Domingo, 31 de Dezembro de 2006

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E aqui me despeço, até para o ano.

Leituras

BBC | Huge Arctic ice break discovered Mais um sinal do aquecimento global. Um pedaço de gelo sensívelmente do tamanho de Manhattan anda à deriva pelos mares do norte do canadá. Teme-se pela segurança das plataformas de exploração de petróleo e dos navios que sulcam o cada vez menos gelado oceano ártico. Fiquem atentos, dentro de alguns meses pode surgir a notícia de que uma mancha de petróleo massiva está a alastrar pelas costas da tundra canadiana, após a catastrófica colisão desta plataforma de gelo com uma plataforma offshore. Há aqui um argumento cinemático à hollywood, se estiverem interessados.

Guardian | Saddam Hussein executed A grande notícia de ontem, que alegrou as mesas de jantar com imagens macabras na abertura dos telejornais. Não vou fazer comentários, comparações com nuremberga, diatribes sobre espectros envelhecidos de ex-ditadores, comentários sobre a legitimidade do tribunal iraquiano que o condenou, comentários sobre a "justiça" dos vencedores. Um fim triste para uma vida de violência.

Guardian | What are the big questions that will shape the coming year? O final do ano traz consigo as infindáveis listas do melhor e do pior do ano que passa, bem como as inevitáveis previsões para o próximo ano. O Guardian, circunspecto, limitou-se a uma questão por especialista, mas quando as questões vão desde a possibilidade de vida em marte, os hábitos de consumo numa sociedade ameaçada pelo aquecimento global, as agudizantes desigualdades económicas, a regulamentação das novas tecnologias reprodutivas, a defesa dos valores iluministas numa sociedade onde os fundamentalismos religiosos se tornam prementes, o futuro do médio oriente e a possibilidade de se encontrar um planeta de características semelhantes à terra, sem esquecer a aproximação à Teoria Unificada da física, as respostas são de leitura obrigatória.

Guardian | Hope for a better future Dentro de algumas horas estaremos num novo ano. O que é que isso realmente significa, sabendo que a convenção da passagem do tempo é uma entre tantas outras possíveis?

Guardian | Is this digital democracy, or a new tyranny of cyberspace Slavoj Zizek reflecte sobre o que realmente significa a explosão do uso das tecnologias de expressão na internet. Nos videos online, nos sites e blogs, nos chats, fóruns, jogos multijogador, em toda a infoesfera democratizada pelo poder agregado de inúmeras pequenas vozes (das quais este blog, tal como os outros, é um exemplo), qual é precisamente a personalidade que expomos ao mundo? A nossa verdadeira personalidade, humana, frágil e imperfeita, ou personas cuidadosamente construídas, sublinhando aquelas que cremos serem as nossas virtudes, apresentando qualidades muitas vezes inexistentes na vida real? E quais serão as implicações de uma comunidade de relações humanas que cada vez mais não distingue a fronteira entre a personalidade real e a personalidade virtual? Quem somos nós, homo sapiens sapiens digitalis, habitantes participativos do mundo virtual?
E como questão final, o que aconteceria se de repente faltasse a electricidade e o nosso admirável mundo digital... puf!

The New York Times | It's ok to fall behind the technology curve Os fetishistas da tecnologia nunca tiveram a vida tão facilitada: se antigamente as melhores máquinas eram um must a ter, pagando-se o inevitável alto preço por isso, a avassaladora economia de escala combinada com um implacável desenvolvimento tecnológico deu-nos uma tecnoesfera em que a máquina de topo de hoje amanhã já está a metade do preço.

The Times | Now you have to believe a man can fly Para terminar as últimas leituras do ano, uma verdadeiramente bizarra. Yves Rossy é piloto da Swissair e, nas horas vagas, dedica-se a desenvolver um protótipo de máquina voadora que lhe permite voar. O equipamento consiste num capacete, um par de asas pequenas e quatro motores a jacto de pequenas dimensões. Leram bem, motores a jacto. A coisa, que dá pelo nome de JetMan, voa até 300 km/h e até agora tem uma autonomia máxima de 6 minutos. Mais do que os velhos protótipos de máquinas voadoras pessoais, como o Hiller H-1 (uma plataforma volante) ou os clássicos jetpacks, o JetMan pode ser comparável ao Rocketeer.

Sábado, 30 de Dezembro de 2006

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Imagens espelhadas, detalhes de supersimetrias.

Leituras

BBC | Robot heading for Antarctic dive Os oceanos que banham o mais fascinante dos continentes vão ser investigados por uma missão científica britânica que contará com o Isis, um rov capaz de mergulhar até seis quilómetros de profundidade. Que maravilhas se ocultarão debaixo das àguas geladas do continente branco?

Guardian | A return to the politics of envy could serve us well Não deixa de ser surpreendente que na era dos estados sociais, dos serviços públicos e do acesso generalizado à saúde nos países desenvolvidos, as desigualdades estejam a crescer. Enquanto a larga maioria vê os seus rendimentos crescerem cada vez menos, uma minoria enche-se literalmente de dinheiro enquanto colhe os elevados lucros do seu trabalho. À partida, não deveria haver problemas de aceitação daqueles que ganham quantidades enormes de dinheiro, se esses lucros forem legais. O problema é que os super-ricos criam novos mercados; o mercado habitacional, por exemplo, sofre uma pressão crescente de preços causada pela oferta de casas àqueles que podem pagar milhares de euros sem pestanejar pelas casas que lhes agradam. De fora ficam aqueles que, apesar de trabalharem, não reúnem o dinheiro suficiente para adquirir uma casa a preços inflacionados (e aqui na Ericeira pergunto-me: quantos são os filhos da terra que podem comprar casa na sua terra?). O desiquilíbrio na oferta e na procura também se revela no comércio, com dois pólos diametralmente opostos - o comércio de luxo, destinado aos afluentes, que progressivamente abre novas e elegantes lojas nas zonas nobres da cidade, e o comércio de grande superfície, que estrangula o chamado "comércio tradicional" mas que é apenas aquele comércio que responde às necessidades locais. O poder da afluência também se nota na redistribuição de riquezas permitida pelos impostos. Aqueles que muito ganham conseguem sempre pagar a bons contabilistas que lhes façam a contas de forma a esquivarem-se o mais possível aos impostos, e a colocar o pouco rendimento ainda colectável em contas offshore, longe dos tentáculos das finanças. O resultado? Aqueles que menos ganham a suportar os sistemas sociais. Não considero que haja assim tão grande escândalo com os estilos de vida daqueles que têm muito. Isso pouco me incomoda. O que me incomoda é que tantos estão cada vez mais empobrecidos, e cada vez mais a base social que lhes poderia proporcionar oportunidades está a ser erodida. Porque aqui também entra o idealismo: enriquecendo à custa do mercado livre, os ricos procuram influenciar as políticas governamentais com os ideiais que lhes parecem naturais - o mérito, o privado sobre o público. Para quê sistemas públicos de ensino, quando os privados apresentam melhores resultados? Claro que o sistema público garante igualdade de oportunidades a um largo espectro da população, e o privado apenas garante oportunidades àqueles cujos pais podem pagar a propina, mas isso não é discutido. E este é um pequeno exemplo, num mundo cada vez mais desigual.

Guardian | Return of warlords as Somali capital is captured A ofensiva do governo somali, apoiada por tropas pesada etíopes, está a ser mais be sucedida do que o esperado, com os guerrilheiros dos tribunais islâmicos a retiram para sul. No vazio de poder, os velhos senhores da guerra somalis voltaram a exercer o controle sobre as suas zonas de influência. Prevê-se a continuação da violência e caos. Quanto aos islamistas, espera-se agora que da sua base de Kismayo iniciem uma campanha de guerrilha, uma jihad contra as forças combinadas dos senhores da guerra, do simbólico governo somali, e das tropas etíopes. Sabendo que os islamistas contarão com o apoio dos países àrabes e da Eritreia, inimiga fidagal da Etiópia, juntar-se à mais um conflito à longa e sangrenta lista de conflitos num país que só o é no mapa de papel.

Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

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Mais experiências no Bryce 5 com superfícies reflectivas dispostas em quadrantes. Vai não vai um dia destes sai um mandala.

Leituras

Los Angeles Times | What will they think of next? O LA Times perguntou a alguns dos nomes mais sonantes da intelligentsia electrónica quais serão as suas previsões para 2007. Steve Ballmer, patrão da Microsoft, Chris Anderson, editor da Wired, e John Brockman, intelectual por excelência e editor da Edge, estão entre os que deram respostas. Especialmente interessante é a resposta de Brockman, que nos relembra que por maravilhosas que sejam as revoluções deste admirável mundo novo digital, elas só revolucionam a vida da ainda imensa minoria que vive no mundo digital. Link via Boing Boing.

Quanto ao resto das leituras, fico mesmo por aqui. A BBC | Tech e a BBC | Science/Nature não têm nada de novo, os valiosos comentários do Guardian estão neste dia centrados nas intricacias da realidade britânica (nem a crónica de Timothy Garton Ash se safa), o New York Times igualmente. O The Times tem dois interessantes artigos sobre Dublin - campo de batalha de gangs (leram bem) e sobre os iraquianos que fazem fila desejosos de terem a honra de colocar o laço da forca no pescoço de Saddam, completo com pormenores macabros sobre o sistema de execuções do Iraque "democrático". Há ainda notícias sobre a mais recente guerra a alegrar os editores, o recrudescer do conflito na Somália, país que está em guerra desde que eu me lembro (e quem é que não se recorda daquele desembarque de marines nas praias somalis, prontos para o combate com os senhores da guerra, mas que depararam nas praias com... legiões de jornalistas de câmaras apontadas).

O final do ano aproxima-se, o dia está cinzento e a chuva cai. Querem mesmo relembrar notícias sangrentas, chafurdar nos abismos da maldade e da crueldade humana?

Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

Leituras

BBC | Mission guide: Corot Foi lançada no Cazaquistão a missão Corot da ESA, que colocou em órbita o telescópio Corot. A sua missão é detectar planetas extra-solares analisando a luminosidade de mais de 120000 estrelas em busca de pequenas variações que detectem a existência de planetas na órbita das estrelas. Como curiosidade, o Corot original era pintor naturalista da escola de barbizon.

