Lux Aeterna, a Symphonie Fantastique (Berlioz), o Threnody pelas Vítimas de Hiroxima (Xenakis), a 4:33 (Cage), a Júpiter (Mozart), Vathek (Luís de Freitas Branco), a quinta sinfonia de Shostakovich, a ària Nessun Dorma e outras dessa ópera, Turandot, que é a epítome da opera/obra prima, e tantas, tantas outras a quem a passagem do tempo não retirou o toque do sublime. Ouvir é sentir a electricidade a correr nas veias, a mente a expandir-se e a tocar o infinito. Mesmo que por um brevíssimo momento fugaz.

Perdoem-me a listagem. Fui incapaz de resistir a saborear a memórir dos acordes e melodias, despertada pela simples menção das obras.

(Só para referência: post composto ao som da sinfonia Appalachian Spring, de Aaron Copland. Lux Aeterna de Ligetti. Threnody Pelas Vítimas de Hiroxima de Xenakis. E a sublime Oração a S. Gregório de Scheck)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

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Umaa folhas veredejantes.

And now, for something completely different, uma das Daily Deviations de hoje no DA: Internet Map, um trabalho ainda em progresso que tenta traduzir a topologia social da internet numa metáfora geográfica. Um portulano digital, soi disant.

Um simples nada

"A mente é infinita e capaz de entender tudo o que lhe põem à frente; não há limite para a sua compreensão. O limite é a pequenez das coisas e a estreiteza das ideias que lhe são apresentadas. As filosofias dos tempos antigos e as descobertas da investigação moderna nada são para ela. Não a enchem. Depois de as decifrar, a mente segue em frente e pede mais. As mais complexas, todas elas juntas, constituem um simples nada. Essas coisas foram reunidas por meio de um trabalho extremo, de um trabalho tão árduo que só o pensar nele se torna fatigante; porém, tudo considerado, a mente recebe tudo isto com a mesma facilidade com que a mão colhe flores. É como uma frase, que se lê e se esquece."

Richard Jefferies, citado por Henry Miller no ensaio Os Livros da Minha Vida, a pôr o dedo certeiro naquela que é a maior virtude, talvez a única virtude, da humanidade: o etreno inquirir, a incessante busca de compreensão das rodas que movem o mundo. O constante reformular do conhecimento, e a vontade, inata, de querer conhecer sempre mais.

E, também, a colocar o dedo na ferida, na maior fraqueza da humanidade (a maior, de entre tantas). "A pequenez das coisas e a estreiteza das ideias", as cangas dogmáticas, dos dogmas religiosos, filosóficos ou sociais, as ideias feitas e lugares comuns tão revrenciadas por aqueles que temem a libertação trazida pelo conhecimento. Ou que temem a responsabilidade trazida pelo conhecimento. Os arreios dos simples, não dos simples enquanto puros e abertos ao mundo, mas dos simples enquanto adoradores dos ídolo tacanhos da convencionalidade estabelecida, da estabilidade fossilizada, da tautologia inabalável.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

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Criatura velhinha, de 1995, desenhada com uma saudosa Rotring Rapidograph de 0,5 mm. Paciência era coisa que não me faltava...

Heechee Rendez-Vous



Frederick Pohl, Encontro com os Heechee, Livros do Brasil, 1989

Wikipedia | Frederick Pohl

Grande mestre da Ficção Científica, Frederick Pohl foi autor de uma vasta obra de onde se destacam Man Plus (1975), uma história de mutação científicamente manipulada que transforma um homem numa criatura capaz de viver no ambiente marciano - e acaba por transformar mais do que físicamente, e Gateway (1976), singular space opera que explora a descoberta e exploração de um artefacto alienígena no sistema solar.

Gateway deu início à série dos Heechee, uma space opera sobre o encontro entre a humanidade e uma espécie alienígena tecnológicamente mais avançada. Em Gateway, os Heechee nunca são revelados, apenas os seus intrigantes artefactos e naves contidos no asteróide artificial que dá o nome à obra. Neste Encontro com os Heechee, terceiro livro da saga e publicado em 1985, seguimos as aventuras de Robinette Broadhead, personagem que é fio condutor da saga, milionário envelhecido num planeta que dá os primeiros passos na colonização espacial graças ao uso da tecnologia Heechee. Apesar de estar a avançar em direcção ao futuro, o planeta está em risco de se desagregar socialmente. Os poderes governamentais das grandes nações que se guerreiam diplomáticamente estão a perder o controlo aos acontecimentos. Os militarismos estão a ressurgir, e na superfície vivem-se dias inseguros, com ataques terroristas e progressivas ameaças de guerra global.