Guardian | Conflict worsen in Horn of Africa A situação caótica na Somália, péssima há já várias décadas sangrentas, está a escalar com a intervenção etíope em apoio do largamente simbólico governo da Somália na guerra civil contra as milícias reunidas sob a bandeira dos tribunais islâmicos.

The Times | Britons head for the promised land as Israel faces a population threat Num país dependente da imigração judaica, o crescimento demográfico da população àrabe é uma ameaça, especialmente se se tiver em conta a sensibilidade e a bonomia com que os responsáveis israelitas tratam a sua população àrabe e o mundo àrabe em geral. Para combater a ameaça demográfica ao estado de israel, aumentam as campanhas junto das comunidades judaicas espalhadas pelo mundo fora que tentam promover um regresso à terra prometida.

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Novas experiências no Bryce, utilzando um truque muito simples aprendido na galeria e tutoriais de um utilizador do DeviantArt. O truque permite imagens de grande complexidade e eu, por mim, nunca lá chegava: utilizar planos com reflexão total como espelhos que reflectem as formas criadas... ad infinitum. A galeria, inspiradora, é esta.

Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

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Nestes últimos dias tenho andado a experimentar o poder realista do Bryce 5 na geração de paisagens artificiais. Dá trabalho, dá muito trabalho, e a renderização a alta resolução é momento para dar a ordem ao computador, sair para ir beber um copo com os amigos, e quando regressar a altas horas a coisa ainda não está bem pronta. Mas vale a pena.

Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006

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Pequeno detalhe de algo muito, mas mesmo muito, maior.

Sais Minerais

Passem, por favor, a àgua mineral. O chá digestivo. Os sais minerais. As velhas tradições que inabalávelmente cumprimos de ano para ano estão firmemente alicerçadas num passado em que a abudância à mesa era algo raro, a saborear apenas em alguns momentos da vida. Daí vêem os banquetes de casamento, os banquetes de natal ou de páscoa - os raros momentos em que as mesas se podiam assemelhar a algo lauto e farto. Os nossos tempos modernos trouxeram consigo a facilidade da abundância. A carne, o peixe, as frutas e os ingredientes mais exóticos estão ao alcance da nossa mão, na prateleira do supermercado. Esboroaram-se as distâncias, foi-se a sazonalidade. No inverno profundo comem-se cerejas frescas, há pouco colhidas do outro lado do planeta.

Mas no meio de toda esta abundância, o nosso espírito continua a ser o espírito antigo. Os momentos de celebração transformam-se em campos de batalha culinários, onde o excesso é cultivado, e a abundância distende os estômagos avassalados por quantidades indigeríveis de comida. E agora, finda a época festiva, passem os sais minerais, por favor.

Domingo, 24 de Dezembro de 2006

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Reflexos e reflexões.

Brumas da memória

O frio aperta, enregela a pele e entranha-se nos ossos. Os dias são iluminados por um sol gélido e as noites longas e desoladoras. O inverno impera. Este é o seu momento, o momento em que as suas frias garras nos evolvem num abraço gelado. Nas trevas da noite buscamos o calor, aquecemos a alma com aqueles que nos estão mais próximos, se não por afinidades, pelo menos por sangue. Podemos chamar a esta noite a noite de natal, de solstício, do hannukah ou qualquer outro nome que nos ocorra. O que esta é é a noite em que nos agregamos, fugindo do frio e das trevas, combatendo a obscuridade com o calor humano. Mesmo no nosso mundo ultramoderno, em que as maravilhas são corriqueiras, em que vivemos o futuro, mantemos os velhos hábitos de um mundo mais antigo, mais simples, de um mundo perdido nas trevas da memória.

Os meus velhos natais são momentos ciosamente guardados na minha memória. Natal para mim era o momento em que saía com os meus pais de Lisboa em direcção ao mundo desconhecido e fascinante do campo, onde o ar era mais puro, o céu eras mais azul, e os campos não tolhiam a liberdade como as ruas o faziam. Natal era a tradicional reunião familiar na casa da minha bisavó, anciã enrugada que comentava sempre que sabia que alguém mais novo do que ela tinha falecido que "já estava muito velho para andar por aqui". A casa ficava numa íngreme encosta à chegada da aldeia do Freixial do Meio, duas curvas a seguir à Merceana como quem vai para Runa. Ao lado da casa estava o palácio dos viscondes da Merceana, essencialmente um casarão minúsculo de portadas sempre fechadas que eu imaginava cheio de poeirentas riquezas aristocráticas, talvez influenciado pelas poucas histórias que ouvia dos tempos em que os viscondes habitvam o seu paço. Hoje, esse edifício está posto a uso como estação de pesquisa vitivinícola. Naqueles tempos, era um edifício deserto respeitado por todos.

A casa estava de tal forma entranhada na colina que parte da casa ficava soterrada. A àrea mais arejada era a adega, com os fabulosos depósitos onde o vinho ficava a amadurecer, estruturas gigânticas ao meu olhar de petiz, e a estrutura do lagar onde nos meses de setembro eu ajudava a pisar o vinho. Seguia-se o quintal, pequeno mundo de maravilhas para um rapaz da cidade pouco habituado às ternuras do mundo natural. A terra, a lama, o cheiro das plantas sob o céu azul e o silêncio da aldeia. Mas era na sala, cujas portas davam para quartos sem janela, onde toda a família se juntava para a ceia de natal. Enquanto os avós, e os tios celebravam com o bom vinho do ano, as avós e as tias afadigavam-se na velha cozinha com a sua mesa de madeira e fogão de lenha a preprar as iguarias para o jantar. De todas as iguarias apenas me recordo da mousse de chocolate, à qual adorava ir roubar nozes embebidas no chocolate cujo sabor me ajudava a esquecer as obrigatórias palmadas do castigo.

O ponto alto da consoada era a missa do galo, quando à meia noite nos deslocávamos à igreja da Merceana para assistir à tradicional missa. A obrigação religiosa era um momento entediante, quebrado apenas pela boa vontade do pároco da vila, que todos os anos erguia na sua igreja barroca o mais belo presépio que me recordo. O presépio ficava debaixo de um altaneiro pinheiro verdejante cujas bolas douradas e prateadas brihavam com a luz bruxeleante das velas da missa. Eram tempos sem grandes preocupações ecológicas, em que grande parte do país vivia da terra e do que a terra dava. O presépio em si era um mundo de fascínio, em que a cena central, a da natividade, se perdia no meio de tanto pormenor, no meio de tanto pastor e dos seus rebanhos, onde o musgo fazia as vezes dos montes e vales. O presépio incluia pequenas casinhas como aquelas que eu via na aldeia e, em anos mais inspirados, uma ponte a atravessar um rio formado por um espelho coberto com musgo. Em minha casa a minha mãe costumava construir comigo uma versão mais simplificada destes presépio, que se resumia a uma casinha, a uma ponte e um largo rebanho de ovelhas que se iam quebrando de ano para ano. Enquanto o padre perorava e os fieis oravam, eu contemplava aquele monumental presépio, com a imaginação perdida naquele mundo imaginário.

O amanhacer trazia consigo o abrir das prendas e um dia de alegres brincadeiras, estreando os novos brinquedos, até que chegava a hora de regressar a Lisboa.

Hoje os natais já não são como nesses tempos que teimam em persistir na minha memória. A família mudou, e há muitos anos que não regresso aquela aldeia no fundo do vale onde passei momentos inesquecíveis. O natal de hoje traz as angústias com a tremenda despesa em lembranças, mitigada pelo gosto do acto de partilha. Mas ainda é uma noite para passar em família, a única altura do ano em que as famílias se juntam. Mas por entre o bacalhau e os doces, a minha mente vagueia sempre até aquele momento em que o natal era um momento de maravilha - não pelas prendas, não pela festa religiosa, mas sim pelo momento em que todos se juntavam à volta de uma mesa farta.

Para aqueles que acreditam nos dogmas religiosos, um feliz natal. Para os que preferem o solstício, boa noite. Para aqueles que, como eu, deixaram de dar importância às definições, uma saudação de copo bem erguido.

Leituras

BBC | Europe's biggest dinosaur found Turiassaurus, um bicho difícil de ocultar. Fósseis descobertos em Espanha revelaram os restos daquele que, com um comprimento estimado entre os trinta e os trinta e sete metros, é o maior dinossauro descoberto na Europa.

BBC | Mobiles still ringing in new year Nos anos oitenta, as empresas da indústria dos telemóveis projectavam que no ano 2000 haveria um mercado mundial de cerca de 900.000 possíveis utilizadores. O engano está patenta na estatística que aponta que no final deste ano existem 2,7 mil milhões de utilizadores de telemóveis no planeta, número a crescer exponencialmente. 900.000 é o número de telemóveis vendidos a cada dezanove horas. Será que poderemos classificar o alastrar dos telemóveis como uma epidemia?

Guardian | Fanning the flames Em fevereiro de 1945 um milhar de bombardeiros das forças combinadas do Bomber Command britânico e da 8th Air Force norte-americana arrasaram Dresden num momento que ficou para a história como um dos maiores massacres de civis alemães na II guerra. Dresden foi arrasada à força de bombas incendiárias, e ardeu durante dias. Após o rescaldo, pouco restava da cidade para além das suas ruínas e dos 35.000 cadáveres dos seus habitantes. Dresden foi um inferno, com descrições aterradoras das condições em que encontraram os cadáveres - massas humanas que sucumbiram à pressão, ao calor e à falta de oxigénio nos abrigos anti-aéreos. O destino de Dresden foi igual ao de muitas cidades europeias no período negro entre 1939 e 1945, mas sempre se destacou por ter sido um bombardeamento aliado a uma cidade que já não cumpria qualquer objectivo estratégico e militar onde foi utilizada força excessiva. Uns justificam o bombardeamento como vingança pelos recém-descobertos horrores do holocausto, outros sublinham o potencial militar dos caminhos de ferro que entroncavam em Dresden, outros ainda apontam para o bombardeamento de cidades britânicas como justificação para as ordens dadas aos bombardeiros que largaram a sua avalanche mortífera sobre a cidade.

Guardian | Somalia on the brink of war as clashes escalate A guerra civil entre o governo somali abrigado em Baidoa e as milícias islamistas sediadas em Mogadishu está a escalar, com notícias de tanques e helicópteros etíopes envolvidos em combates pesados.

Sábado, 23 de Dezembro de 2006

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Um rapace espírito natalício. Desculpem, não resisti.

Elric



Michael Moorcock, Elric, Príncipe dos Dragões, Saída de Emergência, 2005

Wikipedia | Elric
Wikipedia | Michael Moorcock
Saída de Emergência | Elric, Príncipe dos Dragões


Normalmente tenho uma certa tendência para evitar histórias do tipo sword and sorcery. Tendo lido o Senhor dos Anéis, tudo o resto que se publica no género parece-me uma pálida imitação. Dragões, cavaleiros de inspiração medieval, feiticeiros malvados, anões, elfos e outras criaturas imaginárias, por fascinantes que sejam, nunca me conseguiram despertar a atenção. É que depois dos mundos obsessivamente detalhados de Tolkien, tudo o resto parece demasiado superfícial. Por outro lado, contos com homens musculados que resolvem as suas aventuras de espada em punho, atravessando imaginárias terras feéricas, também não me atraem por aí além. Nem mesmo contos com mulheres semi-desnudas que de espada em punho se impõem à malvadez humana nos mundos fantásticos deste género de histórias.

Recentemente fui obrigado a abrir excepções - ao icónico Conan, fruto da imaginação fértil de Robert E. Howard, e agora a este clássico Elric de Michael Moorcock. Moorcock é um escritor veterano de ficção científica e fantástico e um dos autores por detrás do movimento new wave dos anos sessenta que transformou a Fc das suas origens pulp para um género literário maduro - algo patente, num exemplo de escritor que nessa época trabalhou com Moorcock, na obra de J. G, Ballard.

Elric, Príncipe dos Dragões, é o início da saga do personagem, que se estende por uma imensa série de livros e contos. Moorcock é um daqueles escritores dos quais se pode dizer que são verdadeiramente prolíficos. Neste primeiro livro, somos introduzidos à personagem de Elric, soberano relutante de Melnibonë. O seu país é uma terra milenar e poderosa, assente no poder da magia e dos dragões, mas que começa a ver o seu poder a desvanecer-se com o tempo e com o surgir de novas nações a ocidente. Os melnibonenses são famosos pela sua crueldade, e o seu rei é por tradição o mais implacável, mas Elric é um monarca relutante. Fraco, sustentado apenas pela força da magia que compensa o seu corpo defeituoso, Elric é afligido pela sua consciência e recusa-se a agir de acordo com as crueis tradições do seu país, o que gera rumores entre os seus súbditos. Yrkoon, seu primo e fiel encarnação dos princípios sanguinários de Melnibonë, procura explorar o que julga serem as fraquezas do rei para o depor, tomando conta do trono, de um país que deseja conduzir à gloria militar com renovadas conquistas, e da sua irmã, Cymoril, amada de Elric. Aproveitando um momento de fraqueza aquando de um combate com a armada bárbara que tenta invadir Imrryr, capital de Melnibonë, Yrkoon lança um enfranquecido Elric ao mar e declara-se rei de Melnibonë.

Desprovido da sua magia, mergulhado nas àguas gélidas, Elric é auxiliado pelo rei dos mares, e regressando a Imrryr, desvenda a traição de Yrkoon e recupera o seu poder. Mas a sua vitória é breve. Clemente, Elric poupa Yrkoon à morte, e este aproveita para fugir do país, com um punhado de homens fieis e raptando a amada de Elric. Torturado, Elric parte em busca de Yrkoon, e estabelece perigosas alianças com Arioch, Senhor do Caos, tornando-se um peão nas mãos dos semideuses que controlam o seu mundo. Cada passo de Elric, cada sucesso, é tolhido pelas armadilhas de Yrkoon, e Elric só o trava no último momento possível, numa dimensão paralela onde Yrkoon se deslocou em busca das espadas Enlutada e Tormentífera, armas poderosas que conferem o poder total a quem as empunhar. Elric domina a espada Tormentífera e derrota o seu primo, regressando a Melnibonë apenas para partir de novo, à descoberta das novas nações a ocidente. Num passo incompreensível, deixa o trono nas mãos de Yrkoon, incumbindo este de reger Melnibonë até ao seu regresso.

O que torna Elric interessante é o seu carácter subversivo em relação aos cânones tradicionais. Elric não é forte e fisicamente poderoso, depende da magia dos encantamentos dos seus magos ou da magia da sua espada para sobreviver. A história de Elric não é um percurso épico, em que de origens humildes chega ao trono, à fama e ao poder; antes pelo contrário, Elric nasce já poderoso, e tudo perde ao longo das suas atribuladas aventuras. Elric é um personagem trágico, que provoca a morte daqueles que ama, e que vive num limbo moral - cruel por herança e clemente por opção, Elric toma sempre as decisões menos acertadas nas situações em que a crueldade seria a decisão mais acertada, sofrendo sempre as más consequências da sua clemência. Para mais, Elric não é um homem puro, de ideiais nobres, que enfrenta o mal. Como melnibonense, servidor dos senhores do caos, Elric é um representante de uma raça odiada e degenerada, servo relutante das forças do mal.

A prosa comedida de Moorcock serve bem os desígnios amorais das suas histórias. Moorcock é directo, e não perde muito tempo em descrições detalhadas do mundo de Elric, deixando à nossa imaginação o trabalho de povoar os mundos de terras exóticas, cidades fascinantes e criaturas estranhas.

Hawkwind - The Golden Void part II
Como bónus, deixo aqui um tema dos Hawkwind, banda dos anos 70 com que Moorcock colaborou e que se inspirou em Elric para muitos dos seus temas, para audição enquanto durar a leitura deste texto.

Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2006

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Um rabisco a precisar de desenvolvimento.

Leituras

BBC | EU fish quota deal hammered out As terríveis negociações anuais da União Europeia para atribuição de quotas de pescado terminaram. Para além das habituais queixas dos pescadores, e dos avisos dos ambientalistas para o risco de extinção sob o qual se encontram grande parte das espécies de pescado graças à pesca industrial intensiva, há um pormenor que nos diz directamente respeito. Bruxelas propunha uma redução de 25% na quota de pescado do bacalhau do mar do norte, espécie em notório risco de extinção, mas o acordo final ficou-se por uma redução de 17,5%. Os cientistas avisam que o bacalhau está sobre pressão intensa, sem que os seus stocks se renovem anualmente. Moral da história: se não cuidarmos do nosso fiel amigo, em breve poderão vir os tempos em as delícias culinárias com bacalhau não passem de fugazes memórias.

BBC | Robots could demand equal rights Um estudo comissionado pelo governo britânico que tentou antever cinquenta anos no futuro chegou, entre outras ideias, à ideia de que os robots poderiam exigir direitos e até serviços sociais. Os estudos não se limitaram aos robots, claro. Outros estudos observaram o futuro das viagens espaciais ou o impacto dos cuidados de saúde e avanços em gerontologia numa sociedade onde a longevidade impera. Quanto aos robots, vale aqui a memória: já ninguém se lembra daquele escritor que legou ao mundo uma das revistas mais importantes de Ficção Científica, a série Fundação, os contos da série Eu, Robot (assassinados num recente filme só tornado interessante ao nível técnico dos efeitos especiais) ou o fabuloso conto The Bicentennial Man - sobre um robot que luta pelos seus direitos, atinge o estatudo de ser sentiente com direitos iguais aos humanos, e depois começa a substituir os seus orgãos mecânicos por orgãos humanos, para poder falecer em paz, como um homem? Se não me falha a longeva memória, Isaac Asimov também criou as famosas três leis da robótica.

Guardian | It is possible to respect the believers but not the belief Um paradoxo moderno: numa sociedade laica, em que aqueles que assumem a sua religião são uma minoria, e onde a inteligentsia é assumidamente ateia, o final do ano mergulha-nos sempre nos paroxismos das celebrações natalícias. Após o festival orgíaco de consumo desenfrado, todos recolhemos aos momentos celebratórios onde se celebram tradições de uma religião que não se professa. As cidades iluminam-se, e no meu estranho caso, um professor ateu faz presépios com os seu alunos.

Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

Sonoridades

Por hoje, um pequeno desvio às imagens em busca de sonoridades inspiradoras.

Billie Holiday - I've got my love to keep me warm

A canção perfeita para estes dias gélidos, numa gravação de 1931 completa com o agradável ruído da agulha a riscar o disco. Billie Holiday é inimitável e imprescindível, e acreditem, só a sua voz já aquece qualquer melómano mais enregelado. Jazz clássico, do melhor que se ouviu nas décadas idas, e ainda hoje de audição delicadamente saborosa.

Inga Liljestrom - Bullet
Sei pouco sobre esta cantora, mas a canção surpreende. À primeira audição fazia lembrar algo dos Massive Attack no seu melhor. Suave, melodiosa e delicada, esta é uma canção a descobrir.

Asobi Seksu - Thursday
Os Asobi Seksu têm começado a disseminar-se pelos blogs de mp3. Estes blogs são óptimos para divulgar novas bandas, onde se descobrem verdadeiras preciosidades, mas pressente-se que algo novo está a surgir quando as mesmas canções da mesma banda começam a multiplicar-se pelo universo dos blogs. Ao ouvir Asobi Seksu, uma excelente surpresa: j-rock (rock japonês) com aquela dose certa de ruído, melodia e dinamismo que faz as boas canções rock. O seu album Citrus, editado neste ano de 2006, é um album a descobrir, se o encontrarem. Esperemos só que os Asobi Seksu não sejam mais uma daquelas bandas que têm dentro de si um bom primeiro album, seguido por edições perfeitamente esquecíveis. Enquanto esperamos por um segundo album para tirar as teimas, vamos ouvindo o som viciante destes citrinos.

Krysztof Penderecki - Threnody for the victims of Hiroshima
Um threnody é uma peça musical fúnebre, em memória dos que desapareceram. A inimitável sonoridade de Penderecki leva-nos ao horror de Hiroshima nesta peça deliciosamente dissonante. Penderecki é recordado pelos seus pesadelos sonoros, pela sua música discordante que ressoa no mais profundo da alma. Não por acaso, Stanley Kubrick utilizou extensivamente a música de Penderecki naquele que é um dos mais viciantes filmes de terror - Shining, onde os acordes das sinfonias de Penderecki provocam arrepios na espinha.

Links via Mediamax, cliquem e façam o download. Dentro de sete dias removo os links, se a memória não me falhar. Pirataria? Não, divulgação. Onde é que se pode ouvir estes sons, senão na Internet, com um panorama cultural tão àrido como o nosso? A Antena 2 sempre vai passando Penderecki e Billie Holiday, é certo, mas é uma gota de àgua num deserto àrido de música a metro.