É, sem dúvida, um contexto global futurista inspirado nos anos 80, quando se viviam aquilo que a queda do muro de Berlim viria a revelar como os anos finais da guerra fria.

Entretanto, a exploração do espaço utilizando as naves heechee e naves terrestres com tecnologia adaptada estão a causar ondas no espaço, com os Heechee a temerem a perturbação de um local muito especial, um buraco negro onde está confinada uma raça alienígena conhecida simplesmente como os Assassinos, que os Heechee tanto temem que se encerraram a si próprios num buraco negro para se protegerem da aniquilação que viria a a acontecer caso fossem descobertos por esta agressiva raça de seres que estão a manipular o espaço-tempo para criar um novo big bang, gerando um novo universo com leis da física que lhes são mais agradáveis.

(is this cosmic enough for you?)

Outras personagens gravitam nesta história em que os Heechee acabam por se revelar à humanidade. Infelizmente, a única verdadeiramente interessante é a de Albert, um programa de inteligência artificial que se aproxima da sentiência e que funciona como o narrador omnisciente da obra.

Encontro com os Heechee é uma obra desconcertante. Por um lado, falha em despertar o interesse, e é um daqueles livros de FC que está a envelhecer mal e parece estar destinado a ser lido futuramente apenas pelos fãs mais ferrenhos ou por aqueles que buscam aprofundar os seus conhecimentos sobre a FC. Por outro lado, não deixa de ter as suas pérolas - a geopolítica global dos anos 80 transportada para um futuro próximo, os impactos que o domínio de tecnologias alienígenas efectou sobre as sociedades humanas (e aqui, comparação óbvia, vem-me à mente a história dos portugueses a introduzirem as armas de fogo no Japão, facto que influenciou o futuro do país, não de forma decisiva, mas modelando a sociedade de uma outra forma), a concepção de inteligências artificiais que se aproximam da sentiência, um sentido de imortalidade virtual com os padrões cerebrais dos individuos a serem armazenados em tecnologia heechee, criando uma verdadeira consciência global virtual, e uma das mais estranhas raças alienígenas jamais criadas (não, não são os Heechee, que me pareceram bastante banais pelos padrões fantasiosos do imaginário de espécies alienígenas) - um povo-lula, capaz de viajar pelo espaço, que tem uma concepção de tempo um pouco lenta para os padrões habituais.

Encontro com os Heechee foi um livro que não me fascinou. Na minha pilha de livros empoleirados sobre a mesa de cabeceira aguarda leitura o último livro da saga. Talvez me faça mudar de ideias. Ou, talvez, esta frieza perante a obra advenha da tradução - a lendária colecção Argonauta ficou conhecida pela sua abrangência e duração temporal (durante décadas, assegurou uma publicação contínua de obras de FC em portugal), mas não pela qualidade das suas traduções.volume da saga Heechee

Irreal, sabemos...

A realidade, mais estranha do que a ficção. Esta semana circularam pela infoesfera duas notícias que parecem saídas dos recantos mais distorcidos da imaginação literária. Primeiro foi a notícia do serial killer russo que tencionava preencher cada uma das 64 casas do tabuleiro de xadrez com cadáveres de vítimas (que levou Warren Ellis, ele próprio um criador de ficções para estômagos fortes a exclamar fucking brilliant! pela perfeita bizarria da ideia). Ideias menos elaboradas já deram origem a livros e filmes intrigantes. Pense-se em Seven, em Silêncio dos Inocentes ou em Halloween (o slasher de culto que está a sofrer um remake às mãos de Rob Zombie). Esta história, infelizmente verdadeira, certamente que inflamará imaginações.

Para terminar a semana, as imagens e a história surreal da mais inepta tentativa de terrorismo jamais tentada (ultrapassa até a do bombista no sapato). Que inimaginável calibre de mentecaptos, o daquele par de terroristas que foi tão prontamente enganado pelos pilotos e passageiros.

Para rematar a omnipresença da estupidez humana, regista-se o assalto a um banco na Alemanha, levado a cabo por um ladrão perdido de bêbedo, com as previsíveis consequências: ressaca curtida nos calabouços. Foi, talvez, um excesso de copinhos para dar coragem.

Estes fait divers veêm reforçar aquilo que os amantes da ficção nas suas várias encarnações sabem: que a realidade consegue ser mais estranha e bizarra do que a ficção.

Também é algo que nós, que vivemos neste país profundamente irreal, sabemos intuitivamente.

Leituras

Boing Boing | The Conspiracy Boom Tenebrosos terroristas globais. Experiências alienígenas. Governos secretos. Cabalas dominadas pelos elusivos donos do dinheiro. Sociedades secretas que controlam o poder à escala planetária. Dominio secreto dos alienígenas sobre a humanidade. Conspirações secretas levadas a cabo por agencias de espionagem ocultas. A internet fez explodir aquilo gue noutros tempos se resumia a livros obscuros lidos por uma diminuta minoria. A paranoia tornou-se moda, e as teorias da conspiração são encaradas como prováveis até pelos mais sensatos, como se nota pelo destaque mediático dado às mais bizarras teorias sobre o 11 de setembro. Frente à enorme complexidade deste mundo global contemporâneo, o cérebro precisa de se refugiar em ideias que embora implausíveis, são de fácil compreensão.

Guardian | Robot wars are a reality A cada vez mais extrema complexidade dos sistemas de armamento está a deixar para trás o elemento humano em direcção aos sistemas autónomos. A investigação em sistemas militares robóticos ganha cada vez mais fôlego. Registe-se que a próxima geração de aviões de combate será composta por aeronaves não tripuladas de autonomia variável. Não é uma previsão, os grandes construtores de aeronaves militares - a Boeing, a Dassault e a EADS, por exemplo, já estão a testar os exóticos protótipos destas futuras aeronaves. No terreno já existem sistemas robóticos armados - caso dos UAVs Predator, aeronaves de reconhecimento armado pilotadas a meio planeta de distância. Mas, por mais que tentemos tornar a guerra como um jogo limpo e virtual, ela nunca deixará de ser aquela praga suja e sangrenta que revela o pior da alma humana.

Guardian | Tough images: the problems of graphic crime novels Um panorama dos comics mais sérios, que procuram utilizar a gramática vibrante da BD para recriar o romance noir.

domingo, 19 de agosto de 2007

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A obrigatória imagem do dia. Detalhe onírico.

Vento de nenhures

Dias com o de hoje, em que lá fora só se ouve o rugir do vento, trazem-me imediatamente à memória um dos romances-catástrofe de J. G. Ballard, The Wind From Nowhere, em que uma poderosa ventania varre literalmente a humanidade da face do planeta, excepção feita a um multimilionário megalomaníaco que decide enfrentar a força da natureza com uma pirâmide de aço, que, claro, é levada pelo vento. Assim que esta última vã esperança da humanidade é, literalmente, varrida pelo vento, a ventania diminiu, torna-se leve brisa, e os homens saem dos seus abrigos para reconstruir a civilização.

Falo, claro, de J. G. Ballard nos seus bons velhos tempos, após a sua fase de composição de contos de ficção científica que são pequenas pérolas de perfeição imaginativa e literária, como Chronopolis, cheia de imagens oníricas de metrópoles abandonadas e relógios. Nos seus romances-catástrofe, obras como The Wind from Nowhere, The Crystal World, The Burning World e The Drowned World, onde forças naturais destroem de forma catastrófica as construções e as obsessões das civilizações humanas. Destes livros, o que mais assombra a memória é The Drowned World, com as suas descrições na prosa de clareza surreal de Ballard de um mundo, literalmente, afogado, de cidades semi-submersas em pântanos devido à subida das àguas, onde o verde da vegetação luxuriante se entrança nas janelas e cornijas, onde homens obcecados coexistem com cientistas num jogo puramente humano passado nos andares superiores de edifícios de luxo semi-submersos. Onírico, com uma prosa que me faz recordar frottages de Max Ernst (especialmente A Europa depois da chuva e O Olhar do Silêncio), e perigosamente clarividente, se acreditarmos (o que é inevitável) nas previsões mais benignas dos cientistas em relação aos efeitos do aquecimento global.

J. G. Ballard é um pouco mais diversificado do que estas fases. Abordou um apocalipse pop-cultural de ogivas, sexo enquanto geometria e as intersecções sangrentas das vidas mitificadas dos famosos em obras como The Atrocity Exhibition, livro não linear quanto baste. Explorou a facilidade com que a patine civilizacional se esboroa, revelando o animalesco que reside na alma humana, em obras como High Rise ou Running Wild. Explorou a intersecção da solidão no meio das multidões com a obsessão e a monomania em obras como Concrete Island. Explora agora uma visão de glamour decadente em livros como Super Cannes e Cocaine Nights Tornou-se conhecido do grande público graças ao cinema, com as adaptações do romance semi-autobiográfico O Império do Sol por Spielberg e a marcante adaptação de Crash por David Cronenberg, que respeitou com uma precisão alucinante a clareza surreal da visão de Ballard.

O conto Low Flying Aircraft, apocalíptico pós-futurista decadente (uma das marcas da ficção de Ballard), foi, curiosamente, filmado em portugal por Solveig Nordlund (a mais nórdica das realizadoras portuguesas) com o título de Aparelho voador a Baixa Altitude classificando-se como um filme de FC português, coisa mesmo muito rara.