Sagan

Comemora-se hoje o aniversário do falecimento de Carl Sagan, e a blogoesfera vive uma maratona de posts sobre Sagan. Humildemente, contribuo: aos catorze anos, li pela primeira de muitas vezes o seminal Cosmos. Mudou a minha forma de ver o mundo. Mais do que isto não se pode pedir de um autor.

Cão (pilhas não incluídas)

Auscultado durante a espera na fila do supermercado.

- Já podemos pôr o teu cão a funcionar. Já comprei pilhas.
Balbúcios alegres do rapazinho que estava sentado no carrinho de compras, agarrado ao seu novo brinquedo.
- O cão? - pergunta a avó.
- Aquele que a tua tia te deu - responde a mãe ao filho.
Balbúcios alegres da criança, antegozando loucas brincadeiras com o seu cãozinho a pilhas.

Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

Antes de adormecer...

... ouçam, leiam e reflictam.

Motel de Moka Poupem as piadas às voltas com as mocas e mocadas. O Motel de Moka é o mais cool dos blogs de mp3 que por aí abundam. Vale a pena ler, para ouvir as selecções musicais sempre fabulosas do blog. Nele pode pontuar música que vai desde a pop independente à clássica e erudita, passando pelo jazz clássico, free jaz e a mais cool electronica. Audição obrigatória.

Flurb #2 O segundo número do webzine de FC editado pelo lendário Rudy Rucker já está online. Leitura obrigatória (e resumo de cinquenta páginas para apresentar quando regressarem das férias)

Crónica de Feaglar Ainda não li o livro (sou, no fundo, humano e tenho de repartir o tempo com outras actividades) mas o blog deixa-me com a àgua na boca. Parabéns ao esforço de Pedro Ventura, que teima em combater a apatia das livrarias sempre tão interessadas em encher os escaparates de novidades.

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Agora dedico-me a paisagens? Não, ando apenas a descobrir as capacidades mais potentes do Bryce.

Leituras

Guardian | Bitter Harvest Depois de uma verdadeira odisseia pelas terras de África seguida de uma travessia muitas vezes fatal do mediterrâneo, o destino final da maioria dos imigrantes ilegais que desaguam na Europa são os campos agrícolas do sul. Aí trabalham, vivendo em condições deploráveis e recebendo salários miseráveis, quando os patrões não se recusam a pagar-lhes após o trabalho.Vivem em constante medo da polícia e, sendo ilegais, não têm acesos aos mais básicos seviços de saúde. Reportagem do Guardian nas fronteiras europeias da Itália do sul dominada pelas máfias, mas que pouco diferente seria se o local fosse outro nesta Europa que beneficia da mão de obra barata gerada pela imigração ilegal.

The New York Times | With NASA, Google expands it's realm to the moon and mars A Google anunciou recentemente uma parceria com a NASA que vai permitir aos programadores irreverentes da empresa de software na moda acesso livre ao gigântico arquivo da dados da NASA. Google Earth? Que tal Google Moon (já existe) e Google Mars (já existe). Talvez Google Solar ou Google Universe, quem sabe Google Singularity. Piadas à parte, esta parece ser uma boa maneira de divulgar os extraordinários dados e histórias das décadas de exploração espacial. Aguarda-se com curiosidade os próximos desenvolvimentos. Duas notas: se a Microsoft tivesse anunciado igual parceria, seria depressa denunciada como um império do mal determinado a extender o seu domínio ao universo (mas isso eles já fazem). Quanto à Google, o seu novo slogan poderia ser... to boldly go where no man has ever gone before!

The Times | Toxic timebomb surfaces 60 years after U-boat lost duel to the death Neal Stephenson irá adorar esta notícia. Envolve perigos ambientiais, tecnologias, mergulho em busca de segredos submersos, Bletchely Park, submarinos que transportavam tecnologia secreta para o Japão e até mesmo mercúrio (=quicksilver). O governo norueguês planeia soterrar os destroços do U-864, submarino alemão afundado nas suas costas durante a II Guerra. O U-864 transportava motores a jacto e peças para caças Messerchmit para o Japão, num esforço Nazi de reforçar o poderio militar de um Japão encostado à parede. Se o Japão recebesse estes componentes, poderia desenvolver aviões de combate a jacto, recuperar a superioridade aérea e obrigar os EUA a desviar o esforço de guerra da Europa para a Ásia, aliviando a perssão sobre a Alemanha. Bletchely Park naturalmente descodificou as mensagens secretas, e o almirantado enviou o submarino HMS Venturer para interceptar o U-864 na sua rota de Kiel até ao Japão. O Venturer conseguiu interceptar o U-864 ao largo da Noruega, e afundou-o naquele que foi o único combate naval em que um submarino afundou outro submarino num combate submerso. Sessenta anos depois, esta empolgante história volta à ribalta: é que parte da carga do U-864 era mercúrio, altamente tóxico e poluente. Os bidões que contém mercúrio estão, ao fim de tanto tempo debaixo de àgua, tão corroídos que o risco de derrame de mercúrio, e consequente desastre ambiental, é iminente.

Esta é uma história que daria um bom filme, contada em paralelo - nos dias de hoje, por aqueles que correm para evitar os desatre ambiental e nos tempos da II Guerra, com as tripulações dos submarinos e os segredos de Bletchley Park. Seria um novo Cryptonomicon, mas totalmente baseado em factos reais.

Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

Bolas



Bolas? Enfim, aguarda-me um dia de reuniões, em que para além das avaliações serão pronunciadas inúmeras sentenças sobre a decadência epidémica do ensino e sobre a maldade das crianças em geral. Enfim, tudo muda, embora fique na mesma.

(Post lamecha e inútil #23345039. Olhem para o bonequinho no topo e ignorem o resto. Bom dia.)

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

Leituras

BBC | Space junk will stay up longer Uma consequência inesperada do aumento da concentração de CO2 na atmosfera: a diminuição da densidade da alta atmosfera, com a consequente redução do atrito sobre os objectos que orbitam a terra.

BBC | "You" named Time's person of the year A Pessoa do Ano - versão politicamente correcta do já tradicional Homem do Ano nomeado pela revista Time - do ano de 2006 já se encontra eleita. Somos todos nós, os utilizadores da internet, e em especial aqueles que a utilizam para espalhar a fragmentada cultura produzida, manipulada e divulgada por todos aqueles que se servem da rede para fazer explodir as novas formas de expressão.

Guardian | Football final brings Iraq's warring factions onside O périplo dos Leões da Mesopotâmia - a selecção nacional iraquiana, até à final de um campeonato de futebol no Qatar trouxe ao Iraque um raro momento de paz e unidade numa nação dividida em torno de linhas sectárias e a viver uma guerra civil.

The New York Times | From the lips of children, tips to ears of investors Os investidores de capitais de risco na àrea das novas tecnologias, sempre em busca da nova mina de ouro tecnológica, começaram a prestar atenção ao jovens como forma de perceberem onde estão as novas tendências com futuro.

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Princípio de um longo dia; princípio de uma semana recheada de reuniões. As férias são para as crianças - e bem precisadas andavam. Agora é hora do tipo de trabalho equivalente ao emprego normal das nove às cinco. Arrastar papeis, preencher papeis, coordenar ou estar presente em reuniões, arquivar papeis, produzir papeis... enfim, um mar de papel, uma imensa floresta de àrvores mortas.

Domingo, 17 de Dezembro de 2006

Sábado, 16 de Dezembro de 2006

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Finalmente, um sábado gélido para desacelarar o ritmo.

Leituras

BBC | Futuristic facility is class act Na escola primária de Broadclyst, em Exeter, a sala já não é como antigamente. A sala de aula alberga um ecrã gigante que pode funcionar como planetário. As secretárias dos alunos, dispostas em anfiteatro, contém computadores continuamente ligados em banda larga. Os alunos podem inclusive trabalhar remotamente, realizando tarefas no computador de casa arquivadas no servidor da escola.

E eu, professor no país do choque tecnológico, continuo a usar a ardósia e o giz enquanto preencho papéis atrás de papéis... há que lutar pelo futuro!

Guardian | Exit stage left, pursued by a chorus of excitable health and safety inspectors Escândalo no Sacla de Milão: após uma ària menos afinada, o tenor é vaiado pelos espectadores. Ofendido, sai do palco e apenas regressa para continuar a actuação quando o director da ópera o obriga. Após o espectáculo, o director da ópera ameaça processar o tenor por quebra de contrato. O tenor riposta, processando o Scala de Milão por... não assegurar as necessárias condições de segurança no trabalho. Considera o tenor que ser vaiado por uma má actuação em palco constitui uma ameaça à sua segurança, devendo o teatro providenciar para que as suas condições de trabalho sejam asseguradas. Interessantes tempos, em que uma má crítica significa uma violação das salutares condições de trabalho.

Curiosamente, no DevianArt envolvi-me numa boa e velha flame war precisamente porque, ao comentar um trabalho de um artista no site, sugeri que o poderia melhorar... fui depressa epitetado como um torcionário digno dos piores censores fascistas. Enfim, é complicado. Tremo de horror só de pensar que nalgum comentário do blog me digam que isto não passa de uma boa m***, ou ler no deviant art alguma apreciação a um desenho meu que tenha dado ao crítico vontade de ser cego para não ver tamanha monstruosidade. Mas esses são os riscos da exposição. Quando se mostra o que se faz, há quem goste e há quem não goste. É a ordem natural das coisas. Nem todas as críticas são amigáveis, e as mais honestas raramente são pancadinhas nas costas seguidas de adjectivos simpáticos. É preciso ter estômago, e não esconder as habilidades ou inabilidades por detrás de delicadezas vácuas ou, no caso do tenor do Scala, interpretações duvidosas dos códigos de segurança no trabalho...

Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Leituras

BBC | Asia’s greenhouse gas to treble Má notícia para o ambiente: as emissões de gases nocivos provenientes do continente asiático vão triplicar, graças ao crescimento acelarado do gigante chinês.