The Bishop of Hell



Marjorie Bowen, The Bishop of Hell and other stories, Wordsworth, 2006

Marjorie Bowen - Bibliografia

Sob o pseudónimo de Marjorie Bowen, a prolífica escritora Gabrielle Margaret Vere Campbell Long publicou uma série de curiosos contos do sobrenatural. Esta é uma daquelas escritoras que decaiu em direcção ao esquecimento, relembrada apenas por académicos ou conhecedores de nichos literários cheios do pó dos tempos que passam.

The Bishop of Hell reúne alguns dos contos sobrenaturais da autora. Não são contos extraordinários. Seguem sempre a mesma estrutura - algo no passado dos personagens ou dos locais, algo geralmente criminoso, causa assombrações e terrores sobrenaturais. São enredos puramente clássicos, de leitura agradável mas sem serem obras de referência.

Curiosamente, os contos são sempre baseados em dramas domésticos, intrigas familiares, com um certo pendor para mulheres assassinadas pelos maridos. Diria que são contos que exploram o lado negro da ideia de família e de tranquilidade doméstica tão prezada pelos leitores dos primeiros anos do século XX (Bowen publicou essencialente entre 1909 e 1935).

O que sobressai nestes contos é um extraordinário sentido de época. Criadora de histórias simples e estereotipadas, Bowen revela-se como uma extraordinária visualizadora dos anos passados. Quando a acção das suas histórias se passa na época de 1700, as páginas tornam-se vivas com a riqueza das descrições, cheias de pormenores que revelam um sólido conhecimento e, diria até, um carinho pela época que literalmente insufla vida em contos que de outro modo seriam banais.

The Bishop of Hell é uma obra curiosa, para aqueles que gostam de mergulhar nas àguas mais profundas dos géneros literários. É uma referência para se perceber como evoluiu o género de literatura sobrenatural. São contos que são típicos da época em que foram escritos. Destinam-se à obscuridade, mas por vezes é bom desempoeirar as antigas palavras para se perceber como é que as ideias evoluem.

Leituras

BBC | Compact disc hits 25th birthday O CD fez 25 anos. Ainda é o formato de eleição, apesar da explosão do formato mp3. Curiosamente, apesar dos primeiros cds a serem vendidos terem sido de música clássica (os amantes deste género musical são geralmente mais afluentes), o primeiro cd a ser produzido foi um disco dos... ABBA. Início pouco auspicioso...

BBC | Russia restarts Cold War patrols Em mais uma notícia que parece saída dos tempos da guerra fria, a Rússia voltou a realizar patrulhas de longo alcance com os seus bombardeiros, fielmente seguidos por caças da NATO. Nestes tempos instáveis, é sempre bom saber que há coisas que nunca mudam.

Guardian | Among a people in mourning Retrato dos yezedis, uma minoria religiosa que está a ser dizimada pela violência sectária que varre o Iraque. Nem o facto de residirem no Kurdistão, a zona mais tranquila do Iraque, os livra da sanha assassina dos muçulmanos.

sábado, 18 de agosto de 2007

T-6 WIP



T-6 work in progress. Primeiros passos na vectorização do T-6 Texan. Agora só resta o imenso trabalhinho de formiguinha de transformar este aglomerado de linhas num todo completo e coerente.

Mas pelo menos identifica-se a aeronave pelo esboço. Já é um princípio.

A gosto

Para além das artes digitais, também gosto de me dedicar às artes mais degustativas. Não sou exactamente um Brillat-Savarin mas não me safo muito mal. Pelo menos creio que não causo indigestões nem intoxicações alimentares.

Graças às dicas de Henrique Sá Pessoa ontem consegui um jantar delicioso. Grelhei um entrecosto no carvão, para ficar com aquele gosto especial que só o carvão consegue dar. Acompanhei com uma salada grega de queijo feta, de sabor intenso, entrecortado pela frescura do tomate cherry, polvilhado com pimenta e manjericão e regado com azeitinho saboroso. Uma salada de alface, tomate e rúcula, polvilhada com um leve toque de alecrim. Molho tártaro para misturar na carne.

Consegui aqueles mmmms de satisfação à primeira dentada. Cá ficam as receitas para experiências, aprendidas no Entre Pratos, o programa de Sá Pessoa no canal 2. São receitas fáceis, que não exigem ingredientes exóticos. A salada grega, por exemplo, funciona tão bem com queijo de cabra como com feta, que é um queijo grego um bocadinho difícil de encontrar e um também um bocadinho caro.

Salada Grega de Queijo Feta

200 gr de Queijo feta cortado aos cubos
1 pacote de Tomate cereja (tomate cherry) cortados em quartos
1 chávena de azeitonas pretas descaroçadas
1/2 chávena de folhas de manjericão
3 colheres (sopa) de azeite
Pimenta preta em grão, a moer na altura

Basta, simplesmente, misturar tudo numa tijela e deixar marinar durante sensívelmente uma hora.

Molho Tártaro:

5 a 6 colheres de sopa de Maionese
1\2 Limão (sumo)
1 colher de sopa Pickles picados
2 colheres de chá de Alcaparras picadas
1\2 Cebola picada
1 Ovo cosido picado
Sal e pimenta
1 colher de sopa Salsa picada
Molho inglês a gosto

Mais uma vez, simplesmente misturar. Acompanha carne e peixe.

Para confeccionar, aconselho um jazz clássico ou talvez umas sinfonias. Apuram o sabor à comida.

Mais receitas, algumas não tão simples, no website do Entre Pratos
Bom apetite.

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Versão final do P-40, com pormenores adicionais - as tradicionais dentuças de tubarão, algumas marcas e... um piloto... que me deu muito menos trabalho do que eu esperava.

Agora, T-6.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

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O meu P-40 está finalmente pronto. Para quem quiser saber mais sobre esta fantástica aeronave, cá vai o obrigatório link da wikipedia: Curtiss P-40.

Próximo desafio? Um T-6 com, coisa rara nestes meus desenhos (gosto das aeronaves, não dos militarismos), com marcas da cruz de cristo. A coisa ocorreu-me numa conversa no Deviant Art com um inspirador e rigoroso desenhador de aeronaves.

Leituras

BBC | Chernobyl 'not a wildlife haven' Um mito, desmistificado. Após o acidente nuclear de Chernobyl toda a zona foi isolada. Os relatos apontavam que a vida selvagem florescia no local, apesar da radiação. Mas um recente estudo científico analisou as espécies animais presentes na zona de exclusão e concluiu que o declinio ultrapassa os 60%, quando comparado com zonas onde a radiação se situa nos valores normais.

BBC | Heavy losses sweep world markets A volatilidade dos mercados continua, graças ao colapso da bolha imobiliária no mercado americano motivada pelas constantes subidas nas taxas de juro. Os bancos centrais continuam a injectar dinheiro nos mercados, tentando evitar uma recessão generalizada.

Guardian | Danes say sorry for Viking raids on Ireland Uma réplica de um drakkar viking aportou na Irlanda no decorrer de uma experiência arqueológica. O ministro da cultura dinamarquês aproveitou para pedir desculpa pela violência dos seus centenários antepassados.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

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Hoje deixo a natureza mostrar as suas paletas. Crepúsculo capturado em mil regos, com o nevoeiro que depressa cobriu a Ericeira a levantar-se vindo do mar.

Leituras

Guardian | Vatican plans airways to heaven Highway to hell, airline to heaven. Perdoem o trocadilho, mas é o que os meus perversos neurónios se lembraram perante a notícia que o Vaticano pretende criar uma companhia de aviação com o mercado-alvo do turismo religioso. Lourdes é o primeiro destino anunciado para esta low cost dos céus (trocadilho intencional).

New Yorker | Blows Against the Empire A New Yorker revê a obra de Philip K. Dick, o mais surreal dos escritores de ficção científica. Embora a prosa de Dick não seja do agrado do autor do artigo, este rende-se ao sentido cómico-paranóico com laivos cósmicos da obra de PKD. Coloca-o firmemente como um escritor de época, fazendo sentir que a obra de PKD foi potenciada pela mescla da experimentação hippie dos anos 60 com o cinismo político da administração Nixon. Apesar disso, reconhece a PKD latitude de ideias e um fio condutor - a resiliência da normalidade mesmo quando tudo aponta para a loucura.

Worldchanging | Colonizing Planet Earth Uma ideia divergente - adaptemos a ideia da colonização de planetas extra-terrestres como forma de conceber a noção de desenvolvimento sustentável. "If we knew how to live on Mars, we'd know how to reduce our footprint on Earth. Space colonization is the Rosetta stone for earthly sustainability because it's entirely about living in the absence of ecosystem services." Provocante.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

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P-40 Warhawk, ainda em progresso. Progresso lento, não por preguiça ou por aproveitamento de dias de praia, mas por me ter visto obrigado a pintar o meu apartamento. Mulheres... tenho passado os dias a esfregar paredes com tintas impregnadas nos rolos de pintura. Processo quase finalizado, o que significa que tenho duas paredes pintadas num vibrante vermelho imperial, que dá á divisão da casa um certo ar de bordel berlinense dos anos 20. Chego até a esperar que Marlene Dietrich saia de algum armário, se sente na mesa e começe a cantar O Anjo Azul. A minha rapariga não compreende que comparar a sala a um bordel berlinense dos anos 20 é um elogio...