Guardian | Bush has created a comprehensive catastrophe across the Middle East O resumo das políticas americanas para o médio oriente simplifica-se numa palavra: catástrofe. Os estados unidos foram para a guerra para “libertar” o Iraque. Quatro anos depois, o país está mergulhado numa violenta guerra civil. Israel abandonou os esforços de paz com os seus vizinhos e arrasou o Líbano. E o Irão ressurgiu como potência regional com capacidades nucleares. Cada tiro cada melro…

Guardian | Coming storm in Somalia threatens regional war O corno de Africa é o novo ponto quente internacional. Após décadas de guerra civil e colapso de todas as estruturas governamentais, a Somália está a tornar-se um novo campo de batalha entre a Etiópia, a Eritreia (velhos inimigos) e as fraccionadas forças rebeldes somalis.

BBC | Blogging set to peak next year Blogar está na moda, mas o pico poderá ser atingido em 2007, quando a moda passar, a poeira assentar e continuarem apenas aqueles que realmente investiram na blogoesfera. Isto todos querem dizer alguma coisa, mas quando chegam ao palco, começam a faltar as palavras.

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Mundos imaginários para começar este dia tão gélido.

Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006

Sombras

Eu é que agradeço. Uma referência no blog de um dos melhores escritores portugueses de ficção científica é para mim uma honra. Desculpem lá a auto-promoção, mas não resisto. Gostaria no entanto de deixar claro que não sou nenhum crítico; apenas um leitor que gosta de falar do que lê.

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Já fazia um tempo desde que fazia umas brincadeiras no Bryce.

Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

A Sombra sobre Lisboa



A Sombra Sobre Lisboa, edições Saída de Emergência, 2006
Saída de Emergência | A Sombra Sobre Lisboa

Nos últimos tempos tem-se assistido a uma verdadeira explosão no interesse pela obra de H. P. Lovecraft nas terras lusas. As traduções sucedem-se, assim como as publicações. Se a leitura em Portugal da obra de Lovecraft durante anos era domínio de paperbacks importados, agora encontram-se nas livrarias boas edições, bem traduzidas, que desvendam ao grande público português as intricacias da literatura lovecraftiana pelas mãos dos editores da Saída de Emergência. E se o grande público não se dá conta disso, enfim, é ele que perde.

Outro sintoma da epidemia lovecraftiana é este A Sombra sobre Lisboa. O desafio, editado por Luís Corte Real, é intrigante: criar contos que girem à volta das temáticas lovecraftianas mas onde o cenário da Nova Inglaterra tenebrosa que Lovecraft tanto amava (e que Stephen King, de forma um pouco diferente, revisita) fosse substituído por Lisboa. Cthulhu entre as sete colinas, rituais de invocação dos grandes anciães à beira-tejo, a inagualável luz amarelada do pôr-do-sol lisboeta a banhar os ídolos obscenos e inomináveis de pedra corroída por incontáveis eões entranhados do musgo do tempo pertencentes aos cultos abomináveis daqueles que adoram o senhor do caos e o cego e louco sultão que dança ao som de pífaros fendidos para lá do tempo.

Catorze autores responderam ao desafio, e o resultado final é altamente recomendável. Em primeiro lugar, a edição cuidada, de grafismo apelativo que é marca da editora, logo atrai. Depois, a edição cuidada de Luís Corte Real permitiu dar à obra um carácter épico. Em vez de um conjunto desconexo de contos, A Sombra sobre Lisboa orienta-se de acordo com princípios cronológicos. Quase me atreveria a escrever que se orienta por uma lógica de mitos lusitanos de Cthulhu... mas isto seria, talvez, levar um pouco longe demais as analogias.

A abertura faz-se com o tom pomposo do conto de Rogério Ribeiro, O Primogénito, que estabelece o conceito do livro. Numa Lisboa ainda Fenícia, os deuses clássicos degladiam-se com a ameaça dos velhos deuses de além espaço e a cidade torna-se na arena onde os poderes da terra confrontam os poderes do além espaço e tempo. Em Vale de Sombras, Safaa Dib leva-nos à Lisboa visigótica, onde nas entranhas do catolicismo se adoram deuses obscenos cujos crentes tentam fazer regressar ao mundo. Só dois homens de ciência, um frade e outro desencantado com as hipocrisias da igreja, conseguem travar o ressurgir do grande mal, com a ajuda de agentes mouros infitrados.

Naquele que é a obra de maior fôlego contida neste livro, Luís Filipe Silva faz-nos viajar entre a Lisboa Manuelina, o périplo de circum-navegação do mundo por Fernão de Magalhães e o início da primeira guerra mundial num conto onde o tempo se dissolve na busca do livro maldito, o inominável Necronomicon. D. Manuel e os seus frades que enlouquecem traduzindo as páginas do livro, Fernão de Magalhães que busca a antiga R'lyeh através de mares nunca dantes navegados, e Arthur Machen, que acompanha um jovem Lovecraft e Percival Lowell aos campos de batalha da Bélgica onde um enorme segredo se esconde, formam o triângulo em que assenta este conto que, na práctica, é um livro dentro de um livro. Há neste conto muita referência, muito name-dropping, aliado a um sólido conhecimento do portugal manuelino e das vicissitudes das viagens de Magalhães. O toque brilhante de concluir o conto nos campos de batalha da Flandres ressoa com ecos do Corpo Expedicionário Português, com Herbert West: Reanimator de Lovecraft, em que parte do conto se passa precisamente na Flandres, com The Angel of Mons de Arthur Machen, ele também um mentor de Lovecraft. Num pormenor curioso, T.E. Lawrence surge como personagem num encontro prévio de Machen com os demónios de Cthulhu. Aquele que Repousa na Eternidade é uma leitura apaixonante, e que não perderia nada com uma nova publicação onde fossem dadas asas às inúmeras sugestões que perpassam na obra.

Na Lisboa barroca dos autos-da-fé, João Henrique Pinto dissolve as barreiras do tempo em Um Dia no Cárcere. A Lisboa Pombalina é visitada pelo olhar escatológico de David Soares. No conto O Cavalo e o Elefante, somos apresentados à magia indiana de um sacerdote de Ganesh que se conjuga com o arquitecto Manuel da Maia para refazer Lisboa à imagem de R'lyeh, nas vésperas do fatídico terremoto que arrasou a cidade. No cenário cataclísmico de uma Lisboa em ruínas, o livro proibido chega às mãos de um antepassado de Randolph Carter, que presumívelmente o teria feito chegar à américa, dando origem à mitologia lovecraftiana. Um derrotado e desiludido Manuel da Maia vinga-se do falhanço em remodelar Lisboa à imagem de R'lyeh colocando um elefante e um cavalo na estátua equestre de D. José I, extante na Praça do Comércio.

João Seixas apresenta-nos em As Sombras Sobre Lisboa a... Eça de Queiroz, agente dos serviços secretos da Coroa, que combate os inomináveis cultos assassinos que pululam na noite lisboeta, e mergulha com Fradique Mendes no combate a uma tentativa apocalíptica de despertar Cthulhu, apenas para falhar perante a conspiração de Luis Waddington, comissário de polícia apostado em capturar a essência do mal de Cthulhu. Ficam para conhecer as outras aventuras deste espião à portuguesa, tutelado por um M de... director dos Serviços Secretos criados pelo Marquês de Pombal. Em A Dama do Espelho Negro, o veterano António de Macedo leva-nos elegantemente à sociedade refinada da Lisboa de fim de século, e a certos acontecimentos segredados que se levados a bom sucesso trariam consigo um novo advento dos deuses antigos e ao renascer do espírito maligno de Joseph Curwen, reencarnado num nobre português após a sua morte em circunstâncias misteriosas na Boston do princípio do século XIX. Na Lisboa da II Guerra, exameada de espiões de simpatias variadas, um académico inglês julga participar no esfoço de guerra britânico ao traduzir um estranho tomo, apenas para se descobrir uma marionete às mãos de portugueses que planeiam fazer ressurgir Cthulhu... para o degustarem com ingrediente da maior tachada de arroz de polvo jamais feita. Rhys Hughes, neste conto intitulado Arroz de Abominação, recorda-nos que Cthulhu é essencialmente um tenebroso cefalópode.

Na Lisboa dos anos cinquenta, José Manuel Lopes conta-nos As Confissões de Walter Reis, descendente daquele povo híbrido que infesta Innsmouth e que atinge a imortalidade no fundo dos oceanos, à imagem do peixe-homem Dagon. Em Mastodon, Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell e amante confessado de tudo o que é lovecraftiano prepara o apocalipse de Cthulhu por entre as àguas do Tejo. Yves Robert revisita no conto A Ameaça Rastejante os traumas da guerra colonial e a loucura daqueles que cruzam o seu caminho com os desígnios inomináveis daqueles que servem as trevas de além-espaço. Em A Hora, Vasco Curado antevê as trevas que se abatem sobre uma Lisboa debaixo das sombras antediluvianas. No conto Num Túnel em Lisboa, João Ventura traz-nos a uma Lisboa contemporânea onde uma estranha descoberta nas obras do metro do terreiro do paço provoca o despertar dos poderes que dormem nas trevas. Incapazes de travar o mal que vem das trevas, as forças da polícia de intervenção sucumbem perante uma multidão ululante neste divertido conto.

A Sombra sobre Lisboa termina de forma magistral com o conto Por Detrás da Luz. João Barreiros leva com a sua forma implacável ao seu domínio de eleição - a Ficção Científica - o saber lovecraftiano. A Lisboa futura atomizou-se sobre as ogivas atómicas de uma NATO que tentou travar a abertura do portal que traria ao nosso mundo as legiões de loucura dos seguidores dos deuses antigos, prontos a reestabelecer o seu domínio sobre o planeta. Um encantamento destas entidades mergulha Lisboa numa singularidade em que o momento da explosão se repete ininterruptamente. O ciclo sem fim é interrompido quando as obsessões de Carlos, um caçador de artefactos que mergulha na singularidade lisboeta para resgatar artefactos do passado, são exploradas pelos seres que estão para além do tempo. Assim termina o livro, num apocalipse iniciado em Lisboa e que depressa estende o domínio dos Antigos ao nosso mundo.

Divertido e fascinante, esta antologia de contos lovecraftianos é uma das mais interessantes obras por enquanto nos escaparates das livrarias. É uma delícia ler aquilo que os escritores portugueses que teimam em escrever boa ficção científica, horror e fantasia foram capazes de congeminar com os ingredientes inimitáveis da obra de H. P. Lovecraft. Chegado ao fim, o livro... soube a pouco.

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Prenda de natal para o meu colega de religião e moral, que para além de me ir oferecendo garrafas de divinal vinho do porto proveniente da sua região, é uma das melhores pessoas que conheço. O porquê do peixe é óbvio - que melhor para um professor de religião e moral católica do que o símbolo do catolicismo? Se ele não gostar ardo nos infernos, mas enfim...