Enfim, mulheres... qual é o problema das paredes brancas?

Stroke

But grandmamma always had her meals in bed. She suffered from what Elsie had been told was a "stroke". When Elsie asked what that was, her grandmother replied, "The hand of God".
So Elsie thought of God's hand reaching out of heaven into grandmamma's large bedroom and stroking her down one side and leaving that dead.


in Elsie's Lonely Afternoon, conto de Marjorie Bowen contido no livro The Bishop of Hell & Other Stories.

Escreveu Henry Miller que até o pior dos livros escrito pelo pior dos escritores poderia ser redimido porque de certeza que entre páginas cheias de inanidade se encontraria uma pérola literária. Atentem nesta, contida num livro de outra forma perfeitamente desinteressante. Relembrem que em inglês stroke tanto se refere àquilo que apelidamos de trombose (ou AVC nestes tempos mais científicamente correctos) como de festa carinhosa.

Leituras

BBC | Arctic sea ice set to hit new low Este ano, o limite da camada de gelo polar irá encolher para níveis recorde. Notícias como esta sublinham a urgência em combater as causas e efeitos do aquecimento global.

Guardian | Trial of Russian who boasted of 63 murders Um fait divers sangrento. Alexander Pichushkin é um humilde caixa de supermercado, amante de uma boa partida de xadrês, e... um serial killer que se gaba de um total de 63 vítimas, embora só se tenham encontrado os restos de 15 e a acusação só mencione 49. Este assassino em série tinha dois objectivos: ultrapassar o recorde macabro de Andrei Chikatilo, o pior assassino em série russo (pela acusação, não conseguiu), e preencher um tabuleiro de xadrez com as suas vítimas (a acreditar nele, só faltava mais uma). Psychokiller, qu'est que c'est?

LA Times | Religion beat became a test of faith O jornalista que cobria assuntos religiosos para o LA Times era um homem profundamente espiritual, até ter esbarrado com as piores contradições religiosas: a pedofilia e a corrupção no seio da igreja católica (crime duplamente odioso sabendo que a figura do padre é uma de absoluta confiança); a total rejeição social que vivem os ex-mormones que por uma razão ou outra deixaram de seguir os ditames da sua religião (são ostracizados por cidades inteiras); a pura vigarice dos evangelistas televisivos, que vivem como nababos à custa da credulidade daqueles que lhes dão dinheiro em troca de "favores" divinos. Após oito anos disto, este jornalista profundamente espiritual que se sentia ligado a deus tornou-se ateu. Mais um exemplo a demonstrar a pura estupidez que é a religião.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

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Little Apple.

Microblogs

Twitter | Shaviro

Um feed do twitter a seguir: os microposts de Steven Shaviro, professor de literatura numa universidade americana. Curtas interessantes e incisivas sobre os mediaículturais. Um exemplo: "A great pop song (e.g. Umbrella) takes an emotion, immobilizes it, monumentalizes it, and lets it resonate for the duration of the song."

Tiro certeiro. Precisamente aquilo que aqueles que reconhecem poesia na música popular (entenda-se os géneros não eruditos de música), quando ela é boa e não produto criado a metro para consumo de massas e lucro fácil.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

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Sentimentos arcádicos para começar o dia. Contra o cinzento que se aproxima.

Damnation Alley



Roger Zelazny, O Beco dos Malditos, Livros do Brasil, 1988

Wikipedia | Roger Zelazny
Revolution SF | Damnation Alley
Damnation Alley

Mais uma pequena pérola saída da saudosa colecção Argonauta. Desta vez uma obra um pouco apócrifa de um dos grandes mestres da ficção científica e fantasia, Roger Zelazny.

Falo em obra apócrifa porque este Damnation Alley não se enquadra na generalidade da obra de Zelazny. Este não é um livro cheio de rigor científico, não é uma obra que explora mundos fantásticos de fabulosas paisagens imaginárias. É apenas um livro de viagens pós-apocaliptico. Apenas.

Volto aqui a uma das minhas obsessões: a guerra fria, os pára-chuvas nucleares, os mísseis apontados e prontos a disparar, o muito apropriado acrónimo MAD (Mutually Assured Destruction), a perigosa e muito real possibilidade de aniquilação planetária debaixo de nuvens de cogumelos nucleares. Soa trágico? Foi um momento da história recente, que terminou com a derrocada da União Soviética. Mas é sempre bom recordar que as ogivas ainda existem, no topo de potetes foguetões alojados em silos espalhados pela américa e pela rússia. Relíquias letais de um futuro que felizmente nunca aconteceu.

A guerra nuclear e as suas consequências foi um tema que marcou a ficção científica clássica. Nos anos cinquenta abundaram obras que tentavam imaginar, de forma mais ou menos verosímil, o que aconteceria se as potências se zangassem e as bombas voassem pela atmosfera. Não é por acaso que grande parte da fc clássica da década de cinquenta lida com o átomo, com mutações provocadas pela radiação, com civilizações colapsadas, com uns poucos sobreviventes a esgravatarem por entre as ruínas radioactivas das cidades arrasadas. E, claro, não nos podemos esquecer dos mostros agigantados dos mais icónicos filmes de série B... por pueris que sejam as aranhas gigantes, foram uma forma de enfrentar a psicose dos tempos.

Muitos autores de fc escreveram sobre este tema. Recordo o clássico More than Human de Theodore Sturgeon, ou grande parte da obra de Philip K. Dick. Os pulps de fc da época estão cheios de histórias destas. Também o cinema vai repescando este tema, com filmes tão interessantes como Escape from New York ou todos os filmes cheesy pós-apocalípticos que fazem os de série B parecerem obras primas do cinema que surgiram após o sucesso de Mad Max.

Escrito em 1969, Damnation Alley conta as aventuras de Hell Tanner, motoqueiro de reflexos excepcionais e o últimos dos Hell's Angels numa califórnia que se tenta recuperar após uma guerra nuclear. Amoral, violento e seu escrúpulos, é-lhe dada uma oportunidade de se escapar à prisão perpétua: conduzir através da américa, levando medicamentos a Boston, onde ainda resta um núcleo populacional importante, ameaçado por um surto de peste.

Tanner tem de atravessar o chamado Beco dos Danados, os territórios radioactivos que medeiam entre as costas americanas, enfrentando bandos de sobreviventes, padrões climatéricos violentos, gigantescos animais mutantes, e os obrigatórios bandos de motoqueiros violentos.

Por entre as paisagens arruinadas das grandes cidades bombardeadas, Tanner acaba por se transformar, redimindo-se dos seus tempos de criminoso violento e acabando por dar a sua vida em troca da vida dos sobreviventes de Boston.

Não se pode dizer que esta seja uma obra de grande profundidade. É um livro de leitura rápida, que envelheceu melhor do que o tema pós-apocalíptico em que se baseia. A obra é um livro de viagem pelos lugares comuns relativos ao tema, sem grande preocupação de rigor científico (Tanner tem de enfrentar morcegos gigantes e lagartos gila gargantuescos) e apenas a transformação moral do anti-herói protagonista, cujo nome indica tudo sobre o personagem e a história, consegue dar alguma dimensão ao livro. Mas embora não seja profundo, um clássico obrigatório da FC, é de leitura agradável. Sente-se a mestria da prosa de um grande mestre literário que conta uma história apenas pelo prazer de contar histórias.

Leituras

BBC | Ancient forest found in Hungary Foram descobertos no fundo de uma mina de carvão húngara troncos fossilizados de ciprestes com mais de 8 milhões de anos. Aparentemente, os troncos estão tão bem preservados que parecem ter sido cortados recentemente.

BBC | Russia unveils air defence plan Uma notícia que parece ter saído directamente dos tempos quentes da guerra fria, em que os EUA e a URSS competiam directamente na busca de novos e cada vez mais letais sistemas de armas. Em resposta aos planos americanos de defesa anti-míssil, os russos já anunciaram a produção de uma nova geração de mísseis. Agora anunciam um novíssimo sistema de radares que vai substituir o corrente sistema de defesa aéreo russo.

Guardian | Canada uses military might in Arctic scramble No rescaldo da pretensão russa de reclamar o pólo norte como seu território, com o teatral plantar de bandeira nas terras submarinas, os restantes países interessados em fatias dos territórios polares - E.U.A., Canadá, Noruega e Dinamarca - estão a preparar missões científicas que corroborem as suas pretensões territoriais. O Canadá, país que normalmente não está associado a militarismos, já fez saber que pretende construir bases militares no extremo norte do seu território para vincar a sua soberania sobre as zonas àrticas. Em jogo estão recursos naturais que, graças à tragédia que é o aquecimento global, são passíveis de exploração com o degelo que se regista no ártico.

domingo, 12 de agosto de 2007

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Pure abstract mode.