Eu sou ateu, e por extensão pouco amistoso para com o clero e sucedâneos, mas sei reconhecer boas pessoas quando as encontro. As diferenças de ideias ficam à parte, porque no fundo estamos todos no mesmo barco.

Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006

Leituras

BBC | Nissan drives green car program A Nissan lançou-se no mercado dos automóveis mais amigos do ambiente com ambiciosos planos de desenvolvimento de tecnologias híbridas. Para já, trabalha com a Renault no desenvolvimento de motores diesel mais limpos, e planeia lançar um híbrido a etanol licenciando tecnologia da Toyota. O comentário? Finalmente. Estes desenvolvimentos tecnológicos já deveriam ter chegado ao mercado há anos.

Correio da Manhã | Banca lucra 6,6 milhões por dia 6,6 milhões de euros. Por dia. São esses os lucros diários da banca em portugal. Sem comentários. Num país em crise, onde empresas vão fechando de norte a sul, onde o comum dos cidadãos vê o seu magro salário esvair-se em preços cada vez mais altos, contas mais elevadas e taxas de juro em acelaração, os bancos apresentam lucros que mais do que astronómicos, são obscenos. As perspectivas, graças ao BCE liderado pelo senhor Trichet com o seu gosto pela subida das taxas de juro de referência, são de lucros ainda maiores para as instituições bancárias para o ano que se avizinha. Á custa do nosso suor e do nosso dinheiro.

Guardian | The brands have turned us into a nation of addicts É um espectáculo que se torna especialmente notório na orgia consumista do natal: o petiz que faz birra para que o desesperado pai ou mãe lhe compre aquele brinquedo, aquela roupa de marca, aquelas bolachas com o logotipo de alguma série de televisão da moda. Aqui os pais geralmente perdem, especialmente porque estamos numa época em que é de mau tom ser pai firme (de facto, qualquer manifestação de firmeza com crianças leva a que caiam sobre nós hordes de psicólogos sorridentes que nos afogam num mar de idealismos e vácuas boas intenções). O mercado da publicidade destinada a crianças rende milhões, e as crianças são constantemente bombardeadas com publicidade directamente criada a pensar no efeito que as birras dos petizes têm sobre as carteiras dos pais. Pode-se discutir que sempre foi assim, sempre houve caça-níqueis para atrair os tostões das criancinhas. Quanto dinheiro não terei eu gasto em cromos ou comics? Mas hoje este negócio atingiu proporções epidémicas. Bombardeadas com publicidade que vai desde o clássico anuncio ao insidioso product placement no desenho animado favorito, as crianças de hoje podem não saber ainda ler, mas já reconhecem os arcos dourados dos hamburgueres.

The New York Times | Alloy holds out promise of speedier memory chip Dá pelo nome de germânio-antimónio-telúrio, e é a liga que pode estar dentro do próximo dispositivo de memória amovível flash que surgir no mercado. O material promete dispositivos mais rápidos e mais pequenos.

Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

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Hoje garanto, passei todo o meu dia de folga às voltas com as notas dos alunos. A elaborar complexos projectos curriculares de turma. A reflectir sobre o aproveitamento e comportamento dos alunos. Tenho os ficheiros que provam isso.

Mesmo assim tinha que arranjar tempo para pintar. Se não fizesse o gostinho ao dedo o dia seria bastante deprimente.

Leituras

Leituras para suportar o ar gélido desta manhã.

BBC | Shuttle lifts of in night flight O Discovery descolou ontem da base do Cabo Canaveral com destino à estação espacial. A missão é complexa - trata-se de instalar um novo sistema eléctrico na estação, com mais capacidade, antecipando os novos módulos de paineis solares que serão brevemente instalados na ISS. Estes permitirão aumentar a capacidade energética da ISS para operar os módulos da estação que ainda estão por lançar. A bordo do vai-vém espacial segue o astronauta Christer Fuglesang, norueguês da ESA.

Guardian | They live like aristocrats. Now they think like them A ideia de direitos de autor está a precisar de uma profunda reforma. A intenção das grandes empresas que de facto controlam a propriedade intelectual é a de estender continuamente o número de anos até que uma obra se torne domínio público - como se daqui a cinquenta anos alguém ainda se desse ao trabalho de ouvir as boy's bands e outros subprodutos de indústrias culturais fora de controle. O objectivo não é proteger os direitos dos autores, mas sim espremer todos os cêntimos do produto, como se comprova nesta altura natalícia em que surgem no mercado as inimitáveis compilações de bandas e artistas esquecidos ou então de lembrança vergonhosa e dolorosa (com aquele sentimento de como é que eu podia gostar disto?). Por outro lado, é justo e legítimo que os criadores sejam compensados pelas suas obras - e sublinho os criadores, não os intermediários que conseguiram transformar expressões artísticas em verdadeiras manufacturas de produtos de consumo rápido. Para complicar mais a coisa, a internet surgiu como a grande oportunidade/ameaça aos modelos estabelecidos. A facilidade com que se copia online, e pior, a facilidade com que se descobre precisamente o que quer sem ter de adquirir produtos pré-estabelecidos ameaça o modelo de negócio da indútria cultural. Bem, não de toda - o livro, ficheiro de texto não suplanta o livro-objecto, e a pintura ou a escultura não é suplantada pela imagem digital (mesmo que o media seja digital). É na música e no cinema que este problema se coloca com maior acutilância. Esta é uma altura de experiências - os interesses económicos tentam tudo para manter o status, desde processar qualquer um por pirataria (excepto os ISPs que lucram com o tráfego gerado pelos downloads) a lutar por extensões das leis de direitos de autor com regras cada vez mais rígidas - chegando ao ponto de ilegalizar o simples cantar de canções conhecidas, como no caso de uma lei australiana que poderia acusar de violação de direitos de autor uma criança que cantasse uma canção tradicional (essa lei não passou). O mundo online desdobra-se na pirataria descarada da partilha de ficheiros e em experiências de novos modalidades, como lojas online ou bandas que libertam as suas canções para angariarem expectadores nos concertos. a juntar a isto temos as propostas das licenças creative commons, criadas precisamente tendo em mente o novo mundo digital.

Guardian | In the rice paddies of Sri Lanka, a new enemy: salt Efeitos das alterações climatéricas: a diminuição das chuvas no Ceilão causou a salinização dos solos, com consequências catastróficas a nível económico e social.

The Times | Why the Dead Sea is dying O mar morto está a morrer - expressão deliciosa, que sublinha uma triste realidade. Com os aquíferos que alimentam este mar a serem sobre-explorados pela agricultura israelita - isto de transformar desertos em jardins tem o seu preço - o mar morto está a desaparecer. As possíveis soluções passam pelo faraónico projecto de construir um canal que ligue o mar morto ao mar vermelho.

The New York Times | 2006, brought to you by you 2006, marcado pelas aquisições bilionárias do YouTube e do MySpace, foi o ano em que as novas modalidades de expressão online catalizaram e atingiram massa crítica. Todo o ecossistema de blogs, de partilhas de video e som e de galerias de imagem explodiu em diversidade e importância. Tem-se falado da internet como a ferramenta que coloca a cultura nas mãos de todos, e 2006 foi o ano em que essa ideia, literalmente, rebentou.

Domingo, 10 de Dezembro de 2006

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Pois é, eu devia era estar a elaborar projectos curriculares de turma, a avaliar conscienciosamente alunos, a contabilizar faltas, a preparar relatórios de àreas curriculares não disciplinares, a elaborar planificações de actividades e, last but not least, a elaborar planos de recuperação em vez de estar para aqui a desenhar dragões.

Ai se a senhora ministra descobre que este professor não passou o fim-de-semana a trabalhar...

Sábado, 9 de Dezembro de 2006

Vinte mais dez...

Um grande abraço ao Papá Ouriço! Bem vindo ao clube dos vinte e dez. Até já, que temos que regar bem essa comemoração.

Leituras

BBC | Plastics poisoning world's seas Chamam-lhe as lágrimas de sereia e é uma mescla do resultado dos desperdícios da matéria prima da indústria plástica com a degradação dos lixos plásticos. São partículas minúsculas de plástico, que não se degrada com o passar do tempo, e que se encontram em todos os oceanos. As partículas surgem já na cadeia alimentar dos peixes e representam mais um perigo para o meio ambiente.

Guardian | An 80-hour week for 5p an hour: the real price of high-street fashion O escândalo instalou-se no Reino Unido: as roupas à moda, vendidas a preços acessíveis nas redes de supermercados e grandes cadeias de lojas de roupa, são produzidas em condições aberrantes em países do terceiro mundo. Os operários que manufacturam as roupas recebem quantias miseráveis para trabalharem longas horas em locais onde a ideia de direitos laborais oscila entre uma miragem ou uma ideia suicida. As grandes cadeias, para benefício da sua imagem, mostram acordos com os fabricantes que estipulam salários mínimos e condições mínimas, mas esses acordos são invalidados pela práctica de sub-contratar a manufactura a outras empresas. Todos lucram - os sub-contratados, os contratados, as grandes cadeias, e até os consumidores, que adquirem peças de roupa a preços mais baixos. Quanto aos trabalhadores, desconfio que nem lhes seja atribuído o estatuto de humanos. Este é mais um belíssimo exemplo da economia de mercado no seu melhor.

TSF | Ministério ordena fim de pagamento aos orientadores de estágios Até agora, os professores que nas escolas orientavam os estágios pedagógicos de alunos de cursos de professores recebiam um suplemento remuneratório pelo seu trabalho como orientadores. Um direito essencial, dirão uns, ou mais um tacho, dirão outros. A partir de agora isso acabou - os orientadores de estágios deixarão de receber por desempenhar essa tarefa. Quais são as óbvias repercussões disto? Suspeito que o número de professores que se disponibilizem para serem orientadores de estagiários caia a pique. Suspeito que dentro de alguns meses, quando as escolas superiores de educação e universidades desesperarem por não conseguirem os estágios obrigatórios, o ministério virá a público lamentar-se com a cupidez dos malvados docentes que se recusam a fazer o trabalho de orientadores de forma voluntária. O verdadeiro problema fica por resolver - a discrepância entre a formação de professores e as reais necessidades do mercado de trabalho. Quanto aos professores, ficam mais uma vez mal vistos, pois neste momento somos acusados por ter cão e por não ter.