Birdland

Num destes dias cinzentos de verão, na praia do forte, os surfistas contemplavam o mar, com um olhar intenso. Agrupados num bando, empoleirados sobre as rochas, faziam lembrar os pássaros de ar ominoso do célebre filme de hitchcock. Por momentos arrepiei-me. Nada me garantia que aquele bando não levantaria voo repentinamente, debicando vítimas inocentes com as pontas das pranchas. Cenas deste verão fresco, que teima em ser o que não é. De que estranha doença sofre este verão convencido que é inverno? Canícula gelada, vento suão enregelante. Céus cinzentos de verão. Frescura da chuva que teima em cair. Gaivotas que se dirigem suspeitosamente para terra. A Ericeira não é conhecida pelos seus verões tórridos, mas este ano está algo de verdadeiramente ártico.

The Great Train Robbery



Internet Archive | The Great Train Robbery
IMDB | The Great Train Robbery (1903)
Wikipedia | The Great Train Robbery

Desde os seus primórdios, desde os tempos em que Lumière assustava e mesmerizava os parisienses com as suas filmagens de comboios a vapor (que de tal maneira assustavam os espectadores que estes literalmente saltavam das suas cadeiras) e da vida quotidiana da época, ou os tempos em que Meliès surpreendia e enfeitiçava com os seus rudimentares mas encantadores efeitos especiais que o cinema se mostrou um meio de comunicação capaz de fascinar multidões. Os empresários foram rápidos a explorar este novo filão, e o cinema, enquanto negócio, dependente de estúdios, depressa se desenvolveu.

Na América do início do século XX eram os estúdios de Thomas Edison que dominavam este incipiente meio de comunicação. Edison, inventor de renome (como referência, podemos apontar as só agora obsoletas lâmpadas de filamento de tungsténio) havia refinado os processos de Lumière e lançou-se em Nova Yorque no mundo do cinema com um estúdio próprio, dando início ao cinema enquanto linha de montagem e ao estúdio enquanto fábrica de sonhos.

Se acham que as nossas contemporâneas guerras de copyright neste admirável mundo novo digital são violentas, são pequenas comparadas com guerras semelhantes travadas no início do século XX nos mundos do cinema ou da aviação. Por exemplo, a primeira razão para que os aviões tenham flaps nas asas prende-se com direitos de autor... os irmãos Wright tinham resolvido o problema de como manobrar as aeronaves através do wing warping, deformação das asas (técnica que pesquisadores aeronauticos de ponta estão a revisitar). Conscientes do valor comercial, patentearam a ideia... forçando os outros inventores a criarem outros métodos para manobrarem aeronaves em pleno ar. Num processo em tudo semelhante às nossas guerras de copyright, a história do wing warping passou pelas barras dos tribunais... mas, estou a divagar.

Entre os muitos filmes do catálogo dos Estúdios Edison destaca-se este The Great Train Robbery. Foi, por um lado, inovador em termos técnicos. The Great Train Robbery foi um dos primeiros filmes a ser filmado nos locais, em vez de em estúdio - algo de verdadeiramente inovador se levarmos em conta as pesadas e frágeis câmaras da época. A câmara é estática (nem poderia ser de outro modo, à época), mas as cenas são eminentemente dinâmicas, vibrantes e cheias de movimento. Por outro lado, este foi o avô de um género de cinema muito explorado, sempre na moda, capaz de mover multidões e sempre de sucesso garantido: o cinema de acção, e, muito mais específicamente, o avô de todos os filmes sobre assaltos a comboios.

The Great Train Robbery resume-se em poucas linhas. Um grupo de malvados meliantes agride um empregado de bilheteira numa estação de comboios. Entram no comboio e prosseguem o assalto, disparando a torto e a direito, desprezando a vida dos passageiros. Consumado o assalto, os bandidos fogem na locomotiva, até chegarem ao local onde esconderam os seus cavalos. Entretanto, o empregado de bilheteira consegue avisar que aconteceu um assalto ao comboio. Forma-se um grupo de homens armados que parte em busca dos bandidos, encurralando-os na floresta. Segue-se um tiroteio, avôzinho dos tiroteios tão glosados nos Westerns, em que os bandidos são mortos. The End. Não se pode apontar a The Great Train Robbery grandes profundezas semióticas, mas na época a ideia de cinema enquanto arte com significado ainda não se tinha formado.



Um pormenor curioso em The Great Train Robbery está numa cena muito especial, que enregelava as audiências da época: um dos bandidos, de ar ameaçador, apontava a sua pistola para o público e disparava. Conta-se que à época eram muitos os que se assutavam com um truque para nós perfeitamente pueril.

Esta referência na história do cinema encontra-se disponível para download no Internet Archive, e se calhar também no You Tube e outros sites suspeitos do costume. É um filme a descobrir, fundamental para se conhecer as raízes do mundo de sonhos cinematográficos.