Quem ler isto poderá pensar que coloco a questão a necessidade de um uso racional dos fundos públicos - não coloco, pois creio que o dinheiro dos nossos impostos, que é de todos, deverá ser criteriosa e eficientemente gerido. Só não compreendo porque é que se tenta inviabilizar o conceito de serviço público em nome da eficiência financeira.

Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

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Apesar do que parece, não é um retrato.

Leituras

BBC | Water flowed recently on Mars Excitantes notícias da nova fronteira da exploração humana: Novas imagens de zonas marcianas já fotografadas em anos anteriores pela sonda Mars Global Surveyor revelam indícios de que àgua poderá ter corrido na superfície marciana recentemente. Os cientistas ainda estão divididos entre se se tratará de àgua ou de dióxido de carbono líquido. De qualquer forma, os indícios da presença de àgua em Marte levantam com mais força a hipótese de vida marciana - não homenzinhos verdes ou gosmas tentaculares amantes de tripés, mas sim vida microbiana.

Guardian | Last exit to prosperity A prefeitura japonesa de Yubari é um exemplo perfeito de como não se deve gerir uma região: após anos de gastos liberais e monumentais em infraestruturas de utilidade duvidosa, a prefeitura vê-se a braços com dívidas que ascendem aos milhares de milhões de yenes e cortes no financiamento do governo central. Endividada, a prefeitura viu-se obrigada a colocar em práctica um plano de cortes orçamentais para fazer face às dívidas. Do lado das receitas, aumentos astronómicos dos impostos locais e do equivalente aos impostos municipais sobre a habitação própria. Do lado da despesa, aniquilação dos serviços públicos, com todas as infraestruturas desportivas e culturais a serem encerradas, cortes nas despesas sociais, fim dos auxílios à terceira idade, despedimentos de metade dos funcionários do município, cortes de 60% nos salários dos funcionários que restarem e cortes de 75% nas reformas dos antigos funcionários. As onze escolas da prefeitura passam a três, e os subsídios de saúde para a terceira idade serão cortados, bem como os subsídios à economia. Os resultados previsíveis? O colapso, pois duvida-se que os habitantes da região resistam a este esforço conjugado com os cortes nos serviços públicos mais essenciais. Destaco este exemplo a pensar no caso português, onde as câmaras municipais se endividam alegremente para construírem estádios e estradas, ignorando os cortes orçamentais do governo. Noutros contextos, as sólidas políticas alicerçadas na mais clássica teoria económica de Jean Claude Trichet, o presidente do Banco Europeu, começam a estar sob ataque: a candidada à presidência francesa, Segolène Royal, já fez saber que pretende lutar por colocar o BCE sob alçada política. Uma ideia que se compreende, face às constantes subidas das taxas de juro de referência que o BCE arrogantemente considera baixas e ainda mais arrogantemente considera que o fará sem aviso, tudo em nome da establidade de preços e baixa inflação a longo prazo. Enquanto isso, a curto prazo os bancos obtéem lucros milionários e o cidadão comum, endividado, vê-se sobrecarregado com o preço das dívidas.

Não sendo economista, não me posso pronunciar sobre a sabedoria dos que tutelam os bancos centrais. Mas não deveria a economia servir para benefício da sociedade, isto é, para benefício de todos e não só de uma elite? Já sei, já sei, ideias antiquadas. Esta coisa da igualdade já passou de moda nestes tempos pós-modernos.

Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006

Desligado

Estou demasiado cansado para desenhar, articular pensamentos, escrever coisas interessantes, descobrir ideias diferentes. Mas não é nada que uma boa noite de sono não cure. E felizmente que amanhã é feriado...

Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006

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Final de período equivale a imenso trabalho e a muitas e longas reuniões. Mas hoje o meu espírito abateu-se. Em conversa com um colega, descobri as novas intenções dos inefáveis secretários de estado da inefável ministra da educação deste nosso inefável governo - acabar com a pluridocência na disciplina de Educação Visual e Tecnológica. Não é uma ideia nova, até porque a pluridocência é um resquício dos tempos em que a antiga disciplina de trabalhos manuais femininos e masculinos se fundiu e foi reorganizada na disciplina que correntemente lecciono. Também admito que não é particularmente defensável, excepto em termos do trabalho realizado - há trabalhos que faço com os alunos que nunca me atreveria a fazer se desse aulas sem par pedagógico. Acabando-se a pluridocência, o que é que acontece aos docentes que ficam sem vaga? Vão andando de escola em escola, concorrendo, até que passados alguns anos sem obter nova vaga passariam ao quadro de supranumerários - ou seja, colocados fora do sistema de ensino. Não é uma perspectiva agradável. Tudo, claro, em nome do economicismo.

Começo a esmorecer. Não costumo queixar-me muito das agruras da classe docente. Trabalho porque gosto, no que gosto. Trabalho com as crianças, para as crianças. Não entendo os privilégios da minha classe como direitos absolutos, antes como recompensas pelo esforço e dedicação, e sou crítico dos abusos daqueles que, na minha classe, se valem dos privilégios fazendo apenas o esforço mínimo. Que não são tantos como isso. Raramente falto, e boa parte do meu tempo livre é passado a afinar conhecimentos ou a descobrir novas ideias para transmitir aos alunos. Não tenho a veleidade de me considerar um bom professor, daqueles que exigem passadeiras vermelhas apenas por terem o estatuto de professor. Sou apenas um profissional humilde, que faz um esforço contínuo pelos seus alunos, sabendo que comete erros, e tentando sempre melhorar o que faz bem. Por isso não me ouvem muito as conversas habituais sobre o estado de decadência geral do sistema de ensino - se está em decadência, cabe-nos a nós fazê-lo levantar, sobre a ignorância dos alunos - mais uma vez, está aí o nosso trabalho e o nosso exemplo de esforço, embora resmungue com os problemas laborais entre a classe e o patrão da cinco de outubro. Mas começo a esmorecer. Para quê esforçar-me, dedicar-me, se sou desprezado por quem me tutela? Se depois de anos de trabalho, em que atingi estabilidade laboral e a oportunidade de contribuir a longo prazo para uma comunidade, começo a detectar sinais de mudança para pior? Qual é a lógica deste governo que apregoa publicamente as suas intenções de melhorar o país através da educação, e aliena o mais possível a classe profissional de que depende para que as medidas que implementa surtam efeito?

(Começo a ter vontade de fazer aos ministros e secretários de estado aquilo que os romanos faziam aos cristãos)

Leituras

BBC | US plans permanent base on Moon Não se sabe bem como, uma vez que não há fundos da NASA ainda disponíveis para este projecto, mas o organismo que tutela a exploração espacial norte-americana fez recentemente saber das suas intenções de construir uma base permanente num dos pólos lunares. Se for em frente, espero que o nome da base seja Base Lunar Alfa.

The Guardian | Central Bark Os nova-iorquinos são conhecidos pelas suas muitas facetas excêntricas, uma das quais é o seu amor pelos passeios bucólicos com os seus cães pelos parques da cidade.

The New York Times | As auto prosperity shift south, two towns offer a study in contrasts Embora a realidade americana seja vastamente diferente da portuguesa, este artigo do NY Times traça um curioso paralelo entre duas cidades americanas - a decadente Livonia, subúrbio de Detroit que passou da prosperidade nos anos em que as grandes construtoras de automóveis norte-americanas (como a GM) ditavam o mercado à decadência do desemprego e da desindustrialização; e a emergente Georgetown, local de uma gigantesca fábrica da Toyota que garante a prosperidade da economia local quer através dos empregos directos quer através dos empregos indirectos nos seus fornecedores de materiais e serviços. O artigo espelha bem os perigos e as virtudes de fazer depender a economia de uma região das vontades de uma grande indústria, e no fundo no fundo, neste país onde tanta fábrica fecha portas e embala as suas máquinas em direcção a países de mão de obra mais barata, um artigo não assim tão desajustado da nossa realidade.

Horror, repulsa e fascínio.

Ao ler ontem o conto O Cavalo e o Elefante de David Soares incluído na antologia A Sombra Sobre Lisboa, percebi finalmente as dimensões de horror no estilo literário do autor. Em primeiro lugar, há o horror do tema, envolvido nas trevas do oculto, do demoníaco e do tenebroso. Mas envolto neste sentido óbvio, há uma violenta textura escatológica que enche a alma de repulsa. David Soares é um escritor que não se detém perante os pormenores mais viscosos e nauseabundos, repulsivos aos nossos sentidos refinados. Finalmente, entrelaçado nestes sentidos, há o horror perante o nosso fascínio com aquilo que nos provoca repulsa, o horror porque ao ler os seus admiráveis contos sentimonos curiosos e fascinados por aquilo que nos provoca revulsão. É um pouco como exprimir o horror sobre os acidentes de automóvel enquanto se abranda para perscrutar as vítimas de um acidente por entre o metal retorcido e ensanguentado do automóvel fumegante.

Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006

:(

Primeira constipação do ano. Ó maldito vírus da influenza tipo A, que me desfazes em mucos e transformas o cérebro em lama. Lá fora a borrasca espelha bem o inverno. Enfim, os dias frios e escuros começaram.

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A minha rapariga jura a pés juntos que isto é um dragão-fêmea.

Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Escapadelas



Amazing Adventures
Michael Chabon on The Escapist
Wikipedia | Escapist
Wikipedia | Michael Chabon

The Amazing Adventures of the Escapist, Michael Chabon (ed.), Dark Horse, 2006

Em 2001, o escritor Michael Chabon publicou um romance que lhe valeu o prémio Pulitzer. Neste seu livro, The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, Chabon ao mesmo tempo homenageia e traça uma história ficcionada da era dourada dos comics - a era que viu surgir a banda desenhada como mais do que entretenimento para crianças, a época em que se lançaram as fundações para o que hoje muito justamente se considera a oitava arte. O trabalho dos criadores e argumentistas, que por um lado investiam fortemente nos comics como um negócio rentabilizável, e dos artistas-ilustradores capazes de arriscar novas formas e novos dinamismos visuais, atingiu nesta época massa crítica. A era dourada é a era do genial Will Eisner, que começava a redefinir os cânones visuais com a maneira fílmica como desenhava o Spirit; é a era da EC Comics, cujas incursões no domínio polémico do terror (escabrosas para a época, ingénuas segundo os nossos padrões) levantaram tantas sobrancelhas que a editora foi forçada a suspender os seus mais aclamados títulos, tendo a celeuma dado origem ao comics code, um código de censura voluntário que durante décadas ditou o que se poderia publicar ou não; é a era de Stan Lee a transformar a Marvel num gigante editorial publicando comics ao rumo dos gostos do público - a mesma empresa que publicou o Homem-Aranha também publicou o True Romance; é a era de Jack Kirby a dar o mote no estilismo visual pulp dos comics.

O livro de Chabon segue as aventuras de dois primos que nos anos 40 se lançam na aventura dos comics - um como refugiado do nazismo em busca de sustento e outro como um homosexual aleijado pela poliomielite. Juntos criam o Escapista - personagem prototípico do super-heroi, um jovem paralítico que graças ao poder que lhe é concedido por uma chave de ouro consegue realizar feitos incríveis de prestidigitação, ganhando a vida como ilusionista e combatendo o crime como homem de acção ao serviço da Liga da Chave Dourada contra os energúmenos da Corrente de Ferro.

Leram bem, chave de ouro.

Há uma fina ironia nesta ficção dentro da ficção que espelha a realidade, com dois jovens a escaparem aos seus tormentos criando uma personagem de ficção escapista denominado O Escapista. Mas há mais sub-textos em volta, firmemente alicerçados na história da cultura popular de massas, evocando os feitos maravilhosos dos mágicos e dos prestidigitadores, evocando os hérois que resolviam os mistérios ao murro imortalizado na singular onomatopeia POW!.

Diz-se que a vida imita a arte, e o Escapista é um caso típico. Não descobri o personagem através do romance, que agora vai ter de ser obrigatoriamente lido; descobri-o através de uma antologia de comics que por momentos me pôs a duvidar da realidade.

A antologia The Amazing Adventures of the Escapist reúne dois volumes de comics publicados. O primeiro pormenor que salta à vista é a qualidade gráfica dos comics: houve cuidado na ilustração, com uma cuidada selecção de artistas onde pontuam Howard Chaykin (American Flagg) e - no seu último trabalho criado e publicado - o mestre Will Eisner. Os nomes menos conhecidos primam pela excelência quer gráfica quer em argumento. As histórias deste prototípico herói homenageiam o estilo da banda desenhada da era dourada - contos curtos, de cores vivas, e resolução saudosista, embora com a marca da nossa contemporanieade na moralidade dúbia que neles prevalece.

A antologia também contem uma série de textos que nos vão contextulizando o historial do personagem, um historial atribulado de artistas mal pagos, inúmeras publicações de qualidade duvidosa e decadência da propriedade intelectual fora das mãos dos seus criadores e nas mãos àvidas de editores pouco escrupulosos. É um historial que espelha bem a realidade da era dourada dos comics - afinal, a banda desenhada era entendida como um meio lucrativo de comunicação. Nós é que somos mais insistentes com a ideia do comic como objecto de valor artístico. É tambem um historial totalmente falso.

O Escapista é um personagem de ficção criado por dois autores ficcionados. Nunca existiu, excepto nestas publicações precedidas do aclamado romance de Chabon - o mesmo autor por detrás deste comic. Mas admito que o ar verosímil dos textos enganou-me, o que não é muito difícil - a história dos comics está pejada de personagens esquecidos, de súbitas viragens de interesse, de plágios declarados. Podia ter desconfiado quando li que a personagem tinha surgido na inexistente editora Fab comics - mas publicou-se um comic intitulado Pep Comics. Devia ter desconfiado quando li sobre o tirocínio do personagem - louro e de olhos azuis - enquanto propriedade de uma empresa dedicada a vender cosméticos para peles escuras, em que foi metamorfoseado em afro-americano. Começei a desconfiar quando detectei nomes de artistas conhecidos, como Neal Adams, Stan Lee ou Gene Colan, associados a um personagem tão obscuro. Mas confesso que foi necessária alguma pesquisa para gargalhar com o embuste da história totalmente ficcionada deste personagem de ficção.

Publicar um romance de ficção que retrata através de personagens ficcionadas a história dos comics, e depois pegar no héroi de ficção criado pelas personagens do romance como uma história verídica que dá origem à publicação de comics e ao seu estabelecimento como personagem do panteão dos comics é uma jogada de mestre, digna de Jorge Luis Borges. Aliás, não consigo deixar de pensar em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, um conto onde a ficção se manipula em realidade. Este Escapista e a obra de Borges têm muito em comum.

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Um grifo assírio, animal mitológico representado de uma forma estilizada.

Sábado, 2 de Dezembro de 2006

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O dragão de quinta feira. Se precisam mesmo de comentar, se a visão diáfana desta criatura vos liberta as vozes interiores, por favor poupem-me às piadas sobre dragões azuis. Quem me conhece sabe que abomino futebol.

Pesadelos Vitorianos




Edith Nesbit, The Power of Darkness: Tales of Terror, editado por David Stuart Davies, Wordsworth, 2006

Wikipedia | Edith Nesbit
Amazon | Tales of Terror

Edith Nesbit é recordada como uma autora influente de livros infantis. É também recordada pela sua vida políticamente activa, como fundadora da Sociedade Fabiana - precursora do partido trabalhista inglês, pelos seus ideais socialistas e pela sua vida íntima... digamos que interessante, com o seu casamento aberto em que educa os filhos da amante do seu marido como se fossem seus.

Como escritora de literatura infantil, Nesbit foi pioneira no género de contos infantis repletos de aventuras mágicas num mundo que está a um passo da nossa realidade - a ideia no cerne de Narnia de C. S. Lewis ou do mais recente Harry Potter. Mas a obra de Nesbit não se resumiu à literatura infantil. A sua obra publicada inclui poesia e jornalismo - e, num pormenor que de acordo com a esclarecedora introdução desta colectânea é consistentemente esquecido pelos biógrafos da escritora, a obra de Nesbit também inclui contos de terror e fantástico.

Este The Power of Darkness: Tales of Terror reúne muitos dos contos que Nesbit escreveu, geralmente como forma de arranjar mais uns trocos para suavizar o orçamento familiar. São contos perfeitamente clássicos, dentro dos cânones do conto de terro, escritos com uma certa fleuma tipicamente britânica, com um cheirinho a old boys que tranquilamente contam as suas pequenas aventuras entre cachimbadas, repimpados nas poltronas de um clube exclusivo. Não são contos de leitura fundamental, nem desbravam novos campos do horror. São historietas simples, algumas mais fantasmagóricas, outras em que as manigâncias do oculto não passam de embustes atempadamente revelados nos últimos parágrafos do conto. Não encontramos nestas obras de Nesbit as visões de trevas de Edgar Allan Poe, o horror dinâmico de Bram Stoker, o terror oculto e científico de Arthur Conan Doyle (cuja obra, recordo, não se resumiu aos contos de Sherlock Holmes) ou os terrores cósmicos de Lovecraft.

O que torna estes contos interessantes é apontado logo nos primeiros parágrafos da introdução que precede o livro. Nesbit utilizou as histórias de terror que escrevia para exorcizar os seus dramas interiores advindos de uma situação familiar incomum e até bastante escandalosa nos tempos vitorianos. Isso explica as inúmeras histórias de amor trágico que provocam as assombrações ou sublinham o horror, como Man Size in Marble ou The Ebony Frame, ou as histórias de enganos e embustes como The Shadow ou The Pavilion.

Em Man Size in Marble assistimos às desventuras de um jovem casal apaixonado que vai viver para um delicioso chalet de campo numa aldeia, apenas para a mulher morrer às mãos de uma lenda local. Em the Ebony Frame um homem apaixona-se pelo fantasma de uma mulher que vê num retrato herdado e que recupera a vida através de um pacto demoníaco, e quando perde o seu amor infernal resigna-se a uma vida perfeitamente banal que para ele não passa de um sonho entediante. Em The Pavilion, uma erva assassina conjuga-se com a inveja e o amor despeitado entre dois amigos, num conto cheio de ironia - a heroína é uma rapariga normal, eclipsada pela sua amiga e confidente que pela sua beleza atrai todos os homens ao seu redor. A situação atinge proporções catastróficas quando dois amigos se apaixonam pela bela jovem, levando a que o que sente que os interesses desta não o incluem tente assassinar o seu melhor amigo, num estratagema em que o feitiço se vira contra o feiticeiro, acabando este por morrer, para grande pena da narradora, apaixonada por ele e também a única a saber do crime. Este conto tem também um sub-texto irónico, em que o casal de heróis - dois típicos exemplares das classes elitistas inglesas, loiros, elegantes e belos mas perfeitamente estultos e incultos. Parte da história revolve às voltas com uma lenda familiar descrita num diário escrito em latim. Há no livro um outro conto de natureza semelhante, In The Dark, em que dois amigos rivais pelo coração da mesma mulher se desafiam a passar a noite num museu de cera parisiense, em que o desafiador confia na ingenuidade e cobardia do seu rival mas acaba por ser surpreendido precisamente pela ingenuidade do rival, acabando os seus dias num manicómio. Em The Shadow, um caixeiro-viajante utiliza uma história horrífica passada num quarto da estalagem onde se encontra hospedado para enganar os convivas, e assegurar para si esse quarto que se diz assombrado, que é o melhor quarto da casa.

Outro pormenor curioso prende-se com o papel das drogas nos contos de Nesbit, com um conto perfeitamente cósmico - The Three Drugs, onde um fugitivo na noite encontra abrigo no lar de um cientista louco, que o força a tomar uma combinação de três drogas que o elevam a um êxtase cósmico e super-humano - para horas depois se desvanecer na loucura e na sordidez.

Os contos fanásticos de Edith Nesbit surpreendem não pelo seu conteúdo, perfeitamente dentro dos cânones deste género literário, mas sim pelos interessantes sub-textos que Nesbit introduziu, conscientemente ou não, nos seus contos. Não é uma obra essencial, mas para o conhecedor e amante de literaturas tenebrosas este é um livro a experimentar, tal como se degusta uma iguaria exótica para se ficar a saber ao que sabe. Terminando, não posso deixar de fazer uma referência à introdução de David Stuart Davies, que editou uma série de livros dedicados aos contos mais tenebrosos de autores insuspeitos. A introdução prima pela capacidade de nos fazer ler a obra de Nesbit à luz da sua biografia, tornando-se assim uma adição valiosa a esta colectânea